Quer comprar no Submarino? Entre por aqui e eu ganho 8%.
Vou dirigir de São Paulo pro Rio na segunda, 29 de junho, pela manhã. Alguém quer vir junto e dividir gasolina e/ou direção?
Ah. Sério mesmo? Foi hoje? Não, eu não sabia. Você viu? Foi bonito? Arrã. Arrã. Legal. Agora, mudando de assunto, calorzão esse, hein?
Da série "coisas que não saem na imprensa brasileira": reclamam quando a polícia faz pouco, depois reclamam quando faz muito! Esse povo nunca está satisfeito!
Tiroteio (ou não) na Western Kentucky University. Pelo sim, pelo não, melhor imobilizar logo a suspeita negra! É foto pra prêmio.
Semana passada, eu fiz a pergunta, e não era retórica: que desculpas você pediria a sua empregada doméstica?
Só uma pessoa respondeu. Publico aqui o texto enviado por uma amiga:
Não é possível pedir desculpas
Lúcia foi trabalhar na casa da minha mãe quando eu tinha oito anos – saiu quando eu tinha 28 e já nem morava mais lá. Durante esses vinte anos de trabalho doméstico ela nunca cansou de dizer que fora trabalhar lá por minha causa – e por minha causa permanecera.
Peço desculpas à Lúcia por tê-la deixado acreditar que eu era uma menina doce e gentil que a tratava muito bem. Porque a menina doce e gentil nunca se preocupou em saber como é que ela fazia para sobreviver e sustentar duas filhas com aquele salário mínimo que ganhava. E a menina doce e gentil, confortável na ilusão de amizade, não se constrangia em, na frente da Lúcia, negociar mensalidades com a mãe ou dizer o valor de presentes que ganhava – que em muito superavam a sua renda mensal. Aquela menina doce e gentil também não se preocupou em saber de que forma a cama e o quarto apareciam magicamente arrumados quando ela chegava da escola, nem em descobrir o percurso mágico que as roupas sujas faziam do banheiro até a gaveta, onde reapareciam misteriosamente limpas, cheirosas e passadas. Também se permitiu não perceber o que havia por trás da aparição da comida pronta sobre as travessas limpas da mesa de jantar. A menina tão doce e tão gentil nunca se constrangeu em deixar que Lúcia limpasse do banheiro os doces detritos de sua bundinha gentil. E não se incomodou em dividir com a “amiga” os seus problemas de mocinha de classe média: namorados, namorados e namorados. E não percebeu que ela também havia de ter seus probleminhas. Falta de dinheiro talvez? Ou cansaço físico pelas horas de transporte aliadas ao serviço pesado? Ou um fundo de infelicidade por viver a vida da menina doce e gentil na base da compensação imaginária? Porque será que Lúcia não dividiu com sua doce e gentil amiguinha as surras que tomou do marido?
Lúcia perdeu o marido assassinado a tiros, ganhou um neto de uma filha de quinze anos, mudou-se para o interior, ganhou outro neto quando a filha mais nova atingiu quinze anos também, virou evangélica e sustenta sozinha toda a sua família trabalhando em uma república de meninas que deixam suas calcinhas obscenas para ela lavar na mão. Todo ano, no meu aniversário, Lúcia me liga – e sonha em voltar a trabalhar para sua patroa gentil.
H.
Essa reflexão não é fácil. A gente precisa remexer em coisas que não gostamos de remexer, que estão quietinhas lá no passado. Mas também é uma pergunta importante para descobrirmos quem somos e quem queremos ser.
Como sabem, estou escrevendo um livro sobre domésticas e gostaria MUITO de ouvir a opinião de vocês: que desculpas VOCÊ pediria a sua empregada doméstica?
E, se você não tem desculpas nenhuma a pedir, se acha que não cabe a pergunta, que é uma relação profissional como qualquer outra, eu também gostaria de saber.
Para maior privacidade, se não quiserem deixar comentários, mandem emails.
Update
Comentou a leitora Aline:
Bem, Alex, quando vc faz a pergunta "que desculpas vc pediria a sua empregada?", parece que todas as pessoas tem ou pelo menos tiveram empregada em casa.
