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Eu não quero ter filhos. Nunca quis. Imagino que nunca vou querer. Quando digo isso, existem três reações de praxe.
Minha Crença Está Tão Certa Que É Impossível Que Não Seja Compartilhada por Todos!
A primeira é quando a pessoa sinceramente não acredita. Ela não consegue conceber que exista alguém que não quer ter filho. Em uma espécie que nunca chegou a nenhum consenso, ela considera que procriação é o único deles, que sua opinião é compartilhada acriticamente por toda a humanidade. E, consequentemente, que minha opinião é impossível. Se digo que não quero ter filhos, é porque gosto de ser do contra ou quero chamar atenção. Ninguém pode realmente não querer ter filhos!
São as mesmas pessoas que duvidaram que eu e a ex-esposa iríamos na Parada Gay ou que não acreditam que não vejo final de Copa do Mundo com Brasil em campo.
Sinceramente, não há arrogância maior do que considerar impossível que outras pessoas tenham opinião diferente da sua.
Se Você Não Quer Ter Filhos É Porque Odeia Crianças e Vai Pro Inferno!
A segunda reação é quando a pessoa já conclui de cara que eu não gosto de crianças.
Ora bolas, quem disse isso?
Adoro crianças. Trabalhei com crianças por dez anos. Seis em escola particular, como professor substituto da 5ª série ao 3º ano, e outros quatro em cursos de inglês, para crianças a partir de 10. Hoje, ensino português e literatura brasileira na universidade, para calouros de 17 a 20 e poucos anos e morro de saudades das minhas crianças.
Conviver com crianças faz bem pra saúde mental de qualquer um. Crianças são o que fazem a vida valer a pena. Sua energia nos energiza. Lidar com crianças nos faz sentir mais vivos, em contato com o nosso tempo, por dentro das gírias. Eles nos lembram quem somos, o que fomos e o que nos tornamos. Ao mesmo tempo em que sua vitalidade e juventude ressaltam o quanto estamos velhos, eles também nos rejuvenescem. É uma delícia.
Contato com crianças é algo tão fundamental que não entendo como fazem essas pessoas que nem têm filhos e nem trabalham com crianças. Meu deus, como teve ser terrível a vida de quem só tem contato com gente acima de 25 anos, chatas, previsíveis, conformistas, já meio mortas por dentro. Não gosto nem de imaginar.
Mas, por outro lado, quanta gente vocês conhecem que gosta de cachorro e não tem cachorro? Ter cachorro envolve uma série de responsabilidades que vão muito além de um simples gostar de cachorro. É um compromisso muito sério, um compromisso pra vida toda. Se é assim com cachorros, imagine com crianças.
Eu adorei todas as minhas crianças, mas sabia que eram minhas por somente cinquenta minutos por dia. Ensinei, ajudei, apoiei, fiz tudo o que pude - e, quando bateu o sinal, passei-as adiante.
Ao contrário da maioria dos pais, que se tornam completos imbecis quando falam dos próprios filhos, que acham que até o mais idiota é o próximo Einsten, eu podia ter uma visão mais equilibrada e profissional das minhas crianças - o que me permitia ajudá-las melhor. Eu sabia quem tinha facilidade e quem tinha dificuldade. Eu podia dar tarefas mais avançadas para manter os geninhos interessados e podia dar uma auxílio adicional para os mais lentos. Meu ego e meu DNA não se envolviam no processo.
Dar aulas pra crianças é como ter um melhor amigo com casa de praia. Tudo bem, você não pode ir à casa sempre que quer mas, por outro lado, você desfruta de todas as vantagens e de nenhuma das desvantagens. Assim como qualquer pai, eu ensino meus alunos sobre si mesmos, sobre o mundo, sobre a vida. Transfiro parte da minha sabedoria acumulada. Faço um impacto em suas vidas. Trapaceio a morte um pouquinho.
E, além de ser pago por isso, não tenho que acordar no meio da noite pra trocar fralda e nenhum deles nunca rouba meu carro!
Não posso falar em nome de outras pessoas que não querem ter filhos. Realmente, não conheço muitas. Como sempre, falo apenas de mim, mas acredito que deve se aplicar a mais gente também.
Sim, eu gosto de crianças. Sim, eu gosto de ensiná-las. Sim, eu, como todo escritor, me preocupo com a posteridade e com o futuro da espécie. Afinal, alguém vai ter que me ler daqui a 500 anos!
