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Além do racismo, outro tópico que gera desespero e denegação profunda entre os leitores do LLL é a questão das empregadas domésticas. Uma das objeções mais comuns é que eu, como sempre, estou falando só do meu mundinho, e que esse negócio de empregada doméstica já acabou faz tempo, "ninguém que eu conheço tem", todo mundo agora é diarista, etc.
Então, para os interessados lerem e para eu ter aqui no blog (e ser mais fácil de encontrar quando for fazer minha pesquisa), artigo da FSP de hoje, indicando que as diaristas representam somente 25% das empregadas domésticas brasileiras:
Empregada doméstica dá lugar a diarista
Embora ainda minoritária, participação passou de 17% para 25% do total de domésticos em dez anos, aponta estudo. Para pesquisadora, ao optar pela função de diarista, profissional ganha em autonomia, embora perca em proteção social. ANGELA PINHO, DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
O perfil do mercado de trabalho doméstico no Brasil mudou, e cada vez mais as diaristas ocupam um espaço em que as chamadas empregadas mensalistas eram absolutas.
A conclusão está em pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) realizada com base em dados do IBGE. De 1998 a 2008, o número de diaristas quase duplicou e, embora continuem minoritárias, elas vêm aumentando regularmente sua participação, passando de 17% para 25% do total de trabalhadores domésticos.
Os pesquisadores consideraram como diarista a profissional que disse trabalhar em mais de um domicílio e como mensalistas as que trabalham em apenas uma residência. É um critério aproximado, já que é possível haver diaristas mesmo entre as que atuam em somente uma residência.
Os dados brutos da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) trazem uma pista para explicar o fenômeno: a renda. As diaristas ganham, em média, 17% a mais do que as outras domésticas, o que dá R$ 57 a mais por mês.
Ganho maior
Foi justamente a questão financeira que fez Helena Nunes, 37, de Campinas, deixar neste ano a casa onde trabalhou por 14 anos para fazer faxina em outros lugares. Ela ganhava R$ 650 trabalhando a semana toda. Agora, cobrando R$ 70 por dia, consegue obter mais em apenas dez dias por mês.Trata-se de uma renda maior em termos, já que as diaristas que têm carteira assinada são uma minoria -somente 14%, na comparação com 30% das mensalistas.
O reconhecimento de vínculo empregatício tem variado, mas uma decisão de 2004 do Tribunal Superior do Trabalho não o reconheceu no caso de uma profissional que trabalhava três vezes por semana na mesma casa.
Ainda assim, como a renda média do emprego doméstico é menor do que um salário mínimo (R$ 351), o valor dos benefícios acaba muitas vezes ficando em segundo plano para a trabalhadora. A falta de registro em carteira, que já é vantajosa para o patrão, passa a ser opção das próprias profissionais.
Autonomia
Além disso, embora percam em proteção social, as domésticas ganham em autonomia, ao optarem pelo trabalho de diarista, afirma a pesquisadora do Ipea Natália de Oliveira Fontoura. "A gente pode pensar em uma mudança para um arranjo de trabalho mais profissionalizado, com caráter de prestação de serviços", diz.
Ilídia Batista, 57, de Brasília, morou 18 anos na casa da antiga empregadora. Saiu quando as crianças cresceram e, em vez de procurar outra residência, escolheu ser diarista para ganhar mais. "No começo, foi até difícil me acostumar a morar na minha casa, mas eu vi que posso andar do jeito que eu quero, fazer o que eu quero", diz. Agora, ela afirma não querer mais morar em outra casa.
A presidente do Sindicato de Empregadas e Trabalhadores Domésticos de São Paulo, Camila Ferrari, também notou que são muito mais raras as profissionais que moram no local de trabalho. "Antes, a empregada vinha do interior e precisava de lugar para morar. Agora, já constituiu família e quer ter a sua casa. Além disso, quem vive com os patrões acaba trabalhando da hora em que acorda até a noite", diz.
De fato, os dados da Pnad mostram uma relativa vantagem das diaristas em relação às demais empregadas no quesito carga horária. São quatro horas a menos por semana, cerca de 33 horas e 30 minutos, ante 37 horas e 30 minutos.
Essa diferença de horário, assim como a diminuição do número de empregadas que dormem na casa dos patrões, é compensada por questões demográficas. "Como as famílias estão ficando menores, há menos exigência de trabalho doméstico e, por isso mesmo, é possível ter empregada doméstica em tempo parcial", diz Simone Wajnman, professora do Departamento de Demografia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).
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Homens Invisíveis: Relatos de Uma Humilhação Social, de Fernando Braga da Costa. (SP: Globo, 2004) Profundo, lindo, fortíssimo. O autor era aluno de pós-graduação de Psicologia e, como parte de um trabalho para a disciplina de Psicologia Social, teve que exercer algum emprego "humilde" - definido como não exigindo qualquer tipo de treino ou experiência. Tornou-se gari da USP e experimentou na pele a humilhação e a invisibilidade.
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Leia todos os posts sobre Empregadas Domésticas.
Está no ar o prefácio do meu romance em andamento "Empregadas & Escravos". Preciso da sua opinião. Olha lá e me diz.
(Infelizmente, o blog é restrito a convidados, pra depois não falarem que queimei esse romance dando ele de graça na internet. Se quiser ver, peça, mas só mostro pra gente conhecida, que tem nome e sobrenome e eu sei quem é.)
É impossível estudar o trabalho doméstico sem considerar também que a grande maioria dessas trabalhadoras são mulheres. E o grande ponto cego do feminismo latino-americano talvez seja justamente sua relação com as empregadas domésticas.
Graças a uma divisão de trabalho ainda muito machista, a liberação da mulheres de classe média muitas vezes se deu graças a uma maior disponibilidade de mão de obra barata (leia-se mulheres pobres) que as substituísse nas tarefas domésticas.
Pode-se dizer que, para as mulheres latino-americanas, a libertação sexual teve soma zero. Algumas tornaram-se mais livres e outras, mais exploradas, e as perdas de umas anularam os ganhos das outras. Nada mudou, especialmente para os homens, que não perderam nada: continuam tendo suas cuecas passadas a ferro e seus bifes fritos no ponto exato, não importando pela mão de quem.
De modo ironicamente perverso, são muitas vezes as mulheres mais liberadas, progressistas e profissionais aquelas que mais precisam ter uma "escravinha" tomando conta da retaguarda doméstica para que possam invadir a esfera pública, tradicionalmente masculina, e lutar o bom combate. Como diria DaMatta, só podem sair à rua quando arranjam quem tome conta da casa.
A missão do feminismo latino-americano não estará concluida (aliás, não estará nem começada) enquanto as feministas não se derem conta do aspecto urgencial dessa questão. Sem reeducar os homens, de nada adianta tirar poder de umas mulheres para dá-lo a outras.
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E você, leitora urbana, profissional, antenada, ecológica, consciente, diga-lá com honestidade: você também teve que comprar sua independência oferecendo outra mulher em holocausto no altar da sua domesticidade?
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Texto inspirado na leitura do artigo “Feudal Enclaves and Political Reforms: Domestic Workers in Latin America”, de Merike Blofield (Latin American Research Review, vol.44, no.1, 2009), sobre as lutas para a formalização do trabalho doméstico na América Latina - incluindo uma surpreendente omissão por parte de muitas das feministas mais militantes. De acordo com dados da autora, o Brasil tinha 5 milhões de trabalhores domésticos em 2004.
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Homens Invisíveis: Relatos de Uma Humilhação Social, de Fernando Braga da Costa. (SP: Globo, 2004) Profundo, lindo, fortíssimo. O autor era aluno de pós-graduação de Psicologia e, como parte de um trabalho para a disciplina de Psicologia Social, teve que exercer algum emprego "humilde" - definido como não exigindo qualquer tipo de treino ou experiência. Tornou-se gari da USP e experimentou na pele a humilhação e a invisibilidade.
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Link excelente mandado pelo machista sem-vergonha do Rafael Galvão: Housewife Confidential, por Caitlin Flanagan
- Que não existe racismo no Brasil - afinal, eu nunca senti na pele, nunca vi ninguém fazer com outro, e meu amigo negro, o Sombra, nunca falou disso pra mim!
- Por falar nisso, chamar alguém de Saci, Negão, Grafite, etc, não é racismo - aliás, "eles" adoram, o Tição, meu bróder, nunca reclamou!
