O blog vai renascer.
"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." (Fernando Pessoa).
A criação, a escrita, e o que podemos compartilhar por meio dela, também devem ser abandonados - para serem recriados. É uma eterna construção.
"Todo cantor de blues precisa de drama na vida, se não, não tem graça...."

Ele demorou pra perceber que pra dizer muita coisa, é melhor falar pouco - e escolher melhor as palavras. Em suas apresentações e discursos, jogava frases sem respirar, aumentava a voz, mudava o ritmo, a entonação - vestígio de livros de auto-ajuda, manuais para executivos, cursos rápidos de fim de semana em resort pago pela empresa. Cascata. Esqueceram de dizer pra ele que, toda essa empulhação, não era para dizer muito - mas pra falar bem pouco.
Foi preciso cair, quebrar, paralisar um tempo o trabalho pra perceber que estava tudo fora de lugar - e de sentido. E pra enxergar que, na hora do vamos ver, de encontrar a própria companhia, e ter algo a dizer, ficava era mudo. E a vida não estava agitada, estava parada. E ele não tinha tantas coisas assim a dizer. Estava vazio demais.
* Outra ilustração que andei roubando do Vitor...
** A frase nela é de uma música do Death Cab for Cutie, The sound of settling, uma das minhas preferidas.

O mais familiar não era a casa em si - o sofá, as paredes, uma ou outra foto, cama, edredon. O mais familiar era a luz - a luminária de canto que deixava o banheiro com uma cor laranja, que se refletia nos azulejos. Engraçado como por mais pensadas e bacanas que sejam as decorações, a casa mesmo são os detalhes, e não necessariamente aqueles planejados. No caso dela, era quando chegava, tirava os sapatos e acendia a luz do banheiro para lavar o rosto, que o sentimento de estar em casa a invadia. E que o mundo todo deixava de importar.
* A ilustração é do meu irmão, Vitor
For you I was a flame
Love is a losing game
Five story fire as you came
Love is a losing game
Why do I wish I never played
Oh, what a mess we made
And now the final frame
Love is a losing game
Played out by the band
Love is a losing hand
More than I could stand
Love is a losing hand
Self professed... profound
Till the chips were down
...know you're a gambling man
Love is a losing hand
Though I'm rather blind
Love is a fate resigned
Memories mar my mind
Love is a fate resigned
Over futile odds
And laughed at by the gods
And now the final frame
Love is a losing game
Essa música me lembra dos amores inviáveis, impossíveis e indesejados; e das tentativas de todo mundo de amar um pouco, de vez em quando, mesmo sabendo de tudo isso. É de uma delicadeza incrível.
Me lembra de uma amiga que sabia que seu amor não era o melhor que podia ter, mas era o que ela queria ter; de um vizinho que sabia que amava mais do que era amado, e aceitava sem pensar muito no assunto; de uma outra que se dividia entre dois amores - e de cada um recebia um pouco do que precisava para se sentir completa; e ainda de um que gostava mais da ideia de ser amado, do que do que o amor representava, e demandava, em sua vida todos os dias; me lembra que nascemos todos sozinhos, por fim.
Como até na fila do posto de gasolina proliferam desejos e mais votos e mais frases bonitas e otimistas de Natal, não vale a pena fazer nada do tipo por aqui - até porque, pra mim, Natal só fazia sentido quando eu era criança: era época de férias na escola e de fartos presentes. Hoje, só tenho despesa e obrigações. Enfim, esse vídeo é legal. É o que basta.
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| De Locutorio |
Autores falando sobre sua própria obra podem ser muito chatos ou muito interessantes. Quando cai no narcisismo e na reverberação do próprio ego, fica insuportável. Quando conseguem se mostrar um pouco mais ao leitor, de maneira clara e direta, são atraentes - e despertam a vontade de ler. Nesse texto, publicado no New York Times, Haruki Murakami opina, se mostra e se auto-avalia - e faz pensar.
Uma das coisas que ele diz é que sempre percebeu que seus livros eram recebidos de maneira diferente pelos leitores do Ocidente e do Oriente. Enquanto os primeiros precisavam do crivo da análise literária, da rotulagem dentro de alguma categoria ou corrente artística (pós-modernismo, orientalismo e por aí vai), para então tentarem compreender por si mesmos cada livro, os segundos só liam - e, posteriormente, tentavam ou não encaixá-lo em alguma coisa. E no Japão ele chegou a ser bastante rejeitado pelos mais tradicionais por ser considerado ocidentalizado (leitura rasa baseada nas citações de música pop e literatura americana, mas vá lá).
Seja como for, ele toca num ponto interessante. Hoje, grande parte da análise literária que se faz nas universidades é cristalizada e um tanto anacrônica - não adianta ler uma obra escrita há cinco anos com os mesmos parâmetros com que se lê uma do século 19. Não estou desmerecendo os estudos literários - eles são importantes e ajudam a compreender muito mais do que a própria literatura. Mas simplesmente acho que as conclusões teóricas que você chega dissecando frases, formatos e analogias dentro de métodos estáticos geralmente são bem menos produtivas do que uma leitura atenta, e solitária. Literatura não é ciência.