As prisões, esse projeto que me consome há seis anos, é basicamente um livro pra jovens - e para os adultos que não conseguiram resolver essas questões na hora certa. Já perdi a conta de quantas pessoas entraram em contato comigo pra dizer que mudei suas vidas, que abri seus olhos, que lhes mostrei que tudo poderia ser diferente.
Todas essas coisas lindas que pais fazem com seus filhos, ensinar, transmitir, dividir, compartilhar, é justamente o que tento fazer com meus leitores, aqui, todo dia.
Você Ainda Vai Mudar de Idéia e Concordar Comigo, Seu Idiota!
A terceira reação das pessoas quando digo que não quero ter filhos é uma variação da primeira. Acreditando ou não acreditando, elas acham que é tudo temporário. Quem sabe, daqui a pouco, eu não cresço e paro de ser do contra, não é?
Ou seja, minha opção de vida não é uma posição consciente de um adulto resposável: é uma fase. Besteira.
Finalmente, depois que falo tudo isso, sempre vem um estrupício, bate no meu ombro carinhosamente e diz, com o ar bonachão de uma cassandra que tudo sabe:
Pois guarde minhas palavras, Alexandre, você pode não querer agora mas daqui a pouco vai querer... Em dez anos, vou encontrá-lo cheio de filhos...
E eu, imperturbável, pergunto se ele tem vontade de comer merda.
Bem, continuo, bonachão e vaticínico, guarde minhas palavras, você pode não querer agora mas daqui a pouco vai querer... Em dez anos, vou encontrá-lo empanturrado de cocô...
(O mais chocante da história é que todo mundo acha o meu comentário grosseiro mas consideram o absurdo que tive que ouvir a coisa mais normal do mundo. Vai entender!)
As Pessoas Egoístas, Individualistas e Covardes Estão Destruindo o Planeta!
O mundo já tem pessoas demais. A humanidade, pra todos os fins e efeitos, é uma praga, o pior tipo de parasita, aquele que mata o próprio hospedeiro, suprema burrice. Os recursos naturais do nosso planeta estão quase esgotados.
Dentro desse quadro ecológico, talvez a melhor coisa que possamos fazer pela Terra seja poupá-la de mais um ser humano que vai usar fraldas plásticas e consumir gasolina.
Não é à toa que, entre os povos mais ecologicamente conscientes do mundo, é cada vez mais raro encontrar famílias com dois filhos. Os casais têm somente um, quando não fazem a opção por nenhum. São pessoas que têm exata noção do estrago que um simples ser humano adicional pode causar.
Reparem bem: não estou dizendo que as pessoas que têm filhos estão destruindo o planeta. Mas, realmente, se for pra colocar ecologia e meio ambiente na discussão, então, eles estarão do lado das pessoas que fazem o sacrifício de não procriar pelo bem do planeta.
O argumento ecologicamente correto bem poderia ser o seguinte: para satisfazer seus instintos animais de sobrevivência e propagação da espécie, para massagear seu próprio ego passando seu DNA adiante, muitas pessoas individualistas, covardes e egoístas continuam insistindo em ter filhos, mesmo sabendo do impacto ambiental da superpopulação. Se pensassem realmente na coletividade, na sobrevivência da espécie, em questões sociais e no bem-estar do planeta, fariam o sacrifício de não propagar seu DNA.
Por fim, se realmente fizessem questão de ter filhos, de passar adiante seus conhecimentos, de dividir sua experiência, adotariam uma criança já nascida.
Gostar de Crianças
Muita gente confunde não querer ter filhos com não gostar de crianças, como se fosse tudo uma coisa só. Não é.
Realmente, confesso, não confio em gente que não gosta de criança. Não sei se são egoístas, covardes ou pessimistas, mas sei que não dou as costas pra eles. Faço questão de cortar eu mesmo o baralho.
Se você vê uma criança empolgada, correndo feliz, conhecendo o mundo, descobrindo o próprio corpo, perguntando sobre o universo, e se isso te incomoda, se isso não derrete seu coração, se tudo o que você quer é que ela se comporte como uma boneca e fique calada e sentadinha, então, meu amigo, não tente vender um carro usado pra mim.
Entretanto, ter filhos é difícil. É a maior responsabilidade que uma pessoa pode se dar. Vejo idiotas procriando como coelhos sem ter a menor idéia do que se trata, dos desafios envolvidos, da importância da tarefa.