Olha, se eu perguntar "em qual candidato a presidente vocês votaram em 2002?", isso não quer dizer que eu acho que todo mundo votou pra presidente em 2002, mas que estou dirigindo minha pergunta somente a essas pessoas.
Se um blog lança a pergunta "quando foi a sua primeira menstruação?", eu não vou presumir que o blogueiro tonto acha mesmo que todo mundo menstrua!, mas que a pergunta foi dirigida somente às pessoas que de fato menstruam, o que não é o meu caso. Ou seja, vou ouvir a pergunta e já saber que não é comigo. Etc etc.
Nos último dias estive em duas festas e em ambas espantei-me com a especificidade dos temas. Essas pessoas que gostam de andar em grupo, que mergulham na sua turma e acabam criando uma linguagem, um repertório e até mesmo um gestual e estilo comum me parecem muito, muito chatas... São verdadeiras festas temáticas, formadas por essas pessoas, e seus grupos.
A ver:
Festa dos nerds.
Sim, meus amigos. É claro que a festa dos nerds é sempre em um apartamento, regada a pizza barata, cerveja e cachaça de nome esquisito, tipo Clodoaldo, Clodomiro, algo assim. Deixem-me deixar bem bem claro que amo meus amigos todos, e que talvez eu mesma possa segundo os critérios nerdolengos ser encaixada nessa tal dessa categoria, sei lá, nunca fui boa em esportes e sempre amei ler, gosto de quadrinhos e senhor dos anéis. No entanto, no entanto...
Quando a gente está entre pessoas que de três em três frases riem comentando como são de fato mesmo realmente nerds ( com uma ponta indisfarçável de orgulho) e logo lembram de mais um episódio obscuro de algum filme ou série, e de outro e de outro, e horas se passam e ninguém, ninguém, contou nada sobre a vida, sobre coisas que aconteceram fora dos quadrinhos, do devedê ou dos livros, a gente fica realmente convicta de que, meu deus, ainda bem que os quadrinhos, os filmes, a tevê, existem, senão esse povo todo não teria do que falar. Quando começaram a falar sobre sandman pela quinta vez, fui embora.
Festa do povo de teatroA festa do povo de teatro acontece sempre num Espaço. Um lugar, cabaré, espaço, no teatro mesmo, sei lá. Na festa do povo de teatro, se a festa é dada por um diretor de teatro, tem muitas atrizes. Muitas atrizes. Atrizes demais. Você chega, entra, e já se sente num ambiente cênico. É bom porque todos te comprimentam com abraços calorosos, massagens, selinhos, gritos histéricos, manifestações públicas de afeto mil. Depois de um tempo enche um pouco: sai prá lá que essas costas são minhas! E depois, a diversão com os figurinos de todo mundo também cansa, e eu me peguei torcendo para ver qual atriz perderia primeiro a pose e se jogaria de fato e de vez na festa. Mas isso não aconteceu. Isso nunca pode acontecer. Todos, todos, estão muito muito preocupados com seu papel, sua performance, seu personagem. A pista de dança é uma coisa louca, você se sente assim numa espécie de show de contorcionistas de circo, todos dançando com as mãos, fazendo caras e bocas e cenas e logo chega o momento em que todos começam a se esfregar porque todos todos são pessoas muito sexuais, sabe? E tudo é tão posudo, e há tantas divas em cada metro quadrado que tudo aquilo fica chato, muito chato... Quando a quinta atriz veio fazer performance em cima de mim, fui embora.
Festa dos intelectuais:
A festa dos intelectuais não é festa, é jantar, oferecido por alguém em sua bela casa. Regado a vinho tinto, com direito a conversa sobre vinhos e preços, e descobertas de tal oferta e retrogosto de ameixas com cogumelos e etc. A comida também é boa. Se for a intelectualidade festiva de esquerda, talvez o tema seja brasileiro, com direito a carne seca com quibebe e tal e talvez role uma caipirinha legítima de cachaça de limão, porque essa falsidade de caipiroska de kiwi não é para intelectual que gosta de povo. Se for uma intelectualidade que já virou professora da usp, a comida será italiana ou francesa, e a bebida é vinho mesmo, embora - é claro - todos ainda continuem gostando de povo e coisas do povo.