- Que um policial parar mais negros do que brancos em uma blitz não é racismo - afinal, os negros tendem a ser mais pobres, os mais pobres tendem a ser mais criminosos, logo existe uma probabilidade matemática maior de um preto ser bandido!, pôxa, Alex, é tão lógico, me admira você!
- Que não existem mais empregadas domésticas no nosso país - se nunca vi na minha cidade, no meu bairro ou entre meus amigos, é porque isso acabou, Alex!
- Aliás, se existirem, é uma relação profissional como qualquer outra - eu também no meu estágio de engenharia trabalho 12 horas por dia e tenho que fazer várias coisas não-relacionadas, como tirar xerox e trazer o café do chefe, e daí?
- E, por falar nisso, um patrão insistir com uma empregada até vencer pelo cansaço e ela dar pra ele não é estupro, não, viu? - ela só deu porque quis, ele nem botou arma na cabeça dela nem nada!
Escravidão, racismo e trabalho doméstico são temas que precisam urgentemente ser discutidos no Brasil. Hoje, mais do que nunca.
Quando falei da questão das domésticas, muitos leitores me acusaram de anacrônico e anedotista. Ao mesmo tempo que diziam que não existiam mais domésticas e que eu estava falando de uma realidade passada, também afirmaram que eu não estava sendo científico, mas somente citando minha "experiência pessoal".
Enfim, para quem tiver interesse, apresento um trabalho de Antropologia Urbana realizado na USP em 2003: Entre a Casa e a Rua: A Relação entre Patrões e Empregadas Domésticas, por Gabriela Renata R. dos Santos, Patrícia Lagun Mesquita e Rafaela de Andrade Deiab.
Alguns dos melhores trechos:
Este artigo apresenta os resultados da pesquisa desenvolvida a partir do projeto intitulado originalmente "Projeto para Pesquisa de Campo em Antropologia", que se propunha estudar o trabalho doméstico enquanto uma instituição social brasileira a partir da relação entre empregadas domésticas e patroas. Algumas questões foram levantadas, como: "Por que essa relação existe de forma tão disseminada em nosso país?", "Por que é potencialmente conflituosa?", "Como se reproduz e se reinventa na sociedade brasileira ao longo do tempo?". Para responder estas questões, tomou-se como recorte a relação entre patroas e empregadas na cidade de São Paulo enquanto instituição peculiar, que estabiliza a vida familiar brasileira e situa-se num determinado nicho do mercado de trabalho.
[Comentário do Alex: "tão disseminada"?! As autores não devem ter falado com os meus leitores ou saberiam que essa instituição nem existe mais!]
A partir das falas das empregadas domésticas, pode-se perceber que "ir e voltar" é sempre preferível a "dormir no emprego", principalmente por causa da duração da jornada de trabalho. No segundo caso, a labuta estende-se até a última hora do dia, misturando-se a intimidade do empregado com a da família. O tempo para o descanso é reduzido e os limites entre o tempo do trabalho e o tempo do descanso se diluem. (...)
Quando foi perguntado a Sinhá o que ela achava de dormir no emprego, ela respondeu: "Deve ser horrível! Porque você tira a liberdade dos patrão tudo. Você sempre tá cansado... Acho legal assim: terminar o serviço e ir embora."
[Reparem que a doméstica assume imediatamente o ponto de vista dos patrões, e não o dela, pra justificar sua opiniões. Terá realmente introjetado esse ponto de vista? Ou será porque está sendo entrevistada por duas sinhazinhas? Aliás, o artigo nunca menciona que os nomes das entrevistadas foram trocados, então podemos presumir que Sinhá é o nome verdadeiro da doméstica em questão, pois teria realmente sido demais se as autoras escolhessem logo essa palavra como pseudônimo!]
[Alexandre, o dono da agência de empregos domésticos:] "Geralmente, a grande demanda, principalmente no caso do mercado em geral, não só pelo fato de ser agência, eu acho que é pra dormir no emprego. (...) A maioria [das domésticas] que procura a agência não quer para dormir, porque não pode. Ou porque tem filhos que não tem com quem deixar, ou tem marido, são casadas.... Então é o inverso: a grande procura de empregadas é pra arrumar empregos de ir e voltar. Já as patroas procuram mais a agência pedindo empregadas que dormem. Nós é que temos que destrinchar isso aí, nós temos que recrutar essas candidatas que podem dormir e aí... Eu acredito que procurem a agência justamente por ser mais difícil conseguir fora." (...)
O período de contratação da primeira empregada doméstica geralmente se dá por ocasião do casamento . As patroas passam a exigir da empregada que durma no emprego a partir do momento em que têm filhos, quando trabalham fora, ou porque a presença dela viabiliza idas ao cinema, jantares, ou, ainda, pelo simples conforto de ter uma ajuda a mais nas tarefas da casa, como no caso de Jane, que considera o serviço da empregada doméstica um facilitador que torna a vida mais agradável.
"Ajuda muito a vida da gente, simplifica, mas não sei se 'necessário' é a palavra certa. A gente pode fazer, tantos países não têm empregada e as pessoas fazem o serviço doméstico também, mas ajuda bastante. Torna a nossa vida mais agradável".Já Laíde considera indispensável, impossível, viver sem uma empregada doméstica:
"Pra mim não dá pra viver sem. É uma pessoa muito importante. Bastante, viu? Naquele trabalho pesado em casa, pois se eu quero produzir alguma coisa, desenvolver algum trabalho fora de casa eu preciso ter alguém que me ajude".Amanda pensa de modo parecido:
"Não dá para viver sem, hoje, ia implicar no meu desempenho profissional".É possível pensar que a dinâmica econômica impulsiona mulheres de estratos médios a buscar emprego fora de casa, ao mesmo tempo em que as leva a contratar outras mulheres como domésticas. (...)
[Para muitas mulheres pós-modernas, independentes, profissionais, a empregada acaba sendo aquela vítima que oferecem em holocausto no altar da domesticidade para poderem ter suas vidas próprias. Ao arranjar alguém que assuma as tarefas tradicionalmente femininas, as mulheres podem finalmente invadir o mercado tradicionalmente masculino - damatteando, ao encontrar quem tome conta da casa, podem sair à rua.]A casa é o lugar da família, dos laços de sangue. Nesse sentido, a empregada partilha da convivência familiar no espaço da casa, tornando-se "quase" da família. Contudo, no primeiro caso de desconfiança, quando some algo da residência, a primeira pessoa de quem se suspeita é aquela alheia à família. A empregada, que era "quase da família", torna-se "uma estranha", afinal de contas ela não tem sua origem na casa; ela vem da rua - o lugar do perigo e da inconstância - e talvez venha junto com ela a ameaça ao lar. A mulher do site, depois do acontecido, lamenta ter que contratar uma doméstica, considerando este tipo de trabalho quase um mal necessário: "sempre tive empregadas domésticas em casa, pois trabalho fora e preciso de alguém para me ajudar; mas, francamente, se eu tivesse alguma opção, optaria por nunca colocar uma pessoa estranha em minha casa." (...)
Nessa medida, mesmo as empregadas esperam algo mais do que uma relação formal com as patroas. Para Paula: "Uma boa patroa para mim não é dependente ao que ela me paga, uma boa patroa para mim é aquela que me valoriza (...) se eu precisar, ela estar ali para me ajudar. Quando ela precisar que eu a ajude, sem cobrar nada dela" (...)
[Em seguida, as autores citam várias domésticas que afirmam preferir patroas que pagam menos, mas as tratem melhor. Como diria um economista, as domésticas assim literalmente pagam para ser mais bem tratadas. A presidente do Sindicato é contra:]"Muitos patrões ainda ficam com aquela de dar roupa velha, roupa usada e dar isso e aquilo e o valor mesmo do trabalho eles não reconhecem. Entende? Como uma troca assim de alimentação, moradia e não vêem que hoje é um trabalho como os outros que tem que ter tudo mais, todos os outros direitos." (...)
Todas as vezes em que lhes foi sugerido se gostariam que seus filhos fossem empregados domésticos, todas negaram, até mesmo Dalva e Sinhá. Acreditam que é um ótimo emprego para quem não tem outra opção, como coloca Dalva: "Eu gosto. E sabe por que eu gosto? Porque eu não sei ler, pra eu arrumar um emprego numa firma... eu não sei ler... não tô arrependida do serviço que eu tô trabalhando, porque eu tô ganhando o meu dinheiro, pra mim fazer dele o que eu quiser. Então, eu tenho inveja assim, porque eu não sei ler. Mas se eu soubesse ler eu tava ni outro lugar." (...)
