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Estudei História Militar. Escrevi pra Revista da Marinha. Já pensei muito sobre segurança e defesa. Saí dessa vida há mais de 15 anos. Não sei o que os milicos andam falando. Mas, enfim, o apagão me fez pensar o seguinte:
De nada adianta investirmos em nosso próprio submarino nuclear, em manter um porta-aviões, em comprar caças de última geração, se um único míssil em Itaipu, ou três fios cortados em Itaipu, derrubam o país? Não faz nem sentido termos um Ministério da Defesa: em caso de guerra, será mais rápido, mais seguro e mais prático simplesmente desligarmos Itaipu e nos rendermos.
Me surpreenderam as relações de alguns leitores quando se fala de classe média. Então, pergunto:
1) Você acha que existe preconceito contra a classe média no Brasil?
E, mais importante, caso você se idenfique como pertencente à classe média:
2) Já se sentiu vítima de preconceito e discriminação por ser da classe média? Como foi isso? De quem partiu essa agressão? Como isso afetou negativamente a sua vida?
Por favor, deixe o seu depoimento. É sério. Eu quero saber.
Só por esse discurso eu já votaria nesse homem pra qualquer coisa que ele quisesse. Com legendas em português.
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Nunca li Dawkins, que sempre me pareceu um ateu militante, algo que desprezo um pouco, mas Freud em O Futuro de uma Ilusão já falou tudo o que eu sempre quis dizer sobre religião.
Deborah Duprat é minha nova heróina. Atual Vice-Procuradora, ela passou meros 22 dias como Procuradora-Geral da República interina e, nesse meio tempo, mudou o Brasil.
Do site Consultor Jurídico:
Deborah Duprat muda posições da PGR em 22 dias, por Filipe Coutinho
A passagem de Deborah Duprat pela chefia da Procuradoria-Geral da República foi meteórica e intensa. Em 22 dias como procuradora-geral, ela desengavetou ação sobre aborto de anencéfalos e ajuizou outros processos polêmicos no Supremo Tribunal Federal sobre a Marcha da Maconha, grilagem na Amazônia e união civil entre homossexuais. A depender da vontade dela, o Supremo será palco de debates históricos nos próximos meses sobre questões enraizadas – e nem sempre discutidas – pela sociedade brasileira. Não bastasse isso tudo, Deborah Duprat, de quebra, entrou para a história: foi a primeira mulher a comandar a PGR. ...
Para ela, quem deve decidir sobre o aborto de feto sem cérebro é a mãe e não o Estado, nem a igreja. Ela aproveitou a brecha como procuradora-geral interina e esse entendimento agora é, oficialmente, a posição da PGR. “A antecipação terapêutica do parto na anencefalia constitui exercício de direito fundamental da gestante. A escolha sobre o que fazer, nesta difícil situação, tem de competir à gestante, e não ao Estado. A este, cabe apenas garantir os meios materiais necessários para que a vontade livre da mulher possa ser cumprida, num ou noutro sentido”, diz o parecer. ...
... [T]ambém apresentou a ADI 4.275. Dessa vez, em defesa dos transexuais. “Impor a uma pessoa a manutenção de um nome em descompasso com a sua identidade é, a um só tempo, atentatório à sua dignidade e comprometedor de sua interlocução com terceiros, nos espaços públicos e privados”, afirmou. Por isso, ela quer que o Supremo garanta o direito de transexuais trocarem de nome mesmo sem operação. ...
Foi contra também restrições aos militares para o acesso à Justiça e criticou, ainda, a resolução do Conselho Nacional do Ministério Público para regulamentar os pedidos de grampos telefônicos. Em nome da liberdade artística, entrou com ação contra a regulamentação da profissão de música.
A procuradora-geral interina pediu ainda a inconstitucionalidade de lei paulista que cria regras para o uso de cão-guia. A lei obriga que o proprietário ou instrutor do cão seja filiado à Federação Internacional de Cães-guia, “em evidente ofensa aos direitos de livre associação”, segundo ela. (leia a matéria completa)
(O texto continua abaixo da imagem.)
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Em relação às Marchas da Maconha, Deborah Duprat efetivamente impediu que juízes locais proibissem as manifestações e prendessem seus participantes:
Do site da Procuradoria-Geral da República:
PGR: manifestações a favor das drogas configuram liberdade de expressão e de opinião
... Além disso, complementa a procuradora-geral, a interpretação “pode conduzir – e tem conduzido – à censura de manifestações públicas em defesa da legalização das drogas, não só violando os direitos das pessoas e grupos censurados, como também asfixiando o debate público em tema tão relevante. Os danos aos direitos fundamentais dos envolvidos e à democracia serão também irreparáveis ao final do processo, pela sua própria natureza”. ...
Deborah Duprat assevera que a liberdade de expressão “representa um pressuposto para o funcionamento da democracia, possibilitando o livre intercâmbio de ideias e o controle social do exercício do poder. De mais a mais, trata-se de direito essencial ao livre desenvolvimento da personalidade humana, uma vez que, como ser social, o homem sente a necessidade de se comunicar, de exprimir seus pensamentos e sentimentos e de tomar contato com os seus semelhantes.
A procuradora-geral salienta, ainda: “O fato de uma ideia ser considerada errada ou mesmo perniciosa pelas autoridades públicas de plantão não é fundamento bastante para justificar que a sua veiculação seja proibida. A liberdade de expressão não protege apenas as ideias aceitas pela maioria, mas também - e sobretudo - aquelas tidas como absurdas e até perigosas. Trata-se, em suma, de um instituto contramajoritário, que garante o direito daqueles que defendem posições minoritárias, que desagradam ao governo ou contrariam os valores hegemônicos da sociedade, de expressarem suas visões alternativas”.[Comentário do Alex: comecei a chorar quando li esse trecho, de pura emoção de ouvir a PGR falando nesses termos!]
