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Estou pra escrever sobre isso faz tempo, mas, sabe como é, tese, preguiça, romance, *bocejo*. Enfim, a Lady Rasta escreveu um texto dizendo, ou dando a entender, que o tal preconceito contra a classe média é como o preconceito contra os negros, e eu deixei uns comentários lá dizendo mais ou menos o que eu iria dizer no post. Então, quem quiser uma prévia, vai lá.
Meu amigo Henrique Cartaxo, da Unicamp, está organizando um debate sobre Ação Afirmativa e precisa de participantes, tanto contra quanto a favor. Leiam abaixo:
Vai acontecer um debate sobre "Ação Afirmativa na universidade e as reações da sociedade brasileira", no dia 24 de novembro, no estúdio da TV Unicamp em Barão Geraldo. É interessante que haja pessoas de fora da universidade participando do debate, favoráveis ou contrárias às Ações Afirmativas.
Leitores de Campinas que estejam interessados em participar, escrevam para hcartaxo no gmail. Obrigado!
Para saber mais, visite o site do Circo Voador.
Meu twitter: http://twitter.com/AlexCastroLLL
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Há uma coisa que nunca falha: quem é muito contra certos preconceitos acaba sempre adotando outros, tão ruins ou piores. Eu diria mesmo que quanto mais dedicação contra alguns preconceitos mais facilmente você adota outros. Quase se pode dizer quando seus novos preconceitos começam: é quando você faz ou diz uma grande merda sem perceber, apenas por preconceito.
Uma grande merda é o que vi no blog do Alex Castro, sobre Júlio Severo. ... O Júlio Severo não é católico. É até anti. Não se trata de rotular. Trata-se de pesquisar e constatar. O Alex chamou Júlio de católico – ou melhor, chamou o blog do Júlio de “site católico”. Por que o Alex fez isso? É que o Alex tem preconceito social (contra a classe “mérdia”), religioso (contra os cristãos em geral e contra católicos em particular) e ideológico (contra conservadores). O Alex debate muito contra conservadores de classe “mérdia” sobre os preconceitos contra negros, mulheres e gays. Daí, ele acha que quem discorda dele sobre preconceito são católicos conservadores de classe “mérdia”. O que é preconceito…
É quase a mesma coisa que um policial suspeitar mais dos negros que dos brancos – já que topa mais com bandidos negros que com bandidos brancos. Quase. Quase porque é pior: um tira muitas vezes não tem como eliminar a suspeita sem pelo menos revistar o negro, mas ao Alex bastava 5 minutos de Google para saber a religião do Júlio. Se o Alex estivesse mesmo interessado em conhecer o assunto de que fala, em vez de simplesmente rotular quem discorda dele.
Os preconceitos religioso, social e ideológico também são piores que os preconceitos raciais e sexuais por outro motivo: no primeiro caso, o preconceituoso tem orgulho de sua ideologia, religião (ou falta de) e classe e tem prazer em depreciar os demais. No segundo, há muita vergonha nesses preconceitos. Racistas e, principalmente, homofóbicos sofrem muito por não poderem agir com naturalidade com negros e gays. E isso nem é pela patrulha politicamente correta: é muitas vezes um caso de atração ou identificação reprimida. Muitos racistas têm sangue negro e se envergonham disso. Muitos homofóbicos são gays reprimidos. E por isso sofrem mais do que pela patrulha politicamente correta, que na verdade é uma boa desculpa para eles justificarem e manterem seus preconceitos: Eu até acho que eles sofreriam mais, se deixados em paz. É da natureza: quem tem preconceito racial ou sexual, sofre. Quem tem preconceito religioso, social e ideológico faz sofrer aos outros.
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Nunca li Dawkins, que sempre me pareceu um ateu militante, algo que desprezo um pouco, mas Freud em O Futuro de uma Ilusão já falou tudo o que eu sempre quis dizer sobre religião.
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O texto acima foi publicado no blog do Jorge Nobre. Por enquanto, há dois comentários, ambos comentados pelo Jorge, abaixo:
Fabio Marton disse: "Você quer saber, acho que o preconceito não é com católico, é com evangélico. O Alex vê um conservador religioso sendo levado mais ou menos a sério, e escrevendo mais ou menos articuladamente, não consegue imaginar que o cara não seja católico."
Resposta do Jorge: É uma hipotese. Bem, o fato é que o Alex deveria se informar melhor um pouco antes de sair por aí rotulando. E nem custava muita coisa, só alguns minutos de google. Note que eu nem entrei no mérito do Júlio ter dito ou não besteira, porque eu não tive tempo de ler os links que o Alex escolheu. Talvez eu faça isso logo.
Tiago disse: "Ele já se tornou ridículo há muito tempo."
Resposta do Jorge: "Eu não o levo a sério, de qualquer forma. Escrevo no blog dele para me divertir."
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As duas melhores Bíblias em português, de Jerusalém e do Peregrino. Disparado. Recomendo. Amo as duas e carrego pra onde vou.
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E fiquei aqui pensando: tirando os absurdos cômicos do texto, o Jorge levantou um ponto interessante. Fiz o post meio nas coxas, juntando links e citações basicamente pra encher linguiça no blog sem não precisar escrever, e presumi rapidamente que Júlio Severo fosse católico. E não era. Hmm.
E, depois disso, o Fábio (vulgo NotTupy) matou a charada. Fui educado em escola e universidade católicas. Li a Bíblia de cabo a rabo três vezes, em duas edições de estudo católicas (Jerusalém e Peregrino). Já conversei longamente sobre exegêse e literatura bíblica com pensadores, teólogos e literatos bíblicos que respeito muito e que me respeitam: mas todos ou católicos ou judeus. Minhas experiências tentando ter as mesmas conversas com protestante foram sempre desastrosas.
Então, realmente, sou forçado a concordar: se vejo um cristão minimamente articulado e não enlouquecido, presumo que seja católico.
Pra não falar, claro, do maior de todos os preconceitos, sempre latente e raramente articulado, que só admito com alguma hesitação: tirando pessoas de outras épocas que viviam em outros contextos, de fato não dá pra respeitar intelectualmente, de verdade, com admiração inexpurgada, alguém que acredite em amigos imaginários. A gente respeita, gosta, ama, conversa, transa, mas sempre dando aquele desconto, fazendo aquela ressalva mental:
Sim, ele garante que as ações vão subir, mas vamos lembrar que esse é um cara que, se pegar câncer, vai implorar pra ser curado pelo mesmo amigo imaginário que liberou o Holocausto, a Escravidão e a Peste Bubônica. Hmmm.
