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Você mesmo preenche o valor do preço. Fique à vontade para pagar um pouco a mais, se quiser: a casa aceita e estimula as gorjetas. O livro está sendo vendido a preço de custo, então, se não for fazer falta no leitinho das crianças, seja generoso.
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Meu romance "Mulher de Um Homem Só", narrado por uma mulher, é minha humilde tentativa de entrar na cabeça de uma mulher, de falar como mulher, de ser mulher um pouquinho. Se esse assunto lhe interessa, se ficou curioso ou instigado, dê uma olhada e descubra se fui uma mulher convincente.
Algumas mulheres que gostaram: Alessandra Bonrruquer, Paula Lee, Mary W, Marina W, Ju Dacoregio, Isabella Ianelli, Fernanda França, Re Alves.
Para ler essas e outras resenhas, comentários e reações ao livro, visite a Seção Mulher de Um Homem Só.
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Três entrevistas minhas, sobre esse livro e sobre literatura de modo geral:
- Quanto Vale ou É por Quilo - Revista Bula
- Alex Castro: Um blogueiro liberal, libertário e libertino - Global Voices Online
- Alex Castro: Escritor e Mindfucker - Portal Literal
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Para quem gosta de folhear e cheirar, o romance pode ser comprado nas seguintes livrarias do Rio e de São Paulo:
São Paulo
- HQMix (livreiro Gualberto)
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Rio de Janeiro
Argumento do Leblon (livreira Ana)
Dias Ferreira, 417, Leblon (21-2239-5294)
Berinjela (livreiro Daniel)
Rio Branco, 185, lj 10, Centro (21-2215-3528)
Dona Laura Livraria (livreiro Philippe)
Vieira Souto, 176, Ipanema (21 2522 8362)
Baratos da Ribeiro (livreiro Maurício)
Barata Ribeiro, 354, lj D, Copacabana (21 2549 3850)
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Se você ainda está em dúvida se vale a pena, "Mulher de um Homem Só" também pode ser lido e folheado pelo Google Books. Mas só 50%, viu? Pra ler o resto, só comprando.
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Finalmente, deixe de fazer doce e compre:
Quanto mais tarde se aprende, pior. Júlia usou as mesmas palavras. O que seria preferível? Imaginar o cretino discutindo com Júlia a educação de Raquel em sigilo? Chama Carla não, isso aqui a gente resolve entre nós, pra que ela precisa saber?, besteira!, mas fala baixo! Ou será que a segunda hipótese não é pior: ambos pensam tão bem cerzido que falam assim as palavras um do outro sem nem precisar combinar antes, como foi com a Libeca? Gostaria de não acreditar nessa última, mas acredito. E isso me incita, tenho vontade de arrostar e estapear o insuportável: por que você me faz padecer esse suplício? Se são tão iguais, tão amigos, tão almas-gêmeas, tão inhénhénhém, por que não casou com ela? Por que flagelar a mim no pau-de-arara dessa amizade?!
Não queria mais Júlia despachando tanto tempo com minha filha. Encerrei o expediente, pode sair, queridinha, deixa seu paletó aí na cadeira, se quiser, mas rua pra você. Murilo ainda tentou me convencer, mas seus argumentos começavam derrotados: ele não falava nem de Raquel e nem de mim, só de Júlia. Que Júlia precisava de Raquel, que Júlia estava torcida e luxada, que Raquel era essencial para ela se rearticular. Perdoem-me por ter dado uma impressão errada, mas não tive filha só para remediar a maluquete. Se é desequilibrada, que se equilibre sozinha.
Na semana seguinte, aconteceu a terceira e última vernissage de Júlia.

E aí? Vai querer ser a última pessoa a ler?
A voz de mulher e a mulher sem voz
... O principal registro do livro, o tom mais óbvio e destacado, é a dicotomia eu-outra, falante-calada, voz-mudez. Júlia é sempre por Carla. Sua história inteira só nos chega através de sua maior inimiga, da esposa (quase) traída, da mulher enciumada e ressentida mas, principalmente, da vencedora. Sem tempo para filosofia barata ou babaquices politicamente corretas, Alex dá a voz ao establishment, dá ao historiador romano a liberdade de contar como quiser a história dos povos bárbaros vencidos, escreve a guerra do Iraque a partir do Kansas (ou mais propriamente, de New Orleans), deixa Ali Kamel mostrar como não existe racismo no Brasil.
E a voz de Carla, como toda aquelas vozes da história oficial, parece sempre sensata, sempre justificada. A loucura está lá longe, na outra, na pseudo-artista, na amante inconstante, na puta barata, na alcoólatra ocasional. A outra que existe para ser usada quando necessário, para cuidar da filha pequena ou aumentar as comissões de vendedora de Carla mas cujos desejos, opiniões, sonhos e paixões são sempre menores, errados, desimportantes, incômodos. A outra que não fala minha língua, então não deve ter voz.
Não passa uma página sem que Carla critique algum aspecto da vida de Júlia, desde seu modo de vestir até sua relação com a mãe, de sua incapacidade de manter um relacionamento às suas bebedeiras, de sua irresponsabilidade a sua futilidade.
We have met the enemy and he is us
O leitor pode simplesmente ler a história da esposa preocupada (mas lembrando sempre que, em psicanálise de boteco, preocupação é raiva, muita raiva) com a louca da amiga do marido. Como assim, “amiga do marido”?, perguntaria o outro leitor com um sorriso nos lábios. Desde quando maridos tem esta liberdade, a liberdade de amigas?
Então é preciso voltar e ler o livro ao contrário – quem diabos é esta Júlia? Da onde vem a força desta loucura, da onde parte o estranhamento? Por que a mulher livre precisa ser humilhada, pela narradora, pela sociedade, pela vida? Quanto ela tem que aguentar para se manter livre?
