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Bateu Saudade da Namorada e Decidi Repetir o Post

Mulher bonita e inteligente tem que ser vaidosa. Se não for vaidosa, então, ou não é realmente bonita ou não é realmente inteligente.

Quem me conhece, sabe que costumo tirar os óculos em eventos sociais. Sabe como é, vaidade, pra ficar menos feio, essas coisas.

Um dia, fui tomar um café com uma moça que tinha acabado de conhecer e ela perguntou se eu enxergava bem sem óculos. Eu disse que não muito, mas que minha vaidade era maior que minha vontade de enxergar. E ela pediu pra eu colocar os óculos de novo, porque não fazia questão alguma que eu fosse bonito (e tirar os óculos não fazia tanta diferença assim!) mas fazia questão de saber que eu estava admirando sua beleza em todos os detalhes.

Estamos juntos há quatro anos.

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13.11.09


Categorias: Relacionamentos

As Mulheres Querem Tudo

O texto abaixo é de 2003, primeiro ano desse blog, em plena Era Mesozóica. O mundo era outro: twitávamos a mão, eu era casado, as torres estavam de pé, Idelber ainda não sabia o que era blog, e não existia nem água: tínhamos que juntar no braço cada átomo de oxigênio com dois de hidrogênio. Relendo esse texto, é engraçado ver como eu ainda tenho as mesmas opiniões, mas hoje escreveria tudo diferente. Meus textos dessa época parecem ter sido escritos pelo Gravataí - o que é ao mesmo tempo uma qualidade e um defeito. Enfim, não sei se encaixa no que a Aline tão bem chamou de "minha fase Lola" mas vale como pós-escrito ao texto sobre a infelicidade feminina.

 Por que os Homens Fazem Sexo e as Mulheres Fazem Amor?  Homens São de Marte, Mulheres São de Vênus

A Roupa do Casamento

Semana passada, minha mulher e eu fomos padrinhos de casamento. Ao longo da semana anterior, ela, estressadíssima com sua roupa, ficou me perguntando várias vezes se eu já tinha verificado meu terno, se estava tudo certo, se eu não precisaria fazer nada, etc. E eu só enrolando, dizendo que ia fazer, que ia ver, mas, obviamente, o assunto era a última das minhas prioridades.

Chega a tarde do grande dia, minha esposa abre o armário e descobre que minha única camisa social branca está encardida, inusável.

Alerta vermelho, soam as sirenes, chove o granizo. Esporro generalizado.

Com uma certa razão, claro. Eu realmente tinha sido negligente e irresponsável. Mas o que me chamou atenção foi como o escândalo da minha mulher ilustrou a grande esquizofrenia feminina dos dias de hoje.

Quero Um Homem Que Não Dependa de Mim

No primeiro momento de fúria, ela esbravejou que queria um homem independente, que soubesse se cuidar, que soubesse cuidar das suas coisas, que não dependesse dela pra tudo que nem um bebêzão.

Nesse ponto, a bronca foi injusta. Eu sou, em muitos aspectos, bem mais independente e responsável do que ela – e, com certeza, mais organizado do que 98% dos homens heterossexuais que conheço.

Tudo bem, eu tinha vacilado naquela ocasião específica, mas não por eu ser desorganizado ou dependente, mas porque o bom ou mau estado das minhas roupas não é uma prioridade na minha vida.

De qualquer modo, a crítica revela um anseio válido das mulheres modernas: elas não são mais como suas mães, que querem um homem para cuidar, vestir e dar de mamar. As mulheres de hoje, independentes, inteligentes, doutoradas e barbadas, querem mais é homens inteligentes que sejam seus parceiros e não seus filhos.

 Revolução das Donas de Casa  Sebastiana Quebra-Galho: Guia Prático das Donas de Casa

O Que As Pessoas Vão Pensar de Mim Se Te Virem Assim?!

Então, veio a segunda parte do escândalo: o que as pessoas vão pensar de mim se te virem desse jeito?!

Subitamente, eu ser independente já não é mais nem um pouco importante.

Pelo seu comentário, minha mulher parece achar que há uma expectativa social de que a mulher é que tem que cuidar do homem, mantê-lo bem vestido e arrumadinho, sem manchas ou amassados.

De onde se conclui que, se um homem aparecer em um evento social com uma camisa branca encardida, ninguém vai pensar mal dele. Claro que não. Desde quando é obrigação do homem se vestir? Homem tem outras preocupações. A culpa é da relapsa da esposa, que não consegue nem vestir direitinho seu próprio Ken.

Mais uma vez, ela tem razão e não tem.

Eu tinha um colega de trabalho que sempre chegava no escritório bastante fedido, repetia roupas e usava barbas e cabelos longos e desalinhados. Pra piorar, era recém-casado com uma mulher vinte anos mais nova. Não deu outra, a sentença dos outros funcionários, homens e mulheres, foi sumária e inequívoca: a culpa toda era da mulher que, talvez por ser tão mais nova, não sabia cuidar dele, ou não tinha moral de mandá-lo tomar banho, aparar a barba, usar desodorante e trocar de roupas.

Pareceu não ocorrer a ninguém a simples possibilidade de ser ele o único e maior culpado por sua falta de higiene pessoal.

Tive que dar o ego a torcer. Socialmente falando, se eu aparecesse de camisa encardida, não tenho dúvidas de que a culpa recairia na coitada da minha esposa.

Entretanto, se ela é tão liberal e libertina quanto diz ser, isso não deveria ser incômodo, deixe os minúsculos pensarem o que quiserem, eu digo, mas, para minha mulher, libertar-se da opinião dos outros ainda é impossível.

Aliás, antes de sairmos desse assunto: como eu disse, sou viadamente organizado e limpinho. Eu jamais, em tempo algum, iria a qualquer lugar com aquela camisa encardida. Isso nunca me passou pela cabeça. Eu estava tranqüilo porque sabia que, na pior das hipóteses, se a camisa branca estivesse inusável, eu iria com alguma outra das minhas camisas sociais não-brancas. Claro que os padrinhos tinham que ir de camisa social branca, mas eu prefiro ser o único padrinho vestido errado (já tenho fama de excêntrico mesmo, me convida pra padrinho quem quer) do que o único padrinho porco. Acabou que fui de terno preto com uma camisa social verde-escuro e a combinação ficou ótima.

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You Can't Have the Cake and Eat It Too

Chegamos então à grande esquizofrenia da mulher moderna:

Por um lado, minha mulher quer que eu seja um homem independente, que saiba cuidar de si.

Por outro, ela sabe que a sociedade presume que eu lhe seja dependente: seu desempenho enquanto mulher será julgado, entre outros quesitos, pela minha apresentação.

Ou seja, ao querer um homem independente, o que ela realmente quer não é um homem independente: o que ela realmente quer é obter a reputação de esposa-que-cuida-muito-bem-do-marido sem precisar, pra isso, ter trabalho cuidando de mim, já que eu, homem independente, me cuido sozinho.

Mas, como diz um dos meus ditados favoritos, you can't have the cake and eat it too.

Precisei de Um HOMEM ao Meu Lado!

Temos um casamento aberto.

Quase sempre saímos juntos, como casalzinho baunilhogâmico. Outras vezes, saímos juntos, mas nos separamos, cada um por si e boa sorte, ninguém é de ninguém.

Em uma dessas vezes, cheguei perto demais dela e levei um pito: o cara com quem ela estava flertando achou que eu estava demarcando território e melou o clima.

Depois disso, procurei ficar o mais afastado possível, até que porque eu também estava bastante ocupado com uma outra menina.

No fim da noite, minha mulher teve problemas na saída. Um problema bobo, de deixar mulher nervosa à toa, e que ela podia ter resolvido sozinha – tanto que resolveu. Mas as mulheres têm essa mania, totalmente machista, aliás, de achar que ter um homem por perto resolve tudo, mesmo que ele não faça nada, mesmo que não exista nada que ele possa fazer.

Só que eu, escaldado e a pedidos, estava mantendo distância.

Depois, ouvi o discurso padrão: tive que resolver tudo sozinha!, precisei de UM HOMEM (falado assim mesmo, com a boca cheia) e você não estava lá pra ficar ao meu lado!

Eu sei que meu casamento é sui-generis. Sei que meus exemplos não são aplicáveis à vida de quase ninguém e servem apenas para as pessoas balançarem a cabeça e refletirem sobre a decadência dos valores da família tradicional brasileira, mas, enfim, o princípio é o mesmo:

You can't have the cake and eat it too.

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O Neandertal e a Mulherzinha

As mulheres querem tudo. Ainda querem todas as qualidades viris e neandertais que suas avós queriam e aprenderam a querer toda uma nova série de qualidades sensíveis pós-modernas que, antigamente, só eunucos e tias solteironas tinham.

Até aí tudo bem. Acho até divertido ser, alternadamente, latin lover canalha e menino carente sensível.

Não satisfeitas, as mulheres ainda exigem, como minha esposa na festa, que os homens tenham a obrigação de adivinhar quando elas querem o braço forte do neandertal ou o ombro amigo do gentleman.

Homens são mais simples. Eles escolhem um arquétipo e ficam com ele. Pra sempre.

Eu, por exemplo, gosto de mulheres fortes e independentes. Só. Outros tipos de mulheres, viadas, frágeis, frescas, românticas, hipersensíveis, etc, confesso ter vontade de espantar à pauladas. Nunca acho nenhuma dessas características nem remotamente atraente. Quando me apaixonei pela Joana, por exemplo, a única mulherzinha com quem já andei, foi apesar dessas características. Seus caprichos e viadagens me irritavam profundamente.

Tenho um amigo cujo sonho é ter um emprego público, uma casa no subúrbio pra dar churrasco pros amigos todo fim-de-semana e uma mulher na qual ele possa (essa parte ele descreve bem fisicamente) dar uma tapão na bunda e dizer: "Muié, mais cerveja pro pessoal!" E ela daria uma risadinha, sacudiria a enorme bunda e iria rebolando buscar mais cerveja. Naturalmente, acabado o churrasco, ela também arrumaria todo aquele caos, enquanto ele tiraria sua merecida soneca, que afinal ninguém é de pedra lascada.

