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Uma leitura ruidosa, por Paulo Polzonoff Jr.
Mulher de um homem só, de Alex Castro, é um bom livro. O problema é que o romance (ou novela, como preferem alguns) é uma daquelas obras impossíveis de serem admiradas por si só. É um trabalho contaminado por ruídos de vários tipos. Eu gostaria muito de ter lido Mulher de um homem só sem pensar em todas as coisas extraliterárias que o livro evoca. Porque, repito, o livro é bom.
Comecei a lê-lo ainda na tela do computador, numa cópia digital a mim enviada pelo autor. Abri o arquivo sem nenhuma intenção de ir além da segunda página e, quando vi, já estava no meio do livro. Mulher de um homem só parece ter um cuidado todo especial com a velocidade da narrativa. O fato de não ter divisões pode, num primeiro momento, assustar, mas depois se percebe que esta estrutura combina perfeitamente com o estilo do autor: rápido como um fluxo de pensamento, mas coerente como toda boa narrativa tradicional.
O maior trunfo do livro, claro, é a narradora e as ambigüidades por ela evocadas. Ao usar a primeira pessoa onisciente, Alex Castro acaba por fazer com que duvidemos de tudo o que Carla nos conta. Este filtro pouco confiável é que dá profundidade a um romance que, na superfície, parece conter apenas algumas boas e engraçadas discussões sobre as relações amorosas atuais e sobre o conflito íntimo de uma mulher ao mesmo tempo moderna e conservadora.
Como disse anteriormente, o problema do livro são os ruídos. Impossível chegar ao fim de Mulher de um homem só e não se perguntar, por exemplo, por que o romance não foi publicado com o aval de uma grande editora – uma questão levantada pelo próprio autor já há alguns anos. Assim como é impossível lê-lo sem se deixar contaminar pelas muitas palavras de Alex Castro em outros textos.
Não sugiro, aqui, que se cale o autor nem que se encerrem as discussões sobre o mercado editorial. Mais do que um romance, de certo modo Mulher de um homem só e todo o seu entorno são sintomáticos de uma nova maneira de se fazer literatura. É um fenômeno, por assim dizer. Um livro ao redor do qual orbitam luas que, infelizmente, acabam por eclipsar o planeta.
Concordo com o Polzonoff. A persona exuberante do Alex Castro blogueiro atrapalha o romance. Eu preferiria que o leitor de "Mulher de Um Homem Só" nunca tivesse lido o LLL. Muitos leitores aproveitam pouco do livro seja porque o lêem esperando "mais do mesmo" do autor do LLL (e se decepcionam, pois o livro não tem nada a ver com o blog) ou porque o lêem buscando pontos de contato com o LLL(e acabam prestando atenção demais em coisas que não têm tanta importância assim, mas que os remetem ao blog, como a podolatria de Murilo, por exemplo). Tudo isso é ruído. Tudo isso atrapalha a leitura.
Por outro lado, tudo isso talvez realmente crie um novo tipo de leitura, um novo fenômeno cultural, desses que a gente não sabe onde vai parar. Eu gostaria muito que o leitor de "Mulher de Um Homem Só" não fosse leitor do LLL, mas também sei que quase todos que leram o livro o fizeram por causa do blog. São pessoas que me conheciam pelo blog, que me liam no blog, e quiseram ler mais. Sem o blog, quem teria lido "Mulher de um Homem Só"?
Queria muito abandonar o blog e dedicar à ficção todo o tempo que dedico aos posts. Mas, então, quem leria a ficção?
É um dilema no qual penso muito e não sei como resolver.
Respeito
VOCÊ É SIM UM DEGENERADO QUE NÃO DEVE TER TIDO A OPORTUNIDADE DE VER UM FILHO CRESCER SABENDO RESPEITAR QUEM MERECE O RESPEITO. SE UM FILHO MEU, EM QUALQUER MOMENTO, ME DESRRESPEITAR SEREI SEVERO COM ELE PARA QUE NO FUTURO NÃO SEJA UM CORRUPTO NO USO DE SUA AUTORIDAE E UM DEGENERADO QUE NÃO ACEITA A AUTORIDADE IMPOSTAS POR LEI QUE REGEM NOSSA SOCIEDADE. SEUS TEXTOS SÃO UM LIXO FORMADOR DE ESCÓRIAS DA SOCIEDADE MODERNA. VAI FAZER UM TRATAMENTO E CURAR SEUS TRAUMAS.