As mulheres de família sabem que o espelho não mente – a puta, a poeta, a artista, a viajante, a atriz, todas elas estão ali, no fundo, adormecidas ou mortas a facadas de realidade. Todas as curvas a esquerda que deviam ter sido à direita, todas as escolhas erradas, todos os homens que não as comeram ou para quem elas não deram, todas as sobremesas, todas as calorias, todos os porres que elas não tomaram, estes fantasmas da memória ainda olham do espelho e perguntam sempre, valeu à pena? Elas não precisam de uma desvairada que ameace todo dia mostrar que outro mundo é possível.
A última coisa que uma sociedade precisa é de uma minoria oprimida a esfregar na cara da raça/do sexo/da religião dominante a magnitude de seus crimes passados e presentes. A última coisa que Carla precisa de da amiga de infância do marido rondando seu casamento, esfregando na cara de Murilo todo o glamour do “poderia ter sido”, mostrando todo dia a diferença entre a artista incandescente e apaixonada que ele deixou passar para se casar com a vendedora/dentista/mãe.
O homem só
Mas claro que eu não estaria aqui falando de Mulher se fosse só isso. Eu talvez não tivesse nem terminado de ler se o livro se resumisse às lamúrias auto-piedosas da esposa exemplar. Há dezenas de outros níveis de leitura. Há por exemplo a terceira voz, muito fraca, o pobre Páris perdido nesta guerra de deusas.
Murilo, sempre estranhamente fraco, estranhamente ausente, quase sempre definido pelo negativo. Que não comeu Júlia (que Carla acredita que não comeu Júlia). Que perdeu a virgindade “em um puteiro de segunda categoria” (que contou esta historinha para boi dormir para Carla – quem naquele tempo, naquela classe social, naquela cidade, precisava ainda ir a um puteiro perder a virgindade? Ainda mais tendo Júlia ao lado louca para dar?). Que sempre fazia as vontade de todas as suas mulheres. Que seguia milimetricamente os passos do pai. Murilo que, como Páris no fim, talvez só quisesse um pouco de paz. Para ler a história de Murilo não bastam as entrelinhas e o espelho, é preciso ir buscar lá no título o homem que, arrastado à guerra de duas mulheres tão grandes, tão altas, tão terríveis, está só. ...
Mulher é um livro impressionante, a narrativa sempre inteira, o domínio da língua sempre presente mas nunca intrusivo, uma prosa que flui tão fácil que o leitor nem percebe o labirinto em que está se enredando até ser tarde demais. Inesperado, em meio ao eterno marasmo literário brasileiro. Um tapa na cara de cada editora que recusou-se a publicá-lo, uma prova da incompetência de cada assistente editorial que leu e não se arriscou a sugerir a seus chefes que ali estava um autor que merecia toda a atenção.
Um livro que me deu um prazer que quase só a poesia me dá. Que podia ser lido como um longo poema dramático, cada palavra pedindo a próxima. Ou como um épico moderno, cada parágrafo uma batalha, cada capítulo uma guerra. Tudo isto está lá, esperando para ser lido. Desliga a televisão, fecha o browser, sai do twitter, e vai lá ler. Agora.
Resenha de Paulo Cândido, originalmente publicada no blog "Todos os Assuntos do Mundo", 31 de agosto de 2009. Texto completo aqui.

E aí? Vai querer ser a última pessoa a ler?
Eu tinha esquecido que “Mulher De Um Homem Só” era tão bom.
Li o livro há alguns anos. Uns cinco, acho. Foi logo que conheci o Alex, e na época “Mulher de um Homem Só” circulava pela internet livremente. Li, gostei acho que comentei sobre o livro com o Alex.e o livro passou para a galeria daqueles livros que você leu. Talvez o fato de me tornar amigo do Alex tenha contribuído para isso, esse excesso de familiaridade intelectual.
Reli agora, impresso, e fiquei impressionado com o tanto que tinha esquecido. E com o quanto o livro é bom.
“Mulher De Um Homem Só” é um livro maduro, bem pensado. Dentro dos limites da obra, esgota com propriedade as suas possibilidades narrativas.
O livro conta a história da relação entre Carla, a narradora, e a melhor amiga do seu marido, Julia. É um livro carioca sobre o ciúme, narrado do ponto de vista feminino. E é nessa narração que está um dos grandes trunfos do livro. Em Carla, Alex cria uma personagem crível, rica, e explora bem suas possibilidades. É aqui que o Alex demonstra ser um excelente escritor: ele tem perfeito domínio da voz feminina da Carla. É esse o grande segredo do livro.
Durante anos o Alex vem insistindo na questão da onisciência de sua narradora. É a chave para a compreensão de “Mulher de um Homem Só”. Estritamente, essa é uma história que só existe na cabeça de Carla. Alex faz um grande trabalho ao assumir a voz de Carla. Todas as incongruências, todas as incompatibilidades desse discurso são expressos admiravelmente pelo texto do Alex.
Eu gosto de imaginar a Carla como uma mulher de seus 30 anos internada numa clínica de repouso, contando entre um surto e outro de esquizofrenia uma história que mistura realidade e ficção e que não respeita limites de tempo e de espaço.
É também um livro carioca ao extremo, um detalhe de uma classe média alta espremida entre os morros. É outro grande trunfo do livro: embora carioca, está longe daquela “literatura urbana” que deriva imediatamente de Rubem Fonseca e que, nos últimos anos, se tornou praticamente sinônimo de literatura feita naquelas plagas.