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Apesar do que dizem as más línguas, Idelber e eu discordamos em quase tudo. Mas teve uma frase que ele escreveu que foi tão linda, tão catártica, que me deu vontade de aplaudir aqui sozinho em casa, cheguei a levantar o punho e fazer "yesss!". A frase em si não tem nada de mais: poderia ter sido dita por qualquer adolescente raivosinho. O que importa é o contexto. Pra ler o texto inteiro, cliquem na frase:
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Dito isso, sou ateu (leia a Prisão Religião) e a Bíblia é meu livro preferido (A Bíblia como Literatura). Leia também: Pessoas-que-Acreditam-em-Coisas.

Esse é o melhor livro para quem quer ler a Bíblia como literatura, e não como aquele livro chato que Tia Candinha sempre carrega pra cima e baixo. Depois desse Guia, você nunca mais vai encarar a Bíblia do mesmo jeito.
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Na esteira do post de ontem sobre a felicidade das mulheres, a UFRJ está conduzindo uma pesquisa para definir, afinal, o que é felicidade. Quem quiser participar, por favor visite:
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O Festival Aprendizes de Cinema, de Taubaté, prorrogou inscrições até o dia 29 - por falta de inscritos. dizem. Muito feio isso. Para o pessoal que tem curtas na gaveta, está aí a dica:
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Um site decidiu tomar pra si a liderança do movimento racial "deixa-disso": seu primeiro princípio é que o racismo é uma chaga intolerável e, o segundo, que não podemos tomar nenhuma atitude contra ele, pois qualquer lei que mencione raça seria "racialista" e isso também seria intolerável.
É a mesma atitude dos legisladores de 1850, que consideravam a escravidão intolerável, mas que também diziam não ser conveniente legislar contra ela, pois ela estava condenada de qualquer jeito, etc etc. Em suma: desde tempo imemorial, a estratégia padrão brasileira é inventar justificativas morais e políticas para, efetivamente, não fazer nada e deixar tudo como está. Se o racismo é um problema, qualquer solução para ele tem que abordá-lo sob o prisma da raça - senão não estará resolvendo o problema!
Como disse uma amiga, se fizessem metade desse esforço pra combater o racismo de fato, o problema já estaria praticamente resolvido. Na frase clássica d'"O Leopardo", é preciso se esforçar muito pra manter tudo como está.
Mas, enfim, o site é bonito, inteligente, bem-organizado. Cita dementes, como o Magnoli, mas também pensadores sérios e respeitados, como Hermano Vianna. É sempre positivo ver brasileiros se articulando politicamente - nem que apenas pra defender o "deixa-disso". Se temos conceitos diferentes de Brasil, o único jeito de resolvermos a questão é no diálogo. Então, aqui vai:
Contra a Racialização do Brasil
Para a visão oposta, leiam a Seção Raça do LLL.
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E, se forem comprar algo na internet, comprem no Submarino clicando aqui pelo LLL e ajudem a manter seu blogueiro preferido acima da linha da miséria:
Sempre que escrevo sobre a sociedade brasileira de modo geral, aparece uma turma querendo individualizar o problema:
não faz sentido falar do brasil sem falar nem dos brasileiros concretos, nem das leis brasileiras, nem das instituições brasileiras, nem dos comportamentos dos brasileiros etc. o seu "racismo estrutural" é um fantasma. não se refere a nada objetivo, a não ser que você ache que racista é a nossa geografia física. uma "estrutura" que paira acima de toda e qualquer qualidade objetiva não é estrutura nenhuma. ... o problema do racismo é muito sério para ser atribuido a "toda a sociedade". precisamos saber objetivamente onde ele está para combatê-lo.
E eu fico pensando: será que essas pessoas já vivem em sua utopia? Em um mundo onde as leis e instituições são perfeitas e funcionam perfeitamente, faltando só educar ou punir um ou outro desviante para que fique tudo ainda mais perfeito?
(Já falei mais sobre isso no texto O Racismo Não É Um Problema Individual.)
Então, deixa eu articular com todas as letras uma das premissas centrais desse blog:
A sociedade está toda errada desde o princípio.
O Brasil é um país estruturalmente e intrinsicamente racista, classista, machista, paternalista e autoritário. Nossas instituições, nossas leis, nossos costumes, nosso folclore, tudo o que nós somos enquanto sociedade, colabora para perpeturar esse estado de coisas.
Sim, existem muitos brasileiros racistas, machistas, classistas, autoritárias, mas mesmo se fossem todos magicamente encontrados, removidos, mortos ou reeducados, a estrutura de nossa sociedade continuaria idêntica.
O baralho que herdamos dos nossos antepassados já está viciado para beneficiar sempre um tipo específico de jogador. Não basta somente que nós, os jogadores beneficiados, simplesmente não trapaceemos. É necessário trocar de baralho.
Por isso, nos meus textos, ao invés de denunciando o racismo ou o machismo dessa ou daquela pessoa, eu tento expor as falhas e as rachaduras dessa estrutura como um todo.
Tirando meia dúzia de alucinados em Curitiba, ninguém diz que o racismo é bom. De que adianta eu escrever um texto denunciando o racismo individual de uma situação específica? Sim, a cliente chamou a vendedora de "macaca suja". Alguém pode achar que isso é justificado? O que vocês teriam aprendido com esse texto? O que teria acrescentado? Nada.
Na verdade, por trás desse discurso individualista ("temos que buscar os racistas individuais!") está um profundo conservadorismo. Quem se recusa a aceitar, ou mesmo entender, qualquer crítica à estrutura da sociedade e acha que tudo se resume a encontrar os indivíduos culpados e pronto, está deixando implícito que a sociedade é perfeita e não precisa ser mudada. Parecem dizer:
Basta todos cumprirem as leis e está tudo resolvido. Quem não cumprir, a gente prende e pronto. Se o racismo já é contra a lei, então, resolveu, Alex. Como a sociedade pode ser estruturalmente racista se existem leis anti-racismo?
Já eu acho que a sociedade está toda errada desde o princípio. Do conceito de propriedade ao conceito de monogamia. Da idéia de religião aos ditos valores familiares. O Capitalismo e o Comunismo. O Socialismo e o Cristianismo. Tudo errado. Errado de princípio, errado na origem. Errado nas intenções e errado nos métodos.