Liberdade de reunião - Deborah Duprat cita uma ADI julgada pelo STF, que entendeu que a liberdade de reunião é “uma das mais importantes conquistas da civilização, enquanto fundamento das modernas democracias políticas”. Ela completa que o artigo 287 do Código Penal e o artigo 33, parágrafo 2º, da Lei 11.343/2006, violam gravemente esse direito, pois permitem que seja tratada como ilícito penal a realização de reunião pública, pacífica e sem armas, devidamente comunicada às autoridades competentes, só porque voltada à defesa da legalização das drogas.
A procuradora-geral destaca: “É perfeitamente lícita a defesa pública da legalização das drogas, na perspectiva do legítimo exercício da liberdade de expressão. Evidentemente, seria ilícita uma reunião em que as pessoas se encontrassem para consumir drogas ilegais ou para instigar terceiros a usá-las. Não é este o caso de reunião voltada à crítica da legislação penal e de políticas públicas em vigor, em que se defenda a legalização das drogas em geral, ou de alguma substância entorpecente em particular.” (leia a matéria completa)
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Dois posts de um site católico esperneando contra Deborah Duprat por causa do casamento homossexual:
- Carta de Marcio de Assis Santos Cordeiro às autoridades brasileiras sobre a ADIN 4277
- Manobra abortista e homossexualista do Presidente Lula
- Carta para a Procuradora Deborah Duprat (o melhor, não deixem de ler, cheios de argumentos jurídicos)
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Vídeo de Deborah Duprat explicando, entre outras coisas, como enxerga e define suas atribuições como Procuradora-Geral da República:
Agradecimentos ao Tulio Vianna, o advogado que ainda vai salvar o Brasil de si mesmo, mecenas de Mulher de Um Homem Só e blogueiro de mão-cheia. Obrigado por me apresentar a Deborah Duprat, Tulio.
Minha amiga Selma está revoltada com "esse costume tão brasileiro de homens mais velhos casarem com mulheres mais novas". E eu, num primeiro momento, disse que ela estava exagerando, que não era pra tanto, etc.
Mas então passei em revista mental todos os amigos dos meu pai que estão mais ou menos na mesma faixa etário - ele tem 63 anos. Sem nenhuma exceção que pude lembrar, nenhum ainda está casado com a primeira esposa e todos casaram de novo com mulheres 15, 20, 30 anos mais novas. (A esposa do único casal que seria a exceção se matou ano passado.)
Não acho que cabe censurar nenhum deles individualmente. Na maioria dos casos, a começar pelo meu pai, os maridos respeitaram estritamente as leis e deixaram suas ex-esposas muito bem de vida. Todas as pessoas têm direito de se divorciar. Se todos cumprem a lei e agem eticamente, não cabe crítica individual.
Entretanto, quando olhamos para a situação como um todo, a situação mostra-se praticamente uma calamidade de saúde pública e uma indicação da estrutura inerentemente machista da sociedade brasileira. O divórcio, que a princípio foi uma bandeira e uma conquista feminina e feminista (favor não confundir), acabou saindo pela culatra e se tornando um meio legal e limpo para se trocar velhas esposas por jovens gatinhas.
Não estou falando somente de dinheiro. Sim, quase todos os homens do círculo do meu pai deixaram suas mulheres muito bem de vida - financeiramente.
Mas hoje, quando encontro com eles, esses homens estão invariavelmente felizes, com aspecto jovem, bronzeados, ricos, casados com mulheres lindas, no auge de suas carreiras ou recém-aposentados.
Já as mulheres estão quase todas sozinhas, ressentidas, magoadas, muitas gordas e alcoolatras, reclamando das vidas vazias e sem sentido, pois dedicaram boa parte da vida aos maridos (que foram embora) e aos filhos (que cresceram), quase nenhuma tinha carreira, e ou continuam ociosas e sem trabalhar até hoje, ou começaram uma carreira depois dos 40 e estão subempregadas.
Nós, como sociedade, falhamos miseravelmente com nossas mulheres.
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Tive essa conversa com vários amigos e quase todos me disseram que eu estava delirando, que a experiência deles não era assim, que minha amostra era muito limitada.
E, de fato, pensei: o círculo de amigos do meu pai é bem restrito. Estou falando de homens brancos de classe média nascidos no eixo RJ-SP na década de 40, que enriqueceram/prosperaram nos anos 70 e 80, se separaram na década seguinte, e agora começam a se aposentar. Foram ou são empresários, banqueiros, altos executivos. Moram na Barra e em Higienópolis, em Ipanema e no Pacaembu, e têm casas em Búzios e Guarujá, Itaipava e Campos do Jordão. Não há dúvidas que se trata de um grupo totalmente a parte da sociedade brasileira.
Vai ver, pensei, não é o Brasil que é assim: só a República Leblon-Morumbi.
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Então, mês passado, leio a matéria abaixo, do Diário de SP, e percebo que sim, estamos diante de uma tendência algo generalizada:
Viúva Jovem: Pensão do INSS é paga por 35 anos
SÃO PAULO - Até pouco tempo atrás, o tempo médio que uma mulher viúva recebia a pensão por morte do marido era de 17 anos. Agora, já são 35 anos. É que o mostra um estudo do pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Paulo Tafner. Ele explica esse aumento pelo fato de dois terços dos homens separados acima de 50 anos se casarem de novo com mulheres mais novas.