Basicamente, Mulher de um homem só é um livro no qual a história não foi contada. Quando o li pela primeira vez, pensei: "Bem, o Alex ficou com preguiça de escrever todo o livro, então publicou apenas o roteiro de leitura".
Na segunda, concluí que ele não é genial o bastante para ter estabelecido já de início as fronteiras do não-dito. Para as pessoas que não possuem o hábito de escrever, a dificuldade reside em construir de forma elegante aquilo que se tem para dizer. Quem escreve sabe que é mil vezes mais difícil construir uma forma elegante de não dizer.
Acho, portanto, que o Ale inicialmente escreveu uma longa história. Depois ele amputou e retalhou, tomando reiteradamente a difícil decisão sobre até que ponto ir e onde parar e deixar o leitor continuar por si mesmo.
Ficou o que chamo de romance do não-dito, um romance em que tudo acontece em função de algo que o leitor não vê, que está fora do romance, que não é dito.
Eu não gosto quando autores boçais e críticos idiotas se referem a uma obra como possuindo "vários níveis de leitura", porque eu sei, de conversar com eles e de editar suas obras, que eles estão repetindo uma fórmula pronta sem fazer idéia do que ela significa. Esse livro, contudo, é uma obra de vários níveis.
Em primeiro lugar, fique claro que você não perde absolutamente NADA se terminar de ler a breve história ... , sacudir a cabeça e pensar: "Mas que relação doente! Que gente neurótica!". Então você faz algo para jantar e pensa em pegar um filme.
O Ale deve ser sinceramente grato a você, porque você dedicou duas horas inteiras e concentradas da sua vida a essa história, e se você gostou de lê-la, ele fez um bom trabalho. Em outras palavras, não existe nada de errado em passar algum tempo de puro e simples entretenimento com uma obra de arte, principalmente com um livro.
Mas você pode pensar em algumas coisas. Por exemplo, no intrigante fato de que um homem escreveu um livro narrado na primeira pessoa por uma mulher. Você pode refletir sobre quão bem ele se saiu "sendo mulher". Talvez (principalmente se você é mulher) você conclua que ele não entende NADA de mulheres. E talvez então, ahá!, isso explique as incoerências de Carla, a narradora da história.
Ou talvez você fique intrigado com o fato de que Carla conta a história em um momento presente (ou seja, o momento em que você está lendo o livro), mas ela conhece tanto o passado, o que é natural, quanto o futuro, o que é no mínimo curioso. Se você descartar a possibilidade de isso ser um amadorismo grosseiro - Alex é tarimbado na língua e pode cometer erros, mas não um tão evidente -, então talvez você comece a se perguntar por que ele fez isso.
Se você já viveu uma história parecida, seja em que posição for, o livro terá ainda mais desdobramentos para você, mas não é preciso entrar no terreno pessoal. Quando falo de múltiplos níveis, é disto que falo: você começará a pensar em tanta coisa que, no fim, estará "longe" do livro, afastado da história imediata, em primeiro nível, e fazendo longas elocubrações que poderiam, inclusive, e por que não?, gerar outro livro.
A literatura está repleta de livros assim. Alguns são realmente coisa de viciado, como Joyce. Os não tarados por literatura e linguagem podem simplesmente fechar o livro, irritados, dizendo: "Eu não entendi porra nenhuma". Eu entendo essa exasperação. A vantagem de Mulher de um homem só é que ele não vai longe demais no caminho da bi-autoria. Ele não pede tanto assim do leitor.
Ele conta uma história envolvente, em uma linguagem correta e agradável. Se você parar por aí, você e o livro estão empatados, cada qual fez sua parte. Mas você pode continuar, e se porventura o livro o afetar, se talvez mesmo você questionar, minimamente que seja, alguma postura sua refletida no livro, então o Alex poderá portar, merecidamente, o título de escritor que exibe por aí.
Leia, vale a pena. Leia como se escutasse as confidências de uma amiga sobre um fato que você não presenciou: com carinho, mas de espírito prevenido.
Depois, nos comentários ao post original, ela
acrescentou:
Ale, foi grande a vontade de sair me exibindo na hora de falar do seu livro. Afinal, você compõe para um instrumento que eu sei tocar, e eu adoraria ter falado de mais coisas, como por exemplo do tempo como personagem. Mas seria pura exibição, igual à daqueles caras que destroem uma boa música porque decidem mostrar o quanto mandam bem na guitarra.
