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Para muitas leitoras, a história de Libeca - que pode ser lida como um conto independente - é a melhor parte de Mulher de Um Homem Só. Para convencer quem ainda estava em dúvida, o trecho completo:
* * *
Mas às vezes ele me choca, me choca de verdade. Algumas histórias não sei se teria casado se soubesse. A primeira vez que esses ideais inconstantes do Murilo foram postos à prova foi com o caso da Libeca e, nessa prova, o Murilo não passou não, não passou mesmo, teria ido direto pra recuperação e ia ficar dezembro todo na sala de aula. Mas acho que sou eu. Religiosa ou não, não interessa, sou muito passional, muito apegada à vida: uma vida, um minuto a mais de vida que seja, não vale todas as teorias e argumentações e racionalizações do Murilo, e não entendo como ele pode ser tão frio, como pode colocar idéias antes de gente, e isso me assusta, porque decidi passar a vida com esse homem, e ele é o pai da minha filha, e não sei se posso confiar nas decisões dele, se o seu bom senso errático não poderia preferir lealdade a algum ideal abstrato do que à vida de Raquel. E essa história me bota medo, mas vou contar mesmo assim, vou contar o que Murilo fez com a Libeca porque isso tem tudo a ver com o que houve depois.
Júlia, como sempre, estava lá. Os dois estudaram juntos em um colégio católico (até o Murilo se revoltar e pedir pra sair, vocês lembram), os dois cresceram juntos, porra. Faziam tudo juntos. Se não fosse por mim, ainda estariam fazendo, mas esquece. Apesar do companheirismo todo, apesar de tanto amor entre eles, não andavam no mesmo grupo: eram a única interseção de dois círculos diferentes. Os amigos de Júlia não entendiam o que via em Murilo, como agüentava andar com um chato daqueles, caretão e pentelho, de óculos fundo de garrafa e vocabulário difícil, e também tinham ciúmes dele, porque apesar do grupo e da galera, daquela turma toda de gente tão interessante e avançadinha (ou assim eles se consideravam), Murilo era a prioridade de Júlia e ela largava tudo para estar com ele. O vice-versa, naturalmente, era verdadeiro, como não?
E chegamos a Libeca, que andava com Júlia e seus amigos, fumava maconha e ouvia rock progressivo, pichava banheiros e matava aula de ginástica. Estavam todos no começo do segundo grau, ou ensino médio, é isso que estão chamando agora?, e finalmente podiam se vestir como quisessem: a obrigatoriedade do uniforme só ia até a oitava série. E Libeca era daquelas alunas citadas pelos freis mais conservadores para justificar a insensatez de tal medida: só se vestia de preto, jeans rasgados, coturnos fedorentos, essas coisas. Os jeans rasgados foram proibidos, sob o argumento de que as roupas dos alunos precisavam, pelo menos, estar inteiras, mas o resto era ou deixar ou voltar aos uniformes. Libeca cultivava suas enormes olheiras com um cuidado que nós, as meninas mulherzinhas, só dedicávamos aos nossos cabelos: cabelos, aliás, que Libeca tinha recado no estilo cadete do exército. Fumava maconha mas nunca sentiu onda (fingia, pra não passar vergonha), e era literata, tão literata quanto se pode ser nessa idade: adorava Dostoievski, tinha lido as Notas do Subterrâneo, carregava uma edição sempre em sua bolsa, que todo mundo da turma tinha lido e sublinhado, e, empolgada, começara Os Irmãos Karamazovi e nunca conseguiu acabar. E era, ou se dizia, ou se pensava, uma rebelde, uma niilista (palavra que adorava salpicar nas conversas, pra mostrar como era sofisticada e culta), e vejam só, aos quinze anos: que aliás, pensando bem, é a única idade na qual é desculpável se imaginar niilista. Morava em um apartamento de quase mil metros quadrados no melhor bairro da cidade e tinha um motorista sempre à disposição, mas, por questões ideológicas, só ia à escola de ônibus e tinha um orgulho planetário disso. Por outro lado, nunca havia lhe ocorrido que, pelo mundo afora, as meninas de sua idade lavassem as próprias calcinhas. Falando em calcinhas, Libeca e suas amigas também gostavam de defender o amor livre, que sexo não significava nada, que essas coisas não tinham importância alguma, e faziam pouco de meninas como eu, que éramos direitas e vaidosas, não fumávamos e tínhamos o mínimo de decoro. Mas muitas dessas minhas amigas tão decorosas já namoravam firme, aqueles calouros universitários que na época nos pareciam uns homenzarrões, e, com eles, perdíamos a inibição, ficávamos mais seguras de nossos corpos e brincávamos de colocar coisas deliciosas na boca, essas travessuras que só se faz com quem se confia, com quem se é íntimo, com quem se ama, mesmo sendo aqueles amores fugazes mas faiscantes da adolescência. Enquanto isso, Libeca sentava no colo dos garotos, se dava a intimidades físicas com todos, porque essas coisas não importavam, eles botavam a mão aqui e ali e, quem visse, diria que era mulher liberada e experiente, mas quando estava a sós com eles, toda a força dos valores culturais decadentes da nossa sociedade se fazia sentir e Libeca defendia com fúria aquele ultrapassado e cabeludo conceito de honra que residia ali no meio das suas pernas, e nunca fez nada com nenhum dos garotos em cujo colo sentou. E, às terças-feiras, Libeca se desvencilhava dos amigos em segredo e ia visitar sua bisavó, que era uma velha muito sozinha que morava em um asilo no subúrbio, seus pais e seus avós nunca iam, mas Libeca se sentia mal com isso, e ficava mais de duas horas em três ônibus pra chegar no asilo e nunca faltava, e levava escondido um saquinho de pão de mel pra bisavó, que não podia comer doce por causa do seu diabetes, mas que dizia pra Libeca que vida sem pão de mel não valia a pena, e Libeca levava, e ficava lá vendo a bisavó quebrar o pão de mel com os lábios porque não tinha mais dentes e deixava a massa derreter na boca, e as duas conversavam, a bisavó ouvia a Voz do Brasil todo dia e sempre perguntava pra Libeca suas opiniões, o que pensava desse novo Plano Cruzado, se era fiscal do Sarney, se a seleção tinha chances de levar o tetra no México ou até se a Viúva Porcina devia mesmo era ficar com o Roque, e era bom porque isso forçava Libeca a se informar e, além de ler Dostoievski e não entender, também enfrentava a Veja todo domingo. Enfim, quinze anos.
Desculpem o desvio mas é que, assim como a Libeca se sentia mal com o abandono da bisavó, também me sinto mal que Murilo e Júlia, apesar de tudo e depois de tudo, nunca tenham sabido quem era essa moça que queria se matar. Gosto de me enganar achando que saber do pão de mel teria feito alguma diferença para o Murilo mas não: ele agiria como agiu de qualquer jeito – Júlia talvez levasse o pão de mel em consideração.
E, nesse dia, estavam os dois, Murilo e Júlia, em um dos seus cantos preferidos do colégio, aproveitando sua meia hora de recreio debaixo da sombra de uma amendoeira: ela fumando e desenhando em um caderninho e ele lendo algum livro da coleção Vagalume, acho que o Escaravelho do Diabo. Então, apareceu a Libeca e, ao contrário de quase todos os outros colegas da Júlia, a Libeca tolerava o Murilo, até gostava dele um pouquinho. Tinha um assunto pessoal pra falar com a amiga, mas Murilo estava lá e a Libeca não se importou, contou pra ele também. Não era segredo.
Libeca queria morrer. A vida não fazia sentido, nossos valores morais eram falsos ícones impostos por uma mídia corrupta e globalizada, as relações humanas eram regidas por um deus artificial criado para facilitar a dominação dos mais fracos pelos grandes cartéis internacionais... Ah, chega! Quem é que já não ouviu esse tipo de conversa? Não tenho estômago de repetir essas besteiras todas, acho muito triste uma menininha assim já com tanto amargor na boca, e sem razão alguma, e não gosto de falar muito porque nessas horas penso na minha filha, se também não poderia estar falando pra outros jovens da idade dela que a vida não presta.
