Take a pill

05.02.07

Fui assistir a Mais Estranho que a Ficção (Stranger than Fiction) depois de ouvir/ler em algum lugar uma comparação com os roteiros do Charlie Kaufman. A associação não é nem um pouco consistente, mas o filme tem seus próprios atrativos. O principal deles se resume em uma das cenas: o protagonista, atormentando por ouvir uma voz feminina que narra tudo o que acontece na sua vida, colocando-o literalmente como personagem de um romance, procura uma psiquiatra. Ela ouve o relato e diz:

“Isso é esquizofrenia”.

“Não creio que seria bem isso”, ele rebate, explicando seus motivos.

Ela reforça: “Ouvi o que você disse e o nome disso é esquizofrenia”.

O personagem pergunta: “E se for, o que você fará?”.

“Te receitar umas pílulas”, ela conclui, cética e incrédula.

Ele insiste: "Mas, e se eu não quiser tomar remédios?"

"Hum.. não sei... você pode procurar um professor de literatura", arrisca ela.

E então ele procura um professor de literatura, e a história começa a se desenrolar e seguir seu rumo próprio e não tem mais nada a ver com o que quero desenvolver aqui...


A questão é que o trecho me lembrou uma discussão importante, mas pouco lembrada, sobre como estamos medicalizando estados de alma, sentimentos, competências, enfim, a experiência da vida. Tristeza que dura mais de um dia já é depressão. Estados alternados de humor é transtorno bipolar. Quem dorme pouco, toma remédio. Quem dorme muito, também. A impressão que dá é que, por trás de todo comportamento humano, há uma explicação biológica, muitas vezes genética - compreensível se pensarmos nos avanços que essas áreas tiveram nos últimos cinquenta anos. Mas, sem desmerecer a importância de diagnósticos sérios e remédios bem indicados, que ainda bem que estão disponíveis hoje em dia, quem disse que viver é ser eternamente feliz? Estar diariamente bem disposto? Empolgado para produzir 12 horas por dia? E ficar estimulado nas outras 12?


Assim como tem de existir felicidade, romance e paz de espírito na vida, medo, decepção e angústia também podem ser grandes experiências. Claro que difíceis e bastante sofridas, mas é só conhecendo-as que é possível distinguir o outro lado. O mar vira uma piscina se a gente desconhece o movimento das marés.

posted by Simone Iwasso | 05:02 | 5 Comentários | #Link

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Comentário:
Perfeitíssima a tua observação! Dia desses, lá no mestrado que faço em Teoria da Literatura, tivemos uma acalorada discussão porque uma colega levantou a teoria esdrúxula de que a ciência estava a descobrir que as emoções humanas são meras reações bioquímicas. Eu desafiei a teoria bobo dizendo que só acreditaria quando os cientistas fossem capazes de criar uma pilulinha que fizesse uma pessoa se apaixonar perdidamente por alguém com quem não tenha afinidade alguma (usei como exemplo dois colegas de turma que formariam um par algo inimaginável). Ela insistiu e eu coloquei que, na verdade, era uma questão de fé - a crença na existência de algo supra-corporal no homem - chamemos de alma, coração ou mente, não importa -contra a crença de que as células dominam também o campo das emoções. Particularmente, recuso-me a aceitar que o homem seja apenas uma "máquina biológica" cujos problemas existenciais sejam simplesmente resolvidos com medicamentos... Parece-me, realmente, que tudo gira, como tão bem mencionaste, em torno dessa obsessão moderna de que a vida deve ser feita de uma felicidade eterna e conquistada a qualquer preço. Por isso é que estamos criando essas gerações novas que não conseguem lidar com nenhum tipo de frustração, pelo simples fato de que não conseguiram construir mecanismos internos para suportar a dor moral, muito menos a negação de um mero capricho qualquer...
Teu texto é perfeito e suscitou-me esses pensamentos - perdoe-me pela prolixidade nos comentários!
#Link 29.07.07 @ 16:09
Nome:
simone
Comentário:
frizero, você entendeu tudo o que eu quis dizer, concordo plenamente. e também observei o quanto temos de adultos infantilizados que não têm a mínima condição de lidar com suas frustrações. vivem protegidos de si mesmos...
#Link 29.07.07 @ 16:20
Comentário:
Tudo bem, faz parte, a gente tem que saber levar, mas não deveria fazer. O mundo deveria ser um paraíso. E nada menos do que isso. Eu queria ser ininterruptamente feliz.
#Link 29.07.07 @ 17:36
Nome:
tangerine
Comentário:
Hum..esse assunto é interessante. Porque a história da psiquiatria é muito provocadora. Acho que o que se faz hoje com a psiquiatria é uma idolatria da "ciência da felicidade". Tá triste? Toma pílula. Tá com insônia? Toma pílula. Morreu a tia? Toma pílula. Essa imagem de felicidade é alimentada cada vez mais pelos meios de comunicação e pelos nossos modos de vida. Infelizmente.
Acho que não dá pra dar as costas para as conquistas científicas e nem para as descobertas no campo da neurologia. Mas acho que temos que ter e defender espaços para reflexão sempre.
Vale recordar o diálodo da psiquiatra com o personagem do filme:
- "Mas, e se eu não quiser tomar remédios, o que posso fazer?"
-"Hum, não sei..talvez procurar um professor de literatura"...

Ai, se Baudelaire conhecesse o prozac e a terapia! hehehe
#Link 29.07.07 @ 17:49
Nome:
Mariana
Comentário:

Viver sempre feliz deve ser um tédio!!! Só mesmo as pequenas depressões e tristezas conseguem fazer a gente valorizar a alegria... Viva a terapia e viva a angústia...
#Link 29.07.07 @ 21:56

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