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Durante seis anos (1994-2000), eu colaborei pra Revista Mad com o pseudônimo Xandelon. Escrevi muitas matérias de capa, fui até sub-editor uma época (1996). Como a redação era na casa do Ota, eu ia lá todos dias, antes da universidade - estudava no IFCS, à noite. Naquela época, o Mad era praticamente o único veículo que publicava quadrinhos nacionais originais e pagava em dia. Todo mundo que era alguém passava por lá. E a casa do Ota era o verdadeiro paraíso para qualquer fã de quadrinhos. Os três quartos e a sala eram coalhados de estantes, caixotes, com todos os gibis que vocês podem imaginar, bonecos, memorabilia, fitas de vídeo.
Quando a Record parou de publicar justamente os melhores títulos da Bonelli (Dylan Dog, Martin Mystere e Mister No), que o Ota editava, ele me deu as coleções completas desses gibis que são, até hoje, os meus preferidos de todos os tempos, centenas e centenas de exemplares que seriam simplesmente impossíveis de conseguir de qualquer outra maneira. Já me desfiz de quase tudo que eu tinha nessa vida, mas as coleções completas de Dylan Dog, Martin Mystere e Mister No continuam na minha estante. Foi o melhor presente que já ganhei.
Trabalhar pro Ota é difícil, mas ser meu chefe também não deve ser fácil. A gente já brigou pra caralho, mas tenho um carinho animal por ele. É um dos caras mais sérios, íntegros e generosos que já conheci. Todo dia aparecia um cartunista morrendo de fome na redação, contando histórias tristes de luz cortada e filhos doentes, e com uma charge horrível debaixo do braço. O Ota tirava dinheiro do bolso pra emprestar, mas não botava cartum ruim na revista. A Mad não foi o que foi à toa.
Agora, hoje, domingo, 14 de dezembro, o Ota está fazendo um megaleilão e se desfazendo do que talvez seja a maior coleção de gibis do país. Não é fácil fazer o que ele está fazendo: eu sei, já fiz muito. Chego no Rio depois de amanhã, senão passava lá hoje à tarde, pra dar um abraço nele e ver quem mais vai aparecer.
Aí, Ota, desculpa qualquer coisa, eu te amo, viu? E não estou dizendo isso pra puxar seu saco porque você é o editor da Mad.
Mais Arnaldo Branco. Mais Ali Kamel.
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A genialidade está nos detalhes. Reparem que o agressor está segurando um porrete mas, ao invés de usá-lo, dá um soco na cara do outro.
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E a minha preferida, que define muito bem porque apesar de ter me formado em história (que aqui fazem parte dos Social Sciences) eu agora estou estudando literatura (que faz parte dos Humanities):
As tiras do Garfield, sem o Garfield, ficam estranhamente geniais:
Garfield Minus Garfield - http://www.garfieldminusgarfield.tumblr.com
Quando eu digo que gosto de mulheres malvadas, a maioria dos leitores simplesmente não entende o que quero dizer com isso. Não tem problema: o objetivo do comentário não é explicar o mundo para os desavisados, mas atrair os entendidos.
Eu me revelo justamente para descobrir quem vai bailar comigo e quem vai se encostar na parede. Muita gente me acha esquisito? Claro. Essa é a idéia. Não tenho medo de rejeição. Ser rejeitado pelas pessoas pequenas só faz bem. Os pequenos se afastarem de mim por conta própria me poupa o trabalho de espantá-los a pauladas.
Troco alegremente a rejeição dos pequenos pela aceitação dos grandes.

Talvez a melhor e mais fascinante mulher má da literatura, em um empolgante livro de ação à moda antiga.
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Um dos últimos exemplares da revista da Mulher-Gato abre com uma loira gostosa e peituda falando numa webcam: ela está mostrando uma pobre menininha, também loirinha e angelical, amarrada e amordaçada numa cadeira. Ela se apresenta como Blitzkrieg, a mais nova, maior e mais malvada vilã de Gotham City e, para provar, vai matar a pobre e inocente menininha ao vivo, com transmissão pela internet:
"This little girl is going to die and there's nothing you can do it about it. Don't bother trying to figure out why she's the one. It was a totally random thing, believe me. See, this has nothing to do with her. This is all about me!"
