A frase do título é do Câmara Cascudo e só me lembrei dela porque a lâmpada da luminária queimou, o que me fez acender a luz do teto e sombras diferentes se formaram no chão da sala. Eu, que costumo levar tudo aos extremos, na medida do oito ou oitenta, quando se trata de ambientes, busco o meio-termo, nem tão claro, não tão escuro. À meia-luz...
Há um tempo escrevi um texto sobre a sombra para um livro infanto-juvenil. Aprendi várias coisas, entre elas que os coveiros da antiga China amarravam suas sombras com uma corda para que elas não deslizassem para dentro do caixão. Os aborígenes australianos acreditavam, no dia do casamento, que a sombra da sogra não podia se encostar na sombra da noiva, ou ela corria o risco de cair gravemente doente.
Na Indonésia, antigos habitantes da Ilha de Wetar temiam que sua sombra fosse golpeada: sinal de que doenças estavam a caminho. Entre os iorubas, povos da África subsaariana, a sombra era a representação da alma e que, para prejudicar alguém, bastava fazer um “trabalho” sobre ela. Os dogons também a associavam à alma, mas a uma parte não-inteligente dela - a outra parte, que seria a mente, estaria guardada dentro da cabeça. Para esse povo, a alma-sombra podia ser vista no reflexo formado na água. Ela seria um gêmeo de seu dono, só que do sexo oposto.
Nas lendas do povo zulu, quando a sombra fica pequena, é sinal que a morte está se aproximando – uma vez que os mortos, por estarem deitados, deixam de projetá-la. Os gregos visualizavam a alma de um homem na sua sombra. Eles a pintavam como uma figura negra, que reproduzia delicadamente os traços do indivíduo. Era lá que ficaria a parte destinada a sobreviver após a morte do corpo.
Também na Grécia Antiga, uma das lendas sobre a origem da arte da pintura, dizia que ela surgiu quando uma mulher, prestes a perder o homem que amava, traçou seu um perfil à luz de velas num muro. O relato para explicar o surgimento da escultura é bastante semelhante. Dele, participaram Butade, oleiro de Cícion que trabalha em Corinto, sua filha e o namorado. Antes de o namorador sair para uma viagem ao exterior, a moça traçou o perfil da sua sombra na parede. No dia seguinte, a partir do contorno, seu pai fez um baixo-relevo. A sombra havia sido fixada num muro pela primeira vez.
Bom, depois o mundo girou bastante, fez muitas sombras, e veio o estudo científico, a fotografia, a psicanálise, e a sombra passou a representar conceitos diferentes uma série de outros contextos... Agora, nesse instante, minha gata Capitu acha que a sombra de um DVD na parede é alguma coisa animada, que se aumenta e diminuiu, mas que ela não consegue pegar.
To na dúvida entre deixar ela brincar mais um pouco ou guardar logo o DVD.
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