Sputniks em órbita

24.09.06

A Salon, numa entrevista antiga, titulou-o como outsider, um individualista no Japão. Para o Guardian, seus livros se pautam por um surrealismo melancólico. Seja como for, Haruki Murakami despontou na literatura japonesa no começo dos anos 80 com personagens que moram numa Tóquio 24 horas, ouvem música pop e gostam de jazz, citam Hemingway, bebem café e vivem, sem entender muito bem como nem porque. Se perdem no consumismo, aproveitam a tecnologia, fazem um sexo doméstico e buscam sempre alguma coisa, dentro ou fora deles. Prato cheio pra ganhar a antipatia dos críticos mais exigentes (ele realmente não está a altura de um Yukio Mishima ou Yasunari Kawabata, por exemplo) e o grande mercado ocidental.

Sem mais preâmbulos, descobri Murakami lendo Norwegian Wood (graças a uma amiga queridíssima). Depois veio Minha Querida Sputnik, Caçando Carneiros e Dance Dance Dance. Infelizmente, acabam aí as edições no Brasil. Em espanhol, há ainda Cronica del Pajaro que dá cuerda al mundo. O resto, e são vários, só em edições americanas ou inglesas (dá para encomendar na Livraria Cultura).

A questão é que Murakami tem um texto bem bom de ler, sabe mesclar referências pop e eruditas e ao mesmo tempo, saindo da superfície, passar pelas incógnitas que todos tentamos responder. Consegue ser poético e criar imagens lindas ("As poucas estrelas pareciam fixas no lugar, imóveis. Fechei os olhos e prestei bastante atenção aos descendentes do Sputnik, mesmo agora em círculo ao redor da Terra, a gravidade seu único elo com o planeta... Almas solitárias de metal, na escuridão desobstruída do espaço, encontravam-se, passavam umas pelas outras e se separavam, nunca mais se encontrando. Nenhuma palavra entre elas. Nenhuma promessa a cumprir.").

Para quem quiser, o New York Times disponibilizou um especial Murakami, com resenhas, entrevistas, contos e trechos de livros. Vale a pena.

posted by Simone Iwasso | 12:09 | Comentários | #Link

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