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Esse blog tem estado realmente muito parado. Meus quatro meses de férias no Brasil foram agitados demais para me permitir escrever e, assim que voltei a Nova Orleans, levei logo com um furacão na cabeça, acabei terminando em Nova Iorque e agora voltei pra casa de novo.
Ontem, sexta, eu me jurei que ia sentar e escrever um belo post. Mas, ao invés disso, limpei a varanda, desencaixotei o narguilé, os cachimbos e os fumos, arrumei a cozinha, guardei minha mala e o canil de viagem do Oliver, reconectei todos os aparelhos, lavei a roupa de cama e de banho.
No fim da tarde, sentei no sofá, todo feliz e suado, e tive uma realização profunda: mais vale uma casa limpa que um post bem escrito.
Decidir o que comer antes do sexo é um planejamento estratégico vital.
Outro dia, fui almoçar com um amigo e ele ficou surpreso com minhas súbitas restrições alimentares:
"Ué, por que tudo isso? Regime novo?"
"De certo modo, sim. Vou transar hoje à tarde."
"E daí?"
Fiquei estupefato. Pra mim, selecionar o que comer antes do sexo era um cuidado tão óbvio que achei que todo mundo fazia. Mas para meu amigo (e para outras pessoas com quem conversei) essa idéia era radicalmente nova. Às vezes, acho que vim de Marte mesmo.
Vamos então à dieta do sexo.
Pra começar, eu quero energia e sustança. Por isso, prefiro proteínas e açúcares. Nada mais condizente ao sexo do que um bife com ovos mexidos, um pedaço de queijo e uma barra de chocolate.
O mais importante talvez seja lembrar que o verbo comer é usado tanto para comida quanto para sexo. Se você chega na cama com uma fome saciada, pode nem querer saciar a outra. Moderação é fundamental. Melhor até transar com fome.
(Talvez seja eu. De barriga cheia, eu só tenho vontade de ler, fumar cachimbo e morgar. Sempre que tenho que fazer alguma coisa direito, transar, escrever, apresentar um projeto, eu gosto de estar com o estômago vazio.)
Pelo mesmo motivo, nada de carboidratos. Carboidratos passam aquela sensação de saciedade. E saciedade é a última coisa que você quer sentir ANTES do sexo.
Há outras considerações. Naturalmente, cada pessoa tem uma reação diferente às mesmas comidas. Eu sempre tento evitar os efeitos desagradáveis abaixo:
Arrotar é feio. Então, nada de bebidas gaseificadas.
Peidar é mais feio ainda. Sem grãos, como feijão, ervilha, lentilha, milho, etc.
Ter que parar tudo pra ir mijar e cagar também é terrível. Moderação nos líquidos e cuidado com fibras e ameixas.
Pra não ter azia, refluxo ou queimação, eu evito suco de laranja, molho de tomate, peixe. Mas cada pessoa sente azia por comidas diferentes.
Álcool é uma questão delicada. Se você tem inibições a vencer, pode ser recomendável. Já eu, fico sonolento, então procuro não beber.
Prefiro um café com pó de guaraná, pra ficar alerta e concentrado. E uma dica que aprendi a duras penas: prefira guaraná em comprimidos ou em pó, que vão sendo absorvidas ao longo do caminho. As cápsulas e pílulas liberam todo o guaraná no estômago e podem causar azia.
Diz o ditado machista:
"Em Roma, como as romanas."
Passando os últimos dois meses em São Paulo, estou tendo que me acostumar a diversos costumes locais sinistros:
Levar criança pra brincar na livraria.
Cumprimentar com um beijo só.
Não usar chinelo de dedo no shopping (ou arriscar não ser atendido).
Nunca deixar o carro estacionado solto ou mesmo encostar nos outros carros.
Soletrar doze sem "u", dez sem "i" e festa sem "x".
Ausência brutal de mulheres seminuas desfilando pelas calçadas.
etc.
Entre tantos choques culturais, o mais sinistro mesmo foi o tabu da pizza no almoço.
Aparentemente, para o paulistano médio, é mais sinistro comer uma pizza no almoço do que colocar a filhinha de dez anos em cima da mesa e currá-la ali mesmo.
Mais ainda, o tabu é tão auto-evidente que dispensa explicações: não se come pizza no almoço
"porque não"
"porque não combina"
"porque não é certo"
etc
E, quando eu digo que nunca ouvi falar disso antes, ainda me descartam como sendo só um carioca:
"óbvio que um povo capaz de colocar mostarda na pizza também seria capaz de comer pizza no almoço. Pior, pegando sol, ao ar-livre, em frente à praia! Pra você, isso deve ser normal! Ouvi até dizer que vocês usam sangue de criancinhas ao invés de molho de tomate!"