Umas poucas coisas me incomodam no livro. Uma delas é um trecho em que Julia dá a entender que décadas se passaram entre os acontecimentos narrados e a narração em si — e então a Carla se mostra como uma mulher que não aprendeu absolutamente nada depois de tanto tempo, algo razoavelmente improvável. Além disso, mesmo admitindo-se que o objeto do fixação de Carla é a Julia, e mesmo entendendo que o personagem é definitivamente filtrado pelo seu olhar — o que é um dos trunfos do livro –, ainda assim Murilo poderia ser construído de maneira mais elaborada. Finalmente, o último parágrafo não apenas me parece abrupto, mas também desnecessário dentro do contexto do livro.
São poucos defeitos para um livro inteiro. O que “Mulher de um Homem Só” prova é que o Alex é exatamente aquilo que ele vem dizendo ser há tanto: um escritor. E um bom escritor.
Resenha de Rafael Galvão, publicada no blog "Rafael Galvão" em 8 de setembro de 2009. Texto Completo aqui.
Não dá pra saber o que realmente se passa entre Júlia e Murilo. Carla conta todas as histórias nos mínimos detalhes, invade até o pensamento dos outros personagens. E toda a racionalidade de Murilo pode esconder desejos ferozes, que ficarão sempre encobertos. A Júlia é uma maluquete, artista, já viu né. Mas como é Carla quem conta a história não se sabe bem o que realmente acontece atrás de seus olhos e ouvidos. Ou até se o que ela conta é verdade mesmo.
Mary W.: “Veja que ele nem quer comer a melhor amiga nem nada.”
Recordo-me bem de minha tia, minhas amigas, e até minha mulher contando histórias pra outras pessoas de coisas que eu tinha presenciado. É incrível como as mulheres tem imaginação pra fazer render os acontecidos. É por isso que conversam tanto e não cansam. Elas sabem tudo o que todo mundo está pensando, sabem o que desejam, o que odeiam, e o que escondem.
Carla é assim, tem uma imaginação feroz. A partir do que viu, do que lhe foi contado, e do que ouviu os outros conversando, construiu uma história cheia de pequenos detalhes.
Para um homem que já é casado, apesar dos vinte e poucos anos, que já tem uma filha, e que estudou numa sala com mais de quarenta mulheres e menos de oito homens (da época que cursei quatro semestres em Psicologia na UFRN), é engraçado ler um livro narrado por uma mulher e imaginar todas aquelas mulheres que conheci, cada qual contando uma parte do livro.
“Não, Carla não é louca. Nem maluca de ciúme. Todas suas neuras são as neuras de todas as mulheres que conheço. Coisas que aposto que Murilo nem sonha.”
***
O livro “Mulher de um homem só”, de Alex Castro, não é um livro bom. É um livro sensacional. Que vale a pena ser lido e relido milhões de vezes. Apesar de ele ter me censurado quando disse que havia lido seu livro duas vezes: “perdeu seu tempo, nenhum livro merece ser lido duas vezes”. Eu discordo. Até porque não me furtarei de ler seu livro novamente assim que minha amiga me devolver, depois do empréstimo que fiz.
Alex Castro é um babaca. Não há como não odiá-lo. Com sua ironia maldita e sua falta de respeito por qualquer coisa. Parece que faz parte da sua vida liberal, libertária e libertina, não querer agradar.
“Quem é Alex Castro? Alex Castro é um grandecíssimo mentiroso, como todos os autores de ficção. Não confie em nada do que ele diz.”Adoro ler Alex, mas pessoalmente o odeio.
Quando imagino ele dizendo isto, quase dá vontade de dar-lhe um chute no saco: “[...] quando odeio o livro de um autor vivo, eu fico calado e me autocensuro muito mais do que no caso de um autor morto, que não está aí pra chorar de tristeza ou, pior, vir na minha porta me bater. Para que vou falar algo pra magoar um menino que está começando e cujo único pecado é ser incompetente e inábil?”
***
E mulher tem a história de ciúme. Não tem como fugir disso. Basta ela imaginar que seu companheiro encontrou na rua com uma ex e conversou dois minutinhos para a temperatura dela subir. E se a menstrução estiver pra vir, aí é que o negócio complica.
Não sei como Carla não trocou tapa com Júlia. Talvez tenha sido por seu amor neurótico pelo Murilo. Ou talvez porque Júlia era uma vadia e Murilo parecia não gostar de mulher “semvergonha”.
***Essa expressão “literatura independente” me incomoda demais. Só porque não lançou por editora chamam de independente. Ué, Fani do BBB lançou o seu por editora. Augusto Cury conseguiu editora para “O futuro da humanidade”.
Acho que deveriam chamar “literatura de qualidade não reconhecida”, e não “literatura independente”. Comprem o livro de Alex, leiam, e depois venham me dizer se estou mentindo. Não tenho medo de errar: se você não gostou, compre o livro de Fani, tenho certeza de que você vai adorar. Ou leia Caras.
***
Há coisas que não gostei? Há. Acho que a crítica que faço é a mesma de grande parte das pessoas que leram o livro: ele é curto demais.
“Um livro cujo único defeito é não ter mais umas cem páginas [...]”
“Nota 9. Só não é nota 10 porque é muito curto!”
Outra problema que tive foi a falta de limites na narração do livre. A onisciência de Carla não enfrenta barreiras. É um livro de ficção, eu deveria estar preparado pra tudo. Mas minha cabeça parece estar orientada a buscar cientificidade. Mas esse foi um problema pessoal mesmo, eu já deveria ter me acostumado com o fantástico na literatura. É um processo, e o livro, na verdade, foi um grande amigo me ajudando a caminhar mais esperto.