Além disso, ao contrário do seu, o meu não é um blog literário. É para os amigos, a família, e nem todos conhecem literatura, e muitos se intimidam com o blablablá da crítica. É justamente essa pretensa existência de um jeito "certo" ou "bom" de ler que eu quero desmitificar, porque isso é besteira, na minha opinião.
BTW, vocë é uma mulher perfeita, não encontrei nenhuma incoerência, não. Foi só uma provocação ao leitor, uma hipótese, entre tantas. Você se sai bem como mulher, mostra que as conhece, e espero que trate suas mil idiossincrasias com carinho, e não com ironia.
E, se eu não joguei meu tempo fora lendo seu livro, isso significa que você não jogou o seu ao escrevê-lo.
Quanto aos leitores que confundem seus labirintos duramente construídos com erros idiotas, console-se lembrando Mário Quintana: "Quando um leitor pergunta a um autor o que ele quis dizer, um dos dois é burro".
Não acho que seja você, hon.
"Mulher de Um Homem Só": compre.
Lucas Murtinho, criador da Copa de Literatura Brasileira e que ainda vai ser um dos maiores editores do Brasil, andou falando de mim pelas costas, o safado. Só hoje, buscando pelo meu romance no Google, fui encontrar esse trecho de uma entrevista que ele concedeu ao Digestivo Cultural em 2007:
9. Dos autores da internet de hoje, em quem você apostaria, em livro, para o futuro?
Eu gostei do Mulher de um Homem Só, do Alex Castro. É estranho que ele ainda não tenha sido publicado por uma editora. Talvez achem que quem já leu o livro de graça não vai comprar um exemplar de papel, mas acho que estão comendo mosca. Mas o Alex já escreveu e publicou, ainda que a si próprio, então não pode ser uma aposta para o futuro.
Para registrar, Mulher de um Homem Só foi recusado pela Rocco, Objetiva, Língua Geral e Nova Fronteira. De outras editoras mal-educadas, não recebeu nem um bilhetinho, só o profundo silêncio.
E, agora, está sendo lançado pela Os Vira-Lata, em 1º de agosto de 2009.
Faça parte dessa história: comprando na pré-venda, você ajuda a viabilizar a edição independente, compra com desconto, recebe um exemplar numerado e ainda aparece na página de agradecimentos aos mecenas.
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Exemplares vendidos até 30/6: 22
Ao longo do ano passado, comecei a assinar umas revistas e periódicos. Alguns, por causa de promoções absurdamente imperdíveis e outros, praticamente forçado. A companhia aérea onde tenho milhas me mandou email dizendo que perderia tudo se não movimentasse a conta e, uma das maneiras de fazer isso era usar milhas pra assinar revistas. Bem, era de graça, né?
Então, estou assinando:
The New Yorker
The New York Magazine
The New York Review of Books
Wired
São todas legais, mas realmente não pagaria por nenhuma delas.
O que me faz lembrar: realmente, morar em Nova Iorque é um dos meus poucos projetos de vida. Quem sabe não arranjo um emprego por lá ano que vem? Começo a procurar emprego em setembro desse ano.
Um dos melhores livros sobre raça que já li: basicamente, um apanhado de números, estatísticas e experimentos cujo objetivo é combater o "anedotismo" das discussões sobre o assunto. Além disso, o autor não tem os vícios politicamente corretos da maioria dos pesquisadores e nem tenta impor a classificação racial americana à realidade brasileira: não aplica o "one drop rule", não fala de "afro-brasileiros" e aceita nossa mestiçagem como um fato a ser entendido. O livro é bom sobretudo para dar argumentos aos que querem debater, ou convencer os sinceramente confusos, mas, verdade seja dita, não tem nenhum dado ali que uma pessoa observadora já não pudesse ter deduzido sozinha, somente por viver no Brasil e não estar em estado de denegação profunda.
Mas não confiem em mim, não: leiam a resenha abaixo, de Elio Gaspari.
Um grande livro sobre o racismo (in)existente
Vem aí um livraço. É “Racismo à brasileira”, do professor americano Edward Telles, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Será um demarcador no debate do período pós-blablablá da questão racial brasileira. Ele trata do puro, velho e verdadeiro racismo nacional. Aquele que se disfarçou de branqueamento e democracia racial. Telles localiza na década de 90 o colapso dessas teorias de conveniência e saúda a entrada dos negros no debate. O livro deixa a impressão de que o andar de cima gosta de transformar a questão racial brasileira num eterno seminário em torno da obra de Gilberto Freyre ou de quem quer que seja, desde que os negros fiquem calados. Coisa assim: em 1998, num debate sobre as questões sociais da América Latina realizado em Nova York, um representante do movimento negro nacional disse que o Banco Interamericano de Desenvolvimento devia investir mais nos afro-brasileiros. Foi repreendido pelo representante oficial de Pindorama na reunião: “Eu acho que você não deveria levantar essa questão. Esse é um problema dos Estados Unidos, que não existe no Brasil.” Telles mostra como o andar de cima do Itamaraty ajudou a propagar a idéia da harmonia celestial. Cita o embaixador Celso Amorim, numa reunião em Genebra, em março de 2000: “A essência (do Brasil) como nação se expressa através da afirmativa da mistura étnica e da tolerância.” (Em 1999 havia 1.060 diplomatas e, no máximo, oito negros misturados ao grupo.)