Vocês me desculpem, mas eu acho que dá muito trabalho, muita despesa e, mais importante, suga a liberdade. Ter filhos é uma viagem sem volta. A vida toda é um tempo muito longo. Eu sou responsável demais pra aceitar uma incumbência que não sei se poderei manter. E a nossa vida, a longo prazo, a gente nunca sabe como vai ser.
Admiro quem tem filhos. Acho que são pessoas mais corajosas que eu. Agradeço pelos futuros leitores, vou precisar deles. Agradeço pelas futuras belas mulheres, que não vão nem olhar pra um velho como eu, mas vão embelezar o mundo. Mas estou fora, sinto muito.
Eu vou tentar fazer o meu melhor pelo mundo, pela humanidade e pelas futuras gerações somente escrevendo.
Querida Mãe,
Você sempre disse que eu era uma criança (depois, um adolescente, depois, um homem) debochado e irreverrente e que eu não tinha respeito, nem por você nem por nada. E eu respondia que você é que não sabia o que era respeito; que eu não concordava com você, nem te obedecia, mas que te respeitava, porque uma coisa não tinha nada a ver uma com a outra; que era possível discordar a vida inteira respeitando sempre o direito do outro de ter sua opinião.
Bem, depois de três anos dando aulas em universidades americanas, começaram a chegar as avaliações dos meus alunos. Sim, eu sou bom professor, sou organizado, sou paciente, ajudo todo mundo, chego na hora, explico bem a matéria, tudinho. Só fui mal num quesito: "O professor trata todos os alunos com respeito?"
Mãe, repara como a pergunta é cuidadosa: eles não perguntam, por exemplo, se o professor desrespeitou *você*, mas se ele trata *todos* com respeito. E, tenho que confessar, minhas notas nesse critério foram baixas em quase todas as turmas. E sabe qual é o pior, mãe? Sentei, matutei, e não consegui nem imaginar o motivo.
Aparentemente, você estava certa e todo mundo concorda: eu nem mesmo *sei* o que é respeito. Nem pra cima nem pra baixo. O que eles querem dizer quando dizem que eu não trato todos com respeito? O que é não tratar alguém com respeito? O que é tratar alguém com respeito? Não sei. Juro que não sei. Vou tentar descobrir.
Dizem que envelhecer é descobrir que os pais estavam certos em tudo. Será que estou ficando velho, mãe?
Beijos do filho que te ama,
Alex
Vejam só como nossa imprensa já não cumpre mais sua função de informar. Do Globo On Line de hoje:
Menino morre atropelado na Barra
RIO - Um menino de dez anos, identificado como Matheus Henrique de Almeida Silva, morreu no início da tarde desta sexta-feira após ser atropelado na Avenida Ayrton Senna, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio. O atropelamento provocou congestionamento na região, estendendo-se por quatro quilômetros até a Linha Amarela. O corpo da criança já foi retirado do local.
Entretanto, sem mais detalhes, eu nem sei como reagir. Afinal, quem é o menino? É um pretinho pobre que fica no sinal vendendo bala? Ou é um branquinho, morador de condomínio fechado, que vai pra Miami nas férias?
É pra eu pensar "já vai tarde, menos um pra me bater a carteira!" ou "meu deus, que tragédia, a vida dessa família nunca mais será a mesma!"?
Sério, se não for pra dar a notícia completa, melhor nem falar nada!
* * *
Você, leitor arguto que conhece o Globo, poderia até dizer: "deixa de ser ingênuo, Alex; se fosse o pretinho do sinal, o Globo jamais noticiaria! Até parece que morte de preto pobre é notícia!"
E eu responderia: "sim, mas você está esquecendo um detalhe fundamental: a morte do menino causou um engarrafamento na principal via de acesso de um dos bairros mais ricos da cidade. Então, naturalmente, o Globo teria obrigação de avisar aos seus cheirosos leitores que, por causa de um pivete que não sabe nem atravessar a rua, vão chegar todos atrasados em seus chiques compromissos."
Ou seja, realmente não dá pra saber.
Na verdade, a resposta é simples: basta acompanhar o jornal.
Se a cobertura tiver follow-up, se aparecer um pai chorando e dando entrevista no RJTV sobre esses motoristas inconsequentes, "temos que fazer uma passeata na praia urgente!", é porque o menino era branquinho e cheirosinho.