Eu derrubaria tudo.
* * *
Abaixo, alguns livros pra abrir sua cabeça. Esses são os livros que mudaram minha vida:
Tanto entre homens e mulheres quanto entre brancos e negros/índios. Do meu jornal preferido:
Latin America's worst wage gap for women and minorities? Powerhouse Brazil.
Men earn 30 percent more than women in Brazil, according to a new report from the Inter-American Development Bank. That gap is almost zero in Guatemala and Bolivia.
Andrew Downie e Sara Miller Llana, The Christian Science Monitor, 13 de outubro de 2009
Certa vez, entrei na redação e vi o secretário esbravejante. Sou um fascinado pelas grandes indignações; e o homem atirava patadas como um centauro. (Isso foi há, talvez, dez, doze anos.) Há um momento em que pára, exausto da própria ira; passa as costas da mão na boca encharcada. Diante dele, esmagado, estava o fotógrafo. A redação, parada, espiava só.
Eis o fato: — desabara um prédio em Petrópolis, matando quinze operários. Um dos nossos fotógrafos voara para a montanha. Lá, batera chapas de tudo. Em seguida, descera a serra, numa fulminante velocidade. Mas, quando apareceu com o serviço, o secretário sapateou como em transe mediúnico. Esfregava as fotografias na cara do outro: — “Este jornal não publica cadáver de preto”. Virava para os redatores e uivava:— “Cadáver de preto”.
Assim humilhado e assim ofendido, o fotógrafo percebia a enormidade da própria gafe. Note-se que era preto como o morto. Mas no fundo, no fundo, ele próprio dava razão ao chefe. E, por fim, o secretário foi, de mesa em mesa, exibindo as fotografias. Uma delas, justamente a que mais o horrorizava, era de um preto gordo, de papada e olhos abertos. Uma viga desabara sobre o desgraçado, abrindo-lhe o crânio. Cada redator olhou aquilo e houve um escândalo racial como se defunto negro, pelo fato de ser negro, fosse obsceno. A indignidade final foi a suspensão do fotógrafo.
Pode parecer um episódio solitário, irrelevante. Em absoluto. Foi assim em todas as épocas da nossa imprensa. As velhas gerações não comprometiam as suas primeiras páginas com um cadáver de “cor parda”. O morto branco saía. Eu me lembro de um avião que caiu na baía em 1929. Foi na chegada de Santos Dumont. O aparelho enfiou-se no mar. Uma semana depois, os escafandristas começaram a retirar os corpos.
No dia seguinte, cada primeira página era um necrotério fotográfico. Nunca me esqueci da cara do piloto em cinco colunas. Tinha os olhos brancos e a boca exagerada, violentada. Era a época das primeiras páginas heróicas. Eis o que eu queria dizer: — os brancos podiam aparecer de olho vazado, de boca obscena. Ninguém dizia nada, Mas nenhum jornal publicaria o afogado preto.
Mais tarde, começaria uma nova época jornalística. À imprensa passou a ter um novo texto e uma nova gravura. E o cadáver, mesmo de branco, foi barrado da primeira página. Ou melhor: — o defunto, para ser estampado, teria de ser um Pio xii, um João xxiii ou um rei, ou um presidente da República. Getúlio saiu no seu caixão de vidro. Mas havia o vidro entre o leitor e a morte, entre o leitor e o martírio. O fuzilamento de Kennedy apareceu em seqüência. Mas estava, a seu lado, a bela viúva, a Jacqueline.
Sim, há, nas redações, um copydesk visual, que veta o cadáver. E, no entanto, vejam vocês: — todos os jornais fizeram uma exceção para um morto recente. E não era papa, nem rei, nem presidente. Falo do estudante fuzilado do Calabouço. Morreu mais uma vez, continuou morrendo, nas primeiras páginas. Eis o que me pergunto: — e por que, de repente, sumiu toda a aversão, todo o nojo gráfico pela morte?
Não foi uma promoção política, ideológica, ou a vontade mercenária de vender mais jornal. Não. A meu ver, o que fascinou foi a imagem linda. Tenho toda a fotografia, de cor, na cabeça. Dizia o secretário que barrou o cadáver preto: — “O morto é feio. A morte é um bucho”. E afirmava isso, com uma certeza fanática, sem imaginar que um dia seria também defunto, com a hediondez que atribuía aos defuntos. Mas o estudante assassinado era espantosamente belo.
E menino, infinitamente menino. Na fotografia aparece seminu, como um santo. Lá está o peito varado. E eu começo a pensar. Seria parecido com quem? Uma senhora veio me mostrar o retrato, trêmula de beleza: — “É Ofélia, não é Ofélia?”. Fez uma pausa e completou: — “Lindo como Ofélia!”. E começou a chorar.
Vejam vocês. Fora a fotografia, toda a cobertura foi, para o leitor, uma amarga frustração. Falo, sobretudo, das primeiras páginas. Ah, eu ainda apanhei a última geração romântica da imprensa. Uma manchete era, por vezes, uma solução em oito colunas, em tipos garrafais. Quando mataram o rei e o príncipe herdeiro de Portugal, o nosso Correio da Manhã lançou várias manchetes e mais esta: — horrível emoção! Hoje, a primeira página não faz nenhuma concessão ao espanto, nenhuma concessão ao horror, nenhuma concessão à misericórdia. Ao passo que a antiga primeira página pingava sangue e pingava lágrima. Em nossos dias, ela é a pura e radical objetividade.
Vejamos, ao acaso, o Jornal do Brasil. O fuzilamento do menino era uma catástrofe. Mas a catástrofe não foi tratada como tal. De modo algum. Fui ler a primeira página do velho órgão. Eis os termos em que se apresenta a tragédia: “A morte do estudante Edson Luís de Lima Souto — baleado no peito, às 18h30m de ontem, durante um conflito da pm com estudantes no restaurante do Calabouço”. E só. Tenham paciência. Mas esse tom impessoal, sumário, desumano, seria apropriado para noticiar um atropelamento de cachorro. O leitor tem vontade de bater para o Departamento de Pesquisas do Jornal do Brasil e lembrar-lhe: — “Vocês estão falando de um estudante, um menino, um ser humano”.