Mas o fato de o livro ser curto não impede que ele consiga ter se fechado de forma a satisfazer o leitor.
“[...] embora tenha um desfecho brusco, consegue nos transmitir uma sensação de saciedade.”
***
Ler Alex é algo muito agradável. Não importa se ele escreve sobre teatro, sobre racismo, ou sobre sua tara por pés.
É uma tarefa quase impossível começar a ler seu livro e parar no meio do caminho. É o tipo de leitura que flui, e quando você percebe o tempo e as páginas foram embora.
Em síntese incrivelmente perfeita, Luiz Biajoni descreve Alex como: “Um caso único em que a pretensão está casada com a qualidade.”
Como disse Ulisses Adirt: compre o livro e depois venha aqui me agradecer.
Não duvide, compre!
Resenha de Daniel Cáceres, publicada no blog "Cacerenga" em 19 de agosto de 2009. Texto Completo aqui.
Muita coisa já foi dita sobre o livro de Alex Castro, Mulher de um homem só. A narradora, que é estranhamente onisciente, fala de um tempo indeterminado no futuro onde muito já aconteceu – três gerações adiante? Também disseram, e com razão, que as neuroses dela são legitimamente femininas, revelando a compreensão que o autor tem das mulheres – árdua pesquisa, deve ter sido. Li também por aí alguém querendo saber por que as duas mulheres do livro nem se matam nem se comem. Seria outro livro, e nesse caso o título mudaria totalmente de sentido.
Gostei do estilo intimista da narradora, do vaivém dos fatos, afinal, ninguém se senta num boteco e conta tudo em ordem cronológica. Já fui Carla, já fui Júlia, já tive uma Júlia e se bobear fui até Murilo. Mas nao é esse o pulo de gato do livro. O grande lance é que até os que não são versados em armações triangulísticas se identificam com o livro porque MDUHS é sobre intimidade. Não amor, não ciúme, não relacionamentos. Intimidade.
A intimidade entre amigos de adolescência que faz com que um ature as idiossincrasias do outro e a outra saiba as taras do um, se eu mexer meu pé assim ele fica bem à sua vista, vou abaixar aqui pra pegar uma coisa no chão mas vê se não olha pra minha bunda, claro que eu quero que você olhe, tá bobo?
A intimidade entre marido e mulher que faz o controle mais fácil e simula aquilo que chamam de amor plácido, querido, vamos batizá-las, sim, querida, a madrinha será aquela que você não gosta, e sua mãe se intromete tanto.
A intimidade entre inimigas cordiais, fica quieta e mexe no meu cabelo, or causa dos santos a gente beija as pedras, não sei muito bem como me livrar de você, não quero seu mal mas por favor suma do mundo.
E depois as intimidades pequenas entre madrinha e afilhada, a outra amiga da adolescência, a mãe de alguém próxima, a própria mãe numa intimidade incômoda que geral palpites infelizes.
No fim fiquei achando que faltava à Carla um pouco mais de intimidade com outras pessoas, ou com um terapeuta, não sei. O final suspenso me diz que um dia a coisa muda, devagar, porque tudo muda se alguém muda. Mas a essa altura do campeonato todo leitor já tem intimidade com os personagens e sabe adivinhar o que acontece depois. Leia.
Resenha de Maffalda, publicada no blog "Maffalda" em 3 de setembro de 2009. Texto Completo aqui.
Alex,
A impressão q tive da diferença entre teu estilo no blogue e teu estilo no livro foi como a impressão q a gente tem qdo ouve um cantor conversando e depois o ouve cantando e soltando um vozeirão. Fiquei muito impressionado, literalmente, com tua habilidade na fraseologia ficcional, perfeitamente casada com a mentalidade da Carla; todo o vocabulário feminino, tanto de palavras como de linhas de pensamento, foi uma realização ímpar. Na maior parte do livro, a Carla é como um ser vivo, falando ali em frente ao leitor, uma velha conhecida q solta o verbo num bate-papo, um triunfo de realismo. Vc consegue até mesmo dotá-la desse aspecto das pessoas reais q as deixa de certo modo menores do q os grandes personagens de ficção, personagens estes q aparecem numa aura de idealização, seja heróica ou maligna ou "realista"; sobre a Carla, não aparece a questão de se o leitor gosta ou não gosta dela, se se identifica ou não com ela, if one cares about her or not: ela é uma conhecida como as outras - pessoas cujas atitudes a gente aprova e às vezes não, mas q a gente na verdade nunca pára muito pra pensar sobre. Com essa criação, vc matou a pau (q é a maneira como nós aqui em português dizemos "it's a great achievement").
Mas... (comigo sempre tem um 'mas')
Puta q pariu, ¿foi preguiça o final? Terminar desse jeito novela-do-manoel-carlos, "passa um tempo na Europa e tudo se resolve"... Paguei R$25 por ¿ISSO? Meu nome tá ali impresso como mecenas ¿DISSO?
Cara, vc me deixou putíssimo da vida. Tou brincando sobre os R$25 e meu nome no livro, claro. Fiquei puto e puzzled foi com o motivo q pode ter feito vc abandonar desse jeito tão displicente uma idéia ficcional brilhante e um talento assombroso pra criar e desenvolver uma voz de personagem. ¿Que deu em vc? preguiça? encheu o saco? crise de auto-confiança? preferiu ficar aí nas tetas de uma carreira acadêmica em vez de USAR teu talento? prefere deixar como tá e soltar um monte de stuff and nonsense sobre a ficção não ser "confiável, calmante, confortável"? Que catso? Que porra?
