Epistolar

13.02.07

"Te escrevo com um cigarro aceso e uma xícara de chá de boldo. A escrivaninha é muito antiga, daquelas que têm uma tampa, parece piano. Tem um pôster com Garcia Lorca na minha frente. Um retrato enorme de Virginia Woolf. E posso ver na estante assim, de repente, todo o Proust, e muito Rimbaud, e Verlaine, Falkner, Italo Svevo, William Blake. Umas reproduções de Picasso. Outras de Da Vinci. um biscuit com um pierrô tão patético. Uma pedra esotérica ainda de Stonehenge, Inglaterra, uma caixinha indiana. Todos os meus pedaços aqui. E você não me conhece, eu não conheço você. Te escrevo por absoluta necessidade. Não conseguiria dormir outra vez se não escrevesse. (...) Dormi umas três horas e acordei escutando Quereres, do Caetano. Repeti, várias vezes, cada vez mais alto. Ah, bruta flor, bruta flor do querer. Discutia tanto com Ana Cristina Cesar, antes que ela acolhesse a morte (acertadamente? me pergunto até hoje, nunca sei responder): nossa necessidade fresca & neurótica de elaborar sofrimentos e rejeições e amarguras e pequenos melodramas cotidianos para depois sentar Atormentado & Solitário para escrever Belos Textos Literários. O escritor é uma das criaturas mais neuróticas que existem: ele não sabe viver ao vivo, ele vive através de reflexos, espelhos, imagens, palavras. O não-real, o não-palpável. Você me dizia 'que diferença entre você e um livro seu'. Eu não sou o que escrevo ou sim, mas de muitos jeitos. Alguns estranhos."

Porto Alegre, 10 de agosto de 1985 e Caio Fernando Abreu escrevia essa carta para o fotógrafo Sérgio Keuchgerian. Reli agora, ao pegar na estante o volume de cartas que ele escreveu ao longo da vida para amigos, amores e familiares, organizados em livro por Italo Moriconi. As correspondências de Caio F. me tocam fundo por reforçarem o tom confessional de sua obra, acredito. Estão lá os desabafos, as crises, a vida cotidiana, a angústia de escrever, de viver, de existir.

E foi a partir da leitura dessas cartas que as correspondências despertaram cada vez mais meu interesse. Elas permitem um outro acesso ao universo do escritor, porque mostram facetas do homem ou da mulher que desabafam, questionam, têm crises, recebem críticas, elogios, sentem medo, amam. O texto fica mais frouxo, o estilo completamente solto, aparecem as grosserias, pornografias, desilusões, seguranças e inseguranças. Além do valor documental para críticos e pesquisadores.

Nessa busca, há algumas coisas belas e muito ricas publicadas:

1 - Cartas Perto do Coração. Clarice Lispector e Fernando Sabino jovens. Em Correspondências, a autora escreve para o marido, os amigos, João Cabral de Mello Neto. Para Lúcio Cardoso, sobre a dificuldade de criar quando tudo parece já ter sido feito, ela diz: "O diabo é que naturalmente eu venho sempre por último, de modo que eu sempre estou no que já está feito. Isso muitas vezes me deu certo desgosto. Assim, eu estava lendo Poussière e encontrei uma coisa quase igual a uma que eu tinha escrito. E agora que estou lendo Proust, tomei um choque ao ver nele uma mesma expressão que eu tinha usado no Lustre, no mesmo sentido, com as mesmas palavras. A expressão não é grande coisa, mas nem sendo medíocre se chega a não cair nos outros. Mas isso não importa tanto. O que importa é trabalhar, como você tantas vezes me disse".