E assim o patético da fotografia não existe no texto. Uma objetividade idiota arranca do fato as suas entranhas ou, se preferirem outra imagem, castra todas as potencialidades do fato. Republiquei, acima, textualmente, o que disse a primeira página do Jornal do Brasil sobre uma catástrofe. Eu escrevi “objetividade idiota” e é realmente idiota. E assim, estritamente objetivo, o Jornal do Brasil põe uma distância imensa entre o leitor e o acontecimento, entre o leitor e o espanto, entre o leitor e a misericórdia, entre o leitor e o ódio. Sim, essa meia dúzia de linhas humilha, desfeiteia, degrada o martírio. [2/4/1968]
Mais livros e crônicas de Nelson Rodrigues.
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Hoje, tinha outro post, sobre o ódio da classe mérdia ao Lula e talz, mas já que ontem dei voz ao alucinado do Magnoli, achei que hoje era justo dar voz ao seu oposto. Kabengele Munanga, professor da USP, estudioso do racismo, imigrante africano que buscou asilo e cidadania em nosso país, deu essa belíssima entrevista à Revista Fórum. Abaixo, alguns trechos:
Meus filhos estudaram em escola particular, Colégio Equipe, onde estudavam filhos de alguns colegas professores. Eu não ia buscá-los na escola, e quando saíam para tomar ônibus e voltar para casa com alguns colegas que eram brancos, eles eram os únicos a ser revistados. No entanto, a condição social era a mesma e estudavam no mesmo colégio. Por que só eles podiam ser suspeitos e revistados pela polícia? Essa situação eu não posso contar quantas vezes vi acontecer. Lembro que meu filho mais velho, que hoje é ator, quando comprou o primeiro carro dele, não sei quantas vezes ele foi parado pela polícia. Sempre apontando a arma para ele para mostrar o documento. Ele foi instruído para não discutir e dizer que os documentos estão no porta-luvas, senão podem pensar que ele vai sacar uma arma. Na realidade, era suspeito de ser ladrão do próprio carro que ele comprou com o trabalho dele. Meus filhos até hoje não saem de casa para atravessar a rua sem documento. São adultos e criaram esse hábito, porque até você provar que não é ladrão... A geografia do seu corpo não indica isso. ...
Nos EUA era mais fácil porque começava pelas leis. A primeira reivindicação: o fim das leis racistas. Depois, se luta para implementar políticas públicas que busquem a promoção da igualdade racial. Aqui é mais difícil, porque não tinha lei nem pra discriminar, nem pra proteger. As leis pra proteger estão na nova Constituição que diz que o racismo é um crime inafiançável. Antes disso tinha a lei Afonso Arinos, de 1951. De acordo com essa lei, a prática do racismo não era um crime, era uma contravenção. A população negra e indígena viveu muito tempo sem leis nem para discriminar nem para proteger. ...
Além do mais, o critério de cota no Brasil é diferente dos EUA. Nos EUA, começaram com um critério fixo e nato. Basta você nascer negro. No Brasil não. Se a gente analisar a história, com exceção da UnB, que tem suas razões, em todas as universidades brasileiras que entraram pelo critério das cotas, usaram o critério étnico-racial combinado com o critério econômico. O ponto de partida é a escola pública. Nos EUA não foi isso. Só que a imprensa não quer enxergar, todo mundo quer dizer que cota é simplesmente racial. Não é. Isso é mentira, tem que ver como funciona em todas as universidades. É necessário fazer um certo controle, senão não adianta aplicar as cotas. No entanto, se mantém a ideia de que, pelas pesquisas quantitativas, do IBGE, do Ipea, dos índices do Pnud, mostram que o abismo em matéria de educação entre negros e brancos é muito grande. Se a gente considerar isso então tem que ter uma política de mudança. É nesse sentido que se defende uma política de cotas.
O racismo é cotidiano na sociedade brasileira. As pessoas que estão contra cotas pensam como se o racismo não tivesse existido na sociedade, não estivesse criando vítimas. Se alguém comprovar que não tem mais racismo no Brasil, não devemos mais falar em cotas para negros. Deveríamos falar só de classes sociais. Mas como o racismo ainda existe, então não há como você tratar igualmente as pessoas que são vítimas de racismo e da questão econômica em relação àquelas que não sofrem esse tipo de preconceito. A própria pesquisa do IPEA mostra que se não mudar esse quadro, os negros vão levar muitos e muitos anos para chegar aonde estão os brancos em matéria de educação. Os que são contra cotas ainda dão o argumento de que qualquer política de diferença por parte do governo no Brasil seria uma política de reconhecimento das raças e isso seria um retrocesso, que teríamos conflitos, como os que aconteciam nos EUA.
Fórum - Que é o argumento do Demétrio Magnoli.
Kabengele - Isso é muito falso, porque já temos a experiência, alguns falam de mais de 70 universidades públicas, outros falam em 80. Já ouviu falar de conflitos raciais em algum lugar, linchamentos raciais? Não existe. É claro que houve manifestações numa universidade ou outra, umas pichações, "negro, volta pra senzala". Mas isso não se caracteriza como conflito racial. Isso é uma maneira de horrorizar a população, projetar conflitos que na realidade não vão existir. ...
Cada vez que se toca nas políticas concretas de mudança, vem um discurso. Mas você não resolve os problemas sociais somente com a retórica. Quanto tempo se fala da qualidade da escola pública? Estou aqui no Brasil há 34 anos. Desde que cheguei aqui, a escola pública mudou em algum lugar? Não, mas o discurso continua. "Ah, é só mudar a escola pública." Os mesmos que dizem isso colocam os seus filhos na escola particular e sabem que a escola pública é ruim. Poderiam eles, como autoridades, dar melhor exemplo e colocar os filhos deles em escola pública e lutar pelas leis, bom salário para os educadores, laboratórios, segurança. Mas a coisa só fica no nível da retórica.
