Fui assistir a Mais Estranho que a Ficção (Stranger than Fiction) depois de ouvir/ler em algum lugar uma comparação com os roteiros do Charlie Kaufman. A associação não é nem um pouco consistente, mas o filme tem seus próprios atrativos. O principal deles se resume em uma das cenas: o protagonista, atormentando por ouvir uma voz feminina que narra tudo o que acontece na sua vida, colocando-o literalmente como personagem de um romance, procura uma psiquiatra. Ela ouve o relato e diz:
“Isso é esquizofrenia”.
“Não creio que seria bem isso”, ele rebate, explicando seus motivos.
Ela reforça: “Ouvi o que você disse e o nome disso é esquizofrenia”.
O personagem pergunta: “E se for, o que você fará?”.
“Te receitar umas pílulas”, ela conclui, cética e incrédula.
Ele insiste: "Mas, e se eu não quiser tomar remédios?"
"Hum.. não sei... você pode procurar um professor de literatura", arrisca ela.
E então ele procura um professor de literatura, e a história começa a se desenrolar e seguir seu rumo próprio e não tem mais nada a ver com o que quero desenvolver aqui...
A questão é que o trecho me lembrou uma discussão importante, mas pouco lembrada, sobre como estamos medicalizando estados de alma, sentimentos, competências, enfim, a experiência da vida. Tristeza que dura mais de um dia já é depressão. Estados alternados de humor é transtorno bipolar. Quem dorme pouco, toma remédio. Quem dorme muito, também. A impressão que dá é que, por trás de todo comportamento humano, há uma explicação biológica, muitas vezes genética - compreensível se pensarmos nos avanços que essas áreas tiveram nos últimos cinquenta anos. Mas, sem desmerecer a importância de diagnósticos sérios e remédios bem indicados, que ainda bem que estão disponíveis hoje em dia, quem disse que viver é ser eternamente feliz? Estar diariamente bem disposto? Empolgado para produzir 12 horas por dia? E ficar estimulado nas outras 12?
Assim como tem de existir felicidade, romance e paz de espírito na vida, medo, decepção e angústia também podem ser grandes experiências. Claro que difíceis e bastante sofridas, mas é só conhecendo-as que é possível distinguir o outro lado. O mar vira uma piscina se a gente desconhece o movimento das marés.