Grande parte da força de um tabu é sua pretensa universalidade. Para o nativo, aquilo é tão impensável que ele nem mesmo considera que, talvez, em outras partes do mundo, o seu tabu não seja tabu.
Todos os paulistanos com quem falei também consideraram auto-evidente que, claro!, ninguém come pizza no almoço em lugar nenhum do mundo. Óbvio!
"Por que comeriam? Por que qualquer um comeria pizza no almoço?! Não faria sentido! Coisa de bárbaros!"
Mas, aparentemente, o tabu da pizza no almoço não existe em nenhum outro lugar, nem em cidades de imigração italiana forte, como Nova Iorque, nem mesmo na própria Itália. Busquei no Google por "pizza for lunch" e por "pizza pranzo". Nenhuma menção ao tabu. Perguntei para amigos ítalo-americanos ou italianos. Todos disseram nunca ter ouvido falar nisso. Minha roommate em Nova Orleans, italiana da região do Alto Adige, perto da Áustria, nem entendeu minha pergunta e retrucou surpresa:
"Por que catzo eu não comeria pizza no almoço?!"
Ou seja, o tabu não é nem mesmo italiano, é 100% paulistano.
Naturalmente, não há problema algum nisso. Não estou nem mesmo defendendo o hábito de comer pizza no almoço. Eu, como aparentemente todo mundo com quem falei que não é de São Paulo, nunca tinha parado pra pensar no assunto. Para todos nós, os não-paulistanos, pizza é uma comida como qualquer outra que pode ser servida a qualquer hora. O tabu nos soa tão bizarro quanto dizer que não se pode beber coca-cola de manhã, comer bolo de côco à tarde ou tomar sorvete à noite.
Também não estou reclamando. Cada cultura tem suas peculiaridades. Tudo é lindo. Se no Rio eu também não ______ (complete com algo que seria impensável fazer no Rio), por que ferir as suscetibilidades locais comendo pizza no almoço em São Paulo?
* * *
Tem alguma coisa que fazem na sua terra que você depois descobriu que não fazem em nenhum outro lugar? Ou, pior, algo impensável pra você e que, para o seu horror, é a coisa mais normal em outra cidade?
Não entendo gente que não sabe cozinhar.
Entendo gente que não gosta de cozinhar, claro. Tem gosto pra tudo. Tem gente que não gosta de mulher. Tudo é possível. Mas como não "saber" cozinhar?
* * *
Saí ontem pra um chá das cinco com seis mulheres. Nenhuma sabia cozinhar. Pior, todas achavam isso bonito, como se fosse algum tipo de feito do qual se orgulhassem. E eu:
Mas, gente, não tem como não saber. Vocês pegam a receita, seguem e pronto. Duas colheres disso, uma pitada daquilo, fogo baixo, mexendo sempre, não tem mistério. É como uma formulinha. Nunca fizeram laboratório de química?
E elas:
Ah, pra você é fácil. Você "sabe" cozinhar.
Eu cozinho freqüentemente. Mas não acho que "saiba" cozinhar. Na verdade, cozinhar é algo tão simples que nem se qualifica como um "saber". Seria como perguntar: você sabe se limpar sozinho?
* * *
Em geral, as pessoas que não sabem/gostam de cozinhar se dividem em dois tipos:
Há os homens que acham que encostar em qualquer utensílio na cozinha é algo emasculante. Dizem coisas como:
"Na cozinha, eu só entro pra beber água, se não tiver comida pronta, peço pizza", etc.
Há as mulheres que acham que encostar em qualquer utensílio na cozinha é dar prova de amélia. Dizem coisas como:
"Imagina!, quem cozinhava era minha avó, eu dirijo minha empresa, jogo golfe, escalo o Aconcágua, vê lá se vou perder meu tempo fazendo arroz!", etc.
Um mais cheio de preconceitos que o outro.
* * *
Cozinhar não é um conhecimento arcano para poucos iniciados. É daquelas habilidades básicas no dia-a-dia, como se limpar, se barbear, arrumar sua própria cama.
Como não saber fazer sua própria cama? Como não saber se limpar sozinho? Como não saber cozinhar sua própria comida?