[A presidente do Sindicato dos Empregadores Domésticos do Estado de São Paulo, Dra Margareth, dá um depoimento apavorante. Reparem como ela acredita viver num país de oportunidades iguais: segundo seu discurso, todo mundo teria chance de chegar onde ela chegou; quem não chegou e precisou ser empregado doméstico, é por ser "indolente".]
"O nosso maior problema chama-se cultura. Muitas pessoas que trabalham, você vê, eu fiz três faculdades, duas especializações, não sendo custeada nem por pai, nem por mãe, nem por ninguém. Eu acho que temos que criar nossas oportunidades. Você é jovem, vai criar todas as suas oportunidades sem dúvida. Eu sempre trabalhei, desde os 17 anos de idade, eu sempre fiz meus horários eu me enfiava em cursos à noite, estudava de madrugada, às vezes eu estava saindo de casa quando eu reparava eu estava de pijama, são aqueles lances que você não dorme direito fica só estudando tal, então ... Eu criei minhas oportunidades, mas tem muita gente que não quer levantar às 4 horas da manhã - como eu levantei - para tomar ônibus, um trem, um ônibus, fazer a faculdade e voltar tomar o trem, o ônibus e outro trem para ir trabalhar. Levar ovo cozido na bolsa para você poder comer - eu fazia isso. Então, tem gente que não gosta de fazer sacrifícios na vida. Então, que que acontece? Não estuda, não procuram progredir, se contentam com o que têm. Então, que que acontece? Acontece que ficam pessoas aí sem cultura, sem condições de disputar o campo de mercado... Então essas pessoas para sobreviver vão bater na porta de um empregador doméstico, se oferecer para o trabalho, muitas vezes o patrão doméstico paga o empregado para ensinar o empregado. Existe hoje, quer dizer desde 72, a categoria do empregado doméstico, mas eles não são profissionais. Você vai mandar para escrever um recado, tomar nota de um recado, não sabe escrever... Infelizmente existe esse pessoal com a própria indolência." (...)
[Dra Margareth também é contra direitos trabalhistas "normais" para domésticas e explica:]
"O Brasil é o único pais do mundo que concede a essa categoria todos os direitos normais. Porque por exemplo na Europa, Itália, onde eu estive alguns meses lá, fazendo pesquisa, eu observei que são altamente qualificadas. Você paga, paga-se bem. Mas, em compensação, você paga, digamos, por uma limpeza, você recebe tua casa esterilizada. Aqui você paga uma faxina e encontra a sua casa muitas vezes deteriorada. Ou seja, quebraram tudo, teu vaso, tuas coisas, teu computador. Aqui, por exemplo, no escritório, quando eu mando vir faxineira, dependendo na faxineira, na segunda feira tem que chamar um técnico para consertar o computador, para ver o que está acontecendo, porque pepinou tudo. Então, quer dizer, não é um pessoal qualificado."
Uma empregadora que desabafou no site "A patroa e sua empregada" pensa da mesma maneira:
"O preparo dessas pessoas é simplesmente de chorar, e não porque o salário oferecido é pouco. No meu caso pago 3 salários mínimos, mais moradia, mais comida, mais INSS e encargos, sem descontar nada. Quando falo em 'preparo' não me refiro simplesmente à escolaridade, mas à capacidade de entendimento do mundo!" (...)No entanto, ao mesmo tempo em que exigem profissionalismo por parte das empregadas domésticas, as patroas se remetem a um passado idealizado ao dizer que "não se fazem mais empregadas como antigamente". Segundo Jane: "Acho que são os tempos. As empregadas não se submetem mais a serviços, ordens com antigamente."
[Bons tempos aqueles...]
Além disso, as condições de trabalho da categoria dificultam a articulação: muitas domésticas exitam em participar de uma organização política para não terem problemas com as patroas ou por medo de perderem o emprego. O fato de trabalharem separadamente, em casas, muitas vezes dormindo no serviço e tendo só o domingo livre, acentua a condição de isolamento que caracteriza o emprego doméstico, dificultando a comunicação entre suas executantes. Por exemplo, uma moça que foi entrevistada no STDMSP e que dormia no emprego disse: "Falei que ia ao banco para poder vir ao sindicato." (...)
[Como se pode ver pelo comentário acima, não é exagerada a comparação entre uma doméstica e um escravo ou um prisioneiro. Por morar no trabalho e não ter horas livres, a empregada simplesmente não tem (ou não percebe ter, o que dá no mesmo) direito de sair à rua sem precisar justificar suas idas e vindas. No caso, para ir a um lugar que a patroa poderia achar ruim, a moça é forçada a mentir. Ou seja, tudo, em sua postura e em seu discurso, faz lembrar muito mais uma criança, uma escrava ou uma prisioneira, do que uma mulher adulta e independente, desfrutando da sua plena capacidade de negociar com seu patrão.]A dinâmica da casa é peculiar porque menos permeável à lei, sendo, às vezes, até mesmo hostil a ela. Seu sentido próprio é pautado não pela regra pública e, sim, pelo ritmo da família que a comanda. Daí as empregadas não gostarem de dormir no emprego, pois se sentem coagidas por um regime familiar que não reconhecem como o de sua própria família, tampouco como regime de trabalho formal que idealizam para si ou para os filhos. (...)
Quanto às patroas, elas cobram profissionalismo e maior qualificação, mas ainda têm problemas para lidar com empregadas que possuam tais características, considerando-as, muitas vezes, insubordinadas: "não se fazem mais empregadas como antigamente". Apesar desses conflitos, quase unanimemente afirmam que não dá para viver sem essa mão de obra caso queiram participar elas mesmas do mercado de trabalho. Igualmente versam sobre a intimidade que compartilham com a funcionária, daí a exigência quase obsessiva de confiança e honestidade, enquanto as domésticas reclamam respeito e valorização.
Leia o artigo completo: Entre a Casa e a Rua: A Relação entre Patrões e Empregadas Domésticas, por Gabriela Renata R. dos Santos, Patrícia Lagun Mesquita e Rafaela de Andrade Deiab.
Atualmente, estou escrevendo um romance sobre empregadas domésticas, por acreditar que esse tema é delicado, importante e relevante. Numa terra de tantas injustiças e desigualdades como a nossa, talvez seja uma das ocupações mais desiguais, onde a nossa herança escravista se revela mais forte e mais viva.
"É Um Emprego Como Outro Qualquer, Alex! Todo Empregado É Explorado!"
Nem todo mundo concorda, claro. Em primeiro lugar, muitos leitores descartam a importância do assunto dizendo que é um emprego como outro qualquer.
Da mesma forma que vc contrata um vendedor, um garçon, um professor, vc contrata uma empregada domestica ou uma faxineira, é um contrato de trabalho onde a pessoa cotratada sabe qual o serviço que deve ser feito e quanto está ganhando para fazê-lo, acredito sim que seja um contrato de trabalho como outro qualquer, elas não estão fazendo um favor a você e nem você a elas, é uma troca.
Nesse post, explico que, justamente, o que torna o trabalho de empregada doméstica mais próximo da escravidão do que mesmo de um emprego mais humilde (como garçom e operário) é um certo discurso doméstico-familiar traiçoeiro. Ela mora na casa mas não pode trazer amigas ou namorados para o seu quarto, ou mesmo usar as áreas sociais em suas horas de lazer. Ela tem poucas horas de lazer, pois está sempre a disposição. E não pode se recusar a fazer nada (inclusive até, em casos extremos, sexo) porque não tem descrição definida de emprego. Apesar disso, é uma "pessoa da família".
"Na Minha Casa Não Era Assim Não!"
Uma das coisas mais fofas que aconteceram foram os leitores que disseram que não, na casa deles não era assim:
Nao concordo, eu entendo, voce era rico, tinha este tipo de empregada e esta soterrado de culpa, mas nao é em toda casa assim nao. Na casa da minha tia por exemplo, ela pegou uma "menina pra criar", que eu soh fui saber que nao era da familia quando a minha tia morreu... Ela fazia realmente parte da familia, ajudava bastante na casa, mas eu sempre achei que era por cortesia do que obrigaçao (mas eu devo estar errada). Hoje ela mora sozinha na casa da praia da minha tia como caseira e trabalha como faxineira nas outras casas.