E tem esse argumento legalista, "porque a cota é uma inconstitucionalidade, porque não há racismo no Brasil". Há juristas que dizem que a igualdade da qual fala a Constituição é uma igualdade formal, mas tem a igualdade material. É essa igualdade material que é visada pelas políticas de ação afirmativa. Não basta dizer que somos todos iguais. Isso é importante, mas você tem que dar os meios e isso se faz com as políticas públicas. Muitos disseram que as cotas nas universidades iriam atingir a excelência universitária. Está comprovado que os alunos cotistas tiveram um rendimento igual ou superior aos outros. Então a excelência não foi prejudicada. Aliás, é curioso falar de mérito como se nosso vestibular fosse exemplo de democracia e de mérito. Mérito significa simplesmente que você coloca como ponto de partida as pessoas no mesmo nível. Quando as pessoas não são iguais, não se pode colocar no ponto de partida para concorrer igualmente. É como você pegar uma pessoa com um fusquinha e outro com um Mercedes, colocar na mesma linha de partida e ver qual o carro mais veloz. O aluno que vem da escola pública, da periferia, de péssima qualidade, e o aluno que vem de escola particular de boa qualidade, partindo do mesmo ponto, é claro que os que vêm de uma boa escola vão ter uma nota superior. Se um aluno que vem de um Pueri Domus, Liceu Pasteur, tira nota 8, esse que vem da periferia e tirou nota 5 teve uma caminhada muito longa. Essa nota 5 pode ser mais significativa do que a nota 7 ou 8. Dando oportunidade ao aluno, ele não vai decepcionar.
Foi isso que aconteceu, deram oportunidade. As cotas são aplicadas desde 2003. Nestes sete anos, quantos jovens beneficiados pelas cotas terminaram o curso universitário e quantos anos o Brasil levaria para formar o tanto de negros sem cotas? Talvez 20 ou mais. Isso são coisas concretas para as quais as pessoas fecham os olhos. ...
O racismo é uma ideologia. A ideologia só pode ser reproduzida se as próprias vítimas aceitam, a introjetam, naturalizam essa ideologia. Além das próprias vítimas, outros cidadãos também, que discriminam e acham que são superiores aos outros, que têm direito de ocupar os melhores lugares na sociedade. Se não reunir essas duas condições, o racismo não pode ser reproduzido como ideologia, mas toda educação que nós recebemos é para poder reproduzi-la.Há negros que introduziram isso, que alienaram sua humanidade, que acham que são mesmo inferiores e o branco tem todo o direito de ocupar os postos de comando. Como também tem os brancos que introjetaram isso e acham mesmo que são superiores por natureza. Mas para você lutar contra essa ideia não bastam as leis, que são repressivas, só vão punir. Tem que educar também. A educação é um instrumento muito importante de mudança de mentalidade e o brasileiro foi educado para não assumir seus preconceitos. O Florestan Fernandes dizia que um dos problemas dos brasileiros é o “preconceito de ter preconceito de ter preconceito”. O brasileiro nunca vai aceitar que é preconceituoso. Foi educado para não aceitar isso. Como se diz, na casa de enforcado não se fala de corda. ...
Quando a Folha de S. Paulo fez aquela pesquisa de opinião em 1995, perguntaram para muitos brasileiros se existe racismo no Brasil. Mais de 80% disseram que sim. Perguntaram para as mesmas pessoas: "você já discriminou alguém?". A maioria disse que não. Significa que há racismo, mas sem racistas. Ele está no ar... Como você vai combater isso? Muitas vezes o brasileiro chega a dizer ao negro que reage: "você que é complexado, o problema está na sua cabeça". Ele rejeita a culpa e coloca na própria vítima. Já ouviu falar de crime perfeito? Nosso racismo é um crime perfeito, porque a própria vítima é que é responsável pelo seu racismo, quem comentou não tem nenhum problema.
A entrevista completa é riquíssima e vale a pena ser lida. (via Bruno, via Camila)
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Leia Também
- A polêmica entre Demétrio Magnoli e Kabengele Munanga
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Compre "Rediscutindo a Mestiçagem no Brasil", de Kabengele Munanga:
Muito, muito medo dessa entrevista de Demétrio Magnoli ao Programa Milênio, da GloboNews, promovendo seu novo livro Uma Gota de Sangue: História do Pensamento Racial.
Ele se diz sociólogo mas, de ouvi-lo falar, o homem não parece ter cursado nem Sociologia I. Eu quase diria que ele dá um verniz acadêmico a muitos dos mais comuns preconceitos raciais brasileiros, mas ele não soa nada acadêmico. Em termos de raciocínio e discurso, ele é muito, muito pior do que o Ali Kamel - tem apenas menos poder. Chegou a me dar calafrios de nojo em alguns momentos.
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Palmas para a repórter Elizabeth Carvalho que, ao mesmo tempo em que cumpriu seu papel de entrevistadora e deixou o homem falou, também fez questão de marcar suas posições e fazer as perguntas difíceis: quando leu o trecho do discurso do Presidente americano Lyndon Johnson, eu quase quis aplaudir.
Abaixo, os meus trechos preferidos do discurso "To Fulfill These Rights", de Johnson:
Mas liberdade não é o bastante. Você não limpa as cicatrizes de séculos dizendo: ‘Agora você está livre para ir a onde quiser, fazer o que deseja e escolher os líderes que achar melhor’.
Você não transforma um homem que por anos ficou acorrentado, libertando-o, e levando-o ao início da linha de corrida, dizendo: ‘Você está livre para competir com todos os outros’, e ainda assim realmente acreditar que você está sendo completamente justo.
Assim, isto não é o suficiente para abrir os portões da oportunidade. Todos os nossos cidadãos devem ter a capacidade de atravessar estes portões.
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Freedom is not enough. You do not wipe away the scars of centuries by saying: Now you are free to go where you want, and do as you desire, and choose the leaders you please.
You do not take a person who, for years, has been hobbled by chains and liberate him, bring him up to the starting line of a race and then say, "you are free to compete with all the others," and still justly believe that you have been completely fair.
Thus it is not enough just to open the gates of opportunity. All our citizens must have the ability to walk through those gates. ...
Much of the Negro community is buried under a blanket of history and circumstance. It is not a lasting solution to lift just one corner of that blanket. We must stand on all sides and we must raise the entire cover if we are to liberate our fellow citizens.
Sobre o discurso "To Fulfill These Rights"
- Texto completo
- Gravação original em formato real audio
- Meu post: Livre Concorrência e Ação Afirmativa 
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Sobre Demétrio Magnoli
- Outros livros de Demétrio Magnoli
- A polêmica entre Demétrio Magnoli e Kabengele Munanga
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Quando digo que o Brasil não é um país meritocrático, sempre surge na conversa o proverbial negro-favelado-trabalhador, que venceu todos os desafios da vida com muito esforço e muito estudo, e hoje é presidente de multinacional e tem duas loiras na garagem. E é mentira? Não, claro que não. Existem muitos casos assim. Mas e daí? É um em um milhão.