Na faixa etária entre 60 e 64 anos, o percentual de homens que se casam com mulheres mais novas pula para 69%. A diferença chega a ultrapassar 30 anos. Além disso, dois terços das viúvas brasileiras têm atualmente outra fonte de renda.
- O Brasil não leva em conta se a viúva tem um emprego, diferentemente de outros países. Aqui, esse direito é vitalício e equivale a 100% da aposentadoria. O benefício também não depende da idade da mulher, do prazo decorrido da união ou se ela tem filhos menores - diz Tafner.
O país gastou R$ 25,9 milhões a mais em agosto passado com o pagamento de pensões por morte. Segundo a Previdência, o valor médio é de R$ 746. O número de pedidos de pensão por morte vem crescendo mês a mês. Só em agosto, foram incluídos 34.789 benefícios, 2,61% a mais do que o mês anterior, quando foram solicitadas 33.905 novas inclusões. Em junho passado, por sua vez, esse número era de 31.404.
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E, quando esse post já estava escrito faz tempo e esperando pra ser publicado, uma nova matéria da Revista Época (da minha querida Martha Mendonça, do saudoso Elas por Elas) apoiou outra percepção minha: de que as mulheres, depois de certa idade, tornam-se mesmo cada vez mais tristes.
Por que as mulheres são tão tristes?
Um estudo americano de 37 anos ilumina um terrível paradoxo: objetivamente, a vida das mulheres jamais foi tão boa. Subjetivamente, nunca foi pior.
Tema de reportagem do New York Times no dia 20 do mês passado, o paradoxo da infelicidade feminina ficou semanas entre as mais lidas e comentadas da versão on-line do jornal americano. “Será que a emancipação feminina beneficiou mais os homens que as mulheres?”, escreveu a colunista Maureen Dowd, conhecida por suas posições antifeministas. Indo mais longe, se poderia perguntar: será que os conservadores, que sempre denegriram o feminismo como antinatural, teriam razão? Será que as mulheres seriam mais felizes se retornassem ao papel tradicional de mãe e esposa? O assunto dividiu opiniões no blog de ÉPOCA Mulher 7x7. “Estou cansada? Culpada pela pouca atenção aos filhos? Sim. Sempre querendo ser a melhor no trabalho e também cuidar da beleza? Sim. Mas ainda assim prefiro a liberdade”, escreveu a leitora Carolina. Outra leitora, Andréa, pensa diferente: “Ao mesmo tempo que nossos direitos se multiplicaram, como acesso à educação, voto, mercado de trabalho, nossas responsabilidades cresceram exponencialmente. Temos de gerenciar casa, carreira, filhos, marido e ainda ser magras, cultas e sexy. Isso é irreal”. (leia matéria completa)
* * *
E vocês? O que vocês acham? Como é a situação no círculo social de vocês? E você, Jorge Nobre, o que acha da política de cotas nas universidades públicas?
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Meu romance, entre outras coisas, é sobre a complexa condição feminina no Brasil de hoje:
Sempre que escrevo sobre a sociedade brasileira de modo geral, aparece uma turma querendo individualizar o problema:
não faz sentido falar do brasil sem falar nem dos brasileiros concretos, nem das leis brasileiras, nem das instituições brasileiras, nem dos comportamentos dos brasileiros etc. o seu "racismo estrutural" é um fantasma. não se refere a nada objetivo, a não ser que você ache que racista é a nossa geografia física. uma "estrutura" que paira acima de toda e qualquer qualidade objetiva não é estrutura nenhuma. ... o problema do racismo é muito sério para ser atribuido a "toda a sociedade". precisamos saber objetivamente onde ele está para combatê-lo.
E eu fico pensando: será que essas pessoas já vivem em sua utopia? Em um mundo onde as leis e instituições são perfeitas e funcionam perfeitamente, faltando só educar ou punir um ou outro desviante para que fique tudo ainda mais perfeito?
(Já falei mais sobre isso no texto O Racismo Não É Um Problema Individual.)
Então, deixa eu articular com todas as letras uma das premissas centrais desse blog:
A sociedade está toda errada desde o princípio.
O Brasil é um país estruturalmente e intrinsicamente racista, classista, machista, paternalista e autoritário. Nossas instituições, nossas leis, nossos costumes, nosso folclore, tudo o que nós somos enquanto sociedade, colabora para perpeturar esse estado de coisas.
Sim, existem muitos brasileiros racistas, machistas, classistas, autoritárias, mas mesmo se fossem todos magicamente encontrados, removidos, mortos ou reeducados, a estrutura de nossa sociedade continuaria idêntica.
O baralho que herdamos dos nossos antepassados já está viciado para beneficiar sempre um tipo específico de jogador. Não basta somente que nós, os jogadores beneficiados, simplesmente não trapaceemos. É necessário trocar de baralho.
Por isso, nos meus textos, ao invés de denunciando o racismo ou o machismo dessa ou daquela pessoa, eu tento expor as falhas e as rachaduras dessa estrutura como um todo.
Tirando meia dúzia de alucinados em Curitiba, ninguém diz que o racismo é bom. De que adianta eu escrever um texto denunciando o racismo individual de uma situação específica? Sim, a cliente chamou a vendedora de "macaca suja". Alguém pode achar que isso é justificado? O que vocês teriam aprendido com esse texto? O que teria acrescentado? Nada.