No jantar todos são muito bem comportados e bem vestidos, com toques de personalidade e charme, principalmente as mulheres mas ninguém vai comentar sobre unha ou cabelo, pois afinal todos têm consciência social e estamos noBrasil e em meio a tanta desigualdade social não se pode perder tempo e dinheiro com futilidade. Falarão sobre política, sobre bolsas( não as da Prada, aquelas de pesquisa) , sobre financiamentos, sobre as universidades, sobre ensino público e privado, sobre seus papers colóquios e conferências, sobre Marx e tal. Na quinta citação, fui embora.
Festa das bees:
A festa das bees acontece numa buatchy. A música geralmente é boa e a gente tem que caprichar no modelão pois todos vão reparar em tudo: nas suas unhas, no seu sapato, na sua bolsa, tudo. Se o modelão estiver muito bacana talvez uma bee peça sua bolsa luxo emprestada e saia por aí desfilando pela festa com ela, luuuxooo. Lá, as pessoas não dançam, batem cabelo, sobem no salto e se jogam. Todas ficam falando dos seus casos, dos bafos, e o drama é sempre intenso. Tudo é hiperlativo, na festeeenha das bichas, e as conversas são sempre pontuadas por manifestações efusivas de alegria: tuuu-dooo! A-do-ro!! A-rra-sou. Tem que falar assim, separando as sílabas. As pessoas são todas A-miii-gass, ou gaa-tasss, ou beee-chass. Sempre, sempre, em algum momento, haverá uma louvação à Madonna. As pessoas são até divertidas, mas no quinto papo sobre estilista, e ao ver o quinto casal de homens lindos se agarrando... fui embora.
Talvez ande meio chata. Definitivamente ando de mau humor e cansada. Mas gostaria, um dia,de ir a uma festa onde houvesse bichas e nerds e atrizes e intelectuais e jornalistas, e gente. E onde todos se misturassem e os papos não fossem tão previsíveis, e a bicha pudesse conversar com o aficcionado em quadrinhos, e a atriz com o professor, e todos dançassem e... enfim...
As pessoas, cada vez mais, me parecem muito interessantes. Mas teimam e teimam em andar somente com pessoas que nem elas mesmas, e qualquer grupo específico, onde todos fazem as mesmas coisas, ouvem os mesmos discos e frequentam os mesmos lugares me parece muito, mas muito desinteressante...
A diversidade é bela na mistura. Festas temáticas - que não sabem que são temáticas - me enchem.
O sensacional texto acima não é meu. Conheça o blog original.
Eu, ao telefone, tentando passar uma senha pra uma amiga cujo nome, assim como Voldemort, não será mencionado:
"Casa barco nariz zebra..."
"Péra, Alex, tem certeza que é tudo isso mesmo?"
"Como assim?"
"Que senha longa! Casabarconarizzebra!"
Eu começo a rir:
"Não, tolinha. Olha só, quando eu digo uma palavra você só anota a primeira letra. Então, se é N, eu digo nariz, se é Z, eu digo zebra, etc. Pra não gerar mal-entendidos"
"Ai, meu deus, desculpa, que boba..."
"Nada, deixa pra lá. Não preocupe sua cabecinha linda com essas coisas. Então, anota aí: casa barco nariz zebra mesa dois."
Ela desliga e vai pro computador testar a senha. Daqui a pouco, liga de novo, desesperada:
"Aleeeeex! A senha não tá funcionando!"
"Não pode ser. A senha é essa. Me confirma tudo."
"Cê-bê-ene-zê-eme-dê."
E aí, quem quase morre engasgado de tanto rir sou eu:
"Mas Aleeeex, você não falou que era sempre a primeira letra?!"
O dinheiro envenena tudo. A triste verdade é que se esse blog não pagasse meu aluguel eu já tinha detonado ele faz tempo e estaria blogando anônimo em outro espaço. (Em outras palavras, continuem comprando pelo meu link do Submarino ou finis LLL!)