Sabem por que o Brasil não é um país meritocrático? Porque ninguém faz o caminho inverso. Sim, é possível que um favelado brilhante se torne presidente de empresa. Mas e as antas bem-nascidas?
Estudei na Escola Americana do Rio, na época a mais cara do Brasil. Um bom terço da minha turma era composto de gente inapelavelmente burra. Incompetentes, pouco articulados, preguiçosos, mal acostumados. Quantos deles vocês acham que hoje estão varrendo o chão? Nenhum. Mesmo o mais imbecil conseguiu passar no vestibular das Faculdades Integradas Tico e Teco, formou-se mal e mal advogado, e então, dependendo do nível de riqueza, ou o pai montou escritório e contratou gente competente pra dar suporte, ou o tio arranjou um emprego low-profile na empresa onde trabalha, ou um ex-colega de sala agora vereador chamou pra ser aspone. De qualquer modo, nem o mais inepto filho privilegiado da classe média vai parar ali onde seria o destino comum dos negros favelados - menos a excepcional exceção que vira presidente da Bic, claro.
Se você não se sente um privilegiado, pense nisso. Se conseguiu o seu primeiro emprego porque seu tio era dono da padaria, ou porque seu melhor amigo era concursado da Petrobrás e soube de uma vaga pra contratado, ou porque falava alemão fluente que aprendeu nos seis meses de intercâmbio em Berlim, você já está léguas e léguas a frente da grossa maioria dos brasileiros.
Um dos grandes empecilhos para o progresso pessoal e profissional de um jovem favelado é o simples fato de que todos seus amigos e parentes também tendem a ser favelados subempregados.
O manto de privilégios que cobre e protege a nossa classe média é tão espesso que basta o simples fato de você SER da classe média, e ter amigos e conhecidos e parentes na classe média, para que isso já lhe abra portas e lhe conceda oportunidades totalmente fora do alcance da maioria dos brasileiros.
O favelado mais excepcional entre os excepcionais, se vencer todas as armadilhas da vida, pode teoricamente conseguir cursar uma Federal, abrir uma empresa, ficar rico - mas só se ele não errar nunca, se nunca cair em tentação, se nunca for morto de bala perdida ou torturado pela polícia, e tiver muita, muita sorte. Já na classe média, não existem erros tão grandes, nem preguiça nem inépcia, capazes de transformar alguém em favelado faxineiro: na pior das hipóteses, dá-se um jeito. Sempre pode ser assistente administrativo do escritório do padrinho, balconista da videolocadora do tio, fica tranquilo, compadre, dá-se um jeito, ele não é nenhum gênio, mas é meu primo, e família é família, não?
É por isso, entre outras coisas, que o Brasil não é um país meritocrático. É por isso, aliás, que o próprio conceito de meritocracia não faz nenhum sentido, pois meu mérito individual nunca é só meu, mas está sempre corrompido ou viciado pelos méritos acumulados dos meus antepassados, na minha família, dos meus compatriotas. É por isso, entre outras coisas, que mesmo um cidadão de classe média baixa, daqueles que fala coisas como "é um absurdo eu gastar uma fortuna em escola particular e plano de saúde, e depois ainda ser escorchado pelo governo que não faz nada por mim!", ainda assim é um tremendo de um privilegiado em comparação à massa de cidadãos brasileiros que não teriam renda pra pagar nem escola particular e nem plano de saúde.
Em um país escroto, injusto e desigual como o nosso, não é preciso ter lancha de 40 pés ou ilha particular pra ser um privilegiado. Se você está aqui, lendo esse blog, ao invés de lavando chão pra ganhar salário mínimo, provavelmente é um privilegiado também.
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Capitalismo de Compadres
Estudo recente do IPEA decifra alguns números sobre o nosso capitalismo de compadres. Para os mais pobres, nem adianta ser mais escolarizado, pois continuam por fora das redes de contatos e apadrinhamento que protegem a classe média. Nas palavras do presidente do IPEA:
É estranha a interpretação de que quanto maior a escolaridade (do trabalhador), maior é a chance de emprego, porque isso não ocorre com os mais pobres. ... Há uma barreira, do ponto de vista da inserção, para trabalhadores pobres, apesar da escolaridade. É o chamado QI, ou quem indica. Isso não ocorre com os menos escolarizados, porque esses não dependem das relações sociais para conseguir emprego.
Leia mais:
- O IPEA, o antropólogo e o capitalismo de compadres
- Capitalismo de acesso
- Ipea revela que os mais escolarizados engrossam as filas de desempregados


"Igualdade e Meritocracia: a Ética do Desempenho Socidades Modernas", de Livia Barbosa & "Mediocracia ou Meritocracia", de Robert D'Alanjis
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As crianças, por não conhecer nada de diferente, aceitam a realidade como ela é. Para a criança privilegiada, seus privilégios são tão naturais que ela pensa que todo mundo os têm.
Então, um dia, por qualquer motivo (talvez lendo um blog), baixa aquela consciência da enormidade dos seus privilégios. De quanta coisa você tem ou teve que outros nunca tiveram.
Em um segundo momento, consciente de todos seus privilégios, você pára de reclamar dos privilégios que não possui e, mais importante, pára de lutar por mais privilégios.
Por fim, percebendo que somente isso não basta, mesmo que a custa de alguns sacrifícios pessoais, você começa a repassar alguns desses privilégios para quem nunca teve nenhum.
E assim o mundo começa a mudar.
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É impossível amadurecer sem ao mesmo tempo desnaturalizar o mundo, sem perceber que a sociedade, as instituições, a língua, nada disso caiu pronto do céu e que foram criados ao longo de processos históricos que não tiveram necessariamente um final feliz.
Nosso mundo atual não é o único possível. A maneira como organizamos nossa economia, nossa postura em relação às raças, a maneira como nos vestimos, literalmente tudo, poderia ter sido diferente - e ainda pode ser, se quisermos.
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Série Você É um Privilegiado? (Convite para Reflexão Individual)
I - A Invisibilidade do Privilégio
II - O Ônus da Elite
III - Os Privilégios da Classe Média
IV - Brasil, Meritocracia de Todos!