Cozinhar, se bem-feito, pode chegar a ser uma forma de arte - algo que fazer a cama nunca alcançará.
Mas cozinhar não precisa ser arte.
* * *
Meu pai é um homem à moda antiga, nunca ferveu nem água. Pra piorar, é um ex-milionário, já tendo sido servido por mais de dez empregados em sua casa.
Sempre que ele me liga e eu digo que estou cozinhando, o homem começa a rasgar as vestes:
"Meu filho, meu deus, que decadência, sem nem dinheiro pra comer num restaurante!, é tudo culpa minha!", etc etc.
E eu sou obrigado a explicar que, sim, de fato, embora não tenha dinheiro nem pra esfiha do Habib's, eu cozinho é por prazer, porque só eu sei fazer a minha comidinha do jeito que eu gosto.
Mas não adianta: pro meu pai, cozinhar a própria comida é sinal de pobreza absoluta. Algo como lavar a própria privada ou dirigir o próprio carro.
Cardápio do jantar de hoje: uma barra de Opereta da Garoto (chocolate branco com castanha de caju) e um pote de sorvete Caramel Apple Crumble, da Häagen Dazs, dois sabores que venho querendo provar faz tempo e estava adiando. A melhor coisa das grandes dores de amor é poder comer chocolate e sorvete quem culpa. Amanhã, esteira.
Eu adoro cozinhar, mas detesto a obrigação de cozinhar todo dia. Em geral, eu cozinho uma vez por semana, faço um prato de sustança e fico comendo a semana toda. Hoje, fiz assim:
Numa panela, cozinhei arroz integral, e lentilhas e ervilhas frescas. Pra temperar, usei pimenta malagueta moída (aqui se chama cayenne pepper) e gumbo filé (feito da folha da Sassafrás), dois temperos muito usados nas comidas aqui da região; e um tempero pronto mexicano a base de coloral, cominho e coentro - eu não sei cozinhar sem coloral, trago um quilo do Brasil todo ano.
Em uma frigideira enorme, refoguei alho e quiabo no azeite e no molho shoyu. (Eu nunca comia quiabo no Brasil e agora estou viciado. Deve ser uma coisa linguística. "Quiabo" é um nome indigesto mas "okra" é muito cool.) Quando o quiabo ficou babadinho, acrescentei cogumelos portabella, cebola e jalapeños picados, mas muito rápido, pra não perderem a crocância. Temperei com molho de chili doce tailandês, outro novo vício.
Por fim, misturei tudo e pronto.
Olha, ficou bom demais. Não quero outra vida.
Motivos que me levaram a me tornar vegetariano, aos 19 anos:
- Seis meses trabalhando de gerente de lanchonete, eu não aguentava mais o cheiro de fritura no meu cabelo.
- Espaços entre os dentes onde, às vezes, bifes inteiros ficavam presos.
- Sensação ruim de bicho morto pesando no estômago.
- Um nojo intrínseco pela idéia de consumir cadáveres.
Motivo que me levou a me manter vegetariano até os 21 anos:
- Depois de um tempo sem comer bicho morto, eu comecei a realmente me identificar com o holocausto de vaquinhas e galinhas - coisas para as quais eu sempre tinha cagado. Vacas, por exemplo, são quase tão inteligentes e, digamos, "únicas" quanto cachorros. Quem já teve vários cachorros sabe que eles não são todos iguais: são indíviduos, cada um com seu jeito, seus gostos e desgostos, seus temperamentos. Pois bem, as vaquinhas também, seus especistas!
Motivos que me levaram a deixar de ser vegetariano aos 21 anos:
- Cansei de ser o convidado chato: "meu deus, o Alexandre é vegetariano, temos que fazer um prato especial pra ele!"
- Cansei de me estressar na rua às vezes comendo coisas que realmente não queria só porque não tinham bicho morto.
- Cansei da peidorréia que causava minha dieta rica em grãos.
- Cansei de engordar pelo excesso de carboidratos na alimentação.
Motivo que me levou a voltar a ser pseudo-vegetariano aos 34 anos:
- Pedi um hamburguer que veio particularmente nojento e gorduroso e pensei, "caralho, o que é que eu estou fazendo colocando essa porra pra dentro de mim? será que não tenho amor à vida?!"