Tenho saudade das histórias que eu podia contar quando assinava o LLL com um pseudônimo e ninguém me conhecia.
Hoje, esse blog tão público me parece cada vez mais chapa branca, previsível, bobo. As histórias mais ricas, os casos mais interessantes, são justamente os que eu não posso contar, sob pena de levar tapas na cara e chutes no saco, causar suicídios e homicídios.
Acabei de passar os quatro meses mais intensos da minha vida. Nunca chorei ou fiz chorar tanto. Nunca transei ou beijei tanto. Nunca terminei ou recomecei tantos relacionamentos. Nunca me senti tão confuso e tão desnorteado, tão amado e tão odiado.
E nada, nem um detalhezinho dessa história é contável nesse blog ó-tão-público. Enquanto eu vivia os meses mais intensos da minha vida, o LLL sobrevivia de reprises e posts requentados.
Mas talvez seja inevitável. Só escreve quem não vive. Quem vive, não tem tempo nem inclinação para escrever.
Felizmente ou infelizmente (nem isso eu sei mais!), daqui a pouco embarco de novo para os Estados Unidos, para mais um semestre letivo de vida monástica e muito trabalho, sem beijar nem transar com ninguém.
Quem sabe assim eu não consigo digerir melhor minhas experiências e escrever sobre elas?
Odeio me envolver nesses grandes temas polêmicos do meu tempo, como a atual Lei Seca. Quase sempre acho que estou só repetindo o que tantos outros articulistas disseram. Mas hoje, finalmente, um inspetor da Polícia Rodoviária Federal falou algo que eu já tinha falado em mesas de bar pela vida.
Um automóvel é uma arma em potencial, e das mais perigosas - vide estatísticas de mortes no trânsito. Ninguém tem o *direito* de dirigir automóveis. É uma concessão dada pelo governo às pessoas que preenchem determinados critérios - que deveriam ser muito, mas muito mais rigorosos. Eu seria a favor de um endurecimento total. Nada poderia ser melhor (para a segurança das pessoas, para a vida urbana, para o meio ambiente, etc) do que uma lei que tirasse das ruas metade dos motoristas - a pior metade, naturalmente. O problema, claro, seria a implementação.
Segundo o inspetor da PRF, é exatamente por isso que os motoristas não têm o direito de se recusar a fazer o teste do bafômetro (leia a matéria completa):
Na verdade, ninguém tem o direito de dirigir. As pessoas têm o direito de ir e vir, à vida, à propriedade, à manifestação intelectual, mas ninguém nasce com o direito de dirigir. As pessoas buscam do Estado uma permissão para dirigir, e essa permissão é um título temporário, precário e que pode ser cassado a qualquer momento. E quando esse título é cassado? No momento em que o motorista nega ou questiona os critérios utilizados para o oferecimento da permissão. Então a pessoa que se recusa a soprar o bafômetro está negando esses critérios. ... Seria como uma pessoa chegar numa clínica autorizada do Departamento de Trânsito regional e, no momento de fazer o exame de vista, falasse 'desculpa doutor, não vou fazer porque não sou obrigado a produzir uma prova contra mim'. Na verdade, o ambiente só é diferenciado. Se a pessoa está na rodovia, ela precisa fazer o exame, assim como no laboratório. Ou seja, existem critérios para se ganhar a permissão do Estado e esses critérios devem ser respeitados.
Não há nada de anti-libertário em se endurecer as leis de trânsito. Todos temos direito de ir e vir, mas ninguém tem direito de ir e vir a 100km/h sob efeito de drogas, em quaisquer quantidades.
Enquanto estava refugiado do Katrina em São Francisco, saí em alguns dates com uma moça local. O maior ponto de atrito do incipiente relacionamento foi a questão do celular.
Qual é seu celular?, pediu ela.
Não tenho.
Ah, vai, pode me dar, juro que não fico ligando o tempo todo.
Não tenho mesmo.
Sério, é só pra caso dê algum desencontro.
Eu juro que não tenho celular.
Então também não dou o meu.
*suspiro*
Diz o ditado machista:
"Em Roma, como as romanas."