Adendos:
I - Culpa, Racismo e Privilégio ("Somos Nós os Culpados?")
II - Governo, Raça e Privilégio
III - "Mas Afinal Qual É a Solução?"
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Quando falo de racismo e privilégio, alguns leitores pensam que estou clamando por ação governamental ou propondo políticas públicas, e respondem que é um absurdo o governo querer se meter no problema das raças, que o governo não tem nada a ver com a desigualdade, que o papel do governo é outro, etc. Governo, governo, governo.
Não deixa de ser engraçado: porque não estou falando de governo em momento algum.
Pessoalmente, eu não confio em governos. Na dúvida, prefiro que o governo se meta o mínimo possível na sociedade. Não acho que o governo deve investir em cultura, por pensar que isso distorce a cultura e corrompe os artistas. Não vejo motivo para o governo ser dono de tantas empresas (é realmente necessário a ECT ter o monopólio da entrega de cartas?), mas também não tenho problema com isso, se estiverem fazendo um bom trabalho (Petrobras, Vale e afins). O modelo de universidades públicas no Brasil é perverso e insano, ao fornecer educação de primeiro mundo gratuitamente para a elite enquanto força os brasileiros de baixa renda a procurarem as terríveis universidades particulares, que eles ou se endividam pra pagar ou, pior, todos pagam pelo Pro-Uni. Entretanto, enquanto o sistema existe, não considero contradição aceitar dinheiro do governo para minha arte e procurar emprego em universidade pública.
Essas são algumas de minhas posições políticas em relação ao governo, mas vocês nunca vão ver esses temas desenvolvidos aqui no blog: são muito chatos e não tem nada a ver. Quando necessário, mando emails para meus representantes eleitos e resolvo o assunto com eles*.
O LLL é intensamente político, mas com outro viés. Aqui, eu não clamo por ação governamental e não escrevo sobre o que o governo deve ou não deve, pode ou não pode fazer. Enquanto tema desses ensaios, o governo, simplesmente, francamente, não me interessa muito.
Minha preocupação nesse blog é fazer vocês, leitores, um por um, refletirem sobre alguns problemas que acho importantes, urgentes, interessantes. Nem precisam concordar comigo: se só pararem pra pensar sobre um tema sobre o qual nunca tinham pensado antes já é uma vitória. Depois de pensar, pode ser que concordem comigo, pode ser que reforcem sua opinião anterior, não faz diferença. O importante é que agora essa questão não é mais "natural", não é mais um "dado" da vida que você aceitava acriticamente, mas sim uma conclusão sua, conquistada depois de alguma reflexão.
Uma vez que decididam o que acham, é fundamental (aliás, inevitável) tomar uma ação política a respeito. A omissão e a auto-ilusão de ser apolítico são algumas das formas mais comuns de ação política. Sugiro que encontrem representantes legislativos que concordem com suas opiniões e votem neles para representá-los a nível municipal, estadual, federal. Escrevam para seus representantes, exponham suas opiniões, exijam ação política sobre temas relevantes e façam questão que eles saibam não só que trabalham pra vocês, como que seus contratos são renovados a cada quatro anos. Já deixei de votar em gente que não respondia meus emails*.
Só não esperem que seja EU a dizer, ou mesmo sugerir, que ações políticas devem tomar. Isso é entre vocês e seus representantes eleitos. Eu só levanto as questões: as conclusões são por sua conta.
O objetivo desse blog é fazer com que você desnaturalize todas aquelas noções e conceitos que lhes pareciam mais naturais.
Ser um animal racional é isso. Bem-vindo ao clube.


Obras completas de Freud, de R$960 por R$299, e de Machado, de R$650 por R$389
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*Nos últimos quinze anos, votei repetidas vezes em três políticos de matizes bem diferentes, sobre os quais tenho várias críticas pontuais, mas que sempre se comportaram como políticos profissionais dignos, responderam todas as minhas comunicações e me fizeram sentir bem representado: Fernando Gabeira, Eduardo Paes e Carlos Minc. Foi estranho e instrutivo ano passado ver os dois primeiros se digladiando no segundo turno da eleição para prefeito e ver o terceiro pagando alguns micos como Ministro do Meio Ambiente. Para bem ou para mal, os três estão em ascensão e se tornando cada vez mais conhecidos nacionalmente.
Tenho algumas reservas, claro. Com a recente polarização da política brasileira, Gabeira e Paes estão sendo empurrados cada vez mais pra direita, o primeiro entrando de fininho e o segundo se enfiando mais fundo lá dentro. Me preocupam também as palhaçadas públicas do Minc, os novos companheiros de cama do Gabeira, e algumas iniciativas autoritárias de Paes na prefeitura, mas por enquanto ainda gosto dos três, acompanho suas carreiras de perto e votaria neles de novo. Nenhum até agora fez nada de eliminatório - como o FHC, que perdeu pra sempre meu voto e meu respeito, ao mudar as regras no meio do jogo e apoiar a própria releição. Nem mesmo um canalha como Reagan, que no auge da sua popularidade tinha muitos fãs pedindo por isso, teve tamanha cara-de-pau. Votei em Lula em 2002, não votei nele 2006 e hoje - especialmente considerando as escolhas que teremos que fazer em 2010 - gostaria muito de um terceiro mandato de Lula, mas não ao custo de mudar as regras no meio do jogo outra vez.
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Série Você É um Privilegiado? (Convite para Reflexão Individual)
I - A Invisibilidade do Privilégio
II - O Ônus da Elite
III - Os Privilégios da Classe Média
IV - Brasil, Meritocracia de Todos!
Adendos:
I - Culpa, Racismo e Privilégio ("Somos Nós os Culpados?")
II - Governo, Raça e Privilégio
III - "Mas Afinal Qual É a Solução?"
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Está no ar o prefácio do meu romance em andamento "Empregadas & Escravos". Preciso da sua opinião. Olha lá e me diz.
(Infelizmente, o blog é restrito a convidados, pra depois não falarem que queimei esse romance dando ele de graça na internet. Se quiser ver, peça, mas só mostro pra gente conhecida, que tem nome e sobrenome e eu sei quem é.)
A Carol escreveu:
não acho que quem é privilegiado estatisticamente falando tenha alguma obrigação mesmo que moral de fazer filantropia. Não com tantos impostos que temos. Impostos que deveriam estar sendo usados para dar oportunidade aos que querem estudar.