Já se o assunto cair no limbo, fica confirmado que o objetivo da nota era mesmo somente avisar do engarrafamento. Afinal, esse povo pretinho não sente dor, eles não se apegam muito, sabe? Caramba, eles têm tudo 20 filhos mesmo! Perdeu um, faz outro!
Update de 17 de Fevereiro
Confirmado. Nenhuma outra menção à criança atropelada seja no Globo ou no Dia. Claramente, o foco da nota original era o trânsito.
Eu, Até os 15 Anos
Até os 15 anos de idade, eu era uma criança extremamente complicada.
Gordo, feio e gago. Óculos de fundo de garrafa no nariz. Cara coberta de espinhas. Muito mais rico do que todos os meus colegas.
Ninguém poderia chegar perto de mim a não ser para sacanear, eu pensava. Por isso, me tornei primeiro defensivo e, depois, agressivo. Minha boca era uma arma. Inteligente e articulado, eu conseguia enfiar o dedo em todas as feridas. Antes que me sacaneassem (o que mais poderiam querer comigo, afinal?), eu já sacaneava todo mundo.
Meninas, nem pensar. Pra que se preocupar com impossibilidades? Mesmo que alguma infeliz desenvolvesse alguma inexplicável paixão por mim, e teria que ser uma infeliz, para se sentir atraída por uma pessoa tão insuportável, eu simplesmente jamais acreditaria que era verdade.
Nunca vou deixar de amar os poucos amigos que tenho daquela época. Lembro bem de suas tentativas de aproximação. Lembro bem de afastá-los a pedradas - afinal, o que podiam querer com alguém como eu?! Lembro bem de suas repetidas tentativas até vencerem minhas barreiras.
Eles me salvaram de mim mesmo e me ajudaram a me tornar mais humano.
Por fim, nem todos esses defeitos faziam de mim uma pessoa insegura ou infeliz.
Contra todas as evidências, eu me achava o máximo, mais inteligente e mais capaz do que qualquer um. Extremamente seguro dos meus pontos fracos, eu procurava me concentrar nos fortes.
Trancado em casa, lendo, escrevendo, inventando histórias e personagens, eu era feliz.
Já naquela época, eu tinha noção de uma coisa muito importante.
Minha incansável mãe tentava fazer com que eu saísse de casa, dançasse, fosse a festas, ou seja, me comportasse como um menino normal.
E, muitas vezes, eu friamente me perguntava: será que eu não devia estar fazendo isso? Será que eu não devia estar na festa com os amiguinhos ao invés de trancado em casa lendo Sherlock Holmes? Será que mais tarde eu não vou me arrepender de ter desperdiçado minha juventude?
E, apesar de todo o longo caminho que eu ainda tinha a percorrer, desde os quinze anos eu sabia a resposta desse dilema.
Fazer hoje o que eu quero fazer hoje é mais importante do que fazer hoje o que eu posso vir a querer ter feito amanhã.
Eu amanhã desejar ter dançado mais aos quinze anos é uma abstração, uma possibilidade. Desejar hoje ler Holmes hoje era um fato.
Na pior das hipóteses, se o meu eu-velho for infeliz por não ter dançado mais aos quinze, eu pelo menos vou ser feliz hoje fazendo o que eu quero.
E dá-lhe Watson.
Eu, A Partir dos 15 Anos
Aos 15 anos, meus pais me colocaram em uma escola internacional.
Todas as aulas eram inglês. Todas as conversinhas com os colegas eram em inglês. Todos os nomes de partes do corpo humano eram em inglês. Todos os laboratórios de física eram em inglês. E meu inglês nem era isso tudo.
As regras, a cultura, os hábitos, tudo era radicalmente diferente. Nunca me senti tão mentalmente estafado como naquelas primeiras semanas. Aprendia coisas novas no ritmo que só um cérebro de quinze anos é capaz.
Sem querer, sem planejar, bom ser humano que sou, no esforço de me adaptar ao meu novo ambiente, eu mudei. Foi minha primeira, e mais importante, reinvenção.
Sobrevivi ao primeiro ano já camaleado. Tão ocupado em entender o novo mundo à minha volta, nem mesmo percebi o quanto tinha mudado.
Para melhor absorver o meu ambiente, fiquei mais calado, mais calmo, mais tolerante. Para fazer amigos, me tornei mais sociável, menos agressivo, menos boca suja.
