Do macaco, da mola e do cemitério
01.03.07

A verdade é que não me lembro se era sábado ou domingo, talvez não fosse nem fim de semana. Sei que fiquei com a impressão de um dia bonito de verão. Céu azul, sombra de copa das árvores, flores desabrochadas em canteiros bem cuidados. E então, um pouco adiante, vi que estavam lá. Tios, tias, primos, primas, amigos, conhecidos, meu pai e meus irmãos. A família. Choro, abraço, vento frio e palavras de despedida. Sentimento sobrando, história demais e acúmulo de vida. E o que me envolvia era o cheiro do incenso japonês, depositado em reverência na areia. Um vaso de varetas coloridas queimando em cima do altar. Um ali mais triste, outro aliviado, alguém pensativo e um bando de crianças, correndo, sorrindo, se descobrindo livres num gramado liso, amplo. Sem tela de proteção, sem grades, interagiam alheias. À tudo, menos ao passo seguinte da corrida, ao próximo toque na bola improvisada.
Nessas horas entro no casulo, teço minha própria teia. Dentro dela, dei uns passos para o lado, para trás e tirei com a memória uma foto particular, a que vejo agora enquanto coloco os cheiros e os sons, e desenterro a sensação do momento. Me lembro de ter pensado em como daquele minúsculo corpo fechado, disposto solitário, vieram filhos, filhas e netos e bisnetos, e de como deles viriam outros filhos, filhas e netos e bisnetos... Nessa roda de projeções, olhei para baixo e vi uma lápide. De uma menina morta aos nove anos, nascida um ano antes de mim. Tinha nome, data, local e uma frase, em itálico, logo abaixo: "O macaco girou a mola".
Guardei a frase e sempre pensei em escrever uma história com ela. Sobre uma menina que tinha desaparecido com uma inscrição aparentemente sem sentido. Agora, ao olhar essa foto tirada por uma amiga, e descrita por ela como um cemitério de cemitérios, me lembrei do enterro da minha avó. E pensei que o macaco continua girando a mola e que não é preciso criar uma trajetória para uma vida de nove anos. Se há uma história a ser contada, ela é o próprio desenrolar da vida, que, assim como uma mola, está mais para uma espiral que segue em movimento.
ps: a foto é de um cemitério perto de um instituto de Harvard, chamado Radcliffe, tirada pela querida Renata Cafardo. Fica nos fundos de uma igreja e de frente para um parque de Cambridge, no meio do movimento de universitários
posted by Simone Iwasso | 12:03 | 2 Comentários | #Link