Essa história do triângulo assombroso tá pedindo mais. Pra mim soa como a primeira parte de um livro três vezes maior. Imagino outras duas partes com o Murilo narrando e depois a Júlia, ou o contrário, pra q a gente fique sabendo o q REALMENTE tava acontecendo na cabeça dos outros dois, longe do q eles dizem prà Carla. O Murilo e a Júlia nunca se entregam um ao outro, mas ¿por quê, exatamente? ¿Será q a Júlia realmente deseja Murilo? ¿Será q ela não é só uma infantilóide mimada? ¿Será q os motivos do Murilo realmente são os q a Carla imagina? ¿Será q ele na verdade não tá totalmente entediado com as duas, mal as nota e só pensa no trabalho? E não me venha com essa de "Olha q lindo, vc fazendo toda uma história tua na cabeça, inspirado em meu livro, q lindo, te amo." ¡O caralho! Vá se catar. Essa é TUA tarefa. Isso é VOCÊ q tem q fazer agora. Essa é TUA responsabilidade. Paguei R$25. Vc não pode usar modernismos críticos e escanteios de interpretação pra desculpar tua "escolha"de não ir mais fundo. Vc TEM q tranformar esse livro numa empreitada de gente grande, de adulto; não pode relegar essa idéia genial ao plano de uma novela da Globo. Sorry.
E não venha dar uma de Murilo/Alex pra cima de mim, q não nasci ontem. Tamos falando de teu TALENTO, não das desculpas q vc dá pra não usá-lo até o talo.
Abs,
Nunca me passou pela cabeça a idéia de dar voz a Murilo ou Júlia. O que justifica o romance pra mim é exatamente eles não terem voz e serem sempre vistos através das Carla. E, sim, eu tinha um romance três ou quatro vezes maior planejado.
Mas nada do que iria acontecer depois chegaria aos pés do romance que você tem nas mãos. Seriam mais e mais peripécias, uma atrás da outra, mas sempre mais do mesmo. Depois de cento e tantas páginas, a voz da Carla perderia a força, a vitalidade, o impacto, a novidade, e o ganho de enredo não seria o suficiente pra sustentar essa perda.
Os leitores não iriam conhecer os personagens melhor: só iriam vê-los fazendo mais coisas. As dúvidas que você tão bem levantou, que são sutis quando você as levanta por entre a penumbra da ambiguidade de Carla, se tornariam banais se arrastadas pra debaixo da luz e desenvolvidas no enredo.
Por muitos anos, eu amei e convivi diariamente com esses personagens. Sei cada detalhezinho de suas vidas. Pensei em quinhentas e uma maneiras de continuar o enredo e de passar mais alguns meses na companhia deles, mas todas essas maneiras acabavam resultando em um romance aguado, fraco, diluído. Um romance que comete um dos piores pecados que um romance pode cometer: overstaying its welcome.
Na minha vida, sempre preferi ser o cara que sai mais cedo sem avisar e sem se despedir de ninguém, que deixa saudade e vira assunto de quem fica, do que ser o mala que vai ficando, ficando e nunca vai embora.
(Visite o site do Doutor Plausível.)
Divina Marina W. leu e escreveu sobre Mulher de Um Homem Só:
Finalmente pude ler o livro do Alex, de uma dentada, reli o que tinha lido e fui. Antes eu havia mandado um email pra ele ele, dizendo que a narradora-mulher dava pra perceber que era ele. Expliquei que tenho uma coisa que não atrapalha, mas interfere quando eu leio livro de pessoas que conheço. Porque visualizo não só o amigo no computador, como levantando pra beber Coca-Cola. Acontece com pessoas que eu não conheço também, como Rubem Fonseca e Woody Allen. Eu vejo o Woody Allen dirigindo o tempo todo. Fico imaginando o atrás das câmeras. Não é uma coisa que eu queira, mas tenho. Mas quando embalei na leitura de Mulher de um homem só, acabei esquecendo mesmo do Alex. O livro é sobre uma queixa. Queixa de uma mulher. Eu recomendo, vamos comprar o livro do Alex. Primeiro vocês compram o meu. Depois o dele. Tô zoando. Não estou não. Brincadeirinha. Compra os dois.
A melhor coisa de conhecer a Marina pessoalmente é que, depois disso, fica impossível ler o blog sem ouvir sua voz dizendo aquelas palavras.
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Texto de Marina W., publicada no blog "Marina W." em 1º de setembro de 2009. Texto Completo aqui.
Um livro ... que ... retrata muito bem os limites de uma amizade intima entre o sexo oposto e o relacionamento afetivo de um casal, bem como a interferência que isso tem e de como isso funciona para os três indivíduos envolvidos.
Não tem como não gostar do livro. O jeito leve e envolvente do livro cativa o leitor a lê-lo de uma vez só, como se a narradora, Carla, estivesse ali batendo papo com você. Para mulheres então, nós adoramos isso! Foi por essas e outras que meu namorado comprou o livro e me disse: "Comprei especialmente para você, leia primeiro"
... "Mulher de um homem só" consegue retratar bem a situação de duas mulheres que devotam a vida a um homem que representa praticamente tudo em suas respectivas vidas, seja pela importância ou o papel que ele assume.
Poderíamos dizer que o título de mulher de um homem só caberia muito bem a esposa, Carla, visto que conforma sua vida em torno do casamento precoce e pela postura de colocar o marido sempre no centro de sua vida, sendo que parece que o foco de sua vida não é mais voltado para si, e a partir daí, abre mão de muitas coisas para ficar dependente de só uma.