Total e completo egocentrismo: só ela importa. A menina é menos que uma, somente um meio para seu fim, sua glória, sua vitória.
A Mulher-Gato (a nova Mulher-Gato, aliás, toda atrapalhada) cai do telhado aos pés da vilã e ela pergunta, em uma daquelas perguntas cruelmente irônicas e bem-humoradas que deixa claro qual será o destino da heroína:
"Any last words for the million-plus viewers glued to their laptops?"
Nada mais sexy do que ironia de vilã.
Quando a Mulher-Gato acorda, Blitzkrieg, óbvio, está se gabando do seu plano maligno: comprou aquelas luvas que emitem raios de um grupo terrorista e escolheu o nome Blitzkrieg por ser assim meio alemão e meio sinistro: "sounds sort of ominous". Não é lindo uma mulher que quer soar "ominous"?
Seu plano é simples: depois de estourar os olhinhos castanhos da menina pela nuca (sua palavras!), toda a cidade vai falar nela! E ainda pergunta: "um plano doce, não?" Eu quase posso ouvir sua voz, igualmente doce, falando palavras tão incrivelmente cruéis.
O plano, apesar de simples (matar uma menina inocente ao vivo e ficar famosa) parece extraordinariamente cruel e leviano. Assim como a Madrasta Má e tantas outras vilãs, Blitzkrieg é extremamente vaidosa: adora saber que milhares de pessoas estão assistindo-a e pretende matar uma criança inocente só para que a cidade toda fale nela. E está empolgada com seu plano.
A vilã anuncia para a câmera: sim, a pobre menininha ainda vai morrer, mas teremos um novo assassinato antes pra deixá-los com água na boca. Ela aponta suas luvas para a Mulher-Gato com um grande sorriso nos lábios e ainda faz pouco dos esforços da heroína para salvar a menina. Claramente sente prazer em que a Mulher-Gato morra sabendo que deu tudo errado, que ela fracassou e Blitzkrieg venceu e, pra melhorar, que a menina ainda assim vai morrer:
"Think you're pretty smart, don't you? All you did was speed things up. You die now. Then the kid gets it. Happy?"
Mas a Mulher-Gato se desvia dos raios no último segundo e fica apenas muito ferida. Blitzkrieg se impressiona
("Still alive? I'm impressed!")
e diz que, como prêmio por ter sobrevivido mais um pouco e enquanto está se roendo de dor no chão, a Mulher-Gato vai poder assisti-la matando a pobre menininha:
"I'm gonna let you watch me kill your little friend."
Não basta matar as duas, heroína e menininha, a vilã ainda sente prazer em que Mulher-Gato vai ter que assistir a morte da criança que tentou salvar - e que isso vai ser uma das últimas coisas que verá. O sofrimento e frustração da pobre heroína alimentam seu ego. Para a vitória completa e egoísta da vilã, é necessário acabar com todos, não deixar testemunhas: no seu final feliz perfeito, ela sozinha é a dona do campo de batalha.
Nessa hora, naturalmente, ela comete o erro de toda vilã, dá as costas pra heroína ferida, a heroína puxa forças sei lá de onde e acaba com ela. Final feliz. Fim de história.
Enfim, um gibi bem fraco. Mas eu, que coleciono e adoro vilãs, há muito tempo não via nenhuma assim tão exageradamente má, perversamente gostosa, deliciosamente fútil e absolutamente exibicionista.
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Sim, confesso, eu sinto tesão por uma vilã assim como Blitzkrieg, mas ela não existe e, se existisse, seria um monstro que teria que ir preso. O tesão não significa que concordo com suas ações ou que acho que são recomendáveis, bem ao contrário. Meu tesão é por esse arquétipo (aliás, mais velho que andar pra frente) da femme fatale, da mulher má, da diva egoísta.