As atividades extra-curriculares da escola serviam de válvula de escape para minha energia interminável. Fiz de tudo. Editei jornal, presidi grêmio, participei de clubes, disputei eleições. Além de canalizar minha agressividade latente, essas atividades também fizeram com que eu me socializasse com colegas de interesses parecidos e até mesmo desenvolvesse liderança.
O eremita ranzinza tinha finalmente aprendido a interagir com os humanos.
O Espelho dos Outros
A gente vai mudando ao longo da vida e nunca realmente percebe.
O melhor jeito de isolar, quantificar e acompanhar nosso processo de transição é através das pessoas que não conheceram nosso eu antigo, só o novo. Elas são o espelho que tornam nossa metamorfose visível.
Meus novos amigos, colegas de atividades, companheiros de chapa no grêmio, redatores do jornal, falavam de mim e eu não me reconhecia nas descrições. Esse não sou eu, eu pensava.
Mas eles viam a pessoa na qual eu já havia me transformado, enquanto eu ainda pensava na pessoa que eu era.
Um dia, caiu a ficha.
Pelo ano anterior, finalmente me dei conta, eu tinha de fato sido uma pessoa radicalmente diferente.
Mais importante, aquela era pessoa que eu realmente era. Ou, melhor, dane-se quem eu realmente era: aquela era a pessoa que eu queria ser.
Plágio de Mim Mesmo
Preciso reescrever o primeiro capítulo de um romance dezenas de vezes até encontrar o tom exato. Quando encontro, o resto do romance nada mais é do que plagiar aquele primeiro capítulo, manter aquele tom, sustentar aquele clima.
Eu, romancista da minha vida, fiz o mesmo.
Olhei pra trás e pensei: essa pessoa que eu fui nesse último ano é quem eu realmente sou, é quem eu quero ser. Como manter esse tom?
De certo modo, me tornei o ídolo de mim mesmo.
Algumas pessoas se perguntam: o que Jesus faria nessa situação? Pois eu me perguntava: o que o Alex desse ano passado faria?
E buscava estar à altura daquele padrão de comportamento que eu mesmo, sem perceber, havia estabelecido.
Mesmo assim, muitas vezes, eu ainda resvalava em meus velhos e agressivos hábitos. E os novos amigos estranhavam, não me reconheciam: o que foi isso, Alex? Você não é assim!
E eu ria por dentro: sou sim, mas não pra vocês.
Na prática, eram o termômetro da minha metamorfose. Afinal, conheciam apenas o novo Alex. Ninguém melhor do que eles para detectar (e estranhar) as aparições esparsas do velho.
Nenhum dos Alex era perfeito, claro. O Alex da escola internacional era sociável e palatável, um bom político que ganhou todas as eleições que disputou mas, também por isso, careta, vaselina e tão certinho quanto jamais conseguirei ser.
E, assim, fui crescendo e, dentro de minhas limitações, virei gente.
Mas nunca cansei de me reinventar.
Liberal Libertário Libertino
Muitos anos depois, eu era um responsável empresário da internet, casado com uma bela mulher. Tinha carro importado, era sócio de um clube de golfe e jogava tênis duas vezes por semana. Nunca fui tão adulto.
Ao mesmo tempo, na calada da noite, eu me envolvia cada vez mais com uma turma altamente subversiva. Sade, Sacher-Masoch e Krafft-Ebbing. La Mettrie, Darwin e Freud. Freire, Thoreau e Miller. Whitman, Kerouac e Emerson. Minha mãe deveria ter me avisado para não andar com maus elementos.
Finalmente, chutei o balde.
Não agüentava mais uma empresa que não dava dinheiro e sugava toda minha força criativa. Decidi que não queria mais emprego, não queria mais segurança.
Minha esposa e eu morávamos em um quarto na casa da minha mãe. Eu dava aulas de inglês em um cursinho de bairro e prestava consultoria de internet para grandes empresas. Ela fazia mestrado de manhã e vendia roupa de grife a noite. Com o tempo, fomos morar em nosso próprio apartamentinho. Alugado, claro.
Vivíamos um casamento aberto, onde ambos éramos livres para explorar novas fronteiras, buscar crescimento e amadurecimento em outros parceiros e trazer essas experiências para enriquecer nosso próprio relacionamento.
Mais uma vez, nascia um novo Alex. Absolutamente liberal, libertário e libertino.