Telles leu os livros, conheceu as pessoas (foi representante da Fundação Ford no Brasil), e é uma fera em demografia. Seu livro chega a machucar: “O caso brasileiro demonstra que a industrialização pode, na realidade, aumentar a desigualdade no topo da estrutura de classes.”
O progresso não diminuiu a disparidade de renda entre brancos e negros. Pelo contrário. Em 1960 a renda de um homem negro equivalia a 60% da renda do branco. Em 1976, no auge do Milagre Econômico, caíra para 36%. Em 1999 estava em 46%. Entre 1960 e 1999 a diferença absoluta na escolaridade dos jovens brancos em relação aos pretos passou de 1,6 para 2,2 anos.
Telles tirou do Censo de 1991 uma chocante relação estatística: tomando-se negros e negras que têm irmãos ou irmãs brancas (com pais ou mães diferentes, entenda-se) vê-se que entre os 9 e os 16 anos a percentagem de jovens brancos que estavam nas séries escolares adequadas era superior à dos irmãos negros. A evasão escolar era maior entre os irmãos negros e o aproveitamento, maior entre os irmãos brancos.
Telles chega ao seu melhor momento num brilhante capítulo sobre as políticas de ação afirmativa. Ele defende um sistema de cotas para o acesso às universidades públicas. O professor compara números brasileiros e americanos de 1960 (quando começaram as cotas nos EUA) e 1996. Em 1960 um branco americano tinha 3,1 vezes mais chances de se tornar um profissional liberal do que um negro. Passados 36 anos, suas chances caíram para 1,6. Em Pindorama, as chances do branco eram de 3,1 em 1960; 36 anos depois elas aumentaram para quatro (4,8 para mulheres).
O argumento de Telles é simples: é lorota a história segundo a qual no Brasil há uma base de desigualdade social, mas não há racismo. É o racismo quem desenha a base da desigualdade.
“Racismo à brasileira” tem a marca das grandes obras: merece ser lido sobretudo por quem se dispõe a contrariá-lo.
Telles, Edward E. Racismo à Brasileira: uma Nova Perspectiva Sociológica. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003. [Tradução de Race in Another America. The Significance of Skin Color in Brazil. Princeton: Princeton University Press, 2004]
Página do livro na editora, GoogleBooks.
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... a gente lê no El País:
Batalla campal en São Paulo - Não li nada sobre isso nem no Dia nem no Globo. Jornal carioca é foda, não cobre São Paulo nem pra tripudiar. Tive que ler sobre isso no Idelber e aqui.
Além disso, também teve essa:
Guerra en las favelas - O correspondente acompanha um operação do CORE nas favelas do Rio. Para um carioca, a novidade é o ponto de vista de um estrangeiro inteligente e observador.
E já que estamos falando da cobertura internacional do El País, que considero a melhor do mundo, aqui vai mais uma, interessantíssima:
El primero en caer: la bancarrota de Islandia - Os cataclísmicos efeitos da crise internacional na Islândia.
O professor Romano está se queixando de solidão, coitadinho:
Desde longa data, enfrento patrulhas políticas, religiosas, ideológicas. Numa sociedade onde a covardia dos indivíduos aconselha adesão a este ou aquele grupo (não raro quadrilha), o isolamento de quem não segue as súcias é assustador. Experimento o exílio sempre que um conventículo chega aos palácios. As mesmas línguas que, fora do poder, me tratavam como “professor” referem-se a mim como “aquele sujeito”.
A banda toca assim mesmo. Grupo é coletivo de quem não se garante sozinho, concordo. Mas o pobre professor Romano não é vitima disso. Ele se isolou pois está se tornando radical e raivosamente conservador, e uma companhia cada vez mais impalatável para gente que talvez até ontem o teria aturado ou recebido.