Mas tenho que continuar porque Libeca continuou, não parou; não parou mas falava com muita calma, aquela calma que assustava, e dizia que não queria mais, já tinha inclusive tentado o suicídio antes, ao treze anos, mas agora era pra valer. De que adiantava ficar no mundo quando não se gosta de nada? Não tinha vaidade, não gostava do seu corpo, não gostava da sua família, não gostava da sua vida, a vida não lhe dava prazer. E acrescentou, pra surpresa boba do Murilo, pois Júlia já sabia, não porque Libeca tinha contado, mas porque não comprava aquele mise-en-scène todo, que era virgem – virgem!, e Murilo corou, como se essa idéia atentasse contra algum senso de pudor seu, logo ele que só iria perder a virgindade dali a dois anos, em um puteiro de segunda – que não conhecia o prazer sexual e que nem queria conhecer, tudo era tão falso nesse mundo!, nem se masturbava, sentia nojo do menor prazer físico, e lá se foi Murilo corar de novo enquanto Júlia nem piscou.
E, no fundo, coitados deles dois, que se achavam tão adultos e inteligentes e sofisticados, mas só tinham quinze anos mesmo, e nem desconfiaram que Libeca nunca tinha tentado o suicídio coisa nenhuma e que se masturbava toda noite sim, muitas vezes passava a noite inteira se masturbando, como se aquele ato individual, aquele único ato não influenciado pelas forças imperialistas que dominavam todos os aspectos de nossas vidas, fosse, por isso mesmo, a única coisa que valesse a pena ser feita, e que tinha muito prazer sim cada vez que chegava no asilo e sua bisavó ainda estava viva, tinha medo profundo do dia em que chegaria lá e não houvesse a quem dar o pão de mel.
Mas Murilo e Júlia levaram aquilo a sério. Murilo e Júlia, aliás, levavam tudo muito a sério naquela época, eram jovens seríssimos, convencidos de uma suposta situação de maturidade precoce e que, portanto, deveriam se comportar de acordo. E tinham razão de levar Libeca a sério porque dessa vez era sério mesmo. Libeca queria morrer: o prazer de encontrar a bisavó era um prazer amargo, misturado com medo, e ela, quando se masturbava, não sentia realmente prazer físico algum, não pensava em ninguém, não visualizava nada, se masturbava a seco, se masturbava de ódio, ficava vermelha, inchada, depois ardia pra urinar, até o chuveirinho do bidê doía. Menos uma ou outra pequena mentira, Libeca queria mesmo morrer e, por isso, estava ali pedindo ajuda daquela maneira tão óbvia, tão ridícula, coitada. E também não tinha sido à toa que Libeca discutira o assunto na frente do Murilo, embora ela mesma nunca tenha se dado conta disso, porque, em sua cabeça, Murilo era mais centrado, mais adulto que Júlia. E Libeca esperava que fosse justamente ele quem a cortasse e dissesse o que é isso?, você é tão jovem!, que absurdo!, você tem a vida toda pela frente!, e esses clichês que, salpicados na hora certa, podem salvar uma vida, porque ninguém realmente deseja morrer – muito menos uma adolescente sadia, de dentes perfeitos e no peso certo.
Murilo, entretanto, que corava com masturbações e virgindades, permanecia impassível ao suicídio. E foi Júlia a primeira a falar, mas ainda demorou um tempo, porque estava chacoalhada por dentro, e precisou esfriar seu temperamento quente antes de abrir a boca, e se lembrou de o quanto realmente gostava de Libeca, e pensou em alguns bons momentos das duas, e enquanto isso o tempo ia passando, um silêncio desagradável debaixo da árvore, mas o engraçado é que não era, quero deixar bem claro, silêncio de hesitação. A resposta que Júlia deu ela teria dado imediatamente: o tempo de espera foi porque queria se controlar por dentro, queria ter certeza de que, quando falasse, seria de voz firme, queria fechar os olhos às lágrimas para que não escapulisse nenhuma. E se esfriou e olhou para Libeca e, com a seriedade que só uma adolescente extremamente convencida de sua própria importância pode ter, afirmou:
– Vou sentir muito a sua falta.
E Libeca emudeceu. Emudeceu mesmo. Não só naquela conversa não: ficou calada pelo resto do dia. Mas ah!, nem precisava falar: estava na presença de dois loquazes filósofos, bastava que ouvisse, que se regalasse com aqueles grãos-de-bico de sabedoria, maduras (quase podres) lições de vida. Estava muda mas ainda participava da conversa: virou-se para Murilo, a pessoa de quem mais esperava ajuda, o “homem” mais responsável do grupo, e ele apenas sacudiu a cabeça, concordando com Júlia. Sei o que Libeca pensou e não foi não, Libeca, isso é que é o pior. Os dois cretinos nunca tinham conversado sobre isso, nunca haviam debatido suicídio, nunca haviam decidido o que fazer se uma situação como aquela se apresentasse. Nada disso. Ambos chegaram àquela mesma posição ridícula espontaneamente. E nem mesmo foi um quem influenciou o outro. Murilo só não disse as mesmas palavras que Júlia porque mal conhecia Libeca, seria hipócrita dizer que sentiria a falta dela. Pensou um pouco no que falar e acrescentou, sem o menor constrangimento de usar a palavra sagrado:
– É seu direito. Nosso direito sagrado.
Libeca continuou muda e ele desenvolveu:
– Na nossa existência, só temos dois momentos realmente íntimos. Dois únicos momentos nos quais uma pessoa fica sozinha consigo mesma e ninguém tem nada a ver com isso.
E Murilo fez uma pausa, não uma pausa dramática, mas uma pausa cumplicitória, esperando que sua amiguelhazinha adivinhasse seu pensamento e completasse seu raciocínio. Júlia entendeu. A primeira era fácil:
– O suicídio e... Ela hesitou um pouco, formulou uma resposta, questionou, confirmou, verbalizou: ...a masturbação.
Pronto. Feliz com sua comparsa, Murilo continuou o discurso, fruto de seus dezesseis anos incompletos de sabença, a cara cheia de cravos e erupções, o cabelo penteado em uma franja pra esconder as espinhas da testa:
– Nada é realmente nosso. Tudo pode ser tirado, recolhido, leiloado. Mas nossa vida é só nossa, só diz respeito a nós. Seria uma grande arrogância e uma enorme falta de respeito da nossa parte ter a ousadia de lhe dizer o que fazer com sua vida.
E Júlia, não encontrando mais nada eticamente aceitável para falar, repetiu:
– Vou sentir sua falta.
Libeca entendeu. Demorou um pouco, mas entendeu. Era sério mesmo. Os dois não estavam brincando. Não seria ali que Libeca ouviria os clichês de consolo de que precisava. Por fim, Júlia decidiu elaborar:
– Acho até filosoficamente errado (filosoficamente é o caralho!, pensou Libeca, mas continuou calada para ouvir até o fim) eu falar isso, não tenho nada a ver com sua vida, mas vou dizer de qualquer jeito: gosto muito de você, Libeca, muito mesmo!, e pegou a mão de Libeca, e Libeca estava tão anestesiada por aquela palhaçada que nem puxou a mão de volta como queria, e caso essa seja a sua decisão, quero que saiba que vou sentir muito sua falta e vou ficar muito triste.
E acabou. Murilo havia feito seu discurso. Júlia, já tendo falado mais do seria filosoficamente correto, também se absteve da conversa. E Libeca, Libeca concluiu que realmente não havia mais nada a ser dito, não tinha mais o que fazer ali, nunca teve. Foi embora.
E eu, o que posso dizer mais? Os dois sábios nem mesmo discutiram entre si o assunto depois. Não havia o que discutir. Concordavam de tal maneira que a única coisa que poderiam acrescentar eram parabéns mútuos por sua atitude lógica e coerente. Mas não havia por que parabenizar o outro por não ter feito mais do que sua obrigação de ser humano pensante. E é esse, minha amigas, o pai da minha filha. E, ainda mais assustador, Júlia é a madrinha.