2 - João Guimarães Rosa: Correspondência com Seu Tradutor Alemão e
João Guimarães Rosa: Correspondência com seu tradutor italiano. "Muito agradeço, festivamente as felicitações por motivo da eleição para a Academia. De fato, andei fugido e escondido, um pouco, por causa dela. Foi mesmo uma distinção que marca e conta; mas, ao lado disso, como sempre com essas coisas, grossa e inquietadora no seu externo acontecer. E eu, que já carrego em mim um incessante e exaustivo pandemoniozinho particular, não agüento muito bem qualquer agitação de fora. Diria, como Paul Valéry2: "Les événements m'ennuyent"... Enfim, a onda passou, restabelece-se o ar normal em torno, a santa, confortável, inestimável e macia monotonia."

3 - Carlos & Mário. Entre Drummond e Mário de Andrade, organizados por Silviano Santiago." Em última análise tudo é influência neste mundo. Além do mais se tem que distinguir entre o que é influência e o que é revelação da gente própria. Muitas vezes um livro revela pra gente um lado nosso ainda desconhecido. O livro não faz que apressar a apropriação do que é da gente", aconselha o modernista.

4 - Cartas a um Jovem Escritor e Suas Respostas (Mário de Andrade e Fernando Sabino). "Você continua vivendo demais. E enfim, o que é mais duro de dizer, que desde muito eu estou querendo dizer mas sem força pra dizer: você não foi mineiro na criação da 'Marca' (novela de Sabino, de 1944), e não está sendo mineiro na sua vida carioca, e nem na sua vida belorizontina de artista. Sempre: de artista. Você está vivendo artisticamente demais. Você está conquistando simpatias condescendentes mesmo nos grupos que deviam detestar você. Que era preciso que detestassem você. Você está escolhendo amigos que são más companhias pro artista Fernando Sabino. Você está abandonando os seus amigos de Minas, abandonando em gravidade, readquirindo em gratuidade, em camaradagem, o seu grupinho, o Hélio (nem tanto), o Otto, o Paulo, que são os únicos amigos que podem salvar você."

posted by Simone Iwasso | 12:02 | 4 Comentários | #Link

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Comentários, Pingbacks:

Nome:
Mariana
Comentário:
Pois é... Outro dia desses estava exatamente conversando sobre isso. Como serão os livros de troca de correspondência entre escritores contemporâneos, já que virtualmente ninguém mais escreve cartas? Serão livros de e-mails?? Perde um pouco a graça, ou não? Enfim, não há mais como voltar atrás. Também adoro esses relatos de cartas entre artistas e mesmo entre gente como a gente... Sisi, sempre bruxinha...
#Link 29.07.07 @ 10:18
Nome:
Frizero
Comentário:

Simone, esqueci-me e tampouco consegui localizar o nome do livro, mas recomendo a leitura de uma coletânea de relatórios oficiais que Graciliano Ramos escreveu sobre a pequena cidade alagoada da qual foi parte da administração pública. São divertidíssimos, repletos de ironia e perspicácia. Um abraço!
#Link 29.07.07 @ 13:49
Nome:
Amarilis
Comentário:
Ah, mas tu sabia que isso ia acender uma luzinha em mim, né, fia?
Estava achando alguma coisa familiar e pá, quando li o 'fresca & neurótica' pensei: nossa, como isso parece com Caio Fernando Abreu. Desci um pouco a barra à direita e sim, era ele.
Tu sabe o quanto esse livro significa para mim. E como é bom encontrar um pouquinho dele assim, no meio do dia. Obrigada!

Mas nenhum desses livros é mais importante que as cartas (e-mails, na verdade) que troco com amigas como usted. Será que um dia as divulgo para o livro "Correspondência de Simone Iwasso"?
beso
#Link 29.07.07 @ 14:09
Nome:
Anônimo
Comentário:
Simone... por um acaso bem acaso eu descobri esse blog... Sendo assim, me adiciona no msn já ou me manda um email que há séculos eu não sei de você. Anota direito: tgrandeza@hotmail.com. E trate de mandar notícias!
Beijo, Tiago, o Grandeza
#Link 29.07.07 @ 15:52

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