Quase nunca é o que parece

06.03.07

Outro dia, numa dessas pracinhas onde moças de branco empurram carrinhos com bebês fofos e rosados, a mulher, que já não era moça e vestia blusa amarela, chegou com um menino, um tanto fofo, mas não muito rosado, no colo. Entrou no caminho principal, daqueles circulares e arborizados, onde o grupo das veteranas batia-papo de olho no movimento do café charmoso e do restaurante sofisticado do outro lado da rua. Soltou um oi e falou do calor com um sorriso simpático. Sentou no banquinho, ajeitou a criança nos joelhos. Mal tirou a mamadeira com suco da bolsa, ouviu: "Que bonito! É seu netinho?". A pergunta veio de uma loirinha, cabelos presos num coque, vestido branco impecável, pouco abaixo dos joelhos. "É não. Eu tomo conta dele", respondeu, tranquila, a mulher com suas calças jeans e confortáveis.

Burburinho geral. Curiosidade nem um pouco disfarçada: "Você é a babá então?", falou uma. "Mas por que você só chegou agora?", disparou outra. "Você dorme no emprego?", escutou alguma questionar. Por fim, a grande pergunta foi: "Cadê o seu uniforme?!".

Calma, respondeu: "Sou babá, mas cuido dele só à tarde, de manhã fica com o pai e de noite, com a mãe. Não preciso dormir no emprego e não preciso de uniforme. Os pais dele querem que eu use o que achar melhor, não ligam pra isso", explicou pacientemente, sem a certeza de ter sido compreendida. Cansou de tantos olhares, pediu licença, andou mais um pouco e procurou um outro banco, à sombra, longe da vista do grupo.

Nem teve tempo, ou não prestou atenção, no murmurinho indignado que provocou: "Nunca vi pai que fica com criança", resmungou a loirinha. "E mãe que fica de noite com bebê, imagina. A mãe da minha foi passar uma semana em Buenos Aires", retrucou outra. A mais velha falou, com claro despeito: "Não pode falar que é babá. Cadê o uniforme branco? Que tipo de babá não é obrigada a usar uniforme e pode vestir a roupa que achar melhor?". Nenhuma respondeu. Só menearam a cabeça afirmativamente com uma expressão de superiodidade ante a mulher que usava calça jeans e dormia em sua própria casa, com seus próprios filhos.

posted by Simone Iwasso | 09:03 | 7 Comentários | #Link

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Comentários, Pingbacks:

Nome:
Amarilis
Comentário:
eu chuto: praça Buenos Aires.
;)
Gata, isso me lembrou o filme "Pecados Íntimos". Tu assistiu?
beijos
#Link 29.07.07 @ 12:58
Nome:
Mariana
Comentário:
O mundo das mulheres de branco empurrando bebês alheios em carrinhos que mais parecem espaçonaves é mesmo surreal...
#Link 29.07.07 @ 14:52
Comentário:
mari, o que dá medo é que é uma história real!
#Link 29.07.07 @ 16:06
Nome:
carla
Comentário:

muito bom esse post, adorei.
#Link 29.07.07 @ 16:23
Nome:
Angelo
Comentário:
São Paulo é um lugar provinciano que sempre quer parecer o que não é. Foi em São Paulo isso?
#Link 29.07.07 @ 19:28
Comentário:
é angelo, foi sim... quer chutar o bairro? e a praça?
#Link 29.07.07 @ 20:15
Nome:
Mariana
Comentário:
Sisi, eu moro no Flamengo! Aqui só tem velhinho e família recém-formada. Todo dia de manhã, vejo essa história real na iminência de acontecer...
#Link 29.07.07 @ 22:54

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