Por fim, trazendo a questão à realidade, meu verdadeiro tesão é pelas mulheres de carne e osso, lindas e inteligentes, tantas delas minhas amantes e amigas, que também são atraídas por esse mesmo arquétipo, que adoram a fantasia de ser essa mulher e de ter escravos apaixonados aos seus pés para usar e abusar, que gozam com a suprema liberdade de um egoísmo sem limites e de poder não se preocupar com nada nem ninguém, que se excitam ao se imaginar malvadas e poderosas, fúteis e vaidosas, gloriosas deusas do mal.

A verdadeira Lucrécia Bórgia com certeza não era tão má assim, mas a Lucrécia ficcional é o máximo.
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Raquel diz que meu Elogio às Malvadas foi uma das coisas mais importantes que já leu e conta a seguinte história: de vez em quando, conversa com suas colegas sobre fantasias sexuais e galãs da moda. Entretanto, enquanto elas sonham com o que fariam com o Brad Pitt na cama, Raquel tem outros desejos inconfessáveis.
Sua fantasia era fazer o Brad Pitt se apaixonar por ela e, depois, humilhá-lo, obrigá-lo a largar sua carreira no cinema, abdicar de tudo só para tê-la, e ela só provocando-o, atiçando-o, e então, quando já não lhe restasse nada, só aquela paixão irreprimível por ela, ela riria na cara dele, diria que agora que ele não é mais um astro, não lhe serve, não lhe tem serventia alguma, o que vai querer com um pobretão inútil desses?, que vá pintar paredes, arranjar mulheres na zona, qualquer coisa assim, mas saia da minha presença agora!, e ele sairia, arqueado, derrotado, humilhado, e o que mais a excitava, nessa sua fantasia, era a idéia de acabar com a vida de um astro de Hollywood por puro capricho, sem motivo algum, e, melhor ainda, ele ter feito tudo voluntariamente, por puro tesão, um tesão que ele carregaria pra sempre, acumulado e frustrado! (No final, ela estava quase sem ar, olhinhos brilhando, voz arquejante.)
Na sua vida civil, Raquel é mignon, educada, quase tímida, se vira ao avesso pelos amigos, faz de tudo para agradar as pessoas. Em suas fantasias, porém, é uma deusa do mal, uma devoradora de homens, cercada por dezenas de escravos devotados que ela joga aos leões depois de abusar sexualmente, adorada e desejada por multidões apaixonadas e sempre frustradas, absolutamente egoísta e mentirosa, interessada somente em si mesma, em seu poder, em sua glória, em sua vitória, em seu final feliz.
Tudo o que ela não é.

Melhor cena: os homens brigando no ar e ela olhando tudo excitadíssima, olhos brilhando, se deliciando no duelo dos machos por ela, verdadeira deusa primitiva esperando seu sacrifício de sangue.
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Para fechar, um trecho do blog Bitchy Jones's Diary sobre a delícia de submeter um homem forte e independente. Quanto maior, mais poderoso, mais másculo, mais amante da liberdade, maior é o prazer de tê-lo sob suas botas:
Male submission is about heroic masculinity and male beauty.
... I’m a straight woman. Men and masculinity turn me on. Maleness. ... And nowhere is this male beauty expressed better than in male submission. Jack doesn’t like pain, doesn’t enjoy suffering at all. But he is hot and hard for being brave. Making noble almost futile sacrifices. Bondage and force. Wanting to contain and constrain. To own. To force. To crush and possess. To venerate. To wallow in. To touch. This is about beauty. Male beauty. Savage beauty. Sexuality so virile and strong it needs to be held back, diluted with chains and cages to make it palatable – otherwise it would be so overwhelming it would be like looking at the sun. It is everything there is and every part of the heart of me. And it’s worth it. Even now.
Se gostou, não deixe de ler The Complete Bitchy Jones, onde ela resume todas as suas idéias mais interessantes. Dica da Rebeca, uma de minhas amigas mais queridas e uma das mulheres mais imaginativamente perversas que já conheci.

Uma das graphic novels mais sensuais de todos os tempos. Como não amar Elizabeth?