Passando os últimos dois meses em São Paulo, estou tendo que me acostumar a diversos costumes locais sinistros:
Levar criança pra brincar na livraria.
Cumprimentar com um beijo só.
Não usar chinelo de dedo no shopping (ou arriscar não ser atendido).
Nunca deixar o carro estacionado solto ou mesmo encostar nos outros carros.
Soletrar doze sem "u", dez sem "i" e festa sem "x".
Ausência brutal de mulheres seminuas desfilando pelas calçadas.
etc.
Entre tantos choques culturais, o mais sinistro mesmo foi o tabu da pizza no almoço.
Aparentemente, para o paulistano médio, é mais sinistro comer uma pizza no almoço do que colocar a filhinha de dez anos em cima da mesa e currá-la ali mesmo.
Mais ainda, o tabu é tão auto-evidente que dispensa explicações: não se come pizza no almoço
"porque não"
"porque não combina"
"porque não é certo"
etc
E, quando eu digo que nunca ouvi falar disso antes, ainda me descartam como sendo só um carioca:
"óbvio que um povo capaz de colocar mostarda na pizza também seria capaz de comer pizza no almoço. Pior, pegando sol, ao ar-livre, em frente à praia! Pra você, isso deve ser normal! Ouvi até dizer que vocês usam sangue de criancinhas ao invés de molho de tomate!"
Grande parte da força de um tabu é sua pretensa universalidade. Para o nativo, aquilo é tão impensável que ele nem mesmo considera que, talvez, em outras partes do mundo, o seu tabu não seja tabu.
Todos os paulistanos com quem falei também consideraram auto-evidente que, claro!, ninguém come pizza no almoço em lugar nenhum do mundo. Óbvio!
"Por que comeriam? Por que qualquer um comeria pizza no almoço?! Não faria sentido! Coisa de bárbaros!"
Mas, aparentemente, o tabu da pizza no almoço não existe em nenhum outro lugar, nem em cidades de imigração italiana forte, como Nova Iorque, nem mesmo na própria Itália. Busquei no Google por "pizza for lunch" e por "pizza pranzo". Nenhuma menção ao tabu. Perguntei para amigos ítalo-americanos ou italianos. Todos disseram nunca ter ouvido falar nisso. Minha roommate em Nova Orleans, italiana da região do Alto Adige, perto da Áustria, nem entendeu minha pergunta e retrucou surpresa:
"Por que catzo eu não comeria pizza no almoço?!"
Ou seja, o tabu não é nem mesmo italiano, é 100% paulistano.
Naturalmente, não há problema algum nisso. Não estou nem mesmo defendendo o hábito de comer pizza no almoço. Eu, como aparentemente todo mundo com quem falei que não é de São Paulo, nunca tinha parado pra pensar no assunto. Para todos nós, os não-paulistanos, pizza é uma comida como qualquer outra que pode ser servida a qualquer hora. O tabu nos soa tão bizarro quanto dizer que não se pode beber coca-cola de manhã, comer bolo de côco à tarde ou tomar sorvete à noite.
Também não estou reclamando. Cada cultura tem suas peculiaridades. Tudo é lindo. Se no Rio eu também não ______ (complete com algo que seria impensável fazer no Rio), por que ferir as suscetibilidades locais comendo pizza no almoço em São Paulo?
* * *
Tem alguma coisa que fazem na sua terra que você depois descobriu que não fazem em nenhum outro lugar? Ou, pior, algo impensável pra você e que, para o seu horror, é a coisa mais normal em outra cidade?
Uma pesquisa:
Estudo europeu relaciona descrença religiosa a QI alto.
O próximo projeto do mesmo instituto:
Teen Sex Linked To Drugs And Alcohol, Reports Center For Figuring Out Really Obvious Things
Aparentemente é unânime:
Os pernas-de-pau de Deus
Às vezes me parece – sobretudo mudando de canal e vendo uma mulher feia com cara de Irinelda dizendo que seu marido é impotente porque não encontrou Jesus – que Deus tem tamanho espírito esportivo que deu mais inteligência aos ateus do que aos crentes. Não é verdade, claro. Os homens mais inteligentes que já andaram na terra acreditavam em Deus. Mas Deus, também é verdade, parece ter colocado os piores jogadores no nosso time. Não há ateu tão estúpido quanto um crente estúpido.