No entanto, existe mais uma mulher envolvida no enredo e esta tem relevância fundamental: Júlia é a pessoa que está presente desde a infância do marido de Carla, sendo uma melhor amiga de todas as horas e totalmente devota ao amigo, sendo ele um pai, um irmão, um psicólogo e muito mais... Esse muito mais que preocupa
Pois é, nós, mulheres, temos sérias dificuldades para entender uma amizade assim, fato. Até porque - como se revela (!) e se confirma no livro (obrigada Alex, não era paranoia nossa, nem infundamento de Carla) -, sabemos que é muito difícil uma pessoa ser unida assim e não ter nenhuma segunda intenção ou desejo... (é claro que existem muitas exceções nessas situações, por exemplo, se o homem é homossexual, se a mulher já é realmente apaixonada por outro e enfim..., é algo muito relativo). Há quem venha com o argumento de que um olha para o outro como se fossem irmãos, que não há atração alguma... No entanto, isso é muito permeável, relações de amizade e amor seguem uma linha tênue...
E afinal, qual é o limite da intimidade? Acho que isso é uma questão muito interessante levantada pelo livro.
O mistério do livro é o Murilo, o marido e amigo. Realmente gostaria de ter mais pareceres sobre ele, de suas origens, de suas razões e de muito mais. E aliás, Carla esqueceu de contar algo crucial em sua história, algo que muitas mulheres adoram contar, como os dois se conheceram. Mais interessante seria Murilo contando isso, retratando a relevância que Carla assume em sua vida para os dois formarem um laço matrimonial, porque, oficialmente, quem é a mulher dele é Carla. Poderia ser clichê, mas adoraria se o livro tivesse uma continuação assim: 'Homem de só uma mulher' ou de duas, afinal. Imaginem, "Homem de duas mulheres"! Mas sinceramente, Murilo não me transpassa essa dualidade. Isso que é difícil para eu, como leitora, conseguir lidar... Afinal, é difícil não conseguir formar um parecer concreto de um personagem, de maneira a deterministicamente saber "se eu posso gostar ou ter raiva dele", só odeio essa neutralidade de sentimento que tenho de assumir por ele. ;P
Voltando a questão do título, Alex Castro no seu posfácio conta que lhe interessava, primeiramente, o título "Uti possidetis", e eu adorei demais, porque para mim se adéqua perfeitamente ao livro. Com a intenção de significar usucapião - que em português não fica tão bonito nem tão agradável como em latim, mas... - levanta reflexões muito interessantes ao livro. Quem estaria fazendo usucapião de Murilo, no final das contas? Quem se intrometeu na história, seria a mulher oficial no meio da amizade de Murilo e Júlia ou a Júlia que não soube restringir-se a sua singela posição de apenas amiga? Ou seria Murilo o culpado de toda essa confusão, por não saber estabelecer os limites dessas relações? Isso é muito interessante!
Pois então, no critério narrativo, a narração feminina é incrível! Pelo menos, mais uma vez, eu como mulher, adorei. É realmente muito identificável todas as atitudes que Carla assume, em torna-se amiguinha próxima de Júlia também, escutando todas as "julices" (adorei isso!), porque afinal, nenhuma mulher quer a melhor amiga do respectivo marido fazendo intrigas no relacionamento... E sim, ciúmes: inevitável. Inevitável para qualquer um, ainda mais para qualquer mulher. Mas olha, não posso tirar a razão de Carla - apesar de uns grandes exageros (mas mulheres tendem a hipérboles e desesperos nessas horas mesmo) - por existir até uma base no fundamento de ciúme dela, segundo a regra: oportunidade + 'motivo'. ...
Indico o livro e recomendo veementemente, especialmente para muitas amigas minhas, haha!
Resenha de Agatha Brandão, publicada no blog "Pequena Infante" em 2 de setembro de 2009. Texto Completo aqui.
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Só pra Agatha, um trecho exclusivo, eliminado e não-canônico do penúltimo parágrafo da primeira versão de "Mulher de Um Homem Só":
Estavam os dois em Grumari, há muito tempo, alguns dias antes de eu e o Murilo nos conhecermos, lá no Pedro I, onde ele foi mesário, eleição ainda de papel, e nós tão moleques, votando pela primeira vez e achando o máximo, Murilo pediu licença rapidinho, saiu logo atrás de mim, e apesar de ele nem me conhecer e já ter feito pouco do meu voto, eu agarrei ele ali mesmo no campo de futebol do colégio, e até hoje sustento que o Dr. Ulysses era um velhinho muito fofo e teria dado um excelente presidente, melhor que Murilo que votou no Collor e olha o que deu!, mas enfim, alguns dias antes disso, Murilo e Júlia estavam andando pela praia de Grumari, falando de política, preciso dizer que Júlia votou no Gabeira?, quando passaram por uma colônia de ciganas, vocês já viram?,
... Decidi, então, começar a ler o arquivo antes de receber o livro impresso. “Só um tantinho, pra ter uma ideia da história”, eu propus a mim mesma. E esse pouco transformou-se em um livro lido inteiro, pela tela de um computador, em dois dias. Lido não... Devorado. ...
Eu fiquei encantada com o estilo de Castro. Com a velocidade dos acontecimentos, com a narrativa onisciente – o escritor é corajoso, gente, escreve em primeira pessoa como mulher e ainda inova quando coloca a narradora em todos os lugares, uma semi-deusa – e com todo o desenrolar dos acontecimentos. Fiquei curiosa para saber o motivo de algumas lacunas, que certamente foram propositais, e até mesmo de descobrir o que acontece depois que o livro acaba. Porque, na boa, o livro acabou e deixou um gosto de que não podia ter acabado. Sacanagem.
Eu não conheço Castro, nunca o vi, só nos falamos pela internet profissionalmente, não era nem mesmo leitora do seu blog. Mas agora, leitores amigos, eu vou ser, sim. Você também deveria.