Na verdade, por trás desse discurso individualista ("temos que buscar os racistas individuais!") está um profundo conservadorismo. Quem se recusa a aceitar, ou mesmo entender, qualquer crítica à estrutura da sociedade e acha que tudo se resume a encontrar os indivíduos culpados e pronto, está deixando implícito que a sociedade é perfeita e não precisa ser mudada. Parecem dizer:
Basta todos cumprirem as leis e está tudo resolvido. Quem não cumprir, a gente prende e pronto. Se o racismo já é contra a lei, então, resolveu, Alex. Como a sociedade pode ser estruturalmente racista se existem leis anti-racismo?
Já eu acho que a sociedade está toda errada desde o princípio. Do conceito de propriedade ao conceito de monogamia. Da idéia de religião aos ditos valores familiares. O Capitalismo e o Comunismo. O Socialismo e o Cristianismo. Tudo errado. Errado de princípio, errado na origem. Errado nas intenções e errado nos métodos.
Eu derrubaria tudo.
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Abaixo, alguns livros pra abrir sua cabeça. Esses são os livros que mudaram minha vida:
Tanto entre homens e mulheres quanto entre brancos e negros/índios. Do meu jornal preferido:
Latin America's worst wage gap for women and minorities? Powerhouse Brazil.
Men earn 30 percent more than women in Brazil, according to a new report from the Inter-American Development Bank. That gap is almost zero in Guatemala and Bolivia.
Andrew Downie e Sara Miller Llana, The Christian Science Monitor, 13 de outubro de 2009
Diálogo em mesa de bar do eixo Morumbi-Leblon. Meus amigos classe-média, como sempre, estão reclamando da dureza de suas vidas, dos impostos escorchantes que pagam, do Estado corrupto que não oferece nem saúde nem educação nem seguraça justamente para quem mais trabalha e mais paga imposto, do nosso presidente cachaceiro populista analfabeto, etc etc. Vocês conhecem.
Um amigo diz que o Brasil é um cabo de guerra entre a classe média e os pobres. Outro começa a enumerar todos os modos pelos quais sua vida piorou ao longo do governo Lula. E mais um desabafa:
"o PT só consegue tanto voto tirando os frutos do trabalho de quem foi competente e esforçado pra distribuir entre os preguiçosos e os incompetentes!"
E eu escuto, escuto, escuto, até que não aguento e digo:
Ok, digamos que vocês estão certos. Digamos que realmente a vida da classe média piorou bastante durante o governo Lula. (Não é verdade, mas vá lá) É justamente POR ISSO que considero que ele é um grande presidente.
Nós somos brancos, bem educados, bem alimentados, bem empregados, todos (menos eu!) com casa própria. Estamos entre os 10%, talvez 5%, mais ricos e mais cultos do Brasil. Nós não precisamos que o governo seja por nós. Não precisamos que o governo nos beneficie. Temos dinheiro, educação, contatos. Podemos correr atrás dos nossos interesses por conta própria.
Aliás, nosso maior interesse deveria ser justamente que o governo protegesse aqueles que não tem condições de se defender por conta própria, justamente aqueles cujos filhos podem amanhã nos assaltar no sinal e que justificam toda uma indústria de alarmes, cercas, vidros fumê. Não estou nem falando de bobagens como altruísmo e generosidade, conheço minha platéia, a questão é de puro interesse.
Ao tirar 31 milhões de brasileiros da pobreza, o governo Lula fez mais por nós do que se tivesse simplesmente baixado o imposto da classe média em 10%. Não adianta ganhar bem cercado por uma multidão de miseráveis e protegido por cercas elétricas e carros blindados. O fato de existirem menos 31 milhões de miseráveis no Brasil tem um impacto direto e positivo na nossa vida todo dia.
Ao tirar nossos privilégios e redistribuí-los pelos cidadãos mais carentes, o governo está defendendo os nossos interesses também: está fortalecendo a economia, aumentando o mercado consumidor, melhorando a segurança pública. Quanto mais vocês sentam aqui na esquina da Augusta com Ouvidor e reclamam dos privilégios que perderam, mais eu penso que o governo está fazendo um bom trabalho. Quanto mais vocês reclamam, mais eu admiro o Lula.
Depois do discurso emocionante em Copenhague, só torço para que em 2016, depois do mandato Dilma, ele esteja de novo na Presidência. Podem ainda ter sobrado alguns privilégios da classe média que a Dilma não conseguiu roubar, e ele vai lá e créu.
Tem um cara twittando com o meu nome: http://twitter.com/AlexCastroLLL
Ah, e toda seção de Informática do Submarino está com descontos bizarros, mas é só hoje.
Muito, muito medo dessa entrevista de Demétrio Magnoli ao Programa Milênio, da GloboNews, promovendo seu novo livro Uma Gota de Sangue: História do Pensamento Racial.
Ele se diz sociólogo mas, de ouvi-lo falar, o homem não parece ter cursado nem Sociologia I. Eu quase diria que ele dá um verniz acadêmico a muitos dos mais comuns preconceitos raciais brasileiros, mas ele não soa nada acadêmico. Em termos de raciocínio e discurso, ele é muito, muito pior do que o Ali Kamel - tem apenas menos poder. Chegou a me dar calafrios de nojo em alguns momentos.
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Palmas para a repórter Elizabeth Carvalho que, ao mesmo tempo em que cumpriu seu papel de entrevistadora e deixou o homem falou, também fez questão de marcar suas posições e fazer as perguntas difíceis: quando leu o trecho do discurso do Presidente americano Lyndon Johnson, eu quase quis aplaudir.