Aqui, uma outra parte interessante do texto, que toca em cheio quem gosta de livros:
"The proper goal of a story is not to judge what is right and what is wrong, what is good and what is evil. More important is for us to determine whether, inside us, the variable elements and the traditional elements are moving forward in harmony with each other, to determine whether individual stories and the communal stories inside us are joined at the root.
In other words, the role of a story is to maintain the soundness of the spiritual bridge that has been constructed between the past and the future. New guidelines and morals emerge quite naturally from such an undertaking. For that to happen, we must first breathe deeply of the air of reality, the air of things-as-they-are, and we must stare unsparingly and without prejudice at the way stories are changing inside us. We must coin new words in tune with the breath of that change. "
Eu gosto de covers, sempre gostei. Uma nova versão, um jeito diferente de cantar, pode mudar tudo - pra bem melhor ou bem pior. Seja como for, é sempre legal ver coisas revisitadas. Aqui, uma listinha dos melhores, na minha modesta opinião. E o top ten, na minha listinha, é o Morrissey cantando Moon River - derrete qualquer alma congelada. A segunda é o Cazuza cantando O Mundo é um moinho - dói de tão lindo.
Como to tendo problema com o widget, vai o link mesmo.
E um pedacinho da letra:
Moon River, wider than a mile/I'm crossing you in style some day.
Oh, dream maker, you heart breaker/wherever you're going I'm going your way.
Two drifters off to see the world/There's such a lot of world to see.
We're after the same rainbow's end/waiting 'round the bend/my huckleberry friend,
Moon River and me.
Fim de tarde pós chuva. Domingo de Moraes lotada. Calor, bafo, cansaço, vendedor, farol vermelho, tédio, cansaço, irritação, mau humor. Nada anda, só os meninos pedindo dinheiro. E o busão sem noção que insiste em andar em duas faixas.
Até que, no carro ao lado, para o golzinho branco. E vem a música.
Um gordinho de camisa listrada, com o cotovelo apoiado na janela aberta, canta. Alto, com os olhos fechados. "Near, far, wherever you are...."
Pra escrever aqui, preciso de uma certa tranquilidade. De tempo pra parar, tomar um fôlego e buscar um ordenamento - das impressões, das falas, dos sentimentos, dos gostos, de tudo que está, normalmente, passando rápido e dando voltas. Por isso nem sempre dá, nem sempre é bom e nem sempre vale a pena.
Quando a vida agita muito, quando somos obrigados a perceber que não temos controle sobre praticamente nada, quando um chacoalhão tira a gente de uma rotina programada, é só susto. E coragem pra seguir em frente. E cansa, e atormenta, e exige - mas, melhor de tudo, passa.
Meus dias não estão menos agitados, mas eu estou, novamente, tendo brechas pro que importa na vida. Pra alimentar um mundo só meu, de onde sai qualquer coisa que possa compartilhar com alguém - da maneira que for, pessoal ou virtualmente.
Enquanto isso, e nessa contagem regressiva pra mais um ano ir embora, busco uma maré mais calma pra remar, e poder, também, tomar um sol de vez em quando.
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| De Locutorio |
A mãe, no carro, liga pra mim - amiga e colega de trabalho. Conversa vai, conversa vem, e sempre me chamando de Simon (apelido do jornal, recebido há uns tantos anos...). Quando desliga o telefone, o menino olha surpreso:
- Mãe, você trabalha com o Simon?
- Simon? como assim?
- O Simon, do Alvin e os Esquilos?
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| De Locutorio |
Se tem uma pessoa que eu considero surpreendente, é a Amarílis. Num dos nossos primeiros encontros, há uns bons anos, ainda trainees da Ana Estela, ela disse que a vida não era uma sequência linear de acontecimentos, mas sim uma espiral... Ela queria trabalhar na editoria de cidades para contar histórias de pessoas, e entender mais delas, da vida e de si mesma. Ela tem um gato, escreve contos maravilhosos e agora resolveu compartilhar com todo mundo seus desenhos. O blog, chamado Cartolina, é comovente.
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| De Locutorio |
Como acontece todo ano, as férias chegaram - e já estão acabando. Desta vez, uma viagem pelo velho continente, por cidades pequenas, grandes, acolhedoras e surpreendentes - se bem que, a cada nova viagem, a cada nova experiência, percebo que muito do que descobrimos, e da maneira como nos encantamos, depende da nossa própria disposição e abertura pra isso. Cansei de vez pessoas em lugares maravilhosos, vivenciando um dia que poderia ser inesquecível, fazendo reclamações bobas e comparações estúpidas...mas isso é divagação já.
A ideia é dizer que sair do lugar, e do nosso umbigo, melhora a vida. Amplia. Cutuca. Refina. Sem contar que descansa, mesmo cansando fisicamente. Dias longe do celular, do email do trabalho, das notícias diárias, da burocracia cotidiana fazem um bem enorme. Você fica mais leve, menos ansiosa, mais feliz e redescobre, outra vez, que tudo pode ser bem mais simples. E que, claro, carregamos peso demais nas costas, nos ombros, na cabeça inteira. O mundo gira sem nossa presença, o sol nasce e a noite passa. E tudo acontece de novo, quer a gente faça algum esforço ou não.