(Quanto a Libeca, ela morreu, naturalmente. Teve um câncer maligno repentino nos ossos e se desmilingüiu em poucos meses. Deixou um viúvo, um ex-marido, três filhos e uma netinha que mal conheceu. Como quase todas nós, conseguiu sobreviver aos seus quinze anos. O mais irônico é que, talvez, com a ajuda de Murilo e Júlia. Dado seu rancor contra o mundo naquela época, não sei se clichês de CVV teriam salvo sua vida. Mas aquele choque com certeza a balançou. Libeca passou os dias seguintes odiando aqueles dois putos, nem se lembrou de o quanto odiava a si mesma. Quando passou o ódio, também havia passado o impulso. E não voltou mais. Entrou em outra fase, parou de ler e nunca nem abriu a coletânea de Nietzsche que comprara algumas semanas antes. Foi passar o verão no nordeste, se apaixonou por um surfista e deixou o cabelo crescer, trocou piercings por tatuagens e continuou sendo adolescente, e dali a pouco mudou tudo de novo, e assim foi indo. Só soube mesmo o que era orgasmo, entretanto, com o segundo marido, mas nem isso foi lá grande perda, porque passou todo o primeiro casamento achando que estava tendo orgasmos e gostando muito, e isso é o que conta. Enfim, Libeca sobreviveu e nunca mais dirigiu palavra a Murilo e, portanto, saiu da minha história.)
Ai, quem me dera ter contado esse caso apenas para exemplificar as esquisitices de Murilo e Júlia. Dizer: eles são assim, ó. Por exemplo, olha só o que eles fizeram quando tinham quinze anos. Mas não. A historinha é importante, pois não é a criança o pai do homem? Não estão esse Murilo e essa Júlia, que tão eticamente aconselharam a Libeca, dentro do pai e da madrinha da minha filha?
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Convencida, finalmente? Então, compre o livro.
Os Viralata acabou mas meu romance Mulher de Um Homem Só continua a venda.
Em 2009, ele foi homenageado por duas pessoas que respeito muito: primeiro, a Mary W. o colocou como sua melhor leitura de 2009 e, depois, Mestre Inagaki, classificou-o entre os cinco melhores livros do ano - ao lado da buceta do Bia.
Ontem, a Cris Cerdera, mulher linda, querida e inteligentíssima, também publicou uma não-resenha sobre Mulher de Um Homem Só, ressaltando uma abordagem possível da história que poucos outros leitores mencionaram:
Não sou eu que tenho que resistir ao livro. É ele que precisa resistir a mim. Precisa dar um chute bem dado nas minhas desconfianças. Provar que merece minha atenção e meus afetos. Tenho que admitir que o livro do Alex fez isso – e fez bonito demais. Porque eu me apaixonei. ...
Ele [O Alex] brinca com a língua, existe uma relação dele com a língua que é erótica, de desejo, de fruição, bem como fala o Barthes. O Alex tem intimidade com essa senhora. Nas mãos dele, ela – a língua – se entrega. ...
A narradora [Carla, casada com Murilo], me confundiu, me exasperou, me deixou com vontade de dar um chute na bunda dela. Me levou pra dentro da história, dialogou comigo, olhou no fundo do meu olho e me perguntou: "Você me entende?" ...
E existe também o fato – para mim muito claro – de que o autor lança uma bela e espessa cortina de fumaça nos nossos olhos. Porque, ao contrário do que possa parecer, MduHS não é uma história de ciúme. Isso não ficou claro logo no começo para mim. Foi preciso prestar atenção demorada às palavras de Carla pra perceber isso. MduHS é a história do amor de Carla por Júlia. E de como ela resistiu a esse amor até o fim. Esse dado, esse ‘truque’ do autor me fisgou. Porque não há nada que seja dito claramente. A gente nunca vai poder dizer com toda certeza e eu acredito que a boa literatura faça exatamente isso. ...
Me lembro de uma professora da graduação que dizia, ao comentar o texto do Eco, Obra aberta: ‘Gente, a obra é aberta, mas não é escancarada’. E o que isso vem a ser? Isso quer dizer, apenas, que as possibilidades de leitura estão inscritas no próprio horizonte do texto. Essas possibilidades podem ser múltiplas – sim, óbvio – mas não infinitas. Não disparatadas. É no próprio tecido da narrativa que vamos encontrar as pistas de que necessitamos.
Então, só como exemplo, eu vou transcrever aqui uma das passagens do livro que para mim é das mais belas:
Lá do nosso jeito, a gente se entendia, e conversávamos muito, falávamos de Murilo, novela e política e fofocas em geral. Outra vezes, nem trocávamos palavra, e era assim que eu apreciava Júlia. Ela adorava mexer no meu cabelo, me pentear longamente, languidamente, lentamente, e eu gostava, me entregava, me prostrava, ficávamos no sofá da sala, ou até na rede mesmo, eu deitada sobre o colo de Júlia, sentindo a escova repuxar os cabelos, sentindo as pontas dos dedos massageando o couro cabeludo, sentindo aquela coceirinha marota nas raízes do cabelo, sempre naquela faina infindável, deliciosa, pachorrenta, úmida de tão boa, tenho cabelos longos, nunca cortei, vão até a cintura, e Júlia mastigava inveja, degustava mexer em meu cabelo, ajeitar, pentear e cheirar, e cuidadosamente enrolar em seus dedos e mãos e depois deixar desenrolar macio, e assim ficávamos as duas, horas, eu grávida e Júlia ali, puxando e repuxando, penteando e despenteando, depois, Raquel nascida, colocávamos o berço na sala e tudo continuava igual, eu dormia sentindo os dedos de Júlia em meus cabelos, acordava e ela ainda estava lá, e então eu dormia de novo, e era tão bom, porque não havia palavras, não havia Murilo, não havia inconsequência, não havia arte, não havia nada, só aquele momento, só nós duas, só aquele contato [...]
Clique aqui para ler a não-resenha completa da Cris. Ou deixe de doce e compre o livro.
No depoimento insuspeito da brilhante Mary W. para o Amálgama:
Mulher de um homem só (Os Viralata, 2009) é o melhor livro que eu li em 2009. O autor, Alex Castro, tem uma visão bastante peculiar da psiquê feminina e então o livro é absurdamente relacional. O masculino e o feminino tentam dialogar e a verdade é que o masculino acaba calado. A narradora conta toda a história sem tentar encobrir neuroses e birutices de qualquer espécie. Daí que ela somos todas nós. Ou todos nós. A leitura flui e a gente não vê o tempo passar enquanto lê. O que é significativo já que
se trata de uma história que deveria ser pesada (ela está falando sobre um casamento marcado por desconfianças e a gente percebe que toda a vida dela é marcada por essa infelicidade conjugal). Mas a gente não se cansa. Não sente o peso. Há apenas identificação e gargalhadas. Um livro sobre esse tal mal-estar contemporâneo. Sobre indivíduos que se comunicam apenas através de loucuras. Sobre a dificuldade de mantermos em pé as instituições do passado (casamento, família). E tudo contado assim, através de uma personagem sem freio, que faz com que a gente desembeste com ela.
É muito significativo quando alguém que a gente respeita profundamente escreve um depoimento desses sobre nosso livro. Foi meu presente de natal.
O Amálgama me fez a mesma pergunta, mas não consegui dar uma resposta.
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Promomoção de natal Mulher de Um Homem Só: 1 é R$25, 2 é R$45, 3 é R$60.
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Sou um homem erudito. Posso, em uma só respiração, citar trocentos clássicos (que realmente li!), relacioná-los com os movimentos estéticos em voga na época e ainda jogar umas palavras em latim e francês pra impressionar.
Vão aparecer alguns idiotas achando que estou me gabando, mas é bem o contrário. Erudição é o tipo de coisa inútil que só quem não tem acha que vale alguma coisa.
E, em arte, pior, só atrapalha. Nada mais chato do que aqueles autores que esfregam sua erudição na cara dos leitores, quase sempre de modo totalmente desnecessário.
Essas arroubos de erudição até me saem muito naturalmente. Meus primeiros rascunhos são cheios deles. Quase sempre, apago todos - para minha dor, pois alguns ficam até bons, mas minha teoria da literatura não permite essas babaquices. (Outro dia, o Doutor Plausível fez um artigo sobre o chatíssimo name-dropping da nova literatura brasileira.)
Enfim, meu romance Mulher de Um Homem Só não é sobre mim, é sobre a Carla, o Murilo e a Júlia. Eu sou erudito, é o meu hobby, a Carla não. Na versão original, ela citava até Nietszche e Sartre. Era ridículo. Carla jamais teria lido Nietszche e Sartre. (Até aí tudo bem, porque a maioria das pessoas que conheço que cita Nietszche e Sartre também não leu, mas outra característica de Carla é não ser poseur e cagar pra isso tudo.)