Abaixo, os meus trechos preferidos do discurso "To Fulfill These Rights", de Johnson:
Mas liberdade não é o bastante. Você não limpa as cicatrizes de séculos dizendo: ‘Agora você está livre para ir a onde quiser, fazer o que deseja e escolher os líderes que achar melhor’.
Você não transforma um homem que por anos ficou acorrentado, libertando-o, e levando-o ao início da linha de corrida, dizendo: ‘Você está livre para competir com todos os outros’, e ainda assim realmente acreditar que você está sendo completamente justo.
Assim, isto não é o suficiente para abrir os portões da oportunidade. Todos os nossos cidadãos devem ter a capacidade de atravessar estes portões.
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Freedom is not enough. You do not wipe away the scars of centuries by saying: Now you are free to go where you want, and do as you desire, and choose the leaders you please.
You do not take a person who, for years, has been hobbled by chains and liberate him, bring him up to the starting line of a race and then say, "you are free to compete with all the others," and still justly believe that you have been completely fair.
Thus it is not enough just to open the gates of opportunity. All our citizens must have the ability to walk through those gates. ...
Much of the Negro community is buried under a blanket of history and circumstance. It is not a lasting solution to lift just one corner of that blanket. We must stand on all sides and we must raise the entire cover if we are to liberate our fellow citizens.
Sobre o discurso "To Fulfill These Rights"
- Texto completo
- Gravação original em formato real audio
- Meu post: Livre Concorrência e Ação Afirmativa 
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Sobre Demétrio Magnoli
- Outros livros de Demétrio Magnoli
- A polêmica entre Demétrio Magnoli e Kabengele Munanga
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Nas minhas aulas de humanas, seja como aluno ou como professor, depois de uma discussão particularmente quente sobre qualquer problema atual, sempre tem algum aluno que levanta o braço e pergunta:
"Tá, professor. Entendemos o problema. Priorizar as raças é ruim porque fortalece o racismo mas promover a mestiçagem é ruim porque estigmatiza quem quer assumir suas raízes. Mas qual é a solução então? Qual é a resposta? O que fazemos?"
Imagino que muitos leitores aqui devem ter sentido a mesma frustração. Em um primeiro momento, parecem pessoas práticas e de bom-senso, de saco cheia de tanta punhetação intelectual acadêmica, e que querem simplesmente sair na rua e resolver o problema, oras. Vivas pra eles!
Mas, se você pára e pensa, pode concluir que o que falta a essas pessoas é justamente parar e pensar. Então, um comentário que parece inócuo e positivo acaba se revelando perigoso, ao sugerir:
- Incompreensão sobre como funciona uma aula ou sobre qual é a função de uma universidade;
- Incapacidade ou indisposição para discussão, reflexão ou diálogo, ou seja, para buscar suas próprias conclusões;
- Ansiedade por respostas prontas e simples, e por ações concretas e fáceis de realizar.
Pra mim, parecem ser os candidatos ideais para compor uma multidão ensandecida, um partido fascista, um exército invasor, uma igreja evangélica.
Vai chegando o final da aula, e estão todos ali me olhando ansiosos, de lápis em punho, esperando pela resposta certa, querendo saber "afinal o que devem fazer!", e a impressão que tenho é que aceitariam qualquer besteira que eu falasse, desde que coubesse em uma frase e fosse fácil de decorar. Que bastaria dizer
Enfim, a culpa é toda dos brancos malvados e a solução é dar porrada neles. Agora!
e pelo menos a metade mais ingênua e influenciável da classe começaria imediatamente a dar porrada na outra.
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Então, depois de uma longa e frutífera discussão sobre um tema profundo e complexo, algum aluno sempre pede pela solução, pela resposta certa, pra saber o que fazer. E, assustadoramente, metade da sala balança a cabeça, em silenciosa concordância.
Quando respondo que não existe solução, que não sei a resposta certa e que não vou lhes dizer o que fazer, outro alguém sempre retruca:
Então, de que adiantou? Pra que ficamos duas horas aqui perdendo nosso tempo? Isso [querendo dizer essa aula, minha matéria, a disciplina, a própria universidade, a vida, sei lá] não serve pra nada!
E eu:
Mas se eu lhes dissesse o que fazer, então serviria pra alguma coisa? Eu acho que, pior do que não servir pra nada, seria extremamente perigoso. É pra isso que vocês vêm à universidade? Pra que qualquer um, só porque tem um doutorado e passou num concurso, lhes diga o que fazer? Vocês não querem chegar às suas próprias conclusões? Aliás, não acham que, sendo parte da mínima elite com educação universitária na Brasil, que têm obrigação de chegar às suas próprias conclusões?
E, vocês vão achar que é punch-line, ou licença poética, mas depois desse discurso sempre tem alguém de cara sonolenta que levanta o braço lá detrás e pergunta, de verdade, na lata:
Tá, professor, mas afinal, o que é que é pra colocar no teste?
E eu respondo, exausto:
Se eu perguntar "qual é a solução para o problema do racismo no Brasil?" vocês podem responder que eu mesmo disse que não sei qual é a solução. Mas acho que vou fazer uma pergunta um pouquinho mais difícil que essa... Talvez relacionada, hmm, com as leituras, quem sabe...?