Resenha de Fernanda França, publicada no blog "Fernanda França" em 2 de agosto de 2009. Texto Completo aqui.
Ok, é oficial, eu falo muito e eu não sei dar entrevista. A conversa com o Ismar foi maravilhosa e divertidíssima, mas preciso aprender a falar em frases completas. Vão lá ver e me digam. Valeu, Ismar!
Alex Castro: Escritor e Mindfucker
Dona Adelaide é espírita. Dirige uma fubica verde de algum ano distante da década de oitenta, com um adesivo que diz: O Acaso Não Existe: Leia Kardec. Júlia é seu carma. Eu e Murilo estávamos por perto em uma das vezes em que falou isso. Pensei: que conveniente ter pais assim, nada nunca é sua culpa, não importa quantas merdas você faça, porque, afinal, tudo está escrito, você é o carma deles e eles têm mais é que engolir sua estrelice, aturar sua insegurança e alimentar sua insensibilidade. E Murilo pensou: que estranho viver em um universo pré-determinado, onde o acaso não existe. Como será que conciliam isso com o cristianismo e os conceitos de livre-arbítrio, do céu e do inferno? Preciso ler sobre o assunto. E dona Adelaide só suspirava.
Dona Adelaide nunca trabalhou, não tem hobbies, não gosta de ler, não sabe tricotar e mal acompanha as novelas: sempre se dedicou somente à família, ao marido e aos filhos. Mulheres assim, quando perdem as vítimas de seus obsessivos desvelos, quando morre o marido, quando o filho apóia a amante do pai, elas se grudam à filha que sobrou, mesmo ela sendo artista, alienada e amalucada.
Restaram só as duas naquele casarão e dona Adelaide, bobinha, devaneou que ela e a filha agora é que se amigariam, reciclariam seus problemas, debitariam companhia uma na outra, ah vai ser tão gostoso, só eu e minha filhinha, nós mulheres, precisar de homem pra quê?, ter Julinha ao meu lado já me basta, mas a doce Julinha prontamente se mudou pra cima da garagem, a uns cinqüenta metros de distância, e construiu ali um apartamento e um ateliê, com entrada própria, pra não ter que nem ver a mãe, aquela água de bacalhau, cimento de secagem retardada, coca-cola sem gás, e Júlia só se refere à mãe assim, dona Adelaide na terra e o diabo no inferno, você reclama da sua mãe, Carla, porque não conhece a minha!, e Júlia parece não perceber que dona Adelaide, a déspota ensandecida, nunca telefona, nunca aparece, nunca pergunta da sua vida, nada, e se mantém dolorosamente à distância por medo de desagradar a narcisóide filhinha.
Nem sempre o novelo assim se desenrola: às vezes, Júlia fica carente, e aí sim é muito cômodo ter a mãe à disposição, abanando o rabinho quando a filha se digna a filar sua comida, e as duas jantam, conversam, se paparicam. Mas quando dona Adelaide se sente sozinha, ela permanece sozinha, naquela solidão espessa de quem não tem nada o que fazer, nem livros pra ler, nem netos pra cuidar, nem bordados a tricotar. Pra que correr o risco de melindrar a filha temperamental? Depois ela se intumesce e vai embora e eu fico aqui desdenhada. Pra piorar, Júlia era artista. Ou seja, seus rodopios e desvarios eram não só o carma de dona Adelaide como também ossos do ofício. Artistas não são todos assim? E dona Adelaide suspira, e acompanha uma quase-desconhecida até a casa de sua filha, e começa a limpar resignada o chão do banheiro.

E aí? Vai querer ser a última pessoa a ler?
Uma leitura ruidosa, por Paulo Polzonoff Jr.
Mulher de um homem só, de Alex Castro, é um bom livro. O problema é que o romance (ou novela, como preferem alguns) é uma daquelas obras impossíveis de serem admiradas por si só. É um trabalho contaminado por ruídos de vários tipos. Eu gostaria muito de ter lido Mulher de um homem só sem pensar em todas as coisas extraliterárias que o livro evoca. Porque, repito, o livro é bom.
Comecei a lê-lo ainda na tela do computador, numa cópia digital a mim enviada pelo autor. Abri o arquivo sem nenhuma intenção de ir além da segunda página e, quando vi, já estava no meio do livro. Mulher de um homem só parece ter um cuidado todo especial com a velocidade da narrativa. O fato de não ter divisões pode, num primeiro momento, assustar, mas depois se percebe que esta estrutura combina perfeitamente com o estilo do autor: rápido como um fluxo de pensamento, mas coerente como toda boa narrativa tradicional.
O maior trunfo do livro, claro, é a narradora e as ambigüidades por ela evocadas. Ao usar a primeira pessoa onisciente, Alex Castro acaba por fazer com que duvidemos de tudo o que Carla nos conta. Este filtro pouco confiável é que dá profundidade a um romance que, na superfície, parece conter apenas algumas boas e engraçadas discussões sobre as relações amorosas atuais e sobre o conflito íntimo de uma mulher ao mesmo tempo moderna e conservadora.
Como disse anteriormente, o problema do livro são os ruídos. Impossível chegar ao fim de Mulher de um homem só e não se perguntar, por exemplo, por que o romance não foi publicado com o aval de uma grande editora – uma questão levantada pelo próprio autor já há alguns anos. Assim como é impossível lê-lo sem se deixar contaminar pelas muitas palavras de Alex Castro em outros textos.
Não sugiro, aqui, que se cale o autor nem que se encerrem as discussões sobre o mercado editorial. Mais do que um romance, de certo modo Mulher de um homem só e todo o seu entorno são sintomáticos de uma nova maneira de se fazer literatura. É um fenômeno, por assim dizer. Um livro ao redor do qual orbitam luas que, infelizmente, acabam por eclipsar o planeta.