Deus e o Diabo escolhendo os jogadores dos seus times. Deus teve pena dos aleijadinhos intelectuais e os escolheu; Deus não deixou que eles ficassem por último.
O melhor livro sobre o assunto, recomendadíssimo:
Não entendo gente que não sabe cozinhar.
Entendo gente que não gosta de cozinhar, claro. Tem gosto pra tudo. Tem gente que não gosta de mulher. Tudo é possível. Mas como não "saber" cozinhar?
* * *
Saí ontem pra um chá das cinco com seis mulheres. Nenhuma sabia cozinhar. Pior, todas achavam isso bonito, como se fosse algum tipo de feito do qual se orgulhassem. E eu:
Mas, gente, não tem como não saber. Vocês pegam a receita, seguem e pronto. Duas colheres disso, uma pitada daquilo, fogo baixo, mexendo sempre, não tem mistério. É como uma formulinha. Nunca fizeram laboratório de química?
E elas:
Ah, pra você é fácil. Você "sabe" cozinhar.
Eu cozinho freqüentemente. Mas não acho que "saiba" cozinhar. Na verdade, cozinhar é algo tão simples que nem se qualifica como um "saber". Seria como perguntar: você sabe se limpar sozinho?
* * *
Em geral, as pessoas que não sabem/gostam de cozinhar se dividem em dois tipos:
Há os homens que acham que encostar em qualquer utensílio na cozinha é algo emasculante. Dizem coisas como:
"Na cozinha, eu só entro pra beber água, se não tiver comida pronta, peço pizza", etc.
Há as mulheres que acham que encostar em qualquer utensílio na cozinha é dar prova de amélia. Dizem coisas como:
"Imagina!, quem cozinhava era minha avó, eu dirijo minha empresa, jogo golfe, escalo o Aconcágua, vê lá se vou perder meu tempo fazendo arroz!", etc.
Um mais cheio de preconceitos que o outro.
* * *
Cozinhar não é um conhecimento arcano para poucos iniciados. É daquelas habilidades básicas no dia-a-dia, como se limpar, se barbear, arrumar sua própria cama.
Como não saber fazer sua própria cama? Como não saber se limpar sozinho? Como não saber cozinhar sua própria comida?
Cozinhar, se bem-feito, pode chegar a ser uma forma de arte - algo que fazer a cama nunca alcançará.
Mas cozinhar não precisa ser arte.
* * *
Meu pai é um homem à moda antiga, nunca ferveu nem água. Pra piorar, é um ex-milionário, já tendo sido servido por mais de dez empregados em sua casa.
Sempre que ele me liga e eu digo que estou cozinhando, o homem começa a rasgar as vestes:
"Meu filho, meu deus, que decadência, sem nem dinheiro pra comer num restaurante!, é tudo culpa minha!", etc etc.
E eu sou obrigado a explicar que, sim, de fato, embora não tenha dinheiro nem pra esfiha do Habib's, eu cozinho é por prazer, porque só eu sei fazer a minha comidinha do jeito que eu gosto.
Mas não adianta: pro meu pai, cozinhar a própria comida é sinal de pobreza absoluta. Algo como lavar a própria privada ou dirigir o próprio carro.
Cú não levar acento é um acinte. Por uma questão de justiça, cú só com acento. O melhor de escrever cú com acento é descobrir quem vão ser os malas que vão te corrigir.
Minha amiga de ontem, apesar de acadêmica, moderninha e liberal, claramente tem alguma questão mal-resolvida com a prostituição. Independente do que diga ou do que pretenda, ao falar de "questão do turismo sexual" ela está se posicionando não contra a pedofilia ou contra o alicimento de menores, mas contra nossas profissionais do sexo atenderem estrangeiros.