E isso pra dizer que, às vezes, só uma pausa maior consegue colocar tudo em perspectiva e fazer a gente rever algumas coisas. E se enxergar com mais nitidez. Conversando agora com uma amiga, estávamos dizendo do quanto nos sufocamos, nos delegamos, resolvemos problemas do trabalho, dos outros, e deixamos os nossos. Tomar um banho quente na banheira, sem o celular por perto, não precisa ser um luxo - pode ser rotina. É preciso disciplina pra cuidar da gente mesmo.
E, não à toa, as grandes transformações da minha vida ocorreram nas semanas seguintes às férias. O que será que me espera desta vez? Já decidi que vou aprender alemão...
*** "Viajar é isto: deslocar-se para um lugar onde possamos descobrir que há, em nós, algo que não conhecíamos até então." A frase é do Contardo Calligaris, de um texto bem bacana dele, que fala sobre A ilha desconhecida, do Samarago, o amor, a viagem e a capacidade de aventurar-se - e, assim, se encontrar. Conhecia o texto, mas me lembrei dele ao ler o Inagaki hoje.
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| De Locutorio |
Palavras não custam nada, não acabam e não se esgotam - se a gente se esforçar um pouquinho, é claro. A iniciativa é legal. O Instituto Mário Penna, que administra um complexo de hospitais para pacientes com câncer em Minas, criou um site para receber mensagens. Qualquer pessoa pode entrar e escrever o que quiser para os pacientes. O template alterna as mensagens, geralmente cheias de carinho, fé, otimismo e boa vontade. Aqui.
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Pra não deixar acumular tanto pó, neste período de pausa. Ando no casulo, apesar de trabalhando e correndo e ficando pouco comigo mesma. Volto logo. Nunca é pra sempre. Sempre é temporário.
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Enquanto isso, pra se divertir por aí: fofuras na internet.
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E uma crônica bem humorada, e certeira, do Antonio Prata.
O domingo
Quando o telefone tocou, minha mulher previu: "Quer ver que é o Fabrício?" - e era. Não é todo domingo que meu amigo liga, mas quase, e sempre à mesma hora: de noitinha, quando o fim de semana vai dizendo adeus e os dias úteis vão tomando, sorrateiramente, cada um de nossos pensamentos.
Embora não tenha deixado transparecer, percebi que meu amor ficou incomodado com o telefonema. Não é que não goste do Fabrício, ela adora, mas planejávamos pedir um árabe, ligar o aquecedor, assistir a um filme - e o Fabrício, em suas chamadas dominicais, invariavelmente me propõe: "Passa aqui, mano, vamos tomar umas cervejas!".
Quando eu era mais jovem, achava muito estranho as pessoas contarem o domingo como o primeiro dia da semana. Levou 30 anos para eu entender que estavam certas: o domingo à noite é a base de lançamento da semana. É a largada que, bem dada (tabule, aquecedor, vídeo, a leitura daqueles artigos infinitos nos cadernos culturais), te deixa com disposição para enfrentar a longa corrida com barreiras que começará na manhã seguinte.
Meu amigo sabe disso e é justamente por entender a importância da noite de domingo no equilíbrio geral de todas as coisas que fica angustiado, assim que o sol se põe, e me liga. Talvez algumas cervejas nos façam ignorar aquele canyon existencial: a segunda late em nossos rostos, a brisa do sábado ainda bate em nossas costas; à frente, livros a serem escritos, a dúvida se diremos algo relevante ou só repetiremos velhas bobagens, as preocupações com dinheiro e um evento ao qual não se deve faltar; atrás, a adolescência ainda fresca, aquelas promessas de nunca virar um bocó, trocar os sonhos pelo crediário; talvez até, mais longe ainda, a lembrança inata de outras épocas, em que andávamos à cavalo, usávamos espadas em vez do Word 7 for Windows e tanto fazia se era terça de madrugada ou sábado dez pras nove.
Às vezes eu vou lá na casa do Fabrício. A gente toma umas cervejas e fica empolgado. Fala bem de nossos amores e mal de nossos trabalhos. Ele me lê um poema que acabou de escrever, eu falo de um capítulo que estou começando. A gente relembra histórias de nossos ídolos literários. Eles nos parecem tão destemidos, dizendo "Sim, ao eterno" e nós, tão franzinos. Então, já de madrugada, a gente fica melancólico. Será que estamos fazendo a coisa certa? Será que não devíamos ir na direção contrária, deixar de lado a vida freelancer e abraçar uma existência globetrotter, escrever um diário, sei lá, na Macedônia? Depois disso, há um silêncio. Um de nós diz, "Mano, preciso dormir, amanhã vai ser f...", e a gente se despede, que no dia seguinte é segunda e, como se não bastasse, estaremos ambos de ressaca, respondendo e-mails e enviando notas fiscais.