Drummond escreveu que "onde não há jardim, as flores nascem de um secreto investimento em formas improváveis". A frase, mais que bela, misteriosa, está naquela gaveta nem tão empoeirada onde coleciono pequenos brilhantes - trechos de músicas, capítulos de romances, gravuras, pinturas, fotografias, poemas, qualquer coisa, enfim, que seja capaz de ir direto a mim, tocando lugares diferentes, dependendo do momento. Retomando ela agora, minha cabeça se inunda de coisas. Só que mais do que sensações, situações, palavras ou gestos, preferi me apegar ao concreto e recordar de uma imagem, que estava todos os dias à disposição na janela do antigo apartamento onde eu morava.
Em cima do telhado da casa vizinha, num invisível vão entre as calhas e o muro cinza de cimento gasto, tinha nascido uma plantinha. Era só o cabo fino, umas folhas verdes, e em algumas épocas, uma flor amarela. Vento, chuva, sol, inverno, verão e obras, ela continuava lá. Em alguns dias, eu via ali uma força incrível, demonstração da natureza que não se rende, mas se adapta. Tinha momentos que só de passar o olhar pela janela, sentia vontade de chorar: era a própria representação da solidão e da insistência inútil. Já enxerguei nela a fragilidade, a falta de defesas.
O que sei é que foram anos e, no dia da minha mudança, ela ainda estava lá.
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