* * *
Dos termos de uso do LLL:
O LLL não é um blog rosadinho, fofinho, politicamente correto. O LLL não se envolve em blogagens coletivas, caga pro Dia da Terra, não é nem um pouco vegano. O LLL não tem musiquinhas, selinhos, fotinhas de bichinhos e bebezinhos. O LLL não é um lugar seguro, um blog onde você possa entrar tranquilo e ficar confortável. O LLL está sempre tentando mexer com a sua cabeça, destruir suas certezas, te mostrar outras possibilidades. O LLL faz pouco da esquerda, faz pouco da direita, faz pouco de si mesmo e faz pouco de você também, se vier falar besteiras nos comentários. O LLL não se leva a sério e não te leva a sério. O LLL deixa você falar o que quiser, mas só pra te dar corda pra se enforcar. No LLL, você fala, mas por sua conta e risco. No LLL, não vale chorar e falar que eu não avisei. No LLL, você pode sair de joelho ralado e nariz sangrando.
Muita gente considera esse ambiente estimulante. Outros, desagradável. O fundamental é que ninguém é obrigado a ler e, menos ainda, comentar e se expor. Depois não reclamem.
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Leia também:
- Vendemos Problemas, Não Soluções
- Dar Aulas de Literatura
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Série Você É um Privilegiado? (Convite para Reflexão Individual)
I - A Invisibilidade do Privilégio
II - O Ônus da Elite
III - Os Privilégios da Classe Média
IV - Brasil, Meritocracia de Todos!
Adendos:
I - Culpa, Racismo e Privilégio ("Somos Nós os Culpados?")
II - Governo, Raça e Privilégio
III - "Mas Afinal Qual É a Solução?"
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Abaixo, recomendação máxima, um dos livros mais lindos, humanos, abertos, libertários, grandes!, que eu já tive o privilégio de ler:
Eu teria muito a dizer sobre os comentários ridículos anti-Olimpíadas-no-Rio-e-anti-Lula que tenho ouvido, mas tem um novo blog na praça roubando os meus posts bem debaixo do meu teclado. A gente se esfalfa de trabalhar, dá tudo em imposto pra esse governo corrupto e populista, e ainda somos roubados assim na cara dura e ninguém faz nada! Não sei onde esse país vai parar, viu?
De qualquer modo, o post é esse aqui, falou tudo o que eu iria falar, e melhor:
Classe Média Way of Life: Colocar a Culpa no Lula
Recomendo enfaticamente que passeiem pelo resto do blog.

Foto por Edgard Garrido, REUTERS, 22 de setembro de 2009, na Embaixada do Brasil em Honduras.
Quando digo que o Brasil não é um país meritocrático, sempre surge na conversa o proverbial negro-favelado-trabalhador, que venceu todos os desafios da vida com muito esforço e muito estudo, e hoje é presidente de multinacional e tem duas loiras na garagem. E é mentira? Não, claro que não. Existem muitos casos assim. Mas e daí? É um em um milhão.
Sabem por que o Brasil não é um país meritocrático? Porque ninguém faz o caminho inverso. Sim, é possível que um favelado brilhante se torne presidente de empresa. Mas e as antas bem-nascidas?
Estudei na Escola Americana do Rio, na época a mais cara do Brasil. Um bom terço da minha turma era composto de gente inapelavelmente burra. Incompetentes, pouco articulados, preguiçosos, mal acostumados. Quantos deles vocês acham que hoje estão varrendo o chão? Nenhum. Mesmo o mais imbecil conseguiu passar no vestibular das Faculdades Integradas Tico e Teco, formou-se mal e mal advogado, e então, dependendo do nível de riqueza, ou o pai montou escritório e contratou gente competente pra dar suporte, ou o tio arranjou um emprego low-profile na empresa onde trabalha, ou um ex-colega de sala agora vereador chamou pra ser aspone. De qualquer modo, nem o mais inepto filho privilegiado da classe média vai parar ali onde seria o destino comum dos negros favelados - menos a excepcional exceção que vira presidente da Bic, claro.
Se você não se sente um privilegiado, pense nisso. Se conseguiu o seu primeiro emprego porque seu tio era dono da padaria, ou porque seu melhor amigo era concursado da Petrobrás e soube de uma vaga pra contratado, ou porque falava alemão fluente que aprendeu nos seis meses de intercâmbio em Berlim, você já está léguas e léguas a frente da grossa maioria dos brasileiros.
Um dos grandes empecilhos para o progresso pessoal e profissional de um jovem favelado é o simples fato de que todos seus amigos e parentes também tendem a ser favelados subempregados.
O manto de privilégios que cobre e protege a nossa classe média é tão espesso que basta o simples fato de você SER da classe média, e ter amigos e conhecidos e parentes na classe média, para que isso já lhe abra portas e lhe conceda oportunidades totalmente fora do alcance da maioria dos brasileiros.
O favelado mais excepcional entre os excepcionais, se vencer todas as armadilhas da vida, pode teoricamente conseguir cursar uma Federal, abrir uma empresa, ficar rico - mas só se ele não errar nunca, se nunca cair em tentação, se nunca for morto de bala perdida ou torturado pela polícia, e tiver muita, muita sorte. Já na classe média, não existem erros tão grandes, nem preguiça nem inépcia, capazes de transformar alguém em favelado faxineiro: na pior das hipóteses, dá-se um jeito. Sempre pode ser assistente administrativo do escritório do padrinho, balconista da videolocadora do tio, fica tranquilo, compadre, dá-se um jeito, ele não é nenhum gênio, mas é meu primo, e família é família, não?
É por isso, entre outras coisas, que o Brasil não é um país meritocrático. É por isso, aliás, que o próprio conceito de meritocracia não faz nenhum sentido, pois meu mérito individual nunca é só meu, mas está sempre corrompido ou viciado pelos méritos acumulados dos meus antepassados, na minha família, dos meus compatriotas. É por isso, entre outras coisas, que mesmo um cidadão de classe média baixa, daqueles que fala coisas como "é um absurdo eu gastar uma fortuna em escola particular e plano de saúde, e depois ainda ser escorchado pelo governo que não faz nada por mim!", ainda assim é um tremendo de um privilegiado em comparação à massa de cidadãos brasileiros que não teriam renda pra pagar nem escola particular e nem plano de saúde.