Eu sou completamente amoral e sou incapaz de sentir culpa. Mas, mesmo se sentisse, eu sou vítima da mesma cegueira que vocês. Eu também já cheguei a ter dez diferentes empregados domésticos em casa em uma dada época e eu juro por tudo o que é mais sagrado que todos eram felizes, bem tratados, bem pagos e, mais importante, me amavam muito. Eles contavam altas histórias de horror dos outro patrões, aquelas pessoas horríveis, mas ainda bem que lá em casa não éramos assim. Não mesmo. Pôxa, eu tinha nove anos, mas eu me lembraria!
Enfim, essa ilusão reconfortante eu também tenho. A diferença é que eu sei que é ilusão.
Alguns leitores entenderam o que eu quis dizer:
Achei muito bom..... Sabe sempre achei que você exagerava com essa coisa de empregada.... (...) Sua descrição de como funciona a "Live-In Maid" me pareceu muito convincente, e realmente relembra muitissimo a escravidão.... A gente da casa e comida, e ela faz tudo que a gente mandar, e ainda não tem direito a mais vida pessoal do que é conveniente para nós, afinal, ela mora no nosso teto, come a nossa comida, então temos todo o direito de impor limites.....
"Hoje, isso não existe mais. Acontecia em Outra Época/Em Outras Regiões."
Outros levantaram objeções históricas ou geográficas. Disseram que pode até ser que fosse assim, no passado, em outras regiões, mas não existe mais essa doméstica que mora em casa. "Na minha cidade, nunca vi." "Nenhum dos meus amigos têm." "Logo, não existe." (Se eu usar essa lógica, imaginem quanta coisa vai deixar de existir!)
Vc estah retratando as empregadas domesticas dos anos 70-80 no RJ e SP. Foi-se o tempo que as familias de classe media tinham "live-in maid". (Evidencia fajuta: nenhum dos meus amigos 35-45 anos, professores universitarios, tem empregada domestica).
A live-in maid ta em extincao faz tempo, pelo menos na classe media. Escutei casos assim dos pais dos amigos, e de meus pais, mas eu e o pessoal da minha geracao(todos nos 30 atualmente) ja nao tivemos empregada que dormisse em casa, exceto em raros casos. O caso de pegar pra criar, novamente, so de ouvir contar e encontrar as donas de 50 anos que tinham ido trabalhar assim. Nunca conheci uma mocinha do interior que estivesse trabalhando em BH, SP, POA, "pegada para criar"... Mas claro, para agradar esquerdista gringo, essa peca de ficcao e mais interessante. Se voce delimitasse uma janela, algo como 1950-1980(ou ate 90) o texto poderia ficar razoavel.
É grande a ânsia dos leitores de não se sentirem culpados, de poderem lavar as mãos de boa-fé. "Esse problema existiu, mas é do passado." "Ele existe, mas só na sua terra." "Ele existe na minha terra, mas é na casa dos outros!" "Pô, Alex, eu não tenho nada a ver com isso, eu juro." Qualquer coisa pra poderem se sentir limpos, puros, inocentes.
Muitos leitores admitiram que a instituição das domésticas é bastante comum em suas regiões:
O que eu estou notando é que as pessoas que estão comentando aparentemente se referem aos estados do Sul-Sudeste como sendo o padrão no Brasil. Não sei como são as coisas de verdade aí em baixo, mas no meio em que eu vivo, as live-in maids são extremamente comuns. No prédio onde moro, não lembro de um apartamento que não tenha uma empregada doméstica. O caso do "peguei pra criar" também é muito comum. É uma realidade triste e humilhante, é verdade. Para mim, o mais doloroso na hora de pedir desculpas é que não se trata de uma lembrança distante, mas de algo que está acontecendo agora mesmo, enquanto escrevo. E pensar que tem gente comparando limpar privada, lavar roupa suja, arrumar bagunça alheia, trabalhar 12 horas por dia e não poder trazer amigos ou namorados com um bico temporário que exige que a pessoa atenda telefone e carregue caixa com material. Eu, hein...
Sou advogada, pretento escrever um texto sobre o tema empregadas domésticas e as discrepâncias legais entre estas e outros trabalhadores. achei muito interessante as colocações feitas, no entanto, estou espantada em descobri que vivo no século passado, pois não conheço nenhum colega do meu meio social que não tenha empregada doméstisca que durma em casa,aliás a disponibilidade para dormir, é quase que uma condição para a contratação. Moro numa cidade de cerca de 350 mil habitantes, a terceira maior da bahia, e por aqui, como na maioria do Brasil as diaristas, são raras...
Obviamente, o Brasil é um país gigantesco. Eu não conheço o Brasil todo. Eu não sei quais problemas afetam de qual maneira cada cidade do Brasil. Mas eu sei é que essa questão é uma questão válida e importante MESMO se ela realmente não existir na sua cidade.
"Comparar com Escravidão É Forçar Muito a Barra!"
Depoimento de uma leitora:
hoje eu conversei com a minha faxineira e ela me contou que morou/trabalhou numa casa antes de ter a filha e disse que era um saco pois ela era babá e depois que a nenem dormia, ela tinha que ficar só no quarto dela, dai eu perguntei o que ela ficava fazendo e ela disse que depois de um tempo eles colocaram uma tv pra ela, e que as vezes ela lia, mas que era foda pois a crianca ia dormir umas 7 horas da noite e ela ficava esperando até a hora de dormir. dai eu perguntei por que ela nao saia pra dar uma volta, tipo 7 horas ainda esta de dia as vezes, ela podia ir num shopping, cinema, sei lá qualquer coisa, dai ela disse que os patroes nao deixavam ela sair porque tinham medo que ela fosse rendida por algum ladrao quando estivessem entrando no predio. dai eu perguntei se eles nao saiam, ela falou que sim e eu perguntei se eles nunca tinham sido rendidos.
Difícil de imaginar uma história como essa acontecendo em um país sem um forte passado escravista.
A bibliografia (e as histórias que eu escuto) são repletas de empregadas domésticas que são virtuais prisioneiras e escravas. Até hoje, conheço gente que deixa a diarista em casa, sai e tranca a porta, deixando a pobre moça presa até voltar. Nada mais comum do que empregadas que moram no serviço terem seu direito de ir e vir severamente cerceado. Naturalmente, que elas não são realmente escravas nem prisioneiras, e podem exercer muita negociação e resistência sim, mas os escravos e prisioneiros também.
O caso acima não é nem único nem incomum. Querem que eu conte mais um e mais outro? Quantos precisarei contar até se convencerem? Tem algum número mágico?
"Você Está Pegando Meia Dúzia de Casos que Nem Acontecem Mais e Extrapolando pro País Todo!"
Por fim, me acusaram de anacronismo e anedotismo, de falar de uma situação que não existe mais e de não citar bibliografia. Bem, a bibliografia é pouca mesmo, mas existe e eu a consultei quase toda. Nada do que eu falo, nadinha mesmo, vem da minha experiência pessoal - porque, assim como os leitores, eu também acho que na minha casa tudo era perfeito e todos eram felizes.
Infelizmente, é óbvio que não vai existir nenhum estudo sobre a situação das empregadas domésticas em todo o Brasil hoje, agora, nesse minuto. Um dos trabalhos mais recentes, um estudo de campo de Antropologia, é sobre a cidade de São Paulo em 2003, e você sempre pode dizer, "ahh, São Paulo, lá é tudo fudido mesmo, aqui na minha terra não tem isso, e 2003 já faz tempo, muita coisa muda em cinco anos!", mas você só vai estar demonstrando que não entende como funciona um trabalho acadêmico. Outros trabalhos que consultei tratavam de Niterói (2000), Campinas (2001), Vitória (2003, 2007), etc.
Abaixo, estão alguns títulos. Como li, fichei e anotei esses livros, pretendo compartilhar com vocês, ao longo das próximas semanas, algumas das minhas anotações - se ainda houver interesse.
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Barbosa, Fernando Cordeiro. Trabalho e Residência. Estudo das Ocupações de Empregada Doméstica e Empregado de Edifício a Partir de Migrantes Nordestinos. Niterói: Editora da UFF, 2000.