Sinto isso na pele todos os dias. Você pode ter todas as opiniões do mundo, mas não fique surpreso se as pessoas que acham essas opiniões deploráveis não o convidarem mais pras festinhas.
Esse blog tem estado realmente muito parado. Meus quatro meses de férias no Brasil foram agitados demais para me permitir escrever e, assim que voltei a Nova Orleans, levei logo com um furacão na cabeça, acabei terminando em Nova Iorque e agora voltei pra casa de novo.
Ontem, sexta, eu me jurei que ia sentar e escrever um belo post. Mas, ao invés disso, limpei a varanda, desencaixotei o narguilé, os cachimbos e os fumos, arrumei a cozinha, guardei minha mala e o canil de viagem do Oliver, reconectei todos os aparelhos, lavei a roupa de cama e de banho.
No fim da tarde, sentei no sofá, todo feliz e suado, e tive uma realização profunda: mais vale uma casa limpa que um post bem escrito.
Orla do Rio Mississippi, domingo a tarde, todo mundo deitado na grama, pegando sol. Chega um jipe do exército, saem três soldados. Imediatamente, as pessoas vêm recebê-los, perguntam de onde são, se é a primeira vez em Nova Orleans, em que unidade servem, agradecem por estarem aqui ajudando na recuperação depois do furacão Gustav.
Dia seguinte, segunda feira de manhã, mesma cena em um restaurante. De repente, entram três soldados, são feitas as mesmas perguntas e agradecimentos, a balconista até lhes oferece café de graça.
Uma alegria só.
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Princípios da década de 90, estou trabalhando com História Militar. Vou a congressos, pesquiso no Serviço Geral de Documentação da Marinha, publico na Revista Marítima Brasileira.
Naquela época, talvez até hoje, os militares sentiam uma carência muito grande. Diziam que eram mal-vistos, que a sociedade civil não se interessava mais por assuntos militares, que a profissão perdera o prestígio. Choramingavam pelos cantos, os coitadinhos.
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Junho de 2008, Lapa. Um amigo e eu comíamos um sanduíche numa lanchonete quando entram quatro ou cinco soldados da PM. Todos com fuzil na mão, prontos para um tiroteio imediato, pisando duro, com ar de donos do recinto.
Olhei para meu amigo, ele olhou pra mim: nos levantamos e fomos embora sem precisar dizer nada.
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Meus amigos militares ficariam mortos de inveja se vissem as cenas que vi essa semana em Nova Orleans. Poxa, diriam, que mundo injusto. Por que os soldados americanos são tão bem recebidos em sua terra enquanto nós somos tão escorraçados na nossa?
Ó vida, ó azar.
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Por um lado, existe a postura.
Os soldados americanos que estacionaram na beira do rio, ou que entraram no restaurante, se comportaram de forma completamente normal. Eram funcionários públicos que, por acaso, vestiam uniforme - assim como um carteiro também veste seu uniforme - mas que se consideravam a serviço do cidadão.
Ao contrário de muitos militares ou PMs brasileiros, não pareciam achar que seu uniforme, ou suas armas, lhes conferiam direitos especiais sobre os outros.
Talvez pisem mais duro quando entram nos bares de Bagdá mas aqui ficam pianinhos. Não posso imaginar nenhum deles dizendo uma frase tão brasileira quanto "sabe com quem está falando?!"
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Por outro lado, a questão na verdade é mais simples.
A receita para um exército ser amado por seu povo é simples: basta não se voltar contra ele, não torturar seus cidadãos, essas coisas. Besteira.
Semestre que vem, vou ensinar um curso sobre crônica.
Nós, brasileiros, educados à base de uma dieta rigorosa de volumes da coleção Para Gostar de Ler, via de regra não sabemos que, em espanhol ou inglês, crónica ou chronicle são coisas bem diferentes. Então, de certo modo, um dos objetivos do curso é apresentar meus alunos (que devem ser quase todos americanos) a esse gênero literário único e delicioso que é a nossa crônica.
O livro principal será a excelente antologia As Cem Melhores Crônicas Brasileiras, da Objetiva. Vamos ler as crônicas em ordem cronológica, de José de Alencar até os blogs mais recentes. Além disso, escolhi alguns cronistas de maior destaque para serem tratados em aulas individuais. Naturalmente, toda lista é arbitrária e essa aqui é a minha: Machado, Lima Barreto, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Rubem Braga, Nelson Rodrigues, Clarice Lispector, Luis Fernando Veríssimo.
A ementa já está quase fechada mas ainda estou aceitando sugestões.