Meu amigo é quase um neandertal, mas seu modo primitivo de ver as coisas é, também, bastante válido. Ele sabe exatamente o que quer. Se encontrar uma mulher que se preste a esse papel, e existem muitas, ele nunca vai reclamar que ela é muito dependente, muito burrinha ou que não trabalha. É isso exatamente que ele quer. O tempo todo.

Por outro lado, tenho certeza absoluta que, em vários momentos ao longo do casamento, essa mulher tão viadinha vai lhe jogar na cara que ele é um bruto, que não a deixa trabalhar e que não liga pros seus sentimentos - como se não fosse exatamente assim que ela queria que ele fosse, como se ela não o tivesse escolhido, entre tantos outros homens, justamente por essas características.

Essa menina em corpo de mulher nunca terá que se preocupar com o mundo real ou com ganhar seu próprio sustento. Terá um braço forte sempre à disposição, para ampará-la, dar-lhe uns tabefes, se sair da linha, ou somente uns tapinhas, para que vá buscar mais cerveja.

Nunca teria que resolver sozinha o problema que minha esposa encarou aquela noite, mas também nunca lhe ocorreria que manter as camisas do marido limpas e passadas é qualquer outra coisa que não sua mais expressa responsabilidade segundo a ordem natural das coisas.

Visto por esse prisma, minha mulher é que é a vítima. Ela, tão libertina, é que foi pega no contrapé da história.

Por um lado, tem que se virar sozinha algumas vezes, como na saída da festa e, por outro, também tem a dolorosa noção que o estado do meu colarinho vai refletir diretamente na percepção que as pessoas têm dos seus dotes de esposa.

Ê mundo.

 Por que os Homens Mentem e as Mulheres Choram?  Como se Dar Bem com as Mulheres

Lutando Contra o Príncipe Encantado

Uma das grandes diferenças entre homem e mulher (a muitíssimo grosso modo, obviamente) é que os homens, emocionalmente menos complicados, sabem bem o que querem em termos de mulher, encontram rápido, ficam felizes com a descoberta e se acomodam.

Já as mulheres nunca sabem com certeza que tipo de homem estão procurando.

A maior prova disso: os homens, quando reclamam de suas mulheres, é porque elas mudaram.

As mulheres, por outro lado, dizem: mas esse homem não muda nunca!

O problema está na educação.

Ninguém nunca diz pra um menino que mulheres são perfeitas, nem mesmo que deveriam ser perfeitas e, muitíssimo menos, que ele deveria esperar por uma mulher perfeita.

Pelo contrário, a educação de um menino entatiza, quando muito, quantidade, nunca qualidade. Pra que esperar pela mulher perfeita, se você pode passar o rodo nas imperfeitas, que são muito mais divertidas?

Enquanto isso, as mulheres sofrem uma perversa lavagem cerebral: o paradigma do príncipe encantado lhes é enfiado goela abaixo. Não interessa se é culta ou ignorante, pobre ou rica, todas as mulheres, em algum momento, terão que chegar a um acordo com o príncipe encantado: ou o rejeitam ou sucumbem a ele. De qualquer modo, ele está sempre ali, sempre assombrando.

Antigamente, as mulheres primeiro se guardavam para o príncipe e, depois, ou viravam solteironas, ou acabavam se sujeitando a casar com meros plebeus.

Hoje, as mulheres se divertem enquanto o príncipe não aparece em suas vidas, mas ainda assim planejam, em algum momento, assentar residência com o príncipe e virar mulheres sérias.

O princípio é radicalmente o mesmo: há sempre um ponto bem definido no futuro em que haverá essa tão esperada ruptura entre o presente imperfeito e uma espécie de nirvana que se seguirá ao encontro com o homem perfeito.

Os homens se casam com suas mulheres pelo que elas são ou, pelo menos, pelo que acham que elas são. Por isso, sua reclamação principal é que elas mudam: quando casei com você, você não era assim, você não fazia isso, você está ficando uma megera igualzinho à sua mãe. E com as mesmas ancas da sua mãe também!

Já as mulheres se casam com os homens apesar de seus defeitos. É quase como se tivessem desistido de encontrar o príncipe encantado, mas não de fabricá-lo. Já que a porra do príncipe não surgiu, eu mesma faço o meu, pronto!

Então, se casam com alguém desejável, mas com defeitos já visíveis, quase sempre já identificados e catalogados, na esperança de conseguir, aos poucos, mudá-lo de acordo com o ideal de perfeição do príncipe. Com o tempo, já que o homem não muda, as frustrações vão crescendo.

O mais engraçado é a falta de comunicação.

Eu já vi homens sinceramente estupefatos: como ela pode ficar tão furiosa de eu fazer isso e aquilo se eu sempre fiz essas coisas, durante o namoro, durante o noivado, durante os primeiros anos do casamento, e ela nunca disse nada?

Simples, meu caro. Ela sempre odiou isso, mas casou com você apesar disso, casou com você porque achou que você iria mudar, amadurecer, que ela iria conseguir fazer você parar com isso.

E as mulheres também ficam sinceramente estupefatas: mas eu não entendo isso, esse homem está com quase quarenta anos e continua largando a toalha em cima da cama e querendo encher a cara com aqueles cachaceiros amigos dele, quando ele tinha vinte anos, tudo bem, mas será que ele não vai amadurecer nunca?

Naturalmente, ambas as lógicas (sic) são mutuamente incompreensíveis.

As mulheres têm todo o direito de casar com um neandertal e depois decidir que querem um cro-magnon. Mas então que troquem de modelo. Maldade é querer exigir que um bruto, com quem casaram por ser um bruto, de repente tenha rompantes de lorde.

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25.10.09


Categorias: Relacionamentos, Sexo

Falhamos com Nossas Mulheres

Minha amiga Selma está revoltada com "esse costume tão brasileiro de homens mais velhos casarem com mulheres mais novas". E eu, num primeiro momento, disse que ela estava exagerando, que não era pra tanto, etc.

Mas então passei em revista mental todos os amigos dos meu pai que estão mais ou menos na mesma faixa etário - ele tem 63 anos. Sem nenhuma exceção que pude lembrar, nenhum ainda está casado com a primeira esposa e todos casaram de novo com mulheres 15, 20, 30 anos mais novas. (A esposa do único casal que seria a exceção se matou ano passado.)

Não acho que cabe censurar nenhum deles individualmente. Na maioria dos casos, a começar pelo meu pai, os maridos respeitaram estritamente as leis e deixaram suas ex-esposas muito bem de vida. Todas as pessoas têm direito de se divorciar. Se todos cumprem a lei e agem eticamente, não cabe crítica individual.

Entretanto, quando olhamos para a situação como um todo, a situação mostra-se praticamente uma calamidade de saúde pública e uma indicação da estrutura inerentemente machista da sociedade brasileira. O divórcio, que a princípio foi uma bandeira e uma conquista feminina e feminista (favor não confundir), acabou saindo pela culatra e se tornando um meio legal e limpo para se trocar velhas esposas por jovens gatinhas.

Não estou falando somente de dinheiro. Sim, quase todos os homens do círculo do meu pai deixaram suas mulheres muito bem de vida - financeiramente.

Mas hoje, quando encontro com eles, esses homens estão invariavelmente felizes, com aspecto jovem, bronzeados, ricos, casados com mulheres lindas, no auge de suas carreiras ou recém-aposentados.

Já as mulheres estão quase todas sozinhas, ressentidas, magoadas, muitas gordas e alcoolatras, reclamando das vidas vazias e sem sentido, pois dedicaram boa parte da vida aos maridos (que foram embora) e aos filhos (que cresceram), quase nenhuma tinha carreira, e ou continuam ociosas e sem trabalhar até hoje, ou começaram uma carreira depois dos 40 e estão subempregadas.

Nós, como sociedade, falhamos miseravelmente com nossas mulheres.

 Corpo a Corpo com a Mulher: Pequena História das Transformações do Corpo Feminino no Brasil

* * *

Tive essa conversa com vários amigos e quase todos me disseram que eu estava delirando, que a experiência deles não era assim, que minha amostra era muito limitada.

E, de fato, pensei: o círculo de amigos do meu pai é bem restrito. Estou falando de homens brancos de classe média nascidos no eixo RJ-SP na década de 40, que enriqueceram/prosperaram nos anos 70 e 80, se separaram na década seguinte, e agora começam a se aposentar. Foram ou são empresários, banqueiros, altos executivos. Moram na Barra e em Higienópolis, em Ipanema e no Pacaembu, e têm casas em Búzios e Guarujá, Itaipava e Campos do Jordão. Não há dúvidas que se trata de um grupo totalmente a parte da sociedade brasileira.

Vai ver, pensei, não é o Brasil que é assim: só a República Leblon-Morumbi.

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* * *

Então, mês passado, leio a matéria abaixo, do Diário de SP, e percebo que sim, estamos diante de uma tendência algo generalizada:

Viúva Jovem: Pensão do INSS é paga por 35 anos

SÃO PAULO - Até pouco tempo atrás, o tempo médio que uma mulher viúva recebia a pensão por morte do marido era de 17 anos. Agora, já são 35 anos. É que o mostra um estudo do pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Paulo Tafner. Ele explica esse aumento pelo fato de dois terços dos homens separados acima de 50 anos se casarem de novo com mulheres mais novas.

Na faixa etária entre 60 e 64 anos, o percentual de homens que se casam com mulheres mais novas pula para 69%. A diferença chega a ultrapassar 30 anos. Além disso, dois terços das viúvas brasileiras têm atualmente outra fonte de renda.

- O Brasil não leva em conta se a viúva tem um emprego, diferentemente de outros países. Aqui, esse direito é vitalício e equivale a 100% da aposentadoria. O benefício também não depende da idade da mulher, do prazo decorrido da união ou se ela tem filhos menores - diz Tafner.

O país gastou R$ 25,9 milhões a mais em agosto passado com o pagamento de pensões por morte. Segundo a Previdência, o valor médio é de R$ 746. O número de pedidos de pensão por morte vem crescendo mês a mês. Só em agosto, foram incluídos 34.789 benefícios, 2,61% a mais do que o mês anterior, quando foram solicitadas 33.905 novas inclusões. Em junho passado, por sua vez, esse número era de 31.404.

