O cheiro é o mesmo, eu sei. Você nunca gostou de mudar de perfume. Sua pele também está quase igual, só um pouco mais envelhecida. Já tinha reparado que você tinha uns fios de cabelos brancos começando a ocupar mais espaço. As camisetas pretas sempre foram uma marca, enjoei delas. Essa mochila surrada é bem familiar, chegou a carregar alguns livros para mim, aquele meu casaco vermelho também ficou todo amassado dentro dela. Reclamei porque estava mal humorada, mas sei que você não teve culpa, só quis ser gentil quando deu a volta no carro, debaixo da chuva, para abrir a porta do meu lado. É verdade, cavalheirismos sempre foram motivo pra gente discutir. Não vou repetir o discurso, você mesmo já perdeu a conta de quantas vezes falei a mesma coisa. Que legal que sua irmã está morando aqui, ela disse uma vez que tinha vontade. Aquele bairro, finalmente você foi para lá? Me lembro dessa noite, chá gelado de madrugada, não sabia qual suor era o seu e qual era o meu. Foi fevereiro, véspera de carnaval, eu ia estar de plantão e você reclamou da falta de tempo, disse que eu era negligente com a gente. Fiquei triste, senti sua falta durante os quatro dias e chorei escondido. Viu como eu não esqueço?
Não foi por isso que agora não te reconheci. Você parece o mesmo.
Quem mudou fui eu.