O trecho abaixo, em itálico, foi das que mais me doeu cortar. Quase tirei a referência ao niilismo também, mas decidi deixar.
Libeca cultivava suas enormes olheiras com um cuidado que nós, as meninas mulherzinhas, só dedicávamos aos nossos cabelos: cabelos, aliás, que Libeca tinha recado no estilo cadete do exército. Fumava maconha mas nunca sentiu onda (fingia, pra não passar vergonha), e era literata, tão literata quanto se pode ser nessa idade: adorava Dostoievski, tinha lido as Notas do Subterrâneo - carregava uma edição sempre em sua bolsa, que todo mundo da turma tinha lido e sublinhado - e, empolgada, começara Os Irmãos Karamazovi e nunca conseguiu acabar. Tinha uma idéia totalmente distorcida de Dostoievski, claro, baseada em uma amostra não-representativa, e, por isso mesmo, não terminou os Karamazovi, parecia que o autor estava traindo a si mesmo. Se tivessem lhe dito que o Dostoievski verdadeiro era o dos Karamazovi, teria ficado furiosa, gritaria heresia! Deveria ter acabado o romance. E era - ou se dizia, ou se pensava - uma rebelde, uma niilista (palavra que adorava salpicar nas conversas, pra mostrar como era sofisticada e culta), e vejam só, aos quinze anos: que aliás, pensando bem, é a única idade na qual é desculpável se imaginar niilista. Morava em um apartamento de quase mil metros quadrados em frente à praia e tinha um motorista sempre à disposição, mas, por questões ideológicas, só ia à escola de ônibus e tinha um orgulho planetário disso - por outro lado, nunca havia lhe ocorrido que, pelo mundo afora, as mulheres lavassem suas próprias calcinhas.
Por favor, não venham me dizer que esses trechos estão fracos. Ou acham que saíram do livro por estarem geniais?
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O Erro de Nietszche
Nietszche descobriu Notas do Subsolo em 1887, um ano antes de ficar definitivamente louco e começar a conversar com cavalos, e exclamou:
I did not even know the name of Dostoievski just a few weeks ago. (...) An accidental reach of the arm in a bookstore brought to my attention L'Esprit Souterrain, a work just translated into French. (...) The instinct of kinship (or how should I mention it) spoke up immediately: my joy was extraordinary.
Naturalmente, não havia, nem poderia haver, kinship, ou irmandade, possível entre Nieszche e Dostoievski. Os dois provavelmente teriam caído na porrada. Mas o erro de Nietsche era compreensível. Quem lê um único livro de um autor, fora de contexto, teria todas as justificativas do mundo para presumir estar lendo as próprias idéias do autor. Afinal, a maioria dos autores faz isso.
Na verdade, Nietszche presta um grande elogio a Dostoievski. O espírito da ficção é esse: criar pessoas reais, capazes de idéias reais, que não necessariamente são as nossas. O autor, idealmente, deve desaparecer, e levar consigo suas idéias e sua biografia, e deixar que seus personagens vivam e brilham, alimentados por sua energia vital.
(Leia mais sobre isso no meu artigo sobre Dostoeivski.)
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Até o final do ano, meu romance "Mulher de Um Homem Só" está sendo vendido a preço de custo, para estimular a literatura independente como presente de natal. O preço antigo era R$34,40, com frete incluído. De agora até final do ano, o novo preço é:
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Meu romance "Mulher de Um Homem Só", narrado por uma mulher, é minha humilde tentativa de entrar na cabeça de uma mulher, de falar como mulher, de ser mulher um pouquinho. Se esse assunto lhe interessa, se ficou curioso ou instigado, dê uma olhada e descubra se fui uma mulher convincente.
Algumas mulheres que gostaram: Alessandra Bonrruquer, Paula Lee, Mary W, Marina W, Ju Dacoregio, Isabella Ianelli, Fernanda França, Re Alves.
Para ler essas e outras resenhas, comentários e reações ao livro, visite a Seção Mulher de Um Homem Só.
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Três entrevistas minhas, sobre esse livro e sobre literatura de modo geral:
- Quanto Vale ou É por Quilo - Revista Bula
- Alex Castro: Um blogueiro liberal, libertário e libertino - Global Voices Online
- Alex Castro: Escritor e Mindfucker - Portal Literal
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Para quem gosta de folhear e cheirar, o romance pode ser comprado nas seguintes livrarias do Rio e de São Paulo:
São Paulo
- HQMix (livreiro Gualberto)
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Argumento do Leblon (livreira Ana)
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Berinjela (livreiro Daniel)
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Dona Laura Livraria (livreiro Philippe)
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Se você ainda está em dúvida se vale a pena, "Mulher de um Homem Só" também pode ser lido e folheado pelo Google Books. Mas só 50%, viu? Pra ler o resto, só comprando.
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Para os tecnófilos, Mulher de Um Homem Só também está a venda na Amazon.com em formato kindle. Infelizmente, por enquanto, somente para clientes nos Estados Unidos: já reclamei e deve mudar em breve. Se tiver interesse, clique e confira, vai ver até já mudou.
Na verdade, se quer ler Mulher de Um Homem Só no seu kindle, fale comigo. Posso te mandar um PDF que fica muito mais bonito e legível no kindle do que o próprio formato kindle.
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Finalmente, deixe de fazer doce e compre.
Terminei de ler durante o jogo de Grêmio X Flamengo, para o qual nem dei bola (e nem precisava, anyway). Ao acabar, fiquei burilando várias coisas: o quanto tenho (e não tenho) em comum com Carla; o quanto Murilo é chato, um mala mesmo, nunca me casaria com um cara assim (embora ele seja praticamente um coadjuvante, não dá pra conhecê-lo de verdade); que eu fiquei
com uma tremenda vontade de conhecer a Júlia melhor, acho que ela é uma injustiçada, uma incompreendida que precisa de análise urgente, terapia nela djá!; e que a Carla é paradoxal, porque o livro começa mostrando uma guria toda moderninha, tipo "à frente de seu tempo", e no decorrer da história ela se mostra bem conservadora e antiquada. E tão ou mais louca quanto Júlia.
Sonhei essa noite inteirinha com Mulher de um homem só. Não foi um sono tranquilo, não. Foi quase uma noite de insônia. Mexeu com a minha cabecinha de mulher de um homem só. Meu lado Carla e meu lado Julia ficaram ali se afrontando. Fazia muito, mas muito tempo que um livro não me tirava o sono assim.
Resenha de Fernanda Vier, originalmente publicada no blog "Elucubrações", 7 de dezembro de 2009. Texto completo aqui.
Enquanto isso, a edição brasileira está em promoção de natal: 1 é R$25, 2 é R$45, 3 é R$60, (com frete incluído). Mais detalhes ou compre agora.
Esse é talvez um dos melhores trechos eliminados do meu romance Mulher de Um Homem Só. Ainda teria que ser mais editado pra ficar bom, mas acabou caindo por ser redundante com outros episódios do livro:
"Odiava Júlia por me fazer me sentir má, mesquinha. Mas, sério, dava pra evitar? Vocês me julguem, mas me irritava ver Raquel andando pra cima e pra baixo com aquela fita preta no pescoço. A fita preta era a marca registrada de Júlia, estava sempre com a tal fitinha preta, na verdade, não tinha nada demais, era uma fita preta de camurça que Júlia amarrava no pescoço, com um pequeno pingente dourado no centro. Estava quase sempre com ela. Confesso que eu achava um certo charme, combinava com ela. Confesso também que irritava, por ser algo que eu imediatamente associava com Júlia. E aí, de repente, Raquel começou a andar de fitinha. Dinda me deu. Claro. Precisava dizer? Raquel estava na fase de imitar todo mundo, mas tinha que ser Júlia? Eu me sentia humilhada, era quase que uma violência pra mim ver Raquel andando pra cima e pra baixo com aquela fita no pescoço, parecia uma julinha da vida, com todo aquele futuro Juliano pela frente, e eu pensava: proíbo? Mas será que isso não é muita mesquinharia, muita maldade? Dava nervoso, parecia mesmo que era a Júlia pequena, fadada, no futuro, a se tornar a Júlia adulta ? nada que eu desejaria menos para minha filha. A verdade é que as duas passavam muito tempo juntas, Raquel também já estava começando a imitar o jeito de falar de Júlia, copiando seus requebros verbais, falava naisceu, ao invés de naceu, ______________. Eu tentei ser indireta e democrática, tentei convencer Raquel a largar a fitinha, disse que era feio, inventei histórias, disse que só mulheres de baixo calão usavam.
