Oásis
09.12.06
Quando a água fria alcançou o ombro, lembrou do que ele disse da outra vez. Não adiantava ter medo. Ficar paralisada ia ser pior. Já que tinha chegado até ali, precisava ser rápida e aproveitar o momento. A hora certa. Como ele tinha mostrado. Como ela mesma fez uma vez. Deixar tudo pra trás. Já não dava pra esperar, a água vinha vindo. "As ondas são o maior movimento da natureza", ele tinha gritado. Na hora duvidou - terremotos, tornados, vulcões. Mas vendo de perto só podia concordar. Era isso, ajeitou a prancha, ficou em pé, a muralha de água se erguendo, sentiu o frio na barriga...
Piscou.
O farol no verde. Engatou a primeira e, contrariada, contou os prédios com neve falsa, veludo vermelho e luzes coloridas. No relógio da rua eram 19h46 e 35ºC. Natal é um porre, resmungou. Chuva em São Paulo também. Congestionamento deveria ser proibido por leis da física. Divagou: cidade que cresce sem planejamento, sociedade do automóvel, contruções em área de várzea e só pode mesmo ter inundação todo ano. Tinha de comprar presente de amigo secreto, encarar a fila do estacionamento do shopping, fugir da festa da firma e pensar no prato para levar na reunião de família. Sem contar com o licenciamento do carro, atrasado. Pensou que embaixo do asfalto existia um rio soterrado, canalizado, retificado. Sim, as ondas são o maior movimento da natureza.
Fechou e abriu os olhos.
... finalmente ficou em pé na prancha. Água por todos os lados. Pernas tremendo. O nariz começou a arder. Joelho ralou. Perdeu a noção de espaço por alguns segundos. Tinha acabado de levar um caldo.
posted by Simone Iwasso | 09:12 | 7 Comentários | #Link