 Mulheres Públicas: Participação Política e Poder

* * *

E, quando esse post já estava escrito faz tempo e esperando pra ser publicado, uma nova matéria da Revista Época (da minha querida Martha Mendonça, do saudoso Elas por Elas) apoiou outra percepção minha: de que as mulheres, depois de certa idade, tornam-se mesmo cada vez mais tristes.

Por que as mulheres são tão tristes?

Um estudo americano de 37 anos ilumina um terrível paradoxo: objetivamente, a vida das mulheres jamais foi tão boa. Subjetivamente, nunca foi pior.

Tema de reportagem do New York Times no dia 20 do mês passado, o paradoxo da infelicidade feminina ficou semanas entre as mais lidas e comentadas da versão on-line do jornal americano. “Será que a emancipação feminina beneficiou mais os homens que as mulheres?”, escreveu a colunista Maureen Dowd, conhecida por suas posições antifeministas. Indo mais longe, se poderia perguntar: será que os conservadores, que sempre denegriram o feminismo como antinatural, teriam razão? Será que as mulheres seriam mais felizes se retornassem ao papel tradicional de mãe e esposa? O assunto dividiu opiniões no blog de ÉPOCA Mulher 7x7. “Estou cansada? Culpada pela pouca atenção aos filhos? Sim. Sempre querendo ser a melhor no trabalho e também cuidar da beleza? Sim. Mas ainda assim prefiro a liberdade”, escreveu a leitora Carolina. Outra leitora, Andréa, pensa diferente: “Ao mesmo tempo que nossos direitos se multiplicaram, como acesso à educação, voto, mercado de trabalho, nossas responsabilidades cresceram exponencialmente. Temos de gerenciar casa, carreira, filhos, marido e ainda ser magras, cultas e sexy. Isso é irreal”. (leia matéria completa)

* * *

E vocês? O que vocês acham? Como é a situação no círculo social de vocês? E você, Jorge Nobre, o que acha da política de cotas nas universidades públicas?

* * *

Meu romance, entre outras coisas, é sobre a complexa condição feminina no Brasil de hoje:

Mulher de Um Homem Só

 

22.10.09

Da Série "Coisas Que Não Deviam Precisar Ser Ditas"

Lei do MSN N°12.923

Se você tem algum assunto sigiloso ou delicado com alguém, não comece uma conversa no MSN já falando disso. Você não sabe quem está do lado, ou quanto tempo aquela mensagem vai ficar piscando ali na tela:

Fala, Paulão, e aí? Resolveu a gonorréia?

Ao invés disso, diga um "oi" neutro e espere pelo feedback:

Fala, Paulão, e aí?

Oi, Carlos, tudo bem? Estou aqui com a namorada, navegando na internet.

Ah tá, depois falamos então. Beijão nela.

* * *

Lei do MSN N°21.909

Muito cuidado com as conversas paralelas, especialmente delicadas. Meu conselho: coloque uma janela de cada lado da tela, para evitar de digitar em uma o que deveria ser digitado na outra. Senão, podem acontecer coisas assim:

Mariposa Apaixonada de Guadalupe says
Ai, acho que você é o homem mais romântico com quem já teclei. Será que você é interessante assim pessoalmente?

Ursão do Amor says
Claro, minha linda, minha deusa. Você vai ver. Será a melhor noite de nossas vidas.

Mariposa Apaixonada de Guadalupe says
Ai, conta mais, vai.

Ursão do Amor says
Porra, 14 anos? Eu te falei que o senador só quer menino impúbere, caralho! Ah, foda-se. As meninas tem menos de 10, não é? Coloca eles todos no porta-malas e vem pra cá, depois eu resolvo.

Mariposa Apaixonada de Guadalupe says
Hã?

Ursão do Amor says
Desculpa, janela errada.

* * *

Livros pra abrir sua cabeça:

 Discurso do Método RENE DESCARTES  Insustentável Leveza do Ser, A Milan Kundera Homens Invisíveis: Relatos de uma Humilhação Social FERNANDO BRAGA DA COSTA Pedagogia do Oprimido

 

01.09.09

Fantasmas de Felicidades Passadas

Existe um ponto de ônibus no qual vivi momentos de intensa felicidade.

Eu estava namorando uma colega de trabalho, Valéria. Ela era linda, sexy e inteligente. Psicóloga, mestre em Filosofia, me apresentou a Antônio Nóbrega e a Roberto Freire. Sinto muito sua falta em minha vida.

Todo dia, às seis, eu ia levá-la no ponto. Enquanto esperávamos seu ônibus chegar, nos beijávamos apaixonadamente.

Meu grande objetivo era fazê-la perder o maior número de ônibus possível. Ela perdia o primeiro, perdia o segundo, tinha dias que perdia o terceiro e o quarto, embalada nos meus beijos. Só não perdia mais porque estava indo para um segundo emprego e não podia se atrasar.

Hoje, esse ponto fica perto da minha casa. Dou voltas enormes para evitá-lo. Passar por ele me faz mal. Tanta felicidade morta tem um peso opressivo. Quanto maior a felicidade, mais fedorenta a massa putrefata.

Um triplo assassinato não teria deixado a atmosfera tão pesada quanto aqueles longos beijos ao pôr-do-sol. Passo por lá e posso sentir o velho ponto de ônibus me atormentando, esfregando minha felicidade passada em minha própria cara, me acusando de não ser tão feliz quanto era, de não ser tão feliz quanto poderia ser.

Fantasmas Nada Assustadores

Nas histórias de terror, os fantasmas são vítimas de terríveis violências, pobres pessoas de cabeças decepadas e unhas arrancadas, impedidas de alcançar o descanso eterno pelas dramáticas circunstâncias de suas mortes, condenadas a vagar por nosso mundo buscando por seus algozes.

Que escritores mais sem imaginação! Fantasmas assim nada têm de assustadores.

Eu poderia chegar em casa todos os dias e conviver com eles sem problema algum.

Boa noite Nick-sem-cabeça, boa noite Gaspar, como vão?, ainda sentindo cócegas no braço decepado?, já conseguiu encontrar o seu assassino?, não?, puxa, que chato, alguma pista?, me passa o porto?, ah, é verdade, você é imaterial, pode deixar que eu pego, etc.

Assassinato, morte e mutilação, além de não serem tão terríveis assim, pelo menos dão assunto.

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Uma Casa Verdadeiramente Mal-Assombrada

Muito pior seria morar em uma casa verdadeiramente mal-assombrada.

Imaginem uma ex-casa de festas, onde adolescentes perderam a virgindade em êxtases de felicidade, onde casamentos representaram a culminação dos desejos de várias vidas, onde casais se conheceram e experimentaram aquela alegria primordial de se encontrar sua alma gêmea.

Acontecimentos posteriores não importam. Acontecimentos posteriores sempre estragam tudo. A ex-virgem ficou grávida, o cara fugiu e deu a maior merda. O casamento acabou em adultério e recriminação menos de um ano depois. O casal que se conheceu nunca se juntou, pois ele foi transferido e ela não quis ir atrás. Não interessa.

Aqueles momentos foram tão infinitamente extasiantes que ficaram cravados na estrutura do universo, impregnados nas paredes da casa, se recusaram a deixar de existir e caminhar para as trevas do passado juntos com os outros momentos comuns.

Não, meus amigos. Um momento realmente feliz nunca deixa de existir. Ele continua reverberando para sempre. Sua existência é tão concreta que ele quase pode ser visitado, como se visita a casa de um velho amigo.

E imaginem que terror seria chegar em casa e tentar tomar tomar um café na cozinha logo no momento em que o tal casal está se conhecendo melhor - o quê?, você também colecionou Watchmen?, não acredito!

Ao contrário dos assassinados, mutilados e amaldiçoados, esses dois nem mesmo conversam comigo, não me dão a menor bola, não me fazem companhia. Só querem saber um do outro. Eles se bastam para a eternidade.

Lá em cima, a mesma coisa. Nas noites em que os virgens se manisfestam, tenho que ir dormir no sofá: eles fazem muito barulho e ocupam a cama toda. Já tentei inclusive mudar a cama de quarto e nada. Eles seguem a cama. Deve ter sido naquela cama mesmo. Inferno.

A felicidade dos outros sempre é algo sufocante. Se o outro for nós mesmos, alguns anos antes, é pior ainda.

* * *

Esse é um dos meus textos mais apreciados. Ele está no meu livro Liberal Libertário Libertino, que é um livrinho de papel mesmo, bonitinho, vermelhinho, com minhas melhores crônicas. Se você gostou, compre, pra você ou pra dar de presente, e eu te agradeço, sinceramente.

 

02.01.09


Categorias: Relacionamentos, Sexo

Os Critérios Eliminatórios

Amiga minha, inteligente e gostosa (aliás, tô pegando), em uma mesa cercada de homens, expõe seus quatro critérios eliminatórios:

Morar com a mãe.
Ser ator da Praça Roosevelt.
Ser místico.
Ser religioso.

 Futuro de uma Ilusão Deus , um Delírio

(Não entendo bem porque uma atéia separa místicos de religiosos - pra mim, é tudo a mesma coisa - mas ela sustenta que um católico e um astrólogo são dois tipos bem diferentes de mala, ambos igualmente insuportáveis.)

Depois da explicação, a mesa toda ficou cabisbaixa.

Todos tinham sido eliminados.

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26.12.08

Coisas que Só a Marina W Faz por Você

Blowg, de Marina W.:

Conheço uma garota que encontrou o namorado agarrado com outra na night. Ela foi tomar satisfações e ele negou, mesmo com todas as evidências.

- Mas eu estou vendo!

Ele: - E você vai acreditar no que você está vendo ou em mim?

Hahaha.

Bônus especial por não ter usado a palavra "balada", top 5 dos piores paulistanismos de todos os tempos, ao lado de "mina", "xaveco", "da hora" e "véio". (Meu paulistanismo preferido: "causar".)

Caderno de Cinema de Marina W.