- Mas a dinda usa sempre!
E o que eu iria dizer? É por isso mesmo, minha filha. Você quer ser como ela? Claro que eu não iria dizer isso, pois Raquel responderia no ato: quero! Pensei: vou proibir. Mas não. Não queria descer assim baixo, mas acabei indo mais baixo ainda: entrei no quarto de Raquel uma manhã dessas e joguei fora a fitinha. Convenci Raquel que ela tinha esquecido a fitinha em algum lugar. Não foi muito difícil. Mais difícil foi convencer Julia a não dar outra fitinha, mas disse que achava que Raquel ainda era muito criança pra usar esses adereços. E nunca consegui perdoa-la por fazer eu me sentir tão baixa, tão mesquinha."
Por favor, não venham me dizer que esses trechos estão fracos. Ou acham que saíram do livro por estarem geniais?
* * *
Até o final do ano, meu romance "Mulher de Um Homem Só" está sendo vendido a preço de custo, para estimular a literatura independente como presente de natal. O preço antigo era R$34,40, com frete incluído. De agora até final do ano, o novo preço é:
1 é R$25
2 é R$45
3 é R$60
(com frete incluído)
Compre agora, receba em até cinco dias úteis e seja um patrono da literatura independente no Brasil. Ou clique aqui para compras internacionais via Paypal.
Você mesmo preenche o valor do preço. Fique à vontade para pagar um pouco a mais, se quiser: a casa aceita e estimula as gorjetas. O livro está sendo vendido a preço de custo, então, se não for fazer falta no leitinho das crianças, seja generoso.
* * *
Meu romance "Mulher de Um Homem Só", narrado por uma mulher, é minha humilde tentativa de entrar na cabeça de uma mulher, de falar como mulher, de ser mulher um pouquinho. Se esse assunto lhe interessa, se ficou curioso ou instigado, dê uma olhada e descubra se fui uma mulher convincente.
Algumas mulheres que gostaram: Alessandra Bonrruquer, Paula Lee, Mary W, Marina W, Ju Dacoregio, Isabella Ianelli, Fernanda França, Re Alves.
Para ler essas e outras resenhas, comentários e reações ao livro, visite a Seção Mulher de Um Homem Só.
* * *
Três entrevistas minhas, sobre esse livro e sobre literatura de modo geral:
- Quanto Vale ou É por Quilo - Revista Bula
- Alex Castro: Um blogueiro liberal, libertário e libertino - Global Voices Online
- Alex Castro: Escritor e Mindfucker - Portal Literal
* * *
Para quem gosta de folhear e cheirar, o romance pode ser comprado nas seguintes livrarias do Rio e de São Paulo:
São Paulo
- HQMix (livreiro Gualberto)
Pç Roosevelt, 142 (11-3258-7740)
Rio de Janeiro
Argumento do Leblon (livreira Ana)
Dias Ferreira, 417, Leblon (21-2239-5294)
Berinjela (livreiro Daniel)
Rio Branco, 185, lj 10, Centro (21-2215-3528)
Dona Laura Livraria (livreiro Philippe)
Vieira Souto, 176, Ipanema (21 2522 8362)
Baratos da Ribeiro (livreiro Maurício)
Barata Ribeiro, 354, lj D, Copacabana (21 2549 3850)
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Se você ainda está em dúvida se vale a pena, "Mulher de um Homem Só" também pode ser lido e folheado pelo Google Books. Mas só 50%, viu? Pra ler o resto, só comprando.
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Finalmente, deixe de fazer doce e compre:
Ni siquiera todos esos almuerzos servían para acabar con el vicio que Júlia tenía por Murilo. Yo, que me creía su clínica de rehabilitación, era en realidad su proveedora clandestina: me venía a ver y aspiraba cada línea de Murilo que pudiera encontrar. Yo hacía lo mismo; un zorrino huele a otro y además, no soy tan diferente. Júlia me absorbía el presente, y yo le absorbía el pasado. Júlia sabía todo sobre Murilo, crecieron juntos, nunca no se conocieron. Eran una constante en la vida del otro. Júlia era una constante hasta tal punto que me hacía sentir como una variable y eso me dejaba desconcertada, tenía que salir corriendo al baño: me imaginaba a Júlia, el día de mañana, haciendo lo mismo con la segunda esposa de él, yéndola a visitar, contándole historias del pasado mientras le absorbía el futuro. Y yo pensaba: el juramento me lo hizo a mí, yo soy su mujer.
Está quase saindo a tradução de Mulher de Um Homem Só para o espanhol. Como o jogo de palavras do titulo não funciona em espanhol, o romance reverteu ao seu título original "Uti Possidetis" e apresentará a seguinte epígrafe:
Uti Possidetis
El uti possidetis iure (del latín, "como [poseías] de acuerdo al derecho, poseerás") es un principio de derecho en virtud del cual los beligerantes conservan provisionalmente el territorio poseído al final de un conflicto, interinamente, hasta que se disponga otra cosa por un tratado entre las partes. Al parecer derivó de la expresión latina "uti possidetis, ita possideatis", es decir, "como tu poseías, continuarás poseyendo".
Este principio proviene del derecho romano, que autorizaba a la parte beligerante reclamar el territorio que había adquirido tras una guerra. A partir de ello, el término ha sido utilizado históricamente para legitimar conquistas territoriales, por ejemplo, la anexión de la Alsacia-Lorena por parte del imperio alemán en 1871.
Anglo-American Cyclopedia (volume XLVI, 1917)
Enquanto isso, a edição brasileira está em promoção de natal: 1 é R$25, 2 é R$45, 3 é R$60, (com frete incluído). Mais detalhes ou compre agora.
O banner da promoção ainda não está pronto, mas já adianto aqui: até o final do ano, meu romance "Mulher de Um Homem Só" está sendo vendido a preço de custo, para estimular a literatura independente como presente de natal. O preço antigo era R$34,40, com frete incluído. De agora até final do ano, o novo preço é:
1 é R$25
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Meu romance "Mulher de Um Homem Só", narrado por uma mulher, é minha humilde tentativa de entrar na cabeça de uma mulher, de falar como mulher, de ser mulher um pouquinho. Se esse assunto lhe interessa, se ficou curioso ou instigado, dê uma olhada e descubra se fui uma mulher convincente.
Algumas mulheres que gostaram: Alessandra Bonrruquer, Paula Lee, Mary W, Marina W, Ju Dacoregio, Isabella Ianelli, Fernanda França, Re Alves.
Para ler essas e outras resenhas, comentários e reações ao livro, visite a Seção Mulher de Um Homem Só.
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Três entrevistas minhas, sobre esse livro e sobre literatura de modo geral:
- Quanto Vale ou É por Quilo - Revista Bula
- Alex Castro: Um blogueiro liberal, libertário e libertino - Global Voices Online
- Alex Castro: Escritor e Mindfucker - Portal Literal
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Para quem gosta de folhear e cheirar, o romance pode ser comprado nas seguintes livrarias do Rio e de São Paulo:
São Paulo
- HQMix (livreiro Gualberto)
Pç Roosevelt, 142 (11-3258-7740)
Rio de Janeiro
Argumento do Leblon (livreira Ana)
Dias Ferreira, 417, Leblon (21-2239-5294)
Berinjela (livreiro Daniel)
Rio Branco, 185, lj 10, Centro (21-2215-3528)
Dona Laura Livraria (livreiro Philippe)
Vieira Souto, 176, Ipanema (21 2522 8362)
Baratos da Ribeiro (livreiro Maurício)
Barata Ribeiro, 354, lj D, Copacabana (21 2549 3850)
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Se você ainda está em dúvida se vale a pena, "Mulher de um Homem Só" também pode ser lido e folheado pelo Google Books. Mas só 50%, viu? Pra ler o resto, só comprando.