Estudo antropológico e sociológico sobre porteiros e empregados de prédio de modo geral, e também domésticas. O trabalho foi feito bastante recentemente, em Niterói, que é uma das cidades com maior IDH do mundo. Ou seja, até mesmo em lugares ricos e bons de se viver, as pessoas têm domésticas... Os porteiros sofrem os mesmos tipos de limitação, moram nos prédios, não tem espaço pessoal, tem que estar eternamente a disposição dos moradores, etc. Também interessante é a questão da masculinidade às vezes exacerbada dos porteiros, muitos migrantes nordestinos, com a natureza doméstica, feminina, servil do trabalho.
Costa, Fernando Braga da. Homens Invisíveis: Relatos de Uma Humilhação Social. São Paulo: Globo, 2004.
Literariamente, o melhor. Profundo, lindo, fortíssimo. O autor era aluno de pós-graduação de Psicologia e, como parte de um trabalho para a disciplina de Psicologia Social, teve que exercer algum emprego "humilde" - definido como não exigindo qualquer tipo de treino ou experiência. Tornou-se gari da USP e experimentou na pele a humilhação e a invisibilidade.
Kaufman, Tania. A Aventura de Ser Dona-de-Casa. Rio de Janeiro: Artenova, 1979.
Interessantíssimo. Um manual para patroas sobre como "gerenciar" suas empregadas para elas renderem o máximo. Continua atualíssimo e é apavorante. Lembra muito, às vezes palavras por palavras, uns manuais aqui do Sul dos EUA sobre como gerenciar escravos. A autora é irmã da Clarice Lispector.
Kofes, Suely. Mulher, Mulheres. Identidade, Diferença e Desigualdade na Relação entre Patroas e Empregadas Domésticas. Campinas: Editora da Unicamp, 2001.
Em termos acadêmicos, o melhor. Kofes estuda a relação entre empregadas e patroas em Campinas, especialmente em termos de disputa de feminilidade. Muito bem pesquisado, pensado, argumentado, repleto de entrevistas e estudos de caso.
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Os três artigos abaixo estão disponíveis na internet. Em breve, falarei mais deles:
Brites, Jurema. "Serviço Doméstico: elementos políticos de um campo desprovido de ilusões." Campos (UFPR), Curitiba - PR, v. 03, p. 65-82, 2003.
Brites, Jurema. "Afeto e desigualdade: gênero, geração e classe entre empregadas domésticas e seus empregadores." Cadernos Pagu (UNICAMP), v. 1, p. 91-110, 2007.
Deiab, R. A.; Mesquita, P.; Santos, R. R.. "Entre a Casa e a Rua: a Relação entre Patrões e Empregadas Domésticas." A Graduação em Campo II: Seminário de Antropologia Urbana das Ciências Sociais, 2003, São Paulo.
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Um consolo: pesquiso domésticas faz tempo mas não falo disso sempre por medo de entediá-los até a morte. Entretanto, parece que o tema interessa a muitos leitores. Ainda assim, pra não torrar a paciência de vocês, vou tentar limitar o assunto a um post por semana.
Alex,
Você (ou qualquer outro aqui) saberia me explicar (e pra todos os outros) quem fazia os serviços domesticos nos países onde nao havia escravidão e como era a relacao destes com seus patroes?
Tipo, uma vez eu li um livro sobre o Henrique VIII e fiquei perturbada em saber que, na corte, um dos cargos de maior prestigio era o de "funcionário do penico", um carinha que limpava a bunda do rei, essa pessoa era a pessoa mais intima do rei. Esse cargo era sempre dos nobres que frequentavam a área intima do palácio e eles tinham titulos importantes, tipo Conde e tal e eram meio que lobistas.
E também me pareceu que algumas pessoas que serviam à corte podiam frequantar festas e eventos dentro dentro palacio, mas eu nao consegui entender se era assim pra todo mundo, quem podia fazer o que e nem o que essas pessoas recebiam em troca. Eu supus que os filhos dos nobres faziam mais os serviços de quarto dos reis, mas nao sei quem fazia comida ou lavava as roupas por exemplo.
Mas quando uma filha de algum nobre era chamada pra servir de acompanhante da rainha, ela recebia um salario? Ou estar na corte já era um privilegio tao grande e uma abertura da infinitas oportunidades de vida que ja era o suficiente.
E isso era na corte, mas e nas casas desses nobres, quem fazia o que? Quem eram os serviçais?
Eu pergunto isso pois nunca aprendi nada a respeito, nao sei se essas coisas se aplicam apenas à essa época e lugar ou se eram assim em todos os lugares e principalmente para entender de onde surgiu a ideia de usar escravos nas colonias. Tipo, se eles não tinham em casa, por que resolveram fazer na rua.
Como eram os escravos gregos? Eles ficavam confinados também? Todas as escravidões são iguais?
Como funciona em outras culturas a situaçao onde a empregada mora no trabalho? Alguém sabe? É sempre um imigrante que fica com o serviço domestico?
Desculpe a pergunta ingenua, mas acho que se você ou alguém soubesse responder, todo mundo poderia pensar em termos relativos.
Eu entendo que você nao está dizendo que todos nós tratamos nossas empregadas como ecravos, mas de certa forma está colocando todo tipo de caraminholas e questionamentos na nossa cabeça.
Eu fiquei pensando e já te disse antes que eu entendo a maioria dessas restrições impostas à empregada como uma coisa de origem prática por exemplo:
Eu não acho errado nao deixar a empregada trazer ninguém em casa, tipo eu nao tenho como controlar com quem ela se relaciona e me sinto muito desconfortável com estranhos em casa, se uma amiga aparece na minha casa com uma amiga dela que eu nao conheço, eu me sinto muito desconfortável.
Eu não acho errado pedir pra empregada tomar banho quando chega de manhã antes de começar o serviço. Cara, ela pode ser a pessoa mais limpa do mundo, mas e as outras cem mil que vem espremidas no trem com ela? (Fulaninho acordou as 4 da manha pra ir pra obra e nem deu tempo de tomar banho e limpar os fluidos do sexo da noite anterior) Ela vai chegar e mexer nas minhas coisas, arrumar a minha cama, dobrar a minha roupa limpa toda melada de suor (e sabe mais lá o que)de terceiros? Eu tomo banho quando chego da rua, por que nao pedir que ela faça o mesmo?
Até que ponto é errado querer um pouco de privacidade na sua própria casa? Querer comer de pijama na cozinha ou andar pelada pela casa? Se a empregada ficar livre pra circular, você nao pode ficar tao a vontade.
E se você gosta muito de comer uma coisa que custa caro, dai voce compra um pouco, e até dá pra ela um pouquinho pra nao ficar com agua na boca, mas é errado reservar o resto só pra você? Pensa bem, você nao faz isso com as outras pessoas da casa? Não tem um chocolate ou sei lá um queijo que é só seu e nao é pra ninguem pegar? por que com a empregada é ofensa? Tipo se sua roomate come seu chocolate belga, ela pode comprar outro e repor no dia seguinte, mas será que a empregada pode fazer o mesmo?
E pensa bem, quando você mora na casa de outra pessoa (alguém aqui fez intercâmbio?) você nao tem que viver sob as regras dela? É injusto que o dono da casa imponha as regras de acordo com os seus costumes?
Eu entendo que essa origem prática pode tomar proporçoes sádicas, mas até que ponto elas nao são legitimas e justas?
Eu optei por nao ter empregada que dorme. Acho um saco tirar a liberdade dos outros, mas também nao vejo muito como nao tirar numa situaçao dessas.
Só pra você saber, em muitos dos projetos de casa que faço, eu coloco uma salinha intima com copa pras empregadas perto do quarto delas.
Muita gente parece achar isso. Como falou o amigo Leo:
"Vc estah - implicitamente - assumindo uma posicao dos escravos como objeto. Ao que parece, vc estah ignorando a literatura que mostra as estrategias de resistencia e negociacao na escravidao. (or acaso nao tem uma literatura sobre as estrategias de resistencia das domesticas? Isso seria um tema bem interessante). (...) Por exemplo, quando vc diz: "the arrangement more closely resembles a prisoner's life - or rather, a slave's life." prisoners' life??? Ora, a gente sabe que a vida de escravo - via de regra - não era a vida de um preso. (Soh se vc forcar a barra e dizer que preso tb tem negociacao e resistencia. Mas aih vc teria que explicitar isso no texto.)"