 

21.12.08


Categorias: Relacionamentos

Dom Casmurro, de Machado de Assis

 Dom Casmurro MACHADO DE ASSIS
Antes de começar a escrever sobre Dom Casmurro, eu me pergunto: o que falar sobre um livro que todo mundo leu? E depois, me pergunto também: será que leram mesmo?

* * *

 Otelo Brasileiro de Machado de Assis, ODurante mais de meio século, leu-se Dom Casmurro como um romance de adultério. Nunca houve dúvida quanto à infidelidade da sem-vergonha Capitu. Somente em 1960, em O Otelo Brasileiro de Machado de Assis, Helen Caldwell levantou publicamente a questão: mas será que era?

Trinta anos depois, quando li Dom Casmurro no Ensino Médio, nossa professora fez o tradicional julgamento de Capitu. A maior parte da turma a considerava inocente (inclusive a professora) e um grupo menor defendia sua culpa. Sobrei eu pra ser juiz, o único que não tinha opinião formada.

Meu papel era somente julgar qual dos lados tinha levantado mais fatos e argumentos para provar sua opinião. As discussões foram acaloradas. Quase perdi amigos. Houve gente me acusando nos corredores de "anti-Capitu (ou pró-Capitu) desde criancinha". Mas resta o fato de que muitos adolescentes cultos e interessados tiveram leituras tão divergentes do mesmo livro.

Anos e anos depois, já no doutorado, lemos Dom Casmurro de novo. Dessa vez, o tom foi outro. Ninguém achou que Capitu era uma adúltera - imagina!, esse infeliz teria sido levado pirâmide acima e sacrificado ritualmente aos deuses do politicamente correto! De um modo bem real, a discussão em minha escola foi bem mais rica: mais gente participou, mais pontos de vista diferentes foram levantados, ninguém teve medo de dizer que Capitu era uma vagabunda, o falocentrismo da literatura canônica não foi nem mencionado.

Um comentário que se ouviu bastante no doutorado foram variações de:

"como tanta gente pôde ler esse livro tão errado tanto tempo? É óbvio que o livro é sobre o ciume louco e obssessivo de Bentinho, não sobre uma traição (que nunca existiu) da pobre Capitu! É tão óbvia a reticência do autor quanto à traição rio de Capitu que é simplesmente impossível ler o romance como um simples livro sobre adultério!"

Pronto: o pêndulo agora girou para o outro lado. E lá fui eu ser do contra mais uma vez. Capitu Sou Eu

Oras, se durante sessenta anos duas gerações de leitores viram o adultério de Capitu como auto-evidente, então é óbvio que o livro permite essa interpretação. Dizer o contrário é muita arrogância: é imputar uma cegueira imbecil aos leitores do passado. Equivale a dizer: pôxa, se não fôssemos nós, os leitores inteligentes de hoje, o segredo de Capitu estaria tão enterrado quanto Tutankamon antes de Lorde Carnavon. Somos o máximo!

(Dalton Trevisan, autor de Capitu Sou Eu, em entrevista a FSP, 23/5/92: "Até você, cara - o enigma de Capitu? Essa, não: Capitu inocente? Começa que enigma não há: o livro, de 1900, foi publicado em vida do autor - e até sua morte, oito anos depois, um único leitor ou critico negou o adultério?")

O lindo de Dom Casmurro é que não há saída para o enigma. Nunca vai haver resposta certa, por mais que ideólogos de ambos os lados dêem soquinhos histéricos no chão e gritem suas verdades. Cada argumento sempre corta para os dois lados. História da Literatura Brasileira

Por exemplo, os defensores de Capitu alegam em seu favor a reticência de Bentinho: se houvesse realmente alguma prova concreta do adultério, ele teria dito e feito fanfarra. Se não fala nada, é porque não há o que dizer. Já os primeiros leitores do livro talvez pensassem o mesmo que José Veríssimo, um dos principais críticos literários da época, na História da Literatura Brasileira (1915):

"Era impossível em história de um adultério levar mais longe a arte de apenas insinuar, advertir o fato sem jamais indicá-lo. Machado de Assis é, com a justa dose de sensualismo estético indispensável, um autor extremamente decente. Não por afetação de moralidade, ou por vulgar pudicícia, mas em respeito da sua arte. Bastava-lhe saber que a obscenidade, a pornografia, seriam um chamariz aos seus livros, para evitar esse baixo recurso de sucesso, ainda que a fidalguia nativa dos seus sentimentos não repulsasse tais processos."

E então, pergunto eu, Bentinho silencia porque nunca houve adultério e não havia o que dizer, ou porque Machado é um "autor extremamente decente" e não havia porque dizer com todas as letras o que já era tão óbvio que tinha acontecido?

* * *

Para manter as coisas em perspectiva, algumas opiniões de alguns dos primeiros críticos de Dom Casmurro, gente (sempre vale a pena lembrar) tão inteligente e observadora quanto nós, mas filhos de outra época. Primeiro, mais José Veríssimo:Ensaios Escolhidos

"Dom Casmurro é exemplo desta sua superior faculdade de romancista, comprovada aliás em toda a sua obra. É o caso de um homem inteligente, sem dúvida, mas simples, que desde rapazinho se deixa iludir pela moça que ainda menina amara, que o enfeitiçara com a sua faceirice calculada, com a sua profunda ciência congênita de dissimulação, a quem ele se dera com todo ardor compatível com o seu temperamento pacato. Ela o enganara com o seu melhor amigo, também um velho amigo de infância, também um dissimulado, sem que ele jamais o percebesse ou desconfiasse."

Augusto Meyer, Ensaios Escolhidos, c.1940:

"Capitu mente como transpira, por necessidade orgânica. (...) fêmea feita de desejo e de volúpia, de energia livre, sem desfalecimentos morais (que) não sabe o que seja o senso de culpa e do pecado." [gente, que livro que esse homem leu?! Juro que só pode ter sido uma cópia diferente da minha!]

Barreto Filho, 1947: Millor Definitivo: a Bíblia do Caos

"Essa infidelidade (de Capitu) excede o conflito moral que os romances exploram no adultério. O livro não tem semelhante vulgaridade. É uma falha mais radical, uma traição à infância, uma negação da poesia da vida, tanto mais dura, quanto se tem a impressão de que tinha de ser assim./.../ Infiel é a vida. Capitu é a imagem da vida."

Por fim, um mais recente, Millor Fernandes, aqui (dica do Bia):

Eu, porém, ao contrário dos erúditos, não tenho hipótese. Capitu deu pra Escobar. O narrador da história, Bentinho/Machado, só não coloca até o DNA de seu (do Escobar, claro) filho porque ainda não havia DNA, que atualmente está acabando com o romance “policial” e a novela passional.

* * ** * * Dom Casmurro MACHADO DE ASSIS

Defendo a ambiguidade. Eu não sei. Vai ver nem o próprio Machado sabia. O romance não é nem sobre uma adúltera safada que trai um pobre burguesinho (a certeza do adultério), nem sobre um homem obcecado por ciúmes que persegue sua inocente esposa (a certeza do não-adultério). O romance é sobre a dúvida. Se você chega em Dom Casmurro com certezas, já começou errado.

Mais interessante do que tentar adivinhar o que se passava na cabeça do autor é estudar como essas duas leituras tão óbvias e tão distintas refletem diferentes momentos da cultura brasileira. O livro continua o mesmo há 108 anos: quem mudou fomos nós. Uma história das leituras de Dom Casmurro é a própria história cultural do Brasil.

* * *
Outros livros sobre Dom Casmurro e Capitu:

 Capitu  Dom Casmurro: Escritura e Discurso: Ensaio em Literatura e Psicanálise

 Capitu: Memórias Póstumas Amor de Capitu

 

14.12.08

A Difícil Questão da Heterossexualidade

Matéria dessa semana da Revista Veja levanta de novo uma delicada questão que mexe com os brios religiosos e morais de tanta gente. Depois que o polêmico Código Civil de 2002 modificou as leis relativas ao casamento heterossexual, estima-se que agora ocorra um divórcio para cada quatro uniões matrimoniais desse tipo. Alguns radicais já afirmam que esse tipo de união é anti-natural e simplesmente não funciona. Como é uma questão que afeta a todos, mesmo os não-heterossexuais, peço que tentem responder com sinceridade ao questionário abaixo:

- Você é heterossexual? Como descobriu?

- A que atribui a causa do seu heterossexualismo?

- A pessoa já nasce heterossexual?

- Você sempre teve fantasias heterossexuais? Em sua opinião, basta ter fantasias sexuais heterossexuais para ser heterossexual ou é necessário realizá-las?

- "Uma vez heterossexual, sempre heterossexual." Concorda?

- Ter uma experiência heterossexual quando jovem faz de alguém um heterossexual?

- O heterossexual passivo é tão heterossexual quanto o ativo?

- Você tem vergonha do seu heterossexualismo?

- Sua família sabe que você é heterossexual? E seus colegas de trabalho?

- O que faria se sua filha dissesse que é heterossexual?

- Aceitaria que a professora do seu filho fosse heterossexual?

- Como responde quando alguém que ama revela que é heterossexual?

- Os heterossexuais são promíscuos por natureza?

- Deus também criou os heterossexuais? O heterossexualismo é pecado?

- Você acredita que todos os heterossexuais já estão condenados ao inferno?

- Você se considera imoral por sua heterossexualidade?

- Todo heterossexual deve declarar abertamente sua heterossexualidade?

- Deixaria seu filho dormir na casa de um coleguinha de escola que tem pais heterossexuais?

- O heterossexualismo tem cura?

- Ajudaria outras pessoas a saírem da heterossexualidade?

- Conhece heterossexuais que vivem no armário por medo de represálias profissionais ou pessoais?

- Você estaria disposto a deixar de ser heterossexual para ser promovido na empresa?