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Finalmente, deixe de fazer doce e compre:
Quanto mais tarde se aprende, pior. Júlia usou as mesmas palavras. O que seria preferível? Imaginar o cretino discutindo com Júlia a educação de Raquel em sigilo? Chama Carla não, isso aqui a gente resolve entre nós, pra que ela precisa saber?, besteira!, mas fala baixo! Ou será que a segunda hipótese não é pior: ambos pensam tão bem cerzido que falam assim as palavras um do outro sem nem precisar combinar antes, como foi com a Libeca? Gostaria de não acreditar nessa última, mas acredito. E isso me incita, tenho vontade de arrostar e estapear o insuportável: por que você me faz padecer esse suplício? Se são tão iguais, tão amigos, tão almas-gêmeas, tão inhénhénhém, por que não casou com ela? Por que flagelar a mim no pau-de-arara dessa amizade?!
Não queria mais Júlia despachando tanto tempo com minha filha. Encerrei o expediente, pode sair, queridinha, deixa seu paletó aí na cadeira, se quiser, mas rua pra você. Murilo ainda tentou me convencer, mas seus argumentos começavam derrotados: ele não falava nem de Raquel e nem de mim, só de Júlia. Que Júlia precisava de Raquel, que Júlia estava torcida e luxada, que Raquel era essencial para ela se rearticular. Perdoem-me por ter dado uma impressão errada, mas não tive filha só para remediar a maluquete. Se é desequilibrada, que se equilibre sozinha.
Na semana seguinte, aconteceu a terceira e última vernissage de Júlia.

E aí? Vai querer ser a última pessoa a ler?
A voz de mulher e a mulher sem voz
... O principal registro do livro, o tom mais óbvio e destacado, é a dicotomia eu-outra, falante-calada, voz-mudez. Júlia é sempre por Carla. Sua história inteira só nos chega através de sua maior inimiga, da esposa (quase) traída, da mulher enciumada e ressentida mas, principalmente, da vencedora. Sem tempo para filosofia barata ou babaquices politicamente corretas, Alex dá a voz ao establishment, dá ao historiador romano a liberdade de contar como quiser a história dos povos bárbaros vencidos, escreve a guerra do Iraque a partir do Kansas (ou mais propriamente, de New Orleans), deixa Ali Kamel mostrar como não existe racismo no Brasil.
E a voz de Carla, como toda aquelas vozes da história oficial, parece sempre sensata, sempre justificada. A loucura está lá longe, na outra, na pseudo-artista, na amante inconstante, na puta barata, na alcoólatra ocasional. A outra que existe para ser usada quando necessário, para cuidar da filha pequena ou aumentar as comissões de vendedora de Carla mas cujos desejos, opiniões, sonhos e paixões são sempre menores, errados, desimportantes, incômodos. A outra que não fala minha língua, então não deve ter voz.
Não passa uma página sem que Carla critique algum aspecto da vida de Júlia, desde seu modo de vestir até sua relação com a mãe, de sua incapacidade de manter um relacionamento às suas bebedeiras, de sua irresponsabilidade a sua futilidade.
We have met the enemy and he is us
O leitor pode simplesmente ler a história da esposa preocupada (mas lembrando sempre que, em psicanálise de boteco, preocupação é raiva, muita raiva) com a louca da amiga do marido. Como assim, “amiga do marido”?, perguntaria o outro leitor com um sorriso nos lábios. Desde quando maridos tem esta liberdade, a liberdade de amigas?
Então é preciso voltar e ler o livro ao contrário – quem diabos é esta Júlia? Da onde vem a força desta loucura, da onde parte o estranhamento? Por que a mulher livre precisa ser humilhada, pela narradora, pela sociedade, pela vida? Quanto ela tem que aguentar para se manter livre?
As mulheres de família sabem que o espelho não mente – a puta, a poeta, a artista, a viajante, a atriz, todas elas estão ali, no fundo, adormecidas ou mortas a facadas de realidade. Todas as curvas a esquerda que deviam ter sido à direita, todas as escolhas erradas, todos os homens que não as comeram ou para quem elas não deram, todas as sobremesas, todas as calorias, todos os porres que elas não tomaram, estes fantasmas da memória ainda olham do espelho e perguntam sempre, valeu à pena? Elas não precisam de uma desvairada que ameace todo dia mostrar que outro mundo é possível.
A última coisa que uma sociedade precisa é de uma minoria oprimida a esfregar na cara da raça/do sexo/da religião dominante a magnitude de seus crimes passados e presentes. A última coisa que Carla precisa de da amiga de infância do marido rondando seu casamento, esfregando na cara de Murilo todo o glamour do “poderia ter sido”, mostrando todo dia a diferença entre a artista incandescente e apaixonada que ele deixou passar para se casar com a vendedora/dentista/mãe.
O homem só
Mas claro que eu não estaria aqui falando de Mulher se fosse só isso. Eu talvez não tivesse nem terminado de ler se o livro se resumisse às lamúrias auto-piedosas da esposa exemplar. Há dezenas de outros níveis de leitura. Há por exemplo a terceira voz, muito fraca, o pobre Páris perdido nesta guerra de deusas.
Murilo, sempre estranhamente fraco, estranhamente ausente, quase sempre definido pelo negativo. Que não comeu Júlia (que Carla acredita que não comeu Júlia). Que perdeu a virgindade “em um puteiro de segunda categoria” (que contou esta historinha para boi dormir para Carla – quem naquele tempo, naquela classe social, naquela cidade, precisava ainda ir a um puteiro perder a virgindade? Ainda mais tendo Júlia ao lado louca para dar?). Que sempre fazia as vontade de todas as suas mulheres. Que seguia milimetricamente os passos do pai. Murilo que, como Páris no fim, talvez só quisesse um pouco de paz. Para ler a história de Murilo não bastam as entrelinhas e o espelho, é preciso ir buscar lá no título o homem que, arrastado à guerra de duas mulheres tão grandes, tão altas, tão terríveis, está só. ...
Mulher é um livro impressionante, a narrativa sempre inteira, o domínio da língua sempre presente mas nunca intrusivo, uma prosa que flui tão fácil que o leitor nem percebe o labirinto em que está se enredando até ser tarde demais. Inesperado, em meio ao eterno marasmo literário brasileiro. Um tapa na cara de cada editora que recusou-se a publicá-lo, uma prova da incompetência de cada assistente editorial que leu e não se arriscou a sugerir a seus chefes que ali estava um autor que merecia toda a atenção.
Um livro que me deu um prazer que quase só a poesia me dá. Que podia ser lido como um longo poema dramático, cada palavra pedindo a próxima. Ou como um épico moderno, cada parágrafo uma batalha, cada capítulo uma guerra. Tudo isto está lá, esperando para ser lido. Desliga a televisão, fecha o browser, sai do twitter, e vai lá ler. Agora.
Resenha de Paulo Cândido, originalmente publicada no blog "Todos os Assuntos do Mundo", 31 de agosto de 2009. Texto completo aqui.

E aí? Vai querer ser a última pessoa a ler?
Eu tinha esquecido que “Mulher De Um Homem Só” era tão bom.
Li o livro há alguns anos. Uns cinco, acho. Foi logo que conheci o Alex, e na época “Mulher de um Homem Só” circulava pela internet livremente. Li, gostei acho que comentei sobre o livro com o Alex.e o livro passou para a galeria daqueles livros que você leu. Talvez o fato de me tornar amigo do Alex tenha contribuído para isso, esse excesso de familiaridade intelectual.
Reli agora, impresso, e fiquei impressionado com o tanto que tinha esquecido. E com o quanto o livro é bom.
“Mulher De Um Homem Só” é um livro maduro, bem pensado. Dentro dos limites da obra, esgota com propriedade as suas possibilidades narrativas.
O livro conta a história da relação entre Carla, a narradora, e a melhor amiga do seu marido, Julia. É um livro carioca sobre o ciúme, narrado do ponto de vista feminino. E é nessa narração que está um dos grandes trunfos do livro. Em Carla, Alex cria uma personagem crível, rica, e explora bem suas possibilidades. É aqui que o Alex demonstra ser um excelente escritor: ele tem perfeito domínio da voz feminina da Carla. É esse o grande segredo do livro.