A bibliografia (e as histórias que eu escuto) são repletas de empregadas domésticas que são virtuais prisioneiras e escravas sim. Até hoje, conheço gente que deixa a diarista em casa, sai e tranca a porta, deixando a pobre moça presa até voltar. Nada mais comum do que empregadas que moram no serviço terem seu direito de ir e vir severamente cerceado. Naturalmente, que elas não são realmente escravas nem prisioneiras, e podem exercer muita negociação e resistência sim, mas os escravos e prisioneiros também.
(Um excelente artigo, recente e disponível online, sobre as estratégias de negociação e resistência das empregadas domésticas: Serviço Doméstico: elementos políticos de um campo desprovido de ilusões.)
O máximo que posso fazer aqui é empilhar caso em cima de caso, da experiência pessoal e da bibliografia, mas vou citar só um, contado por uma amiga. Depois dessa última série de posts do LLL, ela começou a conversar mais com suas empregadas:
hoje eu conversei com a minha faxineira e ela me contou que morou/trabalhou numa casa antes de ter a filha e disse que era um saco pois ela era babá e depois que a nenem dormia, ela tinha que ficar só no quarto dela,
Ou seja, apesar de "morar" na casa, ela não podia usar as áreas comuns nas suas horas de descanso, sendo uma virtual prisioneira do seu cubículo.
dai eu perguntei o que ela ficava fazendo e ela disse que depois de um tempo eles colocaram uma tv pra ela, e que as vezes ela lia, mas que era foda pois a crianca ia dormir umas 7 horas da noite e ela ficava esperando até a hora de dormir.
"Depois de um tempo" quer dizer que até colocarem a televisão ela ficava presa e ainda por cima sem nada o que fazer, olhando pra parede.
dai eu perguntei por que ela nao saia pra dar uma volta, tipo 7 horas ainda esta de dia as vezes, ela podia ir num shopping, cinema, sei lá qualquer coisa, dai ela disse que os patroes nao deixavam ela sair porque tinham medo que ela fosse rendida por algum ladrao quando estivessem entrando no predio. dai eu perguntei se eles nao saiam, ela falou que sim e eu perguntei se eles nunca tinham sido rendidos.
As desculpas paternalistas, familiares e carinhosas que os patrões usam pra restringir a liberdade de movimento das empregadas são sempre muito criativas. Essa aqui é especialmente cara de pau. Outra muito comum é (mesmo hoje em dia!) apelar para uma defesa da honestidade da doméstica: "você é moça virgem, o que pensariam se ficasse andando por aí no meio desses porteiros e peões?!" Em entrevistas com patroas, uma eventual gravidez da empregada é sempre temida, pois significa ou ter que despedi-la e encontrar outra, ou aceitar que ela tenha o filho em sua casa.
ela começou a rir e disse que era otimo quando eles saiam pois ela tinha o que fazer pois tinha que ficar com a crianca.
O tédio em que ela vivia era tão desesperador que a pobre mulher preferia trabalhar, cuidando da criança, a "ficar de folga" prisioneira num quarto vazio.
Difícil de imaginar uma história como essa acontecendo em um país sem um forte passado escravista.
Juro que esse caso não é nem único nem incomum. Querem que eu conte mais um e mais outro? Quantos precisarei contar até se convencerem? Tem algum número mágico?
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E você? Que histórias de domésticas você conhece? Já conversou com sua empregada hoje? Quer uma sugestão? Senta com ela. Pergunta como é sua vida. Deixe ela livre pra responder. Depois, vem cá e conta pra gente.
Muita gente parece não entender a diferença entre uma empregada doméstica e, digamos, um garçom ou um operário de fábrica. Teoricamente, dizem, são todas ocupações igualmente humildes. A exploração (ou a falta dela) seria a mesma. Se o patrão paga o salário em dia, respeita os direitos trabalhistas e não humilha o funcionário, qual é o problema? O que existe para se pedir desculpas?
Pra começar, há uma diferença grande entre a diarista, que cobra por hora, trabalha em diversas casas e tem mais independência e poder de negociação, e a empregada doméstica que trabalha em somente uma casa, especialmente se ela dormir no serviço.
O texto abaixo, para um projeto de pesquisa que estou desenvolvendo, está em inglês mas pode ser que ajude a esclarecer um pouco a questão:
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Permanence of Slavery Traits in the Institution of the Brazilian Live-In Maid
Brazilian slavery was abolished in 1888, but its uses and customs have hardly died. Brazil is still one of the most socioeconomically unequal and unjust societies in the world. While a dynamic ruling class presides over a wealthy and modern economy, most of the country's population lives below poverty level. Naturally, a slave-holding elite used to being catered by a multitude of servants would not actually change their ways overnight. While many humble occupations in contemporary Brazil are reminiscent of slavery, there is one that keeps the worst legacy of slavery alive and approachable to any middle class Brazilian: the live-in maid.
Live-in maids are usually brought from the countryside to work on big cities. It is not uncommon for their own parents to give them away to wealthy families in hopes of providing them with better lives. In an unjust and sexist society, an uneducated girl severed from her family has but few options: she can either make a living out of her body and became a prostitute or out of the domestic skills she learned as a child and become a maid. Sometimes these underage live-in maids do not even receive salaries or go to school: it is tacitly understood that they "help around the house" in exchange for room and board. Among elite families, this custom is known as "peguei pra criar", or "we fetched her to raise her".
Most Brazilian apartments, even relatively modest one-bedrooms, are equipped with maid's quarters, usually little more than damp, windowless closets. Despite all the economic hardships the Brazilian middle class also faces, it is apparently important for their self-image and/or self-esteem to have someone even poorer under their roof to serve them. The paradox of a one-bedroom apartment with maid's quarters (making it two bedrooms, of course) is lost on most Brazilians but not on the law: architecture ordinances establish minimum standards of size, light and ventilation in order for a room to be considered a bedroom. In order to circumvent the law, most architecture firms just name the maid's quarters as "pantries", making it not their fault if future occupants house their live-in maids there.
Even though employers sell the institution of the live-in maid as a great benefit for workers, who do not have to go through the trouble and costs of renting their own place, the arrangement more closely resembles a prisoner's life - or rather, a slave's life. They are called upon to perform any menial, disgusting or heavy task a family member is unwilling to do and they cannot say no: since they have no proper job description, nothing is ever outside it. Live-in maids are always on call and they have to serve family members at all hours. They cannot use the house common areas: a live-in maid watching the soap opera on the living room or smoking on the porch on her off-hours would be well nigh impossible in Brazil - especially because, for all points and purposes, a live-in maid has no off-hours to speak of. They cannot receive guests, not even in their own little rooms, and especially not of the opposite sex. Sexual or romantic relationships are also frowned upon. One of the most recurrent complaints about live-in maids is either that they have a boyfriend outside the house or that they bring friends over.
The live-in maid's body is also closely watched and guarded, as she is always an outside, slightly inconvenient presence in a household. In most houses, any display of femininity is strictly forbidden: maids are not allowed to wear nail polish, long nails, perfume, high heels, make-up, miniskirts or body jewelry, being on the other hand usually forced to wear hairnets and uniforms. Since the live-in maid is already being called upon to replace the female homeowner in the performance of her traditional female roles, it would be intolerable if she also looked and behaved like a female. In other words, according to such diverse authors as Gutierrez, Kofes and Farias, she would be too much of a threat to the female identity of the female homeowner. In a very real sense, the live-in maid sacrifices herself so that the middle class independent Brazilian woman may pursue her professional career. Kaufman's manual to female homeowners on how to manage their live-in maids makes it painfully clear that the female Brazilian homeowner is sharply aware of the importance of this substitutive relationship.
As a part of his training as a social psychologist at USP (Universidade de São Paulo), Fernando Braga da Costa had to work for a few hours a week in an "invisible job", defined as a humble uniform-wearing occupation that required no special training. Fernando ended up working for nine years alongside the street cleaners of USP. Being a janitor on the same university where he worked as a psychologist, Fernando discovered that the uniform made him instantly invisible to friends, professors, students or co-workers he had sometimes seen just a day previously. His book Homens Invisíveis: Relatos de Uma Humilhação Social is a seminal work on social psychology, economic invisibility and political humiliation.