 Heterossexualidade

* * *

Inspirado nesse post da Lu, meu paradigma de mulher inteligente e gostosa. Recomendo também esse vídeo que achei no blog da Alex. E não deixe de ler meu texto: Elogio à Pansexualidade

* * *

Meus livros preferidos sobre essa "delicada questão":

Aquele Rapaz Fun Home: Uma Tragicomédia em Família

 Bom-Crioulo De Veludo Cotelê e Jeans: Crônicas Autobiográficas + Pelado

 

07.12.08


Categorias: Relacionamentos, Sexo

O Papel do Homem e o Papel da Mulher

Acho muito engraçado meus amigos homens que dizem que “ajudam” suas mulheres nas tarefas domésticas. Quando tenho saco, eu até corrijo:

“Olha só, “ajudar” é prestar um favor. É como se sua mulher, além de trabalhar tanto quanto você, ainda tivesse toda a obrigação de cuidar das tarefas domésticas mas você, do alto da sua magnanimidade, se rebaixasse a dar uma ajudinha...!”

 Por que os Homens Fazem Sexo e as Mulheres Fazem Amor?  Homens São de Marte, Mulheres São de Vênus

Inevitavelmente, quando pergunto à mulher se pelo menos ele ajuda mesmo, a resposta é sempre a mesma:

“Esse daí? É ruim, hein! Ajudar pra ele é passar água no prato antes de colocr na pia ou levantar os pés quando estou aspirando a sala.”

Homem não tem nada que “ajudar” mulher a cuidar da casa ou dos filhos: tem que cuidar junto.

Mas agora surgiu uma situação interessante na minha vida.

 Revolução das Donas de Casa  Sebastiana Quebra-Galho: Guia Prático das Donas de Casa

* * *

Moro com duas mulheres, uma italiana e uma colombiana. Não temos divisão precisa de tarefas domésticas. A idéia é dividirmos tudo. Eu, geralmente, cuido da cozinha, pois uso mais e me incomoda pia cheia de louça, balcão sujo, fogão imundo. A italiana é mais neurótica com o banheiro – o que também é natural, pois ela solta muito mais pêlo que nós. E por aí vai.

Entretanto, ambas parecem presumir que quem vai tirar o lixo sou eu. Quando mencionei o assunto, a resposta foi óbvia: “ué, você tira o lixo, claro. O homem da casa é você.”

 Marketing de Relacionamento  100 Segredos dos Bons Relacionamentos

(A sala está sem luz desde abril. A lâmpada queimou, tem uma gaveta cheia de lâmpada na cozinha, mas vocês acham que alguém trocou? Nada disso. Aparentemente, trocar lâmpada também é “coisa de homem”.)

E eu protestei:

“Olha só, das duas, uma. Se vocês querem adotar o tradicional esquema masculino-feminino da vovó, tudo bem. Eu tiro o lixo, troco a lâmpada e até furo a parede, mas nunca mais lavo uma louça, nem limpo o fogão ou passo aspirador na sala, e ainda vou deixar o banheiro todo molhado. Ou então podemos ser pós-modernos e não-sexistas, presumir que não existem tarefas intrinsecamente masculinas ou femininas, e dividirmos tudo igualmente.”

O que não pode é tirar o lixo ser “tarefa de homem”, mas esfregar o chão e limpar a privada ser tarefa de todos.

* * *

Não perca a dramática conclusão dessa história.

 Por que os Homens Mentem e as Mulheres Choram?  Como se Dar Bem com as Mulheres

 

19.09.08

Mulheres Submissas

Fala-se muito sobre sadomasoquismo e jogos sexuais de dominação de modo geral. Entre os baunilhas (ou seja, gente que faz sexo chato, do ponto de vista de quem faz sexo interessante), o assunto volta e meia vira moda. Na época da Tiazinha, foi uma comédia, aquelas revistas femininas todas, uma mais machista que a outra, recomendando dar umas palmadinhas para, finalmente!, agradar seu homem. Enfim, na enorme antologia de bobagens que se falou sobre o assunto desde “O Fetichismo”, de Freud, uma das piores é a seguinte: existem muito mais mulheres dominadoras do que submissas.

De fato, se você entra num ambiente sadomasoquista, seja festa, clube ou site (eu só sei de ouvir falar, pois jamais entraria num lugar desses, vixe!), é impressionante a desproporção: para cada mulher amarrada e amordaçada, existem vinte homens se arrastando pelo chão, levando tapas e cuspidas na cara; para cada homem de chicote na mão, existem vinte mulheres enterrando os saltos de suas botas de couros no lombo de algum tapete humano. Então, o senso comum parece óbvio como qualquer outra grande bobagem: existem muito mais mulheres dominadoras do que submissas.

Mas não é bem assim, claro.

 Gozo En-Cena: Sobre o Masoquismo e a Mulher, O

Algumas das mulheres mais dominadoras que conheço vivem vidas completamente sadomasoquistas sem jamais terem ido a festas fetichistas, vestido roupas de couro ou chicoteado alguém. Não fosse pela internet, talvez nem tivessem ouvido falar de nada disso, e não teria feito diferença alguma. Graças às maravilhosas técnicas de acasalamento humanas (que, por incrível que pareça, quase sempre acabam juntando gente que se merece), encontraram homens que gostam tanto de serem tiranizados quanto elas gostam de os tiranizar. Fantasma de Alice: Obscuros Caminhos do Masoquismo Feminino

Tenho um amigo que, apesar de baunilhão, é mais capacho do que qualquer um que nunca encontrei nessas festas sadomasoquistas que nunca fui. O homem, lindo, cobiçado e disputado pela mulherada, estava namorando há muitos anos, relação séria e comprometida. De repente, jogou tudo pro ar e começou a namorar outra, assim fora do nada. Em menos de um mês, estavam casados. Hoje, ele não dá um passo sequer sem pedir permissão. Chega a ser fofinho: o grupo decide fazer qualquer coisa, ir a qualquer lugar, e ele some pra um canto com o celular e, na maioria das vezes, volta com um bico enorme, choramingando: “poxa, não vai dar pra eu ir com vocês...” Os amigos fazem pouco, mas eu defendo: cada um sabe do que gosta. Tem gente até que gosta de lamber pé sujo.

 Cama Redonda de Maria Beatriz: Fantasias & Fetiches

Para a maioria das mulheres dominadoras, entretanto, não é tão fácil assim viver seus desejos. Depois de muitas tentativas frustradas de encontrar um capacho na baunilholândia (quase sempre, nem mesmo sabem o que estão procurando), acabam descobrindo o sadomasoquismo e se vêem obrigadas a vestir espartilhos e botas de couro para encontrar o escravo dos seus sonhos, homens que limpem suas casas vestidos de empregadinhas enquanto elas gastam seu dinheiro e riem deles.

As mulheres submissas, essas sortudas, têm uma vida muito mais fácil. Já na escola, seu instinto as leva diretamente aos meninos mais machistas e mais canalhas, que terão todo o prazer em tratá-las como os capachos que adoram ser. Em pouco tempo, estarão casadas e embuchadas, limpando a casa e cuidando dos filhos enquanto o maridão faz a festa com as vagabundas da vizinhança. E, aos fins-de-semana, ainda vão preparar churrasco pros amigos dele, limpar tudo depois e ainda suspirar com o tesão de uma mulher completamente realizada quando ele lhes der um tapa na bunda e disser: “Vai pegar mais cerveja pra rapaziada, muié!” Ao contrário das pobres dominadoras, a esmagadora maioria das submissas não precisa colocar uma coleira no pescoço e freqüentar ambientes sadomasoquistas para encontrar sua mais perfeita cara-metade.

Ou seja, não é que não existem mulheres submissas. É que, ao invés de reconhecermos o seu fetiche, as chamamos simplesmente de “mulheres à moda antiga”.

 Dicionário de Fetiches & BDSM

 

17.09.08

Histórias da Selva dos Solteiros

História real, recebida por email. Não reparem na mistura do português com inglês: a autora é brasileira, mas mora nos EUA há tempos.

"Fui prum "date" com um carinha do trabalho. To ligada, porra, of all places vou escolher um cara do trabalho? But that's besides the point. Mosca que ta' sem asa nao pode ficar escolhendo o coco onde vai pousar.

Fomos pro river boat house, que e' um restaurante/bar ao ar livre no upper west side. Muito bom. De cara no rio, a vista e' linda. Ficamos batendo papo, eu ja' tinha dito que ia pra casa cedo, mais pra descansar do que anything, eu nao tinha programa nem nada especifico pra fazer em casa.

Ele ia sair com uns amigos depois, tinha me chamado mas eu meio que vetei. I guess ele tinha que trocar de roupa entao a gente foi pro apartamento dele.

Now, pode parecer, mas eu nao sou retardada. Nao achei given, mas entendo bem o signal de eu ir pro apt dele. Nao quer dizer sim for sure, mas tb nao quer dizer nao.

E confesso que uma vez la' eu ate' pensei foda-se, se rolar to dentro, o cara e' bem gatinho e depois eu mando uma tipo nothing else can happen pq a gente trabalha juntos, fica so' na base de beijinho/amasso.

Isso ate' eu ver Ele na parede. Fully framed, um quadro. Na parede da sala. Eu squint meus olhos bem, nao tava acreditando. Pensei, devo mesmo estar bem buzzed.

Arrisquei: "who's that on the wall? Is that who I think it is?"

Ele "Yes, of course!"

Eu "Err, why do you have him framed on your wall?"

Ele "because he's the greatest man, the most brilliant thinker and leader of our times".

Meus pentelhos murcharam.

Eu "Bush?" (No pun intended)

Ele "Of course, our president!"

Eu, tirando o meu da reta no caso da conversa estar sendo gravada e eu ter que provar inocencia "He's not MY president. I'm just a foreigner. And I don't vote".

Ce acredita? Obviamente nao rolou nada depois disso. Imagina a foto do homem no apartamento de solteiro dele, com os stainless steel appliances, em pleno bloco animal no Village. Surreal.

Obviamente depois disso nao rolou. That says so much about him, opt-out, no I would not like to receive further communication from you, thank you.

Uma pena. A bunda dele e' tao gostosinha. Truly a waste."

Meu pitaco: eu não teria contra sair com uma mulher que vota ou apóia o Bush, mas confesso que teria medo de alguém que coloca uma foto emoldurada do homem na parede - isso indica um nível de envolvimento emocional que ninguém deveria ter com político nenhum. Voto no Gabeira toda eleição e também ficaria horrorizado se encontrasse, na sala da gatinha de Ipanema, uma foto emoldurada do prefeitável maconheiro.