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15 Personagens de Literatura que Eu Levaria para a Cama
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Textos relacionados:
Elogio às Malvadas
Meninas Malvadas
Outro dia, Lulu veio me perguntar:
- Alex, quando você era menino, você tinha tesão pela Princesa Leia?
- Eu hein, tá me estranhando, Lulu? Uma mulher boba e sem graça daquelas! Cruzes!
- Ufa, agora fiquei aliviada.
- Os símbolos sexuais da minha infância eram a Madrasta Má, a Mulher-Gato, a Giganta, a Hera Venenosa, a Baronesa, a Maligna, aquela bruxa da História sem Fim II...
- Ai, ai, eu tinha esquecido que você já era um menininho muito perturbado. E seus amigos?
- Bem, aí é verdade. Todos morriam de tesão pela Princesa Leia, nunca entendi isso.
Alguns dias depois, profundamente desgostosa com o gênero masculino, Lulu fez o post abaixo:
A gente cresce e de repente descobre que a música Cavalgada, do Roberto Carlos, não tem nada a ver com a saga dos pequenos pôneis... Cresce, e percebe que por trás daquela inocente brincadeira do gato mia, no quarto escuro, havia dedos afoitos, loucos para sentir nossas carninhas. Outro dia mesmo, a K começou a insinuar umas coisas sobre os pirulitos da turma da Mônica... mas não deixei que K continuasse, foi demais para mim.
Cresce, e descobre que, nove entre dez meninos que agora estão na faixa dos trinta, tinham (e talvez ainda tenham) um tesão absoluto pela princesa Leia. Especificamente, pela cena onde ela aparece acorrentada, de biquini, nas mãos do Jabba, The Hut. Sim, aquela cena, quando o Hans Solo está congelado ali do lado, sem poder fazer nada, e a destemida e revolucionária Princesa é escravizada e obrigada a usar um biquini dourado, coleira e algemas. Sim, aquela cena de tensão, tirania e opressão... rendeu um bilhão de punhetas. Cada coisa que a gente descobre... E aquele ótimo filme ruim, de repente, transforma-se totalmente....
Perguntem aos seus namorados. Para mim, foi uma descoberta recente, e como sou dada a enquetes, já tenhos dados suficientes para saber que se trata de uma tara universal, o menino que viu aquele filme, sonhou com aquela cena.
Aquelas trancinhas enroladas na orelha, aquele biquini dourado, aquela princesa idealista, presa e acorrentada por um bicho babão e nojento, povoaram as fantasias dos nossos homens. Chocante. Nem tanto pela fantasia, mas... vamos combinar que a cena é de um mau gosto... Podem perguntar, mas cuidado, senão eles se animam e acham que você tá fazendo alguma proposta. Ja pensou?
Em meio a minha pesquisa investigativa, um amigo chegou a afirmar que se tivessem feito um filme pornô baseado somente nessa cena, alguém teria ficado milionário, pois seria um clássico absoluto, desde o seu nascimento. E isso desencadeou uma longa conversa, sobre como seriam os detalhes, tudo o que poderia ter se desenrolado a partir daí ( havia vários meninos de trinta e poucos na mesa... ), os olhos brilhavam, um até chegou a babar um pouco. Nós , mulheres, olhávamos tudo, em profunda descrença.
É dura a realidade, mais um mito de infância desfeito. E procurando imagens na rede, minhas hipóteses somente se confirmaram. Há sites e sites, especializados somente na "Escrava Leia de biquini metálico".
Ainda bem que não tenho nada a ver com isso. Nem aos oito anos meu pintinho ficaria duro por uma mulherzinha murcha e boazinha daquelas. Se eu tivesse que sentir tesão em algo do universo Star Wars (que carece de uma falta extrema de mulher), seria por outra coisa bem diferente:
Um blog sobre rebeldia, contemplação e sacanagem, regado a muita literatura e humor. Nosso assunto são as várias prisões que acorrentam o homem, como ambição, verdade e medo. Dê sua opinião!
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