Concordo com o Polzonoff. A persona exuberante do Alex Castro blogueiro atrapalha o romance. Eu preferiria que o leitor de "Mulher de Um Homem Só" nunca tivesse lido o LLL. Muitos leitores aproveitam pouco do livro seja porque o lêem esperando "mais do mesmo" do autor do LLL (e se decepcionam, pois o livro não tem nada a ver com o blog) ou porque o lêem buscando pontos de contato com o LLL(e acabam prestando atenção demais em coisas que não têm tanta importância assim, mas que os remetem ao blog, como a podolatria de Murilo, por exemplo). Tudo isso é ruído. Tudo isso atrapalha a leitura.
Por outro lado, tudo isso talvez realmente crie um novo tipo de leitura, um novo fenômeno cultural, desses que a gente não sabe onde vai parar. Eu gostaria muito que o leitor de "Mulher de Um Homem Só" não fosse leitor do LLL, mas também sei que quase todos que leram o livro o fizeram por causa do blog. São pessoas que me conheciam pelo blog, que me liam no blog, e quiseram ler mais. Sem o blog, quem teria lido "Mulher de um Homem Só"?
Queria muito abandonar o blog e dedicar à ficção todo o tempo que dedico aos posts. Mas, então, quem leria a ficção?
É um dilema no qual penso muito e não sei como resolver.
Ricardo Cabral, homem sensível, amigo, blogueiro do Ágora com Buraco no Meio, também leu "Mulher de um Homem Só" e escreveu um belíssimo post:
Como sabia que se ficasse na cama não voltaria a pregar o olho de novo, fui para a sala, peguei o livro e sentei numa poltrona, na expectativa de que a leitura àquela hora da manhã fosse um bom indutor ao sono. Que nada. Só parei de ler na página 115, por culpa de um telefonema que me fez adiar para as seis da tarde as sete páginas que faltavam até o ponto final da história.
Não me alongarei em análises de qualquer espécie. Não tenho a expertise necessária para tal, e já disse isso ao Alex. Atrevo-me a comentar duas coisas, no máximo. Primeiro, que a Carla, personagem que narra a história, me convenceu. Concordo com o que outras pessoas já disseram antes de mim: Carla é uma mulher, sim, nunca um homem tentando pensar/falar/agir como se mulher fosse. Só por isso, pontos para o autor. (Tudo bem, você pode mesmo dizer que eu não sou mulher, que por isso não posso entender o que se passa realmente na cabeça de uma e blá blá blá. Direito seu, mas antes de chegar a uma conclusão dessas apoiando-se apenas nesse ponto, seria bom que batêssemos um papo antes. Dar a alguém o benefício da dúvida costuma ser um gesto salutar.) E segundo, que o ritmo da narração é perfeito o ideal em relação à história e a quem a conta. Nem me senti atropelado pelas palavras da Carla, nem tampouco fiquei entediado. Consegui escutar perfeitamente o (e permanecer atento ao) que ela disse, até (a)os seus parênteses. (Como já gosto de alguns, posso atestar que os parênteses dela são ótimos.)
Só um detalhe curioso (para mim), que notei por conta do ritmo da narrativa. Vi que a Carla tem o hábito de fazer três observações sobre o que quer que seja. Não é algo que aconteça em todas as ocasiões, mas ocorre bastante. É como se o número três servisse tanto para descrever uma sequência lógica de eventos, para explicar bem explicadinho como ela entende que as coisas são (ou deveriam ser) e para sustentar melhor suas teses, o terceiro item/argumento para reiterar aos demais — ao ouvinte/leitor e a ela mesma — que não resta nenhuma dúvida de que o que ela diz é líquido e certo.
Logo no começo, descrevendo Murilo:
…não tinha grandes despesas: estudava em universidade pública, almoçava bandejão e mal jantava. (p. 6).
Mais uma:
…Murilo não sabe nada e isso me exaspera, porque ele não sabe o seu lugar, e nunca se decide e nunca tem certeza. (p. 45)
Carla falando de si:
E acho graça que só tinha que só tinha dezoito anos e que nem sabia o que era casamento: fui aprendendo. Estudei com afinco, levei muita bomba e vivia sendo mandada para a sala do diretor. (p.8)
De novo sobre Murilo, agora em relação a ela:
Mas o fundo é sempre mais embaixo, nem sei onde, e lá o Murilo nunca se aventurou. Casou com uma rocha, se satisfez com a rocha e uma rocha era o que esperava que eu fosse. (p. 13)
A propósito de Júlia:
Rêmora atrelada, lombriga faminta e urubu ansioso, até seus grandes momentos coincidiam com os nossos. (p. 99)
Há exemplos melhores e em maior número para ilustrar minhas impressões, mas estou com preguiça de procurar por eles agora. Fico apenas com esses cinco, encontrados ao acaso. Só falta acrescentar algo mais: dizer que espero pelo próximo livro do Alex, expectativa de ver mais notas de tristeza e drama, diferentes de um certo (e acertado) tom de vaudeville — delicioso, vale dizer — de Mulher de um Homem Só, e um pouco mais próximas de dona Adelaide, mãe de Júlia, que quando “…se sente sozinha, ela permanece sozinha, naquela solidão espessa de quem não tem nada o que fazer, nem livros para ler…” (p. 119).
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Ricardo, muito muito obrigado. Realmente, eu não tinha percebido essa ênfase tríplice da Carla. Muito bem reparado.
Para quem sentiu falta de mais drama, eu recomendo meu livro Onde Perdemos Tudo, formado por seis contos unidos pelo tema comum de perda.

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