* * *

Uma matéria sensacional do The Onion:

Report: U.S. Foreign Policy Hurting American Students' Chances Of Getting Laid Abroad

AMSTERDAM—American students traveling abroad confirm the findings of a study indicating that Washington's unilateral approach to foreign policy has seriously undermined Americans' chances of getting laid.

"I've been in Amsterdam for two months and have yet to begin a conversation with a cute girl that hasn't ended in a lecture about how big, evil America is taking everyone's oil," said college sophomore Brad Higgs, a participant in Johns Hopkins University's study-abroad program. "I offer to buy them a drink, and they tell me I shouldn't just stand by and watch Bush destroy the world. Look, if I had that type of pull with the president, I obviously wouldn't be out trolling for anonymous Dutch pussy." (...)

Higgs, who spends most of his time in his hostel playing solitaire and watching DVDs on his laptop computer, urged students back home to write to their congressional representatives.

"This affects all of us," Higgs said. "The government has to acknowledge the needs of young Americans. Too many U.S. citizens in foreign lands are spending sleepless, lonely nights jerking off in increasingly filthy sleeping bags. It sucks.

(Leia a matéria completa)"

 Contra Bush

 Livro Oficial do Filme Fahrenheit 11 de setembro, O

 

13.08.08


Categorias: Política, Relacionamentos

Solidão

Sem Tesão Não Há Solução ROBERTO FREIREÀs vezes, me sinto muito sozinho.

Quem quer ser patriota tem toda a estrutura do Estado Nacional a seu favor, aulas de Moral e Cívica, brasão da república, desfile de sete de setembro. Quem quer viver uma relação monogâmica tem todo o apoio da moral conservadora, encontros de casais em cristo, colunas de relacionamento em jornais, livros de auto-ajuda, conselhos da vovó. Quem é religioso tem igrejas, templos, sacerdotes, pais-de-santos, e muitos livros grossos que regulam nos mínimos detalhes o que é certo e errado, moral e imoral.

 Walden - HENRY DAVID THOREAU Quem trilha um novo caminho não tem esses luxos.

Um ateu não tem quem lhe diga o que é certo e errado, moral e imoral: ele precisa escrever, todo dia, com sua consciência e através dos seus atos, o seu próprio livro sagrado.

Quando tenho problemas nos meus relacionamentos abertos, como estou tendo agora (a vida na fronteira não é fácil e os índios arrancam seu escalpo sem piedade), não posso usufruir da sabedoria acumulada dos meus amigos e parentes. Não existe livro de auto-ajuda pra mim. A Bíblia não colabora. Não tenho nem amigos com quem conversar. Pior, quando converso, já sei o que vão dizer, e é sempre a mesma coisa: viu, é por isso que essa merda não dá certo! Por que você não faz que nem todo mundo e pronto?

Ame e Dê Vexame ROBERTO FREIREAinda tem essa. Além de todas as dificuldades do caminho menos trilhado, todos ainda querem lhe puxar de volta para a estrada principal. Cada passo tem que ser dado como se o mundo tivesse sido criado ontem. Cada rodinha tem que ser reinventada do zero. Todas as forças culturais, políticas e sociais nos impulsionam à monogamia, ao tribalismo, à pequenez.

Simplesmente não tenho com quem dividir minhas dúvidas, minhas tristezas, meus dilemas. E me sinto sozinho e cansado.

 

11.08.08


Categorias: Relacionamentos

Quando Morrem os Pêssegos, Conto

Disseram o nome de Belito e Laís teve um sobressalto. Por um instante, pensou que fosse um advogado, mas estava muito tarde pra se falar de divórcio.

- A senhora é a esposa? - Insistiu a voz.

Laís hesitou.

Ele saíra de casa fazia dois meses, se declarando sem intenções de voltar. Levara só uma valise. Como estava se virando com tão pouca roupa? Belito sempre usou, no mínimo, duas cuecas por dia.

Sobre o aparador, permanecia a marca redonda na poeira. O abajur tinha se quebrado em tantos pedaços que Laís nem tentou colar. Havia sido ela a primeira a falar em separação, é verdade, mas a iniciativa de sair fora de Belito.

- Sou a esposa. - Afirmou, incerta.

- Meu nome é soldado Josino, da 7ª CIPM. - Começou o outro. Quase deu seu número de registro - Aconteceu um acidente. Se a senhora pudess-

- Acidente? Com o Belito? Ele está bem?

Silêncio.

O soldado Josino acabara de se graduar. Aquela era sua primeira emergência. Espremeu o cérebro: o que o major Ruas faria se estivesse aqui? Mas o major Ruas não estava lá e não disse nada:

- Seu marido... morreu. Se a senh-

- Onde?

- Na Sernambetiba, logo antes do Barramares. Do lado da cabine da PM. Foi agora, quer dizer, eu vi tudo. Aconteceu muito rápido, mas já chamei uma ambulância. Se a senhora quis-

Laís morava no Barramares, em um dos prédios detrás, e cruzou o condomínio de camisola e descalça. Será que Belito estava vindo encontrá-la?

Distinguiu o Suzuki cinza de longe, encravado em um coqueiro e virado sobre a lateral esquerda. O lado do motorista. O lado de Belito. Correu mais.

Quanto ao solitário Josino, aquela aparição branca e esvoaçante terminou de lhe destruir os nervos. As rosas amarelas espalhadas pela grama pioravam a situação. E soprava um vento que Josino, mesmo acostumado aos vendavais da Sernambetiba, considerava gelado demais para fins de maio no Rio. Ele se sentia doente.

Laís foi direto para o canteiro central.

O Suzuki Hatch, pequeno e frágil, parecia uma sanfona espremida contra o coqueiro. Por debaixo das ferragens, escapava um braço. Laís reconheceu o Tissot retangular de Belito. Tinham comprado juntos, na Rue de Mont Blanc, em Genebra. Belito adorava o relógio.

Josino se aproximou:

- É proibido... A senhora não pode-

A violência do impacto quebrara todos os vidros do Suzuki. Ela se ajoelhou sobre os cacos e baixou a cabeça, procurando pelo resto de seu marido. Nada. O carro, tombado para a esquerda, bloqueava a janela do motorista e deixava revelar apenas aquele braço.

Laís engatinhou sobre a grama. Pelo pára-brisas, também não conseguiu vê-lo. Estava escuro e ela enxergava somente um amontoado indistinto. Teve a impressão de que toda a parte interna do automóvel despencara sobre Belito.

O soldado Josino ia acompanhando as perambulações da estranha, agoniado. Tocaiava os confins da avenida: onde estaria a patrulhinha, a ambulância, algum superior, alguém?

De repente, ela se levantou.

Vez ou outra, o vento forte agitava a camisola e revelava porções de seu corpo. E Josino se perguntava: "Será que ela não sente frio?!". A mulher tinha pernas bonitas e ele reparou o sangue escorrendo de seus joelhos:

- Hã... A senhora não devia andar descalça por aqui. Tem cacos de vidro, sabe?

Laís se esticou na ponta dos pés, tentando alcançar a janela do passageiro. Não conseguiu. Alto demais. Precisava ver Belito, mas como?

Recuou um passo e pisou em uma rosa. Tinha as solas dos pés tão cortadas que nem doeu. Ainda estavam sensíveis o bastante, porém, para que ela pudesse diferenciar um caco de vidro dos espinhos de uma flor.

Percebeu as rosas. Espalhadas por todos os lados. Rosas amarelas, suas preferidas. Laís recolheu uma das flores e cheirou-a.

- Coitado, não foi culpa dele! - Desembestou o soldado Josino, renunciando à sua tentativa de autocontrole.

- Eu vi! Eu vi! - Repetiu.

Josino precisava falar:

- Ele nem vinha rápido, não. - Contou - Estava sozinho na pista da esquerda. Só ele na rua.

Laís olhou em volta: as flores haviam se espalhado por uma área maior do que ela imaginaria. Chafurdar o Suzuki seria inútil. Começou a procurar pela grama. Talvez encontrasse outros sinais de Belito, além das rosas.

- Quase aqui em frente à cabine, - Prosseguiu o soldado - ele deu seta pra direita nem sei por quê, como se fosse entrar no Barramares. Seta pro nada: não tinha ninguém atrás.

Apenas rosas, ela pensou. Rosas amarelas, mas apenas rosas. Continuou procurando.

- Ele vinha trocando de pista tranqüilo, devagar, a seta ligada até, quando, de repente, esse jipe apareceu sei lá de onde. A uns cento e sessenta quilômetros por hora, no mínimo! Um absurdo!

Nas sombras do carro destruído, Laís encontrou o embrulho, depositado aos pés de um coqueiro como presentes sob uma árvore de natal. Abaixou-se para recolhê-lo.

O soldado Josino estava revoltado:

- Nas madrugadas de fim-de-semana, esses moleques de condomínio acham que a Sernambetiba é pista de corrida. Toda hora tem pega por aqui. Cento e sessenta virou velocidade normal, vê se pode! E o safado do jipe ainda vinha pela direita!

Laís reconheceu de imediato aquele papel de presente verde-escuro: Kosmos, no Centro, o sebo favorito dos dois. Escrito em caracteres grandes, com caneta fosforescente, estava o seu nome: "Laís".

A caligrafia geométrica de Belito era inconfundível, mesmo em apenas quatro letrinhas. Havia o "L" apertado, formando um ângulo agudo ao invés de reto; o "a" que, com sua junção do meio rebaixada, parecia um triângulo; o acento do "i" mais longo do que a própria letra; e o "s" sem curvas, na verdade um "z" ao avesso. Belito, com certeza.

Atrás dela, Josino leu as quatro letras e, finalmente, fez a conexão entre essa estranha e a voz com a qual falara ao telefone.

Quis sumir de vergonha, mas reparou um sorriso no rosto de Laís. Ela sorria! A viúva!

Ansiosa, mas tomando cuidado pra não destruir o papel, Laís desembrulhou o presente. Belito conseguira! De algum modo, ele e seu Maurício, o curador do sebo, tinham encontrado o que o ela procurava há catorze anos: Quando Morrem os Pêssegos, de Jácome Gol, primeira edição, de 1925. Agora, uma vez mais, Laís possuía todos os livros de um de seus autores prediletos.