Por um lado, mais contemplativo, plácido e tolerante do que nunca. Por outro, nunca tão ativo, ousado e sensual. Aproveitando oportunidades, expandindo limites, experimentando a vida de modo geral. Menos estressado, mas também menos sociável, e menos preocupado com tudo, especialmente com a opinião dos outros.
Desamarrei meu ego do meu trabalho, de um modo que a grande maioria dos homens não consegue nem conceber.
Dar aulas de inglês não era minha carreira. Eu não era professor de inglês - como já havia sido, por exemplo, empresário. Pela primeira vez na vida, eu era só Alex e isso tinha a força libertadora de uma revolução.
Não era nenhum emprego desafiador a altura de minhas pretensas capacidades brilhantes, e isso também era uma libertação. Ninguém esperava nada de mim. Minha chefa não queria um intelectual inovador ou um manager pró-ativo. Ela queria apenas que eu ensinasse o present perfect como estava no livro e não criasse caso.
Percebi que eu não devia nada a ninguém. Bastava eu trabalhar o suficiente para pagar minhas contas e eu estaria livre o resto do tempo, pra flanar, vagar, perambular, observar, experimentar, transar.
De vez em quando, alguém vinha me dizer que era uma pena alguém brilhante como eu desperdiçar meus inúmeros talentos dando só aulinhas de inglês. E eu respondia: vai ver o meu brilhantismo está em perceber que existem coisas mais importantes na vida do que trabalho, carreira, segurança.
O Alex da Joana
No meio de tudo isso, apareceu Joana.
Primeiro, fomos amigos, depois amantes, então amigos-e-amantes e também amantes-e-amigos. E continuamos assim até hoje.
Ela foi a primeira pessoa que conheci depois de completada essa última metamorfose. Pra ela, esse novo Alex não era um novo Alex, era O Alex.
Pra os amigos mais antigos, para a família, eu estava apenas surtando, dando um tempo, já já iria voltar ao normal, que eu não poderia me desperdiçar assim, não tinha nem emprego, nem plano de saúde, nada, isso não é vida!
Mas, para Joana, o Alex era aquilo, sem tirar nem pôr. Ela foi, e continua sendo, o parâmetro do sucesso contínuo e continuado dessa minha nova jornada em direção a sei lá onde.
Quando ela fala que sou a pessoa mais cuca-fresca que conhece, eu fico feliz.
Essa é a pessoa que eu sou. Essa é a pessoa que eu sou porque essa é pessoa que eu criei. Essa é a pessoa que eu criei porque essa é a pessoa que eu queria ser. Essa é a pessoa que eu queria ser porque sei bem que naturalmente eu não sou assim.
Mas, por um ato consciente de vontade, essa pessoa existe e sou eu.
Meus pais, que conheceram o adolescente complexado e agressivo, nunca irão me enxergar assim, por mais que eu mude.
A Joana não. Para ela, eu sou essa pessoa. E cada vez que eu vejo essa pessoa refletida em seus olhos, sei que alcancei uma grande vitória, daquelas decisivas, verdadeiro Dia D interior.
E quando ela, uma mulher neurótica e complicada, diz que está aprendendo comigo a cagar mais pra vida, a ser mais livre, mais tranqüila e mais feliz, o que eu escuto é não só que passei por mais uma etapa na minha jornada como que ainda estou trazendo-a junto.
E quando ela observa que estou diferente, estressado, com uma agressividade que não reconhece, que nunca me ouviu falar daquele jeito, aí eu dou um passo atrás e soam todos os alertas: é o velho Alex, Godzilla tentando emergir, placas tectônicas se movendo no subsolo, terremotos e maremotos na superfície.
Eu penso: o que o Alex da Joana faria numa hora dessas? Como ele reagiria? Mais importante, como voltar a ser o Alex da Joana?
Mantendo a Estrada
E, por enquanto, o meu objetivo balizador é continuar reconhecível para Joana. Enquanto ela vir em mim o Alex que conheceu e amou é porque não me afastei demais da estrada que escolhi.
Em breve, a não ser que eu morra primeiro, espero transcender esse Alex e me tornar uma nova pessoa. Mas esse passo a frente Joana acompanharia ao vivo, no nosso dia-a-dia.
Já um passo atrás, porém, em direção a um Alex que não conheceu, ela perceberia na hora.
Obras completas de Freud, de R$960, por R$399
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