Bonito isso, não? Inspirador mesmo.
"Não temos obrigação de ajudar ninguém porque pagamos impostos".
Se fosse adesivo de parachoque, seria best-seller total na República Morumbi-Leblon.
Aliás, só pra ficar claro: não estou dizendo que ninguém tem obrigação de nada, nem mesmo de cumprir a lei.
Mas seria bonito se as pessoas que têm mais voluntariamente ajudassem as que têm menos, não?
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FAQ para a Classe Média Revoltada
Pergunta:
É verdade que a classe média brasileira é desproporcionalmente taxada e escorchada de impostos pelo governo malvado?
Resposta:
Hmmm. Depende. Tem economistas que dizem que não, que os mais taxados são as famílias que ganham até 5 salários-mínimos, e fazem até gráficos coloridos pra provar.
Mas como eu sou de humanas e não sei nem ler um gráfico, vamos com o senso-comum e digamos que sim, a pobre classe média é sobretaxada.
Pergunta:
É verdade que essa pobre classe média sobretaxada (sic) paga por serviços que não usa?
Resposta:
Hmmmm. Em termos. Não usa porque não quer. Seus impostos lhes dão direito a ensino e saúde gratuitos do nascimento até a morte. Se decidem voluntariamente pagar pelos serviços que poderiam dispor de graça, isso é uma decisão econômica tão válida quanto qualquer outra, mas não venham reclamar depois.
Posso fazer uma sugestão, assim, digamos, radical? Por que, ao invés de pagar escola particular, a classe média não luta (lutar de verdade, não reclamar em mesa de bar) pela escola pública? Que tal?
(O Senador Cristovão Buarque tem um projeto de obrigar os representantes legislativos a matricular seus filhos em escolas públicas. Segundo ele, seria o único jeito de garantir um interesse verdadeiro dos legisladores pela educação no Brasil.)
Entretanto, digamos que sim pra tudo. Sim, a classe média é desproporcionalmente sobretaxada. Sim, ela paga por serviços que não usa.
Mas, em compensação, ela também é desproporcionalmente privilegiada. Em nenhum país civilizado, a classe média está tão acima da lei.
Quando foi a última vez que souberam de membros da classe média brasileira sendo efetivamente presos, e ficando presos, por quase qualquer coisa que não fosse ser pego em flagrante girando a faca no corpo da vítima? Qualquer exceção acaba tornando-se ruidosa justamente por ser exceção.
E, enquanto isso, brasileiros mais pobres passam às vezes anos na cadeia por pichação, pequenos furtos ou mesmo erros judiciais.
(Sexta-feira passada, a pichadora da Bienal foi condenada a quatro anos de cadeia por Formação de Quadrilha e Destruição de Bem Protegido por Lei. De um grupo de diversos pichadores, ela foi a única presa. Adivinhem por quê? Sobre o absurdo das duas acusações, leiam aqui.)


À esquerda, um livrinho sensacional e divertidíssimo, uma verdadeira etnografia antropológica dos ricos enquanto tribo, seus hábitos e seus costumes. À direita, um dos melhores romances sobre o dinheiro e seu efeito na vida das pessoas.
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Racismo, Crime e Pobreza
No texto Pretos, Pobres e Polícia, muitos leitores argumentaram que era justo que a polícia parasse mais negros do que brancos, pois os negros formam maior parte dos pobres e os pobres tendem a ser a maior parte dos criminosos, logo há uma probabilidade maior de um negro ser criminoso do que um branco. O leitor André inclusive perguntou:
você acha que há uma relação de causa e efeito entre pobreza e crime?
Não. As pessoas ricas e branquinhas com quem cresci cometiam regularmente uma série de crimes: compravam e usavam drogas, faziam abortos, dirigiam bêbadas, batiam nas esposas/namoradas, brigavam em ruas ou boates, cometiam fraudes contra seguradoras, roubavam o governo de todas as maneiras possíveis e imaginárias, sonegavam imposto de renda, corrompiam agentes do poder público, cometiam assassinato. Com exceção do último, esses foram apenas os crimes que eu ou testemunhei meus amigos cometerem ou que eles admitiam abertamente, sem culpas nem vergonha. Imagino que também cometessem outros crimes dos quais talvez se envergonhassem.
Como disse Hélio Luz, então chefe de polícia civil do Rio de Janeiro, no documentário Notícias de uma guerra particular (1999):
"A sociedade não quer uma polícia honesta, porque no dia em que a polícia for honesta, o filho do banqueiro e do juiz será preso da mesma maneira que o jovem favelado. A polícia é corrupta porque convém à sociedade. Deseja-se uma polícia honesta? Então, o que vale para a favela passa a valer para o Posto 9. Não pode cheirar em Ipanema. Vai ter pé na porta na Delfim Moreira. A sociedade vai conseguir segurar isso?"
Pra responder à pergunta: existe uma correlação fortíssima entre pobreza e ser preso por um crime.


Obras completas de Freud, de R$960 por R$299, e de Machado, de R$650 por R$389
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A Prova dos Nove
Digamos que aconteça uma confusão no bar, porradaria, garrafas voando, gente caindo de cara no chão, até que de repente chega a polícia. Você:
1) fica aliviado porque vai ser salvo, tudo será finalmente esclarecido e logo estará em casa;
2) coloca a mão no bolso pra verificar se está com seus documentos, toma cuidado pra não fazer gestos bruscos ou auto-incriminatórios e já fica com medo de colocarem toda a culpa em você.
Talvez seja essa a maior marca do privilégio: saber que a polícia está do seu lado, que vai defender seus interesses, que vai te ajudar no que for possível.
No Brasil, só a elite é inocente até prova em contrário.
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Série Você É um Privilegiado? (Convite para Reflexão Individual)
I - A Invisibilidade do Privilégio
II - O Ônus da Elite
III - Os Privilégios da Classe Média
IV - Brasil, Meritocracia de Todos!
Adendos:
I - Culpa, Racismo e Privilégio ("Somos Nós os Culpados?")
II - Governo, Raça e Privilégio
III - "Mas Afinal Qual É a Solução?"
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Obras completas de Freud, de R$960, por R$399
Um blog sobre rebeldia, contemplação e sacanagem, regado a muita literatura e humor. Nosso assunto são as várias prisões que acorrentam o homem, como ambição, verdade e medo. Dê sua opinião!
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