O ar era frio, a perna tremia e o horizonte parecia a única linha reta do mundo. Quatro horas na trilha, arranhão no rosto, picada de inseto e alcançou o topo antes do grupo. As vozes chegavam ainda longe. Tinha alguns minutos.
Abriu o zíper do agasalho, tirou o pacote da mochila. Desenrolou a malha que estava em volta, estourou o cordão. Destampou com cuidado, escondendo sem saber de quem, a caixinha de porcelana. Sim, era o lugar perfeito. Ali, qualquer coisa podia permanecer, livre.
Pegou um pouco das cinzas entre os dedos. Tímida, ensaiou uma prece. Sem terminar, abriu a mão, deixou ir embora. Estava quase tranquila. Mais uma vez, e outro punhado. Acompanhou a névoa de cinzas que se formava em direção ao mar. Então ia ser assim, como programado.
Mas foi aí que aconteceu. Veio muito rápido. Fechou os olhos. Sentiu que estremecia. Como se alguém a conduzisse, como um títere, abriu a boca e engoliu de uma vez. A seco, fez escorrer pela garganta. Não parecia ela. E não podia parar. Talvez soubesse como queria desde o início, mas precisava inventar a viagem, a cerimônia, a montanha.
Como um remédio amargo, entornou a caixa e lambeu as últimas cinzas.
Naquela noite, chorou enquanto dormia.