Em um país escroto, injusto e desigual como o nosso, não é preciso ter lancha de 40 pés ou ilha particular pra ser um privilegiado. Se você está aqui, lendo esse blog, ao invés de lavando chão pra ganhar salário mínimo, provavelmente é um privilegiado também.
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Capitalismo de Compadres
Estudo recente do IPEA decifra alguns números sobre o nosso capitalismo de compadres. Para os mais pobres, nem adianta ser mais escolarizado, pois continuam por fora das redes de contatos e apadrinhamento que protegem a classe média. Nas palavras do presidente do IPEA:
É estranha a interpretação de que quanto maior a escolaridade (do trabalhador), maior é a chance de emprego, porque isso não ocorre com os mais pobres. ... Há uma barreira, do ponto de vista da inserção, para trabalhadores pobres, apesar da escolaridade. É o chamado QI, ou quem indica. Isso não ocorre com os menos escolarizados, porque esses não dependem das relações sociais para conseguir emprego.
Leia mais:
- O IPEA, o antropólogo e o capitalismo de compadres
- Capitalismo de acesso
- Ipea revela que os mais escolarizados engrossam as filas de desempregados


"Igualdade e Meritocracia: a Ética do Desempenho Socidades Modernas", de Livia Barbosa & "Mediocracia ou Meritocracia", de Robert D'Alanjis
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As crianças, por não conhecer nada de diferente, aceitam a realidade como ela é. Para a criança privilegiada, seus privilégios são tão naturais que ela pensa que todo mundo os têm.
Então, um dia, por qualquer motivo (talvez lendo um blog), baixa aquela consciência da enormidade dos seus privilégios. De quanta coisa você tem ou teve que outros nunca tiveram.
Em um segundo momento, consciente de todos seus privilégios, você pára de reclamar dos privilégios que não possui e, mais importante, pára de lutar por mais privilégios.
Por fim, percebendo que somente isso não basta, mesmo que a custa de alguns sacrifícios pessoais, você começa a repassar alguns desses privilégios para quem nunca teve nenhum.
E assim o mundo começa a mudar.
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É impossível amadurecer sem ao mesmo tempo desnaturalizar o mundo, sem perceber que a sociedade, as instituições, a língua, nada disso caiu pronto do céu e que foram criados ao longo de processos históricos que não tiveram necessariamente um final feliz.
Nosso mundo atual não é o único possível. A maneira como organizamos nossa economia, nossa postura em relação às raças, a maneira como nos vestimos, literalmente tudo, poderia ter sido diferente - e ainda pode ser, se quisermos.
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Série Você É um Privilegiado? (Convite para Reflexão Individual)
I - A Invisibilidade do Privilégio
II - O Ônus da Elite
III - Os Privilégios da Classe Média
IV - Brasil, Meritocracia de Todos!
Adendos:
I - Culpa, Racismo e Privilégio ("Somos Nós os Culpados?")
II - Governo, Raça e Privilégio
III - "Mas Afinal Qual É a Solução?"
* * *
Veja todos os posts sobre Raça do LLL e acompanhe a conversa, assinando o RSS dos comentários. Para divulgar toda a série, use esse link ou o botão ao lado.
Quando falo de racismo e privilégio, alguns leitores pensam que estou clamando por ação governamental ou propondo políticas públicas, e respondem que é um absurdo o governo querer se meter no problema das raças, que o governo não tem nada a ver com a desigualdade, que o papel do governo é outro, etc. Governo, governo, governo.
Não deixa de ser engraçado: porque não estou falando de governo em momento algum.
Pessoalmente, eu não confio em governos. Na dúvida, prefiro que o governo se meta o mínimo possível na sociedade. Não acho que o governo deve investir em cultura, por pensar que isso distorce a cultura e corrompe os artistas. Não vejo motivo para o governo ser dono de tantas empresas (é realmente necessário a ECT ter o monopólio da entrega de cartas?), mas também não tenho problema com isso, se estiverem fazendo um bom trabalho (Petrobras, Vale e afins). O modelo de universidades públicas no Brasil é perverso e insano, ao fornecer educação de primeiro mundo gratuitamente para a elite enquanto força os brasileiros de baixa renda a procurarem as terríveis universidades particulares, que eles ou se endividam pra pagar ou, pior, todos pagam pelo Pro-Uni. Entretanto, enquanto o sistema existe, não considero contradição aceitar dinheiro do governo para minha arte e procurar emprego em universidade pública.
Essas são algumas de minhas posições políticas em relação ao governo, mas vocês nunca vão ver esses temas desenvolvidos aqui no blog: são muito chatos e não tem nada a ver. Quando necessário, mando emails para meus representantes eleitos e resolvo o assunto com eles*.
O LLL é intensamente político, mas com outro viés. Aqui, eu não clamo por ação governamental e não escrevo sobre o que o governo deve ou não deve, pode ou não pode fazer. Enquanto tema desses ensaios, o governo, simplesmente, francamente, não me interessa muito.