Seu argumento slippery slope ("quem começa com um passa pra outro") é figurinha fácil na boca dos piores reacionários, coringão que serve pra tudo, desde maconheiros que se graduam em cheiradores até gamers que se tornam ladrões de carro. Literalmente, todo mundo que faz uma coisa pode passar a fazer alguma outra coisa: praticamente todo homem que já espancou uma mulher já mamou no peito de outra. A questão é se as duas coisas são relacionadas.
Muitos brasileiros (e não só os reacionários direitistas religiosos pequeno-burgueses etc) parecem estar com a prostituição entalada na garganta, como se viver em um país onde essa atividade é legal fosse um incômodo constante, e tentam frequentemente estigmatizá-la ou criminalizá-la pelas bordas. Aceitam muito a contragosto que a prostituição exista, mas querem proibir as meninas de ter sites, de anunciar em jornais, de ficar em pé na rua pegando cliente, de se organizarem coletivamente, de trabalharem em bordéis e mesmo de tirar a roupa pela internet via webcam. Ou seja, poder pode, desde que eu não veja.

Excelente livro da minha amiga Paula Lee, prostituta brasileira em Portugal.
(Perdoem uma digressão desse pesquisador do século XIX, mas isso me faz lembrar a liberdade religiosa no Império. O estado era laico e havia liberdade de religião - mas só privadamente! O cidadão podia ser judeu na sua própria casa, mas nada de ter uma sinagoga com letreiro em hebraico na porta! Seu direito de praticar o judaísmo era garantido pela Constituição de 1824, imagina!, nosso império era democrático!, mas como *todos* os registros de nascimento e morte eram feitos pela Igreja Católica, que também controlava quase todos os cemitérios, ele não dispunha de uma série de documentos cuja falta o impedia, entre outras coisas, de trabalhar pro governo ou ser eleito para cargos públicos. Aliás, esse cidadão brasileiro judeu - cuja liberdade religiosa era constitucionalmente garantida! - não podia nem mesmo morrer, pois o cemitério católico não o aceitaria, a lei não permitia que fosse enterrado no quintal e a família quase nunca tinha dinheiro para enviar o corpo até o cemitério laico mais próximo, muitas vezes a milhares de quilômetros de distância, somente em algumas grandes cidades. Assim é fácil garantir a liberdade de religião, né?)

Pra quem se interessa, simplesmente o melhor livro sobre o assunto.
Quando o Ministério da Saúde faz cartilhas para informar as garotas de programa sobre doenças venéreas, ou quando o Ministério do Trabalho detalha as atribuições profissionais das prostitutas em seu catálogo oficial de ocupações, a grande imprensa sempre noticia o fato como se fosse uma grande piada de mau-gosto ou alguma bizarrice burocrática.
Considerando essa tamanha reação social, chega a ser espantoso a manutenção dessa lei por parte da burocracia estatal. Mas não é nada que um punhado de deputados e senadores evangélicos não resolva.
Alguns links:
- Site do Ministério do Trabalho traz cartilha que ensina a ser prostituta
- Lula e as prostitutas
- Ainda a prostituição e o Ministério do Trabalho (por Reinaldo Azevedo, imperdível)
- 'Governo não pode estimular a prostituição', diz ministro do TST
- Ministério do Trabalho tira cartilha sobre prostituição do ar
Depois de amanhã, a questão das prostitutas brasileiras no exterior...
Há de se dar valor aos reacionários direitistas religiosos pequeno-burgueses assumidos. Uma das coisas mais engraçadas dessa turma moderninha e pós-moderna, liberal e liberada, acadêmica e psicanalisada, politicamente correta e relativista, é que são todos muitos modernos e coisa e tal, mas só até certo ponto: quando você lhes cutuca um dos seus tabus, reagem como verdadeiros talibãs.
(Nunca esqueço do furor moralista causado, em plena festa de fetiche, todo mundo de couro e máscara, gente sendo pisada e chicoteada pelo chão, por um simples beijo entre duas meninas.)
Outro dia, uma amiga dessa turma, pós-doutora em Antropologia e que adora ter seus pés lambidos, moça moderna a toda prova, veio me dizer que estava preparando uma palestra sobre a "questão do turismo sexual". E eu perguntei:
"'Questão'?!" Isso não é meio que como falar da 'Questão Judaica' ou 'Questão Negra', ou seja, um termo que já de cara direciona a discussão?"