Naturally, this seigniorial attitude towards maids, servants and janitors could not help but reflect itself on literature, movies and the media. The above photo was published in a Folha de São Paulo social column earlier this year. The caption merely read: "Fulana, vestindo Fórum Tufi Duek, na casa do estilista.” (Fulana, wearing clothes by Fulano, at his house.) Both women look perhaps the same age, but there is a world of difference between them. One's body language is victorious and exuberant; the other's is submissive and shy. One's body is ornamented and feminine; the other's is hidden under her manly working clothes. Interestingly enough, the newspaper not only recognizes the existence of only one of them, but also neglects to indicate which one is it (ie. "on the left, Fulana" etc) as if it were patently obvious that it could only be describing the person on the left.
I am currently studying the representation of the live-in maid in Brazilian newspapers, magazines, movies and TV, looking for points of contact between the imagery and narrative of live-in maids on early twenty-first century and the imagery and narrative of slavery on the nineteenth. The parallel between maids and slaves has been constantly alluded to but, as far as I could find, no one has ever written academically about it yet. Therefore, my research has the potential to be quite innovative and to contribute to a greater understanding of the lasting legacy of slavery in contemporary Brazilian society.
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A foto foi indicação do Daniel, do Fósforo. Leiam o post original sobre esse assunto.
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Semana passada, eu fiz a pergunta, e não era retórica: que desculpas você pediria a sua empregada doméstica?
Só uma pessoa respondeu. Publico aqui o texto enviado por uma amiga:
Não é possível pedir desculpas
Lúcia foi trabalhar na casa da minha mãe quando eu tinha oito anos – saiu quando eu tinha 28 e já nem morava mais lá. Durante esses vinte anos de trabalho doméstico ela nunca cansou de dizer que fora trabalhar lá por minha causa – e por minha causa permanecera.
Peço desculpas à Lúcia por tê-la deixado acreditar que eu era uma menina doce e gentil que a tratava muito bem. Porque a menina doce e gentil nunca se preocupou em saber como é que ela fazia para sobreviver e sustentar duas filhas com aquele salário mínimo que ganhava. E a menina doce e gentil, confortável na ilusão de amizade, não se constrangia em, na frente da Lúcia, negociar mensalidades com a mãe ou dizer o valor de presentes que ganhava – que em muito superavam a sua renda mensal. Aquela menina doce e gentil também não se preocupou em saber de que forma a cama e o quarto apareciam magicamente arrumados quando ela chegava da escola, nem em descobrir o percurso mágico que as roupas sujas faziam do banheiro até a gaveta, onde reapareciam misteriosamente limpas, cheirosas e passadas. Também se permitiu não perceber o que havia por trás da aparição da comida pronta sobre as travessas limpas da mesa de jantar. A menina tão doce e tão gentil nunca se constrangeu em deixar que Lúcia limpasse do banheiro os doces detritos de sua bundinha gentil. E não se incomodou em dividir com a “amiga” os seus problemas de mocinha de classe média: namorados, namorados e namorados. E não percebeu que ela também havia de ter seus probleminhas. Falta de dinheiro talvez? Ou cansaço físico pelas horas de transporte aliadas ao serviço pesado? Ou um fundo de infelicidade por viver a vida da menina doce e gentil na base da compensação imaginária? Porque será que Lúcia não dividiu com sua doce e gentil amiguinha as surras que tomou do marido?
Lúcia perdeu o marido assassinado a tiros, ganhou um neto de uma filha de quinze anos, mudou-se para o interior, ganhou outro neto quando a filha mais nova atingiu quinze anos também, virou evangélica e sustenta sozinha toda a sua família trabalhando em uma república de meninas que deixam suas calcinhas obscenas para ela lavar na mão. Todo ano, no meu aniversário, Lúcia me liga – e sonha em voltar a trabalhar para sua patroa gentil.
H.
Essa reflexão não é fácil. A gente precisa remexer em coisas que não gostamos de remexer, que estão quietinhas lá no passado. Mas também é uma pergunta importante para descobrirmos quem somos e quem queremos ser.
Como sabem, estou escrevendo um livro sobre domésticas e gostaria MUITO de ouvir a opinião de vocês: que desculpas VOCÊ pediria a sua empregada doméstica?
E, se você não tem desculpas nenhuma a pedir, se acha que não cabe a pergunta, que é uma relação profissional como qualquer outra, eu também gostaria de saber.
Para maior privacidade, se não quiserem deixar comentários, mandem emails.
Update
Comentou a leitora Aline:
Bem, Alex, quando vc faz a pergunta "que desculpas vc pediria a sua empregada?", parece que todas as pessoas tem ou pelo menos tiveram empregada em casa.
Olha, se eu perguntar "em qual candidato a presidente vocês votaram em 2002?", isso não quer dizer que eu acho que todo mundo votou pra presidente em 2002, mas que estou dirigindo minha pergunta somente a essas pessoas.
Se um blog lança a pergunta "quando foi a sua primeira menstruação?", eu não vou presumir que o blogueiro tonto acha mesmo que todo mundo menstrua!, mas que a pergunta foi dirigida somente às pessoas que de fato menstruam, o que não é o meu caso. Ou seja, vou ouvir a pergunta e já saber que não é comigo. Etc etc.
Como alguém que está escrevendo um romance sobre empregadas domésticas, a confissão abaixo, publicada na Revista Trip, me interessou muitíssimo:
Nosso colunista pede desculpas públicas à empregada da família com quem transou, contra a vontade dela, quando tinha 14 anos
Oi Luisa,
Será que você lembra de mim? Sou filho da dona Fany, do Bom Retiro. Provavelmente você lembra, mas talvez por desgosto tenha removido aquela absurda tarde da memória. Só me permito lembrar – lavando estes panos sujos assim tão publicamente – porque o mundo é cheio de Luisas. Porque já se passaram 32 anos e porque, lamentavelmente, o que aconteceu entre nós não é tão incomum.
Quantos anos você tinha? Vinte, trinta? De onde você era? Quem você era? Só sei que você era empregada de casa, que teus seios eram fartos e que eu tinha 14 anos. Você era tímida e já trabalhava em casa há algumas semanas quando a Sheilinha, uma colega de classe, me disse que você já tinha trabalhado na casa da família dela e que você “dava para um motorista de táxi”.
A idéia de que você “dava” não saiu da minha cabeça, e você começou a estrelar obsessivamente todas as minhas punhetas. De tarde eu ficava rondando pela área de serviço enquanto você lavava a roupa. Era um tesão incontrolável, aflito, desesperado e covarde.
Eu nunca gostei daquele bosta do Adalberto e não me perdôo por tê-lo envolvido nessa história. Até hoje, nas poucas reuniões da turma do colégio Renascença, eu o evito. Mas ele era maior e mais corajoso, e eu recorri a ele. Sinto muito remorso, Luisa, pelo que fizemos.
Meus pais e irmãs tinham saído e você estava varrendo a sala quando eu e o Adalberto demos o bote. Não lembro qual foi o nosso papo, mas imagino que tenha sido a coisa mais ridícula do mundo. Pedimos, insistimos sem parar para que você “desse” para nós.
Lembro de poucos detalhes. Você não queria, mas por força da nossa insistência acabou cedendo. Sinto ódio do Brasil quando penso que você provavelmente tivesse medo de perder o emprego.
O Adalberto, é claro, foi o primeiro. Subi numa escada e fiquei olhando através da janelinha do cubículo que era o teu quarto. Depois fui eu. Não foi bom, Luisa. Na hora do vamos ver fiquei envergonhado e não rolou legal. Até hoje me envergonho. Muito.
Espero que você esteja bem. Espero que para você a memória daquela tarde não seja tão ruim e que você hoje possa rir do que aconteceu.
Desculpas, Luisa.
Henrique.
HENRIQUE GOLDMAN, 46, cineasta paulistano radicado em Londres. Seu e-mail é: hgoldman@trip.com.br
O texto gerou uma caralhada de emails revoltados. Só no site da revista tem 545 comentários, e subindo. Teve gente pregando boicote à Trip e pedindo a prisão do autor por apologia ao crime:
"Duas frases pra vcs - Prisão a esse tal de Goldman por apologia ao crime (tão hediondo que é). - Boicote total a essa tal de Trip e seus anunciantes (por divulgar e pagar por um absurdo desses). Eu poderia ter vivido mais 30 anos sem nunca ter lido essa revista, mas essa "carta/confissão" roda pelos emails."
Dois exemplos da repercussão na blogosfera:
Eu já vi de tudo nessa vida. Mas uma pessoa confessar um abuso como esse assim? Alguém sabe me responder se o que essa pessoa praticou é estupro mesmo ou tem algum outro nome? Cynthia Semíramis, socorro!