No começo do casamento, Belito e ela haviam morado no Chile, em uma casinha simpática no bairro de Vitacura. Um belo dia, porém, em junho de 1982, uma cheia do rio Mapocho lavou a casinha simpática do mapa. As águas carregaram tudo o que tinham - naquela época, verdade seja dita, era pouco - mas esse pouco incluía os únicos cinco livros publicados de Jácome Gol, verdadeiras raridades.

Da desgraça, nasceu um passatempo delicioso, que os uniu ainda mais: vasculhar os sebos do país e reconstruir, livro a livro, a biblioteca que fora por água abaixo. Catorze anos depois, faltavam apenas alguns; entre eles, o seu preferido: Quando Morrem os Pêssegos.

Folheou o presente. Estava repleto de trechos sublinhados e anotações nas margens. Seu dono anterior, com certeza, também era entusiasta de Jácome Gol.

Voyeuse, Laís se lembrou de outro prazer íntimo que dividia com Belito: xeretar os comentários de leitores passados, desvendar a alma deste estranho que lera aquele livro sabe-se lá quando, mas que deixara nele a marca de suas opiniões.

Assim, eles passavam horas e horas. Enroscados na cama, virando páginas que quase se desfaziam em suas mãos e discutindo o motivo pelo qual uma frase havia sido sublinhada décadas antes.

E tudo sempre acabava em sexo. Pelo menos, durante os bons tempos. Mas Laís não queria saber de nenhum outro tempo.

Levou o livro ao nariz e saboreou o aroma de papel velho.

Parece criança com brinquedo novo, pensou Josino. Abria, folheava, passava de mão em mão, até cheirava. Sempre com aquele sorriso bobo nos lábios, um brilho estranho nos olhos.

Mas ela era a esposa. A viúva, se corrigiu. Merecia um relatório completo da morte do marido. Assumiu sua postura militar - ficava mais à vontade assim - e continuou de onde havia parado:

- O jipe vinha pela direita, a uns cento e sessenta quilômetros por hora. Quando seu marido começou a trocar de pista, com a seta ligada, o jipe não estava nem visível ainda. De tão rápido, imagino que ele deve ter aparecido de repente no espelho retrovisor do Suzuki. Então, pra evitar a batida por trás, seu marido guinou pra esquerda, acabou perdendo o controle do carro e subiu no canteiro.

Completou:

- Foi isso.

Pronto. Josino sentiu-se aliviado. Cumpri minha obrigação. Fiz o que podia. E deu de costas para a mulher do livro.

Uma longa dedicatória enchia a segunda capa e as primeiras páginas dos pêssegos, espremida por entre o nome do autor, o título e os dados bibliográficos. Ambos nunca hesitaram em deixar sua marca nos livros que liam, fossem raros ou valiosos, e os excitava imaginar um outro casal, décadas no futuro, tentando decifrar suas vidas e motivações.

Uma, duas, três vezes Laís repassou aquelas palavras. Belito pedia perdão: listava, em sua mea-culpa, erros novos e antigos, e implorava por clemência. Laís riu. Como se ela também não tivesse estourado sua cota de erros!

E se o amor de Laís abonara tantos crimes anteriores, escreveu ele, tomara que ainda restasse piedade para absolvê-lo uma última vez. Porque ele estava voltando. Na verdade, Belito observou, queria ter voltado há tempos. Adiara o retorno por achar que algo assim importante deveria acontecer em uma data especial.

Afobada, Laís olhou para o relógio. Uma e meia da manhã. Já era sábado, 25 de maio de 1996. Ela pensara nisso o dia inteiro e, na afobação da noite, acabara esquecendo:

25 de maio de 1996, seu aniversário de casamento.

Na dedicatória dos pêssegos, Belito dizia tanto e, ao mesmo tempo, tão pouco. Suas frases sugeriam mais do que afirmavam e concluíam, quase todas, com o lembrete de que poderiam conversar sobre aquilo pessoalmente. Que teriam o resto da vida para falar sobre o que quisessem. Pessoalmente.

A última linha, entretanto, era enfática:

Do seu marido, Belito. 25 de maio de 1996. 15 anos completos de paixão.

Sublinhara ele próprio as duas palavras, um velho hábito seu. Gostava de dar ênfase ao que considerasse essencial.

Também costumava se gabar do uso exato que fazia da linguagem. Desta vez, como sempre, ele fora preciso em seus termos. Escrever 15 anos completos de felicidade seria hipócrita. Ambos lembravam-se bem dos maus momentos. Haviam sido muitos.

Mas a paixão, de fato, estivera presente durante cada dia daqueles quinze anos. Sem abatimento, sem falta. A mesma paixão que os mantinha unidos alimentava os golpes que desferiam um contra o outro. Golpes intensos, às vezes cruéis. Sempre apaixonados. Da paixão ela jamais duvidara.

Começou a chorar.

Feito o relatório, Josino se afastara. Que digerisse sozinha a dor, refletiu. Quanto a ele, cabia-lhe esperar pela ambulância que não chegava nunca.

Aproximou-se ao reparar as lágrimas de Laís e ficou ainda mais sem graça. Sentiu-se quase culpado. De algum modo, deveria ter impedido o acidente. Era ele, Josino, o responsável pela viuvez da mulher.

Acariciou os ombros daquela completa estranha. Em sua cabeça, a experiência compartilhada pelos dois, em uma madrugada fria defronte à praia, lhe permitia a liberdade do toque. Apenas, para evitar mal-entendidos, tomou cuidado com o gesto e foi o mais suave que pôde:

- Fica assim não, dona Laís. Sei como a senhora se sente, já passei por isso também. A gente tem que ser forte, tem que confiar em deus. Não fomos nós que perdemos uma pessoa amada, foi deus quem ganhou uma.

Laís aceitou a carícia. Virou-se para ele e percebeu, pela primeira vez na noite, a presença do policial. Mas Josino entendera tudo errado.

Ela não perdera nada. Pelo contrário.

Abraçou o livro: Laís estava chorando de felicidade.

* * *

Onde Perdemos Tudo, por Alex CastroO conto "Quando Morrem os Pêssegos" faz parte do meu livro Onde Perdemos Tudo, lançado diretamente na internet. São 5 contos, em 120 páginas, sobre o tema comum de perda.

O ebook, em formato pdf, custa R$10 e pode ser adquirido através do site d'Os Vira-Lata, que aceita todos os cartões de crédito, alguns de débito, depósito em conta e faz até boleto. Tudo pro negócio rolar. Você paga e, assim que cair o pagamento, eu te envio o livro por email.

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Quem sabe, vai ver é até bom!

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Os problemas com a compra do livro já foram solucionados, podem comprar à vontade!

 

10.07.08


Categorias: Relacionamentos, Livros

Necessidade de Celular

Enquanto estava refugiado do Katrina em São Francisco, saí em alguns dates com uma moça local. O maior ponto de atrito do incipiente relacionamento foi a questão do celular.

Qual é seu celular?, pediu ela.

Não tenho.

Ah, vai, pode me dar, juro que não fico ligando o tempo todo.

Não tenho mesmo.

Sério, é só pra caso dê algum desencontro.

Eu juro que não tenho celular.

Então também não dou o meu.

*suspiro*

 

07.07.08

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Mulher de Um Homem Só

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Um blog sobre rebeldia, contemplação e sacanagem, regado a muita literatura e humor. Nosso assunto são as várias prisões que acorrentam o homem, como ambição, verdade e medo. Dê sua opinião!


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Meus Livros à Venda:

  • Radical Rebelde Revolucionário
  • Onde Perdemos Tudo, por Alex Castro

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Diário de Leituras 2008

  • 100. Roediger, David R. The Wages of Whiteness. Race and the Making of American Working Class. [EUA, 1991] Nov.26 (TulBib)
  • 99. Roediger, David R. Colored White. Transcending the Racial Past. [EUA, 2002] Nov.25 (TulBib)
  • 98. Roediger, David R. Towards the Abolition of Whiteness. Essays on Race, Politics, and Working Class History. [EUA, 1991] Nov.26 (TulBib)
  • 97. Mills, Charles W. The Racial Contract. [EUA, 1997] Nov.22 (TulBib)
  • 96. Machado, Ubiratan. A Vida Literária no Brasil Durante o Romantismo. [Brasil, 2001] Nov.22 (ILL)
  • 95. Buruma, Ian & Avishai Margalit. Occidentalism: the West in the Eyes of its Enemies. [EUA, 2004] Nov.20
  • 94. Alencar, José. Lucíola. [Brasil, 1862] Nov.13
  • 93. Achebe, Chinua. Things Fall Apart. [Nigéria, 1959] Nov.12
  • 92. Matheson, Richard. I Am Legend. [EUA, 1954] Nov.11
  • 91. Alencar, José. O Tronco do Ipê. [Brasil, 1871] Nov.10
  • 90. Morrison, Toni. Playing in the Dark. Whiteness and the Literary Imagination. [EUA, 1992] (TulBib) Nov.7
  • 89. Eiró, Paulo. Sangue Limpo. [Brasil, 1861] (ILL) Out.
  • 88. Pinheiro Guimarães, Francisco. História de uma Moça Rica. [Brasil, 1861] Out.
  • 87. Teixeira e Souza, Antonio. O Filho do Pescador. [Brasil, 1843] (TulBib) Nov.6
  • 86. Almeida, Julia Lopes de. A Viúva Simões. [Brasil, 1897] (TulBib) Nov.6
  • 85. Ignatiev, Noel. How the Irish Became White. [EUA, 1995] (TulBib) Nov.
  • 84. Thompson, E. P. The Making of the English Working Class. [Reino Unido, 1966] (TulBib) Nov.
  • 83. Telles, Edward E. Race in Another America. The Significance of Skin Color in Brazil. [EUA, 2004] Nov.
  • 82. Macedo, Joaquim Manuel de. As Vítimas-Algozes. Quadros da Escravidão. [Brasil, 1869] Out.18
  • 81. Cuenca, João Paulo. O Dia Mastroianni. [Brasil, 2007] Out.
  • 80. Gorak, Jan, ed. Canon vs Culture. Reflections on the Current Debate. [EUA, 2001] Out. (TulBib)
  • 79. Morrissey, Lee, ed. Debating the Canon. A Reader from Addison to Nafisi. [EUA, 2005] Out. (TulBib)
  • 78. McKinney, Karyn. Being White. Stories of Race and Racism. [EUA, 2005] Out. (TulBib)
  • 77. Lund, Joshua et al. Gilberto Freyre e os Estudos Latino-Americanos. [EUA, 2006] (TulBib)
  • 76. Branche, Jerome. Colonialism and Race in Luso Hispanic Literature. [EUA, 2005] (TulBib)
  • 75. Falcão, Joaquim et al. Imperador das Idéias. Gilberto Freyre em Questão. [Brasil, 2001]
  • 74. Döpp, Hans-Jurgen. Sadomasochism: On the Ecstasies of the Whip. [Alemanha, 2003] Set.
  • 73. Diamond, Jared. The Third Chimpanzee. The Evolution and Future of the Human Animal. [EUA, 1992] Set.
  • 72. Suzuki, Daisetz Teitaro. The Zen Koan as a Means of Attaining Enlightenment. [Japão, 1950] Set.
  • 71. Skidmore, Thomas E. Black into White. Race and Nationality in Brazilian Thought. [EUA, 1974] Set. (TulBib)
  • 70. Peter Pauper Press. Zen Buddhism. [EUA, 1959] Set.
  • 69. Ventura, Roberto. Estilo Tropical. História Cultural e Polêmicas Literárias no Brasil, 1870-1914. [Brasil, 1991] Ago. (TulBib)
  • 68. Freyre, Gilberto. Casa Grande & Senzala. [Brasil, 1933] Ago.
  • 67. Andrade, Carlos Drummond et al. Elenco de Cronistas Brasileiros. [Brasil, c.1950-2000] Ago.
  • 66. Veríssimo, Luis Fernando. Histórias Brasileiras de Verão. [Brasil, c.2000] Ago.
  • 65. Veríssimo, Luis Fernando. Novas Comédias da Vida Privada. [Brasil, c.2000] Ago.
  • 64. Rodrigues, Nelson. O Óbvio Ululante. Primeiras Confissões. [Brasil, c.1960] Ago.
  • 63. Lispector, Clarice. A Descoberta do Mundo. [Brasil, c.1960] Ago.
  • 62. Lima Barreto, Afonso Henriques de. Crônicas Escolhidas. [Brasil, c.1900-1920] Ago.
  • 61. Alencar, José de. Crônicas Escolhidas. [Brasil, c.1860] Ago.
  • 60. Machado de Assis, Joaquim Maria. Crônicas Escolhidas. [Brasil, c.1870-1900] Ago.
  • 59. Mankell, Henning. The Fifth Woman. [Suécia, 2000] Ago.15
  • 58. Mankell, Henning. The Man Who Smiled. [Suécia, 1994] Ago.10
  • 57. Lindsay, Jeff. Dexter in the Dark. [EUA, 1997] Ago.
  • 56. Couto, Mia. A Varanda do Frangipani. [Moçambique, 1996] Ago.
  • 55. Coutinho, Odilon Ribeiro. Gilberto Freyre ou O Ideário Brasileiro. [Brasil, 2005] Ago.
  • 54. Albuquerque, Roberto Cavalcanti de. Gilberto Freyre e a Invenção do Brasil. [Brasil, 2000] Ago.
  • 53. Chacon, Vamireh. A Construção da Brasilidade. Gilberto Freyre e sua Geração. [Brasil, 2001] Ago.
  • 52. Araujo, Ricardo Benzaquen de. Guerra e Paz. Casa Grande & Senzala e a Obra de Gilberto Freyre nos Anos 30. [Brasil, 1994] Jul.
  • 51. Schwarcz, Lilia Moritz. O Espetáculo ds Raças. Cientistas, Instituições e Questão Racial no Brasil, 1870-1930. [Brasil, 1993] Jul.
  • 50. Isfahani-Hammond, Alexandra. White Negritude. Race, Writing, and Brazilian Cultural Identity. [EUA, 2008] Jul.
  • 49. Bosi, Alfredo. Dialética da Colonização. [Brasil, 1992] Jul.
  • 48. Salles, Ricardo. Nostalgia Imperial. A Formação da Identidade Nacional no Brasil do Segundo Reinado. [Brasil, 1996] Jul.
  • 47. Salles, Ricardo. Joaquim Nabuco. Um Pensador do Império. [Brasil, 2002] Jul.
  • 46. Nabuco, Joaquim. O Abolicionismo. [Brasil, 1883] Jul.
  • 45. Nabuco, Joaquim. Minha Formação. [Brasil, 1899] Jul.
  • 44. Weber, João Hernesto. A Nação e o Paraíso. A Construção da Nacionalidade na Historiografia Literária Brasileira. [Brasil, 1997] Jul.
  • 43. Gofman, Rosane & Eny Lea Gass. Empregadas e Patroas. Uma Relação de Amor. [Brasil, 1998] Jul.
  • 42. Graham, Sandra Lauderdale. Proteção e Obediência. Criadas e seus Patrões no Rio de Janeiro, 1860-1910. [EUA, 1988] Jul.
  • 41. Maio, Marcos Chor. Raça, Ciência e Sociedade. [Brasil, 1996] Jun.
  • 40. Almeida, Luana Chnaiderman de. Entremeios e Entretempos. Aproximações ao Filme Shoah de Claude Lanzmann. [Brasil, 2006] Jun.
  • 39. Levi, Primo. É Isto Um Homem? [Itália, 1946] Jun.
  • 38. Sartre, Jean-Paul. A Questão Judaica. [França, 1946] Jun.29
  • 37. Costa, Angela Marques da e Lilia Moritz Schwarcz. 1890-1914. No Tempo das Certezas. [Brasil, 2000] Jun.
  • 36. Holanda, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. [Brasil, 1934] Jun.9
  • 35. Villa, Marco Antonio. Canudos. O Povo da Terra. [Brasil, 1995] Jun.7
  • 34. Brandão, Adelino. Euclides da Cunha e a Questão Racial no Brasil. A Antropologia de Os Sertões. [Brasil, 1990] Jun.6
  • 33. Moura, Clóvis. Introdução ao Pensamento de Euclides da Cunha. [Brasil, 1964] Jun.6
  • 32. Lima, Luiz Costa. Terra Ignota: a Construção de Os Sertões. [Brasil, 1997] Jun.5
  • 31. Bernucci, Leopoldo M. A Imitação dos Sentidos: Prógonos, Contemporâneos e Epígonos de Euclides da Cunha. [Brasil, 1995] Jun.4
  • 30. Lima, Luiz Costa. Euclides da Cunha, Contrastes e Confrontos no Brasil. [Brasil, 2000] Jun.4
  • 29. Haddon, Mark. O Estranho Caso do Cachorro Morto. [Reino Unido, 2005] Mai.
  • 28. Guilherme, Paulo. Goleiros: Heróis e Anti-Heróis da Camisa 1. [Brasil, 2006] Mai.
  • 27. Krakauer, Jon. Na Natureza Selvagem: a Dramática História de um Jovem Aventureiro. [EUA, 1996] Mai.
  • 26. Cunha, Euclides da. Os Sertões. Campanha de Canudos. [Brasil, 1902] Mai.
  • 25. Wilder, Thornton. Bridge of San Luis Rey. [EUA, 1927] Mai.
  • 24. João de Patmos. Apocalipse. [Grécia, c.séc.I] Abr.
  • 23. Manzano, Juan Francisco. Autobiografia de un Esclavo. [Cuba, 1836] Abr.
  • 22. Castelnau, Francis de. Entrevistas com Escravos Africanos na Bahia Oitocentista. [Brasil, séc.XIX] Abr.
  • 21. Suzuki, Daisetz Teitaro. Introdução ao Zen Budismo. [Japão, 1934] Mai.
  • 20. Goethe, Johann Wolfgang Von. Faust. [Alemanha, 1832] Mai.
  • 19. Lisboa, Adriana. Rakushisha. [Brasil, 2007] Abr.
  • 18. Tezza, Cristovão. O Filho Eterno. [Brasil, 2007] Abr.
  • 17. Piñon, Nélida, A República dos Sonhos. [Brasil, 1984] Abr.
  • 16. Fanon, François. Black Skin, White Masks. [Martinica, 1952] Abr.
  • 15. Rheda, Regina. Pau de Arara Classe Turística. [Brasil, 1993] Abr.
  • 14. Guillory, John. Cultural Capital. The Problem of Literary Canon Formation. [EUA, 1993] Mar.7-10.
  • 13. Fonseca, Rubem. Feliz Ano Novo. [Brasil, 1975] Mar.11
  • 12. Butler, Octavia. Kindred. [Estados Unidos, 1979] Mar.7
  • 11. Ribeiro, João Ubaldo. Viva o Povo Brasileiro. [Brasil, 1984] Fev.
  • 10. Lispector, Clarice. Laços de Família. [Brasil, 1960] Fev.
  • 9. Veiga, José J. A Hora dos Ruminantes. [Brasil, 1966] Fev.
  • 8. Ramos, Graciliano. Vidas Secas. [Brasil, 1938] Jan.
  • 7. Pinto, Fernão Mendes. Peregrinações. [Portugal, séc.XVI] Fev.- (TulBib)
  • 6. Antunes, Antonio Lobo. O Esplendor de Portugal. [Portugal, 1997] Fev.-
  • 5. Santos, Gislene Aparecida dos. A Invenção do Ser Negro. Um Percurso das Idéias que Naturalizaram a Inferioridade dos Negros. [Brasil, 2002] Fev. (TulBib)
  • 4. Scott, Rebecca J. e outros. The Abolition of Slavery and the Aftermath of Emancipation in Brazil. [EUA, 1988] Fev.
  • 3. Moura, Clovis. O Negro: de Bom Escravo a Mau Cidadão? [Brasil, 1977] Fev. (TulBib)
  • 2. Suassuna, Ariano. Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta. [Brasil, 1971] Jan. (Releitura)
  • 1. Lima Barreto, Afonso Henriques de. Clara dos Anjos. [Brasil, 1922] Jan.

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