"Mas, Alex, o turismo sexual é um grave problema do Brasil de hoje!"
"Hmm. É? Não sabia, não. Por quê?"
Aí ela começou a falar de pedofilia e aliciamento de menores, contando mil casos escabrosos: "Tem gringo vindo pra cá só pra comer menininhos de oito anos!"
"Sim, mas veja: o problema então não é o turismo sexual, é pedofilia e aliciamento de menores. São coisas completamente diferentes. Ser contra o turismo sexual por causa da pedofilia é como ser contra o sexo por causa dos estupros."
"Uma coisa é sexo entre pessoas adultas e outra aliciamento de menores."
"Então, vamos discutir a "questão da pedofilia" e a "questão do aliciamente de menores", que são crimes sérios que devem ser combatidos, e não a "questão do turismo sexual", senão parece que o problema são os gringos estarem vindo comer nossas prostitutas ou, pior, nossas prostitutas estarem seduzindo os pobres gringos."
"Muita gente começa com os maiores e passa pros menores..."
"Mas será válido criminalizar ou problematizar uma atividade perfeitamente legal, como a prostituição, só porque ela *PODE* levar a uma outra ilegal? Deveríamos então proibir o sexo, porque todo estuprador começa transando consensualmente e só depois começa a estuprar...?"
Claramente, nosso povo tem talento para o sexo e há grande demanda mundial pelos nossos serviços. Já ouvi diversos estrangeiros comentarem que não existe prostituta como a brasileira: ela é quente, gostosa, linda, sensual, calorosa, parece uma namoradinha, enquanto as européias são como frias máquinas, vapt-vupt, negócios são negócios, no relógia, nem tem graça, etc.
Ou seja, país do futebol: pode. Berçario de super-models: nosso orgulho nacional! Capital mundial da cirurgia plástica: só comprova a excelência da nossa medicina! Meca do turismo sexual: cruzes, que vergonha!, que problema!, vamos resolver essa "questão"!
Update
Muita gente escreveu variações do seguinte comentário:
Acabo de perceber o qt sou moralista... Me pareceu extremamente absurdo alguem gostar da ideia de ter fama de produzir boas prostitutas. Devo ser mto conservador para logo imaginar se blogueiros tem mães,irmãs ou qualquer outra mulher que amem. Hoje se diz "sou brasileiro" e ouve "carnaval, ronaldinho, kaka"... vai ser legal ouvir "samba, ronaldinho, putas quentes" Ou sera soh a busca da fama virtual que parece ser a moda da decada? Bota a mãe em site gringo anunciando os serviços, ai sim vai ser possivel acreditar nessas ideias alienadas de que turismo sexual eh bom. E se nao pensa isso entao redigiu mto mal o texto.
Pra começar, sim, o sujeito é muito moralista e conservador.
Mas a resposta à sua provocação é bastante óbvia: não, eu não gostaria que minha filha fosse prostituta, mas também não gostaria que fosse enfermeira, faxineira, engenheira, seringueira, advogada, pagodeira.
A diferença é isso não quer dizer que eu ache que essas atividades sejam imorais, repreensíveis e que devam ser proibidas.
O mundo seria um lugar bastante inviável se as pessoas quisessem criminalizar todas as profissões que não desejassem para suas mães!
Depois de amanhã, a questão da prostituição.

Excelente livro da minha amiga Paula Lee, prostituta brasileira em Portugal.
Obras completas de Freud, de R$960, por R$399
Um blog sobre rebeldia, contemplação e sacanagem, regado a muita literatura e humor. Nosso assunto são as várias prisões que acorrentam o homem, como ambição, verdade e medo. Dê sua opinião!
Quer comprar no Submarino? Entre por aqui e eu ganho 8%
8129 Panola St, New Orleans, LA, 70118, msn, tel, email
Ao me enviar email ou comentar no LLL, você está automaticamente permitindo que eu publique sua mensagem no blog, inclusive com seu nome e endereço. Pense bem.