Tem gente que simplesmente não enxerga os próprios absurdos. Para completar, o texto é pedestre, cheio de babaquices como “A idéia de que você ‘dava’ não saiu da minha cabeça, e você começou a estrelar obsessivamente todas as minhas punhetas.” Que coisa fina!!
Ou “Você não queria, mas por força da nossa insistência acabou cedendo. Sinto ódio do Brasil quando penso que você provavelmente tivesse medo de perder o emprego.” Oh, sim, claro.
QUem sabe é uma forma de viral. Você escreve um coisa anormal, aberrante. Aí, as pessoas vão linkar, como eu estou linkando. Pimba! Audiência.
Vai entender.
Se for mentira. Ele é só um babaca. Se for verdade, é um criminoso!! Que legal!
Sim, claro que é estupro, oras. E mentira por mentira, Dom Casmurro e Hamlet também são mentiras. Serão Machado e Shakespeare dois babacas?
Mais um:
gente, de vez em quando o assunto é sério, e hoje é um desses dias. henrique goldman escreveu um texto absurdo e a trip (pra variar, apesar de eu não achar isso de todo ruim) publicou. e como estupro faz parte de relacionamento (é triste, mas é verdade), é esse o tema de hoje.
nenhum homem, em sua existência, terá real noção da intensidade do sentimento que a mera hipótese de ser estuprada causa em uma mulher. nem que ele mesmo tenha sido estuprado. se tem um único sentimento (além do orgasmo, mas esse é discutível) que os homens nunca terão noção do que é sentir, é o medo/asco de ser invadida sexualmente por outra pessoa. contra a sua vontade.
eu, pessoalmente, tive um caso muito próximo a mim, quando eu era adolescente, e pude ver de perto o quanto isso destrói a vida inteira de uma pessoa. é por isso que eu não consigo ficar quieta quando ouço um IDIOTA de 46 anos, cineasta metidinho a modernete tentando se desfazer de sua culpa burguesa dizer “espero que para você a memória daquela tarde não seja tão ruim e que você hoje possa rir do que aconteceu“. leia-se: ele continua o mesmo idiota que era aos 14. e que provavelmente pode repetir esse comportamento. nojento.
Não consigo bem entender o que passa na cabeça das pessoas. O texto é claramente uma denúncia à violência contra Luísa, jamais sua apologia.
Abaixo do texto, um aviso a posteriori da revista esclarece:
Trip esclarece o que deveria ter ficado claro já na publicação da coluna “Mundo Livre” da edição de setembro: trata-se de um texto de ficção, um recurso usado com freqüência pelo colunista Henrique Goldman.
"Deveria ter ficado claro" como, cara-pálida? Não há nenhuma indicação no texto que o marque como ficcional. O fato de o narrador da carta ter o mesmo nome do autor da página só reforça a idéia de uma confissão madura. É natural que os leitores tenham considerado o depoimento verdadeiro.
Enquanto texto ficcional, é maravilhoso. Teria orgulho de tê-lo escrito.
Se fosse não-ficção, entretanto, teria sido ainda mais revolucionário ver um sinhôzinho branco brasileiro, depois de velho, finalmente perceber que sua relação "tão natural" com sua empregada era, na verdade, de dominação e horror.
Eu, que não tenho memória alguma da infância mas que cresci sinhôzinho branco voluntarioso em casa que chegou a ter dez empregadas, tremo ao imaginar minhas muitas culpas. Graças a deus pelo esquecimento.
Por fim, a escritora Cidinha da Silva simplesmente postou em seu blog a resposta de Luisa:
"Oi Henrique, Li sua carta na revista Trip na casa da minha patroa. Na verdade, o filho dela de 14 anos foi quem veio me mostrar e brincou: “será que foi você, Luisa?” Sim, fui eu. Oh crueldade do destino, mas não deixei ele saber. Na hora fingi que não me interessei, mas assim que ele saiu pra jogar play station com os amigos, peguei a revista e corri pro banheiro. Passou um filme na minha cabeça, Henrique, eu me lembro de tudo, sim. O motorista de táxi eu conheci na escola noturna, saí com ele algumas vezes, mas não cheguei a dar, não. Não foi por falta de insistência, nem de vontade, minha e dele, mas ele sabia que eu era virgem e tinha medo que eu engravidasse, não queria problemas com minha família. Quando ele me viu de barriga, chorou, não sei se de raiva ou tristeza, nunca mais falou comigo. Também a gente se mudou logo dali, meus pais não suportaram a vergonha de ter uma filha barriguda. A sua mãe ajudou muito, muito mesmo, com conselhos, pra eu retomar o juízo, e com dinheiro pra mudança. Até quando a menina nasceu, minha mãe dizia que D. Fany era uma patroa muito boa, que eu não tinha sabido aproveitar. Depois ela cresceu e os olhos ficaram muito parecidos com os seus, minha mãe deixou de elogiar a sua. A coisa que mais me lembro, Henrique, é que você pegou do chão o tapete e jogou na minha cara, disse que olhando pra ela não ia conseguir. Foi como um filme, Henrique, eu não esqueço. Minha filha faz faculdade de Direito e estágio na Defensoria Pública. É uma moça bonita, inteligente e feliz, não precisou passar pelas coisas que passei. Hoje tenho 38 anos, mas pareço ter pelo menos 50. Não devo ter mudado muito, quando tinha 16, você me dava 30. Vou pedir a revista emprestada e levar pra menina ler, pena que não tenha sua foto."
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A relação entre família e empregada doméstica ainda é uma das relações mais invisíveis da sociedade brasileira. Apesar de profundamente injusta e opressora, herdeira direta da escravidão, ela ainda pouco é pensada ou problematizada: para nossa classe média que cresceu com uma escurinha limpando suas privadas, nada poderia ser mais natural.
O texto de Henrique Goldman teve o enorme mérito de levantar essa questão. Pena que as pessoas realmente não sabem ler.
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A primeira história do meu romance sobre empregadas domésticas está disponível em um blog restrito. Se você tem interesse pelo assunto e quer dar uma olhada, me dá um toque e eu te mando um convite.
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Agradecimentos a Camila, que me chamou atenção pra esse rebu todo.
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Ao folhear a Folha de SP distraidamente, neste domingo (20/01), me deparei com esta foto, na coluna da Mônica Bergamo. A matéria era sobre um desfile de modas numa casa elegante, e as duas figuras contrastantes me chamaram a atenção.
Duas mulheres, talvez da mesma idade, de mundos diferentes. A postura, olímpica de uma, submissa de outra. Os penteados, a maquiagem, as roupas, tudo demonstra existir um oceano entre elas. Mas achei notável que estivessem juntas numa coluna dita ”social” de um jornalão de domingo.
A intenção da fotógrafa talvez tenha sido a de integrar dois mundos, mostrar quanto as mulheres podem ter em comum. Provar que, não importa onde tenham nascido, respiram o mesmo ar, freqüentam o mesmo ambiente, têm desejos semelhantes.
Fui à legenda, claro. A verdade estava lá inscrita, pétrea: “Fulana de Tal, vestindo Fórum Tufi Duek, na casa do estilista.” Só.
Apenas uma dessas mulheres existe, para o jornal. A outra pode ser confundida com um vaso ou um animal doméstico. Seu sorriso é uma miragem, seu corpo é uma abstração escondida sob o uniforme masculinizado. Talvez cozinhe melhor, cure melhor, console melhor, faça amor ou cuide dos filhos melhor que sua vizinha, mas isso não conta. Não merece ter o nome divulgado.
Aliás, não é gente. Não pode ter nome.
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As palavras acima não são minhas, mas quando leio um texto que eu teria escrito e assinado cada letra, dá vontade de citar tudo. O meu romance das empregadas é justamente sobre isso. Leiam aqui o post original e passeiem pelo blog, que vale a pena. Dica do Branco.
Aliás, eu acrescentaria o seguinte: a fotógrafa provavelmente levou um esporro do editor por ter cortado a mão da socialite e não ter corrido a empregada da foto. Devem ter tentado cortar a empregada, mas então a foto ficava muito espichada, fodia com a diagramação da página. Com certeza, acabou saindo somente por completa falta de alternativas.
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Um blog sobre rebeldia, contemplação e sacanagem, regado a muita literatura e humor. Nosso assunto são as várias prisões que acorrentam o homem, como ambição, verdade e medo. Dê sua opinião!
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