* * *
Na verdade, de acordo com o meu entendimento, nunca deixei de ser vegetariano. Nunca passei a ter prazer no consumo de cadáveres. Churrascarias rodízio me dão náuseas. Aquelas picanhas na chapa, estalando, faíscando, espirrando sangue e gordura pela mesa, são o suficiente pra me fazer perder o apetite. Mas tem bichos mortos que valem a pena: adoro crustáceos e peixes de modo geral. Podem matá-los à vontade. Também, em uma típica hipocrisia auto-delusional que não tento explicar, eu consigo comer carne com algum prazer se ela não me fizer a indelicadeza de lembrar que é carne. Pratos recheados são especialmente fáceis de comer, como raviolis ou mesmo misto quentes. Qualquer prato que seja franca e abertamente carnístico, tipo um bifão, ou uma parte proeminente de um animal inteiro, ou mesmo o animal inteiro, como um peru assado ou uma pata de porco, já me dão um certo nojinho. Fico pensando que aquele peru estava andando e gugluando e tentando voar alegremente até pouco tempo atrás quando alguém violentamente o matou. É uma sensação bem ruim. Dá vontade de gritar, como os militantes pacifistas: "not in our name!"
Então, eu vivo minha vida assim, tentando fugir dos radicalismos. Não digo pra ninguém que não gosto de carne pra não ficar causando mal-estar e problemas. Quando tenho vontade de comer um bicho morto, seja um camarãozinho frito, um joelho de queijo e presunto, ou uma lasanha a bolonhesa, eu como e não me estresso com a contradição inerente à coisa. Quando trabalhei no centro, eu almoçava todo dia em um restaurante a quilo macrobiótico e vegetariano maravilhoso e nunca me senti tão bem. Na minha casa, via de regra, eu me alimento de laticínios, ovos, grãos, frutas, cogumelos, vinhos, sucos e chás, tentando comer o mínimo de carboidratos possíveis, especialmente massas e pães. Sempre tenho na geladeira alguns crustáceos para quando der vontade e linguiças de frango e peru para as vontades súbitas por gordura: meia linguiçinha cortada e misturada aos legumes quase sempre resolve esse problema. Não prego contra a carne, não chamo ninguém de especista (só ironicamente) e não defendo os direitos dos animais, mas já me levantei de mais de uma mesa pra não ficar perto de um bicho morto que achei particularmente nojento.
Mas até aí, nada demais, pois já levantei de muito mais mesas pra ficar longe de bichos vivos mais nojentos ainda.
De todos os objetos e pessoas que povoam minha vida, a banana é dos poucos que consegue cercear minha liberdade e impor sua vontade a mim.
Gosto de fazer tudo na hora que eu quero, do jeito que eu quero. Bem coisa de artista excêntrico. Na época em que eu tinha TV, por exemplo, programava o vídeo e deixava tudo gravando. Não vou ser obrigado a ver o programa na hora que a emissora quer: vou ver quando eu quiser.
Mas a janela de oportunidade da banana é muito pequena. Ontem, estava verde e incomível. Amanhã, estará podre e incomível. Ela exige ser consumida naquele dia específico: não importa o que você cozinhou, quem está recebendo, o que tinha planejado, se foi convidado pra almoçar. Tem que ser hoje ou nunca.
A banana é uma tirana caprichosa. Ontem, eu te desprezei, não queria nada com você, tinha outras prioridades. Hoje sou sua, inteira, doce, fálica. Amanhã já não estarei mais aqui, serei casca virada no seu folhetim.
Toda semana eu tenho o dia da banana. O dia fatídico em que todas as bananas do cacho amadurecem juntas. O dia fatídico em que eu sou obrigado a só comer banana. Banana com granola. Com aveia. Com musli. No leite. Com baunilha. Com canela. Farofa de banana. Até no feijão com arroz!
Já tentei comprar um cacho de banana verde hoje e, outro, daqui a dois dias, mas não adianta. Bananas que andam juntas, mesmo que em fases diferentes de madurez, vão sempre amadurecer juntas. Não tem saída.
Eu me sinto tiranizado por não poder comê-las por dias a fio e depois me sinto mais tiranizado ainda por ter que comê-las todas ao mesmo tempo.
Compro muitas frutas. Maçãs, pêras, ameixas, uvas, abacaxi, grapefruits, goiabas. Todas elas sabem se comportar. Nenhuma tenta dominar minha vida ou meus horários. Sabem seu lugar. As maçãs e pêras ficam na geladeira indefinidamente. Não me pedem nada. Se eu ficar uma semana sem tesão por maçã, elas continuam lá, me esperando submissamente, e estarão deliciosas na outra semana também.
Só a banana me tiraniza.
* * *
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