Minha preocupação nesse blog é fazer vocês, leitores, um por um, refletirem sobre alguns problemas que acho importantes, urgentes, interessantes. Nem precisam concordar comigo: se só pararem pra pensar sobre um tema sobre o qual nunca tinham pensado antes já é uma vitória. Depois de pensar, pode ser que concordem comigo, pode ser que reforcem sua opinião anterior, não faz diferença. O importante é que agora essa questão não é mais "natural", não é mais um "dado" da vida que você aceitava acriticamente, mas sim uma conclusão sua, conquistada depois de alguma reflexão.
Uma vez que decididam o que acham, é fundamental (aliás, inevitável) tomar uma ação política a respeito. A omissão e a auto-ilusão de ser apolítico são algumas das formas mais comuns de ação política. Sugiro que encontrem representantes legislativos que concordem com suas opiniões e votem neles para representá-los a nível municipal, estadual, federal. Escrevam para seus representantes, exponham suas opiniões, exijam ação política sobre temas relevantes e façam questão que eles saibam não só que trabalham pra vocês, como que seus contratos são renovados a cada quatro anos. Já deixei de votar em gente que não respondia meus emails*.
Só não esperem que seja EU a dizer, ou mesmo sugerir, que ações políticas devem tomar. Isso é entre vocês e seus representantes eleitos. Eu só levanto as questões: as conclusões são por sua conta.
O objetivo desse blog é fazer com que você desnaturalize todas aquelas noções e conceitos que lhes pareciam mais naturais.
Ser um animal racional é isso. Bem-vindo ao clube.


Obras completas de Freud, de R$960 por R$299, e de Machado, de R$650 por R$389
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*Nos últimos quinze anos, votei repetidas vezes em três políticos de matizes bem diferentes, sobre os quais tenho várias críticas pontuais, mas que sempre se comportaram como políticos profissionais dignos, responderam todas as minhas comunicações e me fizeram sentir bem representado: Fernando Gabeira, Eduardo Paes e Carlos Minc. Foi estranho e instrutivo ano passado ver os dois primeiros se digladiando no segundo turno da eleição para prefeito e ver o terceiro pagando alguns micos como Ministro do Meio Ambiente. Para bem ou para mal, os três estão em ascensão e se tornando cada vez mais conhecidos nacionalmente.
Tenho algumas reservas, claro. Com a recente polarização da política brasileira, Gabeira e Paes estão sendo empurrados cada vez mais pra direita, o primeiro entrando de fininho e o segundo se enfiando mais fundo lá dentro. Me preocupam também as palhaçadas públicas do Minc, os novos companheiros de cama do Gabeira, e algumas iniciativas autoritárias de Paes na prefeitura, mas por enquanto ainda gosto dos três, acompanho suas carreiras de perto e votaria neles de novo. Nenhum até agora fez nada de eliminatório - como o FHC, que perdeu pra sempre meu voto e meu respeito, ao mudar as regras no meio do jogo e apoiar a própria releição. Nem mesmo um canalha como Reagan, que no auge da sua popularidade tinha muitos fãs pedindo por isso, teve tamanha cara-de-pau. Votei em Lula em 2002, não votei nele 2006 e hoje - especialmente considerando as escolhas que teremos que fazer em 2010 - gostaria muito de um terceiro mandato de Lula, mas não ao custo de mudar as regras no meio do jogo outra vez.
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Série Você É um Privilegiado? (Convite para Reflexão Individual)
I - A Invisibilidade do Privilégio
II - O Ônus da Elite
III - Os Privilégios da Classe Média
IV - Brasil, Meritocracia de Todos!
Adendos:
I - Culpa, Racismo e Privilégio ("Somos Nós os Culpados?")
II - Governo, Raça e Privilégio
III - "Mas Afinal Qual É a Solução?"
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Quando falo de racismo e privilégio, alguns leitores pensam que estou tentando fazer com que se sintam culpados de alguma coisa. Então, deixa eu clarificar.
Somos culpados das coisas que ativamente fazemos ou que ativamente deixamos acontecer.
Não, eu não quero que você se sinta culpado. Eu mesmo nunca senti culpa na vida - nem mesmo das coisas erradas que fiz, quem dirá das que não fiz.
Nenhum leitor desse blog é culpado pela escravidão, pelo racismo, pela desigualdade. Esses problemas são mais antigos que nós e sua culpa transcende qualquer indivíduo.
Quase sempre, os leitores que ficam travados nesse aspecto da "culpa" estão, conscientemente ou não, fugindo do problema. Instituir uma caça às bruxas aos míticos racistas malvados, encontrá-los e então prendê-los, educá-los ou matá-los, tudo isso é muito mais fácil e menos doloroso do que parar e refletir sobre o racismo estrutural que constitui nossa sociedade, sobre as imensas desigualdades que nos caracterizam, sobre os privilégios que esse estado de coisas nos concede, sobre nossa cumplicidade quase sempre inconsciente e involuntária com esse sistema perverso.
Entretanto, não somos culpados, mas somos, sim, responsáveis por solucionar os problemas atuais de nossa sociedade. Se você é brasileiro e concorda que nosso país é racista e desigual, então é co-responsável, assim como eu, por tentar resolver essas questões. (Se não concorda que somos racistas e desiguais, então pode ficar tranquilo: os legalmente incapazes não podem ser responsabilizados por nada.)
Ser responsável por solucionar um problema é muito distante de ser culpado por ele. Somos responsáveis porque esses problemas não podem mais ser ignorados, afetam nossas vidas todos os dias e um dia vão explodir na nossa cara.


Obras completas de Freud, de R$960 por R$299, e de Machado, de R$650 por R$389
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II - O Ônus da Elite
III - Os Privilégios da Classe Média
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III - "Mas Afinal Qual É a Solução?"
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