* * *
Depois de passar um mês inteiro preparando as aulas, lendo e selecionando crônicas, eu gostaria apenas de fazer o seguinte desabafo:
Tem muita gente que escreve bem. Tem muita gente que é genial. Tem até um cara ó-concúr que se chamava Joaquim Maria, que devia ser genial até fazendo rol de roupa suja. Mas só Clarice é deusa. Estão me ouvindo? Clarice é D-E-U-S-A. Clarice pode tudo. Tudo é força mas só Clarice é poder.
Pronto, falei.

Maravilhosa seleção das melhores crônicas da deusa. Pode comprar sem medo. Lindo. Lindo.
Gregório de Mattos é, ao lado de Padre Antonio Vieira, a principal figura literária brasileira do século XVII - embora "brasileiro" ainda seja uma categoria fluida nesse momento; ambos consideravam-se portugueses.
O poeta hoje é mais lembrado por sua poesia satírica, irreverrente, pornográfica; por sua língua cruel e ferina com a qual fustigava inimigos, desafetos e autoridades coloniais de modo geral (valendo-lhe a alcunha de O Boca do Inferno); e também por ter sido um dos pioneiros da criação (do começo de uma criação, podemos dizer) de um português mais tipicamente brasileiro, com sintaxe, vocabulário e ritmo próprios.
Entretanto, Gregório de Mattos também escreveu poesias líricas, religiosas e moralistas, fato hoje pouco lembrado, mas que sublinha uma das grandes questões do século XVII: a dicotomia entre vida pública e vida privada. Para seus contemporâneos, não havia nenhum contrasenso em Gregório hoje escrever um poema semi-erótico se dizendo "seu negro, seu canalha" de uma "crioulinha escrava" e, no dia seguinte, escrever poemas religiosos, louvando a Deus e pontificando sobre a moral e os bons costumes. Somente duas facetas do mesmo homem, o público e o privado, provavelmente responderiam seus contemporâneos.
Não está se dizendo, naturalmente, que um homem branco de boa família fazer poemas para negras se declarando "seu negro, seu canalha" não fosse escandaloso. Presumivelmente, era esse escândalo que alimentava Mattos e o impelia a escrever mais. O que não era escandaloso na época (apesar de hoje nos parecer paradoxal) é a convivência, na mesma pessoa, do poeta erótico e religioso.
Nossa literatura, perenialmente obcecada por uma pretensa "sexualidade sem freios" da mulata, tem em Gregório de Mattos seu grande patrono: enquanto um dos grandes dilemas da época ainda era, desde o século anterior, a questão do nativo (tem alma? deve ser escravizado?), Mattos parecia somente interessado nas suas mulatinhas e crioulinhas, e em seus arredondados atributos sexuais. Não deixa de ser irônico que os donos do poder atribuam uma "sexualidade sem freios" a indivíduos que estão completamente sob seu jugo, absolutamente incapazes de recusar ou se defender de seus avanços sexuais.
Além das mulatas, a outra grande paixão de Gregório de Mattos era a Bahia e, a ela, dedicou diversos poemas, seja lamentando sua progressiva mercantilização, seja caçoando de suas figuras mais folclóricas. Em uma das suas mais famosas e ferinas poesias, Mattos descreve a Bahia como tendo "um conselheiro em cada esquina", cada um sabendo melhor que o outro como guiar os destinos da colônia, "um olheiro em cada esquina", todos espionando as vidas uns dos outros, e as ruas cheias de mulatos e mulatas safados e sexuais. Apesar do tom cáustico, o leitor fica com a impressão de que o poeta nada mudaria e que é exatamente assim que ele ama sua cidade: intensamente política, desinibidamente social, desavergonhadamente sexual.
* * *
Descrevo que era Realmente Naquele Tempo a Cidade da Bahia
A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana e vinha;
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.Em cada porta um bem freqüente olheiro,
Que a vida do vizinho e da vizinha
Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,
Para o levar à praça e ao terreiro.Muitos mulatos desavergonhados,
Trazidos sob os pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia,Estupendas usuras nos mercados,
Todos os que não furtam muito pobres
E eis aqui a cidade da Bahia.
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Obras completas de Freud, de R$960, por R$399
Um blog sobre rebeldia, contemplação e sacanagem, regado a muita literatura e humor. Nosso assunto são as várias prisões que acorrentam o homem, como ambição, verdade e medo. Dê sua opinião!
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8129 Panola St, New Orleans, LA, 70118, msn, tel, email
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