Durante anos o Alex vem insistindo na questão da onisciência de sua narradora. É a chave para a compreensão de “Mulher de um Homem Só”. Estritamente, essa é uma história que só existe na cabeça de Carla. Alex faz um grande trabalho ao assumir a voz de Carla. Todas as incongruências, todas as incompatibilidades desse discurso são expressos admiravelmente pelo texto do Alex.
Eu gosto de imaginar a Carla como uma mulher de seus 30 anos internada numa clínica de repouso, contando entre um surto e outro de esquizofrenia uma história que mistura realidade e ficção e que não respeita limites de tempo e de espaço.
É também um livro carioca ao extremo, um detalhe de uma classe média alta espremida entre os morros. É outro grande trunfo do livro: embora carioca, está longe daquela “literatura urbana” que deriva imediatamente de Rubem Fonseca e que, nos últimos anos, se tornou praticamente sinônimo de literatura feita naquelas plagas.
Umas poucas coisas me incomodam no livro. Uma delas é um trecho em que Julia dá a entender que décadas se passaram entre os acontecimentos narrados e a narração em si — e então a Carla se mostra como uma mulher que não aprendeu absolutamente nada depois de tanto tempo, algo razoavelmente improvável. Além disso, mesmo admitindo-se que o objeto do fixação de Carla é a Julia, e mesmo entendendo que o personagem é definitivamente filtrado pelo seu olhar — o que é um dos trunfos do livro –, ainda assim Murilo poderia ser construído de maneira mais elaborada. Finalmente, o último parágrafo não apenas me parece abrupto, mas também desnecessário dentro do contexto do livro.
São poucos defeitos para um livro inteiro. O que “Mulher de um Homem Só” prova é que o Alex é exatamente aquilo que ele vem dizendo ser há tanto: um escritor. E um bom escritor.
Resenha de Rafael Galvão, publicada no blog "Rafael Galvão" em 8 de setembro de 2009. Texto Completo aqui.
Não dá pra saber o que realmente se passa entre Júlia e Murilo. Carla conta todas as histórias nos mínimos detalhes, invade até o pensamento dos outros personagens. E toda a racionalidade de Murilo pode esconder desejos ferozes, que ficarão sempre encobertos. A Júlia é uma maluquete, artista, já viu né. Mas como é Carla quem conta a história não se sabe bem o que realmente acontece atrás de seus olhos e ouvidos. Ou até se o que ela conta é verdade mesmo.
Mary W.: “Veja que ele nem quer comer a melhor amiga nem nada.”
Recordo-me bem de minha tia, minhas amigas, e até minha mulher contando histórias pra outras pessoas de coisas que eu tinha presenciado. É incrível como as mulheres tem imaginação pra fazer render os acontecidos. É por isso que conversam tanto e não cansam. Elas sabem tudo o que todo mundo está pensando, sabem o que desejam, o que odeiam, e o que escondem.
Carla é assim, tem uma imaginação feroz. A partir do que viu, do que lhe foi contado, e do que ouviu os outros conversando, construiu uma história cheia de pequenos detalhes.
Para um homem que já é casado, apesar dos vinte e poucos anos, que já tem uma filha, e que estudou numa sala com mais de quarenta mulheres e menos de oito homens (da época que cursei quatro semestres em Psicologia na UFRN), é engraçado ler um livro narrado por uma mulher e imaginar todas aquelas mulheres que conheci, cada qual contando uma parte do livro.
“Não, Carla não é louca. Nem maluca de ciúme. Todas suas neuras são as neuras de todas as mulheres que conheço. Coisas que aposto que Murilo nem sonha.”
***
O livro “Mulher de um homem só”, de Alex Castro, não é um livro bom. É um livro sensacional. Que vale a pena ser lido e relido milhões de vezes. Apesar de ele ter me censurado quando disse que havia lido seu livro duas vezes: “perdeu seu tempo, nenhum livro merece ser lido duas vezes”. Eu discordo. Até porque não me furtarei de ler seu livro novamente assim que minha amiga me devolver, depois do empréstimo que fiz.
Alex Castro é um babaca. Não há como não odiá-lo. Com sua ironia maldita e sua falta de respeito por qualquer coisa. Parece que faz parte da sua vida liberal, libertária e libertina, não querer agradar.
“Quem é Alex Castro? Alex Castro é um grandecíssimo mentiroso, como todos os autores de ficção. Não confie em nada do que ele diz.”Adoro ler Alex, mas pessoalmente o odeio.
Quando imagino ele dizendo isto, quase dá vontade de dar-lhe um chute no saco: “[...] quando odeio o livro de um autor vivo, eu fico calado e me autocensuro muito mais do que no caso de um autor morto, que não está aí pra chorar de tristeza ou, pior, vir na minha porta me bater. Para que vou falar algo pra magoar um menino que está começando e cujo único pecado é ser incompetente e inábil?”
***
E mulher tem a história de ciúme. Não tem como fugir disso. Basta ela imaginar que seu companheiro encontrou na rua com uma ex e conversou dois minutinhos para a temperatura dela subir. E se a menstrução estiver pra vir, aí é que o negócio complica.
Não sei como Carla não trocou tapa com Júlia. Talvez tenha sido por seu amor neurótico pelo Murilo. Ou talvez porque Júlia era uma vadia e Murilo parecia não gostar de mulher “semvergonha”.
***Essa expressão “literatura independente” me incomoda demais. Só porque não lançou por editora chamam de independente. Ué, Fani do BBB lançou o seu por editora. Augusto Cury conseguiu editora para “O futuro da humanidade”.
Acho que deveriam chamar “literatura de qualidade não reconhecida”, e não “literatura independente”. Comprem o livro de Alex, leiam, e depois venham me dizer se estou mentindo. Não tenho medo de errar: se você não gostou, compre o livro de Fani, tenho certeza de que você vai adorar. Ou leia Caras.
***
Há coisas que não gostei? Há. Acho que a crítica que faço é a mesma de grande parte das pessoas que leram o livro: ele é curto demais.
“Um livro cujo único defeito é não ter mais umas cem páginas [...]”
“Nota 9. Só não é nota 10 porque é muito curto!”
Outra problema que tive foi a falta de limites na narração do livre. A onisciência de Carla não enfrenta barreiras. É um livro de ficção, eu deveria estar preparado pra tudo. Mas minha cabeça parece estar orientada a buscar cientificidade. Mas esse foi um problema pessoal mesmo, eu já deveria ter me acostumado com o fantástico na literatura. É um processo, e o livro, na verdade, foi um grande amigo me ajudando a caminhar mais esperto.
Mas o fato de o livro ser curto não impede que ele consiga ter se fechado de forma a satisfazer o leitor.
“[...] embora tenha um desfecho brusco, consegue nos transmitir uma sensação de saciedade.”
***
Ler Alex é algo muito agradável. Não importa se ele escreve sobre teatro, sobre racismo, ou sobre sua tara por pés.
É uma tarefa quase impossível começar a ler seu livro e parar no meio do caminho. É o tipo de leitura que flui, e quando você percebe o tempo e as páginas foram embora.
Em síntese incrivelmente perfeita, Luiz Biajoni descreve Alex como: “Um caso único em que a pretensão está casada com a qualidade.”
Como disse Ulisses Adirt: compre o livro e depois venha aqui me agradecer.
Não duvide, compre!
Resenha de Daniel Cáceres, publicada no blog "Cacerenga" em 19 de agosto de 2009. Texto Completo aqui.
Muita coisa já foi dita sobre o livro de Alex Castro, Mulher de um homem só. A narradora, que é estranhamente onisciente, fala de um tempo indeterminado no futuro onde muito já aconteceu – três gerações adiante? Também disseram, e com razão, que as neuroses dela são legitimamente femininas, revelando a compreensão que o autor tem das mulheres – árdua pesquisa, deve ter sido. Li também por aí alguém querendo saber por que as duas mulheres do livro nem se matam nem se comem. Seria outro livro, e nesse caso o título mudaria totalmente de sentido.
Gostei do estilo intimista da narradora, do vaivém dos fatos, afinal, ninguém se senta num boteco e conta tudo em ordem cronológica. Já fui Carla, já fui Júlia, já tive uma Júlia e se bobear fui até Murilo. Mas nao é esse o pulo de gato do livro. O grande lance é que até os que não são versados em armações triangulísticas se identificam com o livro porque MDUHS é sobre intimidade. Não amor, não ciúme, não relacionamentos. Intimidade.
