Vi quando ele chegou correndo, tirou o casaco encharcado e deu um leve beijo nela, abrindo caminho pela porta semi-cerrada. Os pés molhados arrastaram a poeira que ela tinha juntado até ali. A mão cansada alisou o traseiro embaixo da saia. Coisa do hábito. A essa altura não é preciso dizer muito. Dava para ver a fumaça que vazava da cozinha e a televisão que mostrava a novela das sete. Quase pronto o serviço. Oito horas. Por que todo mundo quer voltar pra casa no mesmo horário? É quando lembro de pensar que deveriam haver turnos alternados de trabalho... "Todo dia ela faz tudo sempre igual", quase ousei assumir o clichê, lembrando do Chico que fazia show na cidade. Ele sumiu no corredor. Ela voltou com um pano de chão. Água de chuva, marcas de sapato e poeira separavam o que estava fora e o que era seu. Parede verde clara, cor bebê. Com direito a marcas redondas de bolor e ranhuras na pintura. O móvel que apoiava a televisão ainda segurava um aparelho de som e um porta-retratos. Não dava pra ver quem estava na foto. Míopes enxergam menos à noite. Mas tinha um copo com água e duas flores cor de rosa. Ela quer deixar a casa bonita, arrisquei. Alguma coisa incomodava. A imagem de Jesus na parede - evangélicos, quem sabe. O cheiro de fritura enjoado, carne e óleo. Ainda assim, foi quando os carros começaram a andar que percebi. Na altura da ferradura. No quadrado que restou entre duas grandes ruas e o canteiro. Construção para armazenar objetos de trânsito. Eles não deveriam morar ali. Embaixo do túnel da avenida.