Onde: Cartagena (Colômbia)
Quando: Terça-feira, 31 de janeiro de 2006
Quem: Dez jornalistas latino-americanos
Cenário: Segundo andar de uma ampla casa colonial restaurada no centro antigo da cidade. Uma das salas da
Fundação Nuevo PeriodismoContexto: Segundo dia de curso. Após uma manhã preenchida por discussões, sugestões de pauta e redação de textos. Depois do almoço, apuração e o aviso de que todos deveriam se reunir às 17h
Extra: No mesmo período, a cidade recebia um
festival literário Ação: Alguém tinha acabado de aumentar o ar condicionado (pleno verão, devia fazer uns 35°C). Uma movimentação de garçons, bebidas, fotógrafo. Nenhuma reunião tinha começado e passávamos o tempo descobrindo como é encontrar pessoas da mesma profissão e de outro país. Também especulávamos o motivo do possível evento que estava para acontecer. Uma batida na porta, uma certa demora em responder, a curiosidade chegando e, de repente, aparece. De calça azul, camisa jeans dobrada nos punhos, caneta no bolso, bengala e uma mulher a tiracolo: Gabriel Gárcia Márquez.
Entra, senta e observa um pouco cada um de nós.
Foi quando soubemos que naquele dia a fundação, criada por ele, completava dez anos. Passadas as explicações, interage. Pausadamente, faz perguntas a cada um. De que país você é? O que acontece em seu país? Qual sua experiência? Qual a matéria você mais gostou de fazer? O que achou da cidade? Conhecia a Colômbia? Para mim, a pergunta foi sobre o que eu já tinha escrito.
Uns 30 minutos depois, uma nova batida na porta.
Dessa vez bem mais rápido aparecem várias pessoas, jornalistas locais, amigos, fotógrafos, conhecidos. A sala lota. Começa a homenagem. O chefe de reportagem do primeiro emprego de Gabo ainda está vivo e está lá, para entregar uma enorme primeira página cheia de manchetes da vida do escritor, textos sobre sua trajetória. Trazem um bolo, champagne, vinhos. Ele se emociona, discursa. Tiram fotos, pedem autógrafos, tentam chamar sua atenção, o seguram de um lado, puxam do outro. Chega mais gente, o homem se irrita. Está cansado. São 78 anos.
Vai embora e o murmurinho começa a se desfazer.
Em meia hora, estávamos sozinhos na sala, novamente. As bebidas já tinham acabado, mas o bolo ficou. Intocado. Restava as conversas, as impressões de cada um. Escurece, vamos embora e, no caminho no hotel, percebo que o bolo vem junto, carregado por um dos meninos.
Faltou mencionar, todos já sabiam que era o meu aniversário.
O dia continuou, para nós, na cobertura do hotel. Meu colega mexicano levou tequila, meu amigo argentinou comprou cerveja, as meninas tinham outras bebidas. E eu ganhei parabéns com o bolo do Gabo.
Nota do autor: Fiquei devendo a minha versão dessa história. Alguns dos meus companheiros de curso já tinham escrito e publicado as suas em seus jornais. Faltava minha parte. Afinal, o aniversário foi meu.