A intimidade entre amigos de adolescência que faz com que um ature as idiossincrasias do outro e a outra saiba as taras do um, se eu mexer meu pé assim ele fica bem à sua vista, vou abaixar aqui pra pegar uma coisa no chão mas vê se não olha pra minha bunda, claro que eu quero que você olhe, tá bobo?
A intimidade entre marido e mulher que faz o controle mais fácil e simula aquilo que chamam de amor plácido, querido, vamos batizá-las, sim, querida, a madrinha será aquela que você não gosta, e sua mãe se intromete tanto.
A intimidade entre inimigas cordiais, fica quieta e mexe no meu cabelo, or causa dos santos a gente beija as pedras, não sei muito bem como me livrar de você, não quero seu mal mas por favor suma do mundo.
E depois as intimidades pequenas entre madrinha e afilhada, a outra amiga da adolescência, a mãe de alguém próxima, a própria mãe numa intimidade incômoda que geral palpites infelizes.
No fim fiquei achando que faltava à Carla um pouco mais de intimidade com outras pessoas, ou com um terapeuta, não sei. O final suspenso me diz que um dia a coisa muda, devagar, porque tudo muda se alguém muda. Mas a essa altura do campeonato todo leitor já tem intimidade com os personagens e sabe adivinhar o que acontece depois. Leia.
Resenha de Maffalda, publicada no blog "Maffalda" em 3 de setembro de 2009. Texto Completo aqui.
Alex,
A impressão q tive da diferença entre teu estilo no blogue e teu estilo no livro foi como a impressão q a gente tem qdo ouve um cantor conversando e depois o ouve cantando e soltando um vozeirão. Fiquei muito impressionado, literalmente, com tua habilidade na fraseologia ficcional, perfeitamente casada com a mentalidade da Carla; todo o vocabulário feminino, tanto de palavras como de linhas de pensamento, foi uma realização ímpar. Na maior parte do livro, a Carla é como um ser vivo, falando ali em frente ao leitor, uma velha conhecida q solta o verbo num bate-papo, um triunfo de realismo. Vc consegue até mesmo dotá-la desse aspecto das pessoas reais q as deixa de certo modo menores do q os grandes personagens de ficção, personagens estes q aparecem numa aura de idealização, seja heróica ou maligna ou "realista"; sobre a Carla, não aparece a questão de se o leitor gosta ou não gosta dela, se se identifica ou não com ela, if one cares about her or not: ela é uma conhecida como as outras - pessoas cujas atitudes a gente aprova e às vezes não, mas q a gente na verdade nunca pára muito pra pensar sobre. Com essa criação, vc matou a pau (q é a maneira como nós aqui em português dizemos "it's a great achievement").
Mas... (comigo sempre tem um 'mas')
Puta q pariu, ¿foi preguiça o final? Terminar desse jeito novela-do-manoel-carlos, "passa um tempo na Europa e tudo se resolve"... Paguei R$25 por ¿ISSO? Meu nome tá ali impresso como mecenas ¿DISSO?
Cara, vc me deixou putíssimo da vida. Tou brincando sobre os R$25 e meu nome no livro, claro. Fiquei puto e puzzled foi com o motivo q pode ter feito vc abandonar desse jeito tão displicente uma idéia ficcional brilhante e um talento assombroso pra criar e desenvolver uma voz de personagem. ¿Que deu em vc? preguiça? encheu o saco? crise de auto-confiança? preferiu ficar aí nas tetas de uma carreira acadêmica em vez de USAR teu talento? prefere deixar como tá e soltar um monte de stuff and nonsense sobre a ficção não ser "confiável, calmante, confortável"? Que catso? Que porra?
Essa história do triângulo assombroso tá pedindo mais. Pra mim soa como a primeira parte de um livro três vezes maior. Imagino outras duas partes com o Murilo narrando e depois a Júlia, ou o contrário, pra q a gente fique sabendo o q REALMENTE tava acontecendo na cabeça dos outros dois, longe do q eles dizem prà Carla. O Murilo e a Júlia nunca se entregam um ao outro, mas ¿por quê, exatamente? ¿Será q a Júlia realmente deseja Murilo? ¿Será q ela não é só uma infantilóide mimada? ¿Será q os motivos do Murilo realmente são os q a Carla imagina? ¿Será q ele na verdade não tá totalmente entediado com as duas, mal as nota e só pensa no trabalho? E não me venha com essa de "Olha q lindo, vc fazendo toda uma história tua na cabeça, inspirado em meu livro, q lindo, te amo." ¡O caralho! Vá se catar. Essa é TUA tarefa. Isso é VOCÊ q tem q fazer agora. Essa é TUA responsabilidade. Paguei R$25. Vc não pode usar modernismos críticos e escanteios de interpretação pra desculpar tua "escolha"de não ir mais fundo. Vc TEM q tranformar esse livro numa empreitada de gente grande, de adulto; não pode relegar essa idéia genial ao plano de uma novela da Globo. Sorry.
E não venha dar uma de Murilo/Alex pra cima de mim, q não nasci ontem. Tamos falando de teu TALENTO, não das desculpas q vc dá pra não usá-lo até o talo.
Abs,
Nunca me passou pela cabeça a idéia de dar voz a Murilo ou Júlia. O que justifica o romance pra mim é exatamente eles não terem voz e serem sempre vistos através das Carla. E, sim, eu tinha um romance três ou quatro vezes maior planejado.
Mas nada do que iria acontecer depois chegaria aos pés do romance que você tem nas mãos. Seriam mais e mais peripécias, uma atrás da outra, mas sempre mais do mesmo. Depois de cento e tantas páginas, a voz da Carla perderia a força, a vitalidade, o impacto, a novidade, e o ganho de enredo não seria o suficiente pra sustentar essa perda.
Os leitores não iriam conhecer os personagens melhor: só iriam vê-los fazendo mais coisas. As dúvidas que você tão bem levantou, que são sutis quando você as levanta por entre a penumbra da ambiguidade de Carla, se tornariam banais se arrastadas pra debaixo da luz e desenvolvidas no enredo.
Por muitos anos, eu amei e convivi diariamente com esses personagens. Sei cada detalhezinho de suas vidas. Pensei em quinhentas e uma maneiras de continuar o enredo e de passar mais alguns meses na companhia deles, mas todas essas maneiras acabavam resultando em um romance aguado, fraco, diluído. Um romance que comete um dos piores pecados que um romance pode cometer: overstaying its welcome.
Na minha vida, sempre preferi ser o cara que sai mais cedo sem avisar e sem se despedir de ninguém, que deixa saudade e vira assunto de quem fica, do que ser o mala que vai ficando, ficando e nunca vai embora.
(Visite o site do Doutor Plausível.)
Divina Marina W. leu e escreveu sobre Mulher de Um Homem Só:
Finalmente pude ler o livro do Alex, de uma dentada, reli o que tinha lido e fui. Antes eu havia mandado um email pra ele ele, dizendo que a narradora-mulher dava pra perceber que era ele. Expliquei que tenho uma coisa que não atrapalha, mas interfere quando eu leio livro de pessoas que conheço. Porque visualizo não só o amigo no computador, como levantando pra beber Coca-Cola. Acontece com pessoas que eu não conheço também, como Rubem Fonseca e Woody Allen. Eu vejo o Woody Allen dirigindo o tempo todo. Fico imaginando o atrás das câmeras. Não é uma coisa que eu queira, mas tenho. Mas quando embalei na leitura de Mulher de um homem só, acabei esquecendo mesmo do Alex. O livro é sobre uma queixa. Queixa de uma mulher. Eu recomendo, vamos comprar o livro do Alex. Primeiro vocês compram o meu. Depois o dele. Tô zoando. Não estou não. Brincadeirinha. Compra os dois.
A melhor coisa de conhecer a Marina pessoalmente é que, depois disso, fica impossível ler o blog sem ouvir sua voz dizendo aquelas palavras.
* * *
Texto de Marina W., publicada no blog "Marina W." em 1º de setembro de 2009. Texto Completo aqui.
Um blog sobre rebeldia, contemplação e sacanagem, regado a muita literatura e humor. Nosso assunto são as várias prisões que acorrentam o homem, como ambição, verdade e medo. Dê sua opinião!
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