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Fumar é um dos maiores prazeres da minha vida.
Nada pode ser mais responsável e sublime do que escolher o prazer mesmo sabendo dos riscos individuais que ele pode acarretar. Você pode discordar dessa escolha (eu acho babaca arriscar a vida pra chegar no topo de uma montanha ou pra ultrapassar um caminhão numa estrada sinuosa) mas é a possibilidade dessa escolha que nos torna humanos.
A demonização do fumante é perigosa, antidemocrática e, por que não?, um slippery slope. Amanhã, podemos ser todos obrigados a comer verduras e proibidos de falar palavrões.
Ninguém tem o direito de permitir que sua busca pelo prazer coloque outros em risco.
De todos os muitos tipos de chato (evangélico, vegano, o mala do violão, etc), o pior chato é o chato antitabagista, especialmente se for ex-fumante.
Aquela contagem regressiva em São Paulo foi ridícula e patética.
* * *
Dito isso... Apoio a Lei do Fumo em São Paulo. Por um motivo simples e eliminatório:
O objetivo da lei não é proteger os frequentadores de bares e restaurantes, mas sim os funcionários que passam mais de oito horas por dia respirando densas concentrações de fumaça. Não é justo condenarmos toda uma categoria profissional a uma probabilidade muito maior de desenvolver câncer de pulmão do que muitos fumantes empedernidos. Especialmente se estamos falando de uma profissão de nível socioeconômico e cultural mais baixo, como garçom. Pilotos de fórmula um também apresentam uma taxa de mortalidade relativamente alta, mas só é piloto quem quer.

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Links:
Restaurant Smoking as Threat to Waiters
O estudo citado nessa matéria do NYT, de 1993, começou a onda de proibições de fumo em restaurantes.
Incidence of Cancer among Male Waiters and Cooks
Artigo acadêmico do mesmo ano.


Obras completas de Freud, de R$960, por R$299/R$399 (sinceramente? o preço dessa joça tem mudado duas vezes por dia, mas está sempre muito barato)
Antigamente, no Brasil, tinhamos a Roda dos Enjeitados.
Era um lugar onde qualquer pessoa poderia abandonar recém-nascidos, sabendo que seriam tratados e criados pelo estado. O anonimato era total: havia literalmente uma roda, metade dentro e metade fora do prédio. Você chegava, depositava seu bebê na roda, girava, alguém pegava o bebê lá dentro e pronto. Nunca viam nem mesmo sua cara. O objetivo da lei, naturalmente, era desestimular o aborto, mas havia um benefício adicional.
Não sei como era isso no Brasil, mas em Cuba e em boa parte da América Hispânica, a lei tinha como princípio sempre errar em prol da liberdade, então presumia-se automaticamente, na falta de evidências de origem escrava, que o bebê fosse livre e assim ele era criado. Portanto, para muitos escravos e patrões, era um verdadeiro jogo de pique-pega: se o escravo conseguisse fugir com seu bebê e depositá-lo na roda, ele seria criado como um cidadão livre. Desnecessário acrescentar que, nesses países, as escravas grávidas eram triplamente vigiadas.
* * *
A maioria dos estados americanos, pelo mesmo motivo de dissuadir o aborto, tem políticas parecidas, que permitem o abandono legal de bebês indesejados. A diferença é que hoje, claro, não há anonimato: as pessoas tem que assinar uma série de documentos e perdem direitos legais sobre as crianças.
Entretanto, o estado do Nebraska, quando passou uma lei semelhante, esqueceu de colocar um limite de idade e, agora, das 17 crianças abandonadas desde julho, 13 eram adolescentes: muitos deles drogados, indisciplinados, deficientes.
Já posso quase imaginar a cena, aquele pai todo fudidaço, cheirando a bebida, arrastando a filha de 17 anos, barrigão de grávida, e dizendo: chega, essa vadia dá pra todo mundo, rouba meu carro, não me obedece, não quero mais! Pode ficar!
* * *
E agora, a pergunta do dia:
Obviamente, a intenção da lei não era essa e os deputados do Nebraska já estão se mobilizando para mudar seu texto, mas... talvez eles tenham atirado no que viram e acertado o que não viram.
Se um pai não quer, por qualquer motivo, criar seu filho menor de idade, não será melhor (pensando no interesse da criança) que ele seja criado pelo Estado ou por outra família?
O que VOCÊ acha?
Enquanto isso, leia também "O Aborto Retroativo". Esse negócio de ficar contando as semanas é coisa de reacionário direitista. O LLL é tão, mas tão pró-escolha que defende o direito total e irrestrito ao aborto até os 12 anos de idade! Morram de inveja, seus liberais de araque!
A melhor maneira de fazer ressuscitação cárdio-pulmonar é cantando "Staying Alive". Sério.
Algumas anotações para um futuro romance que nunca escreverei, ambientado em um futuro próximo, onde as leis são um pouco diferentes ma non troppo. A trama se desenvolverá através de três episódios independentes.
* * *
Seu Antenor recebe uma carta exigindo sua presença no Juizado de Menores, onde é informado que a escola de seu filho, Leonardo, o recomendou para um aborto compulsório.
Estou com a ficha do Leonardo aqui, diz o juiz. Ele tem dificuldade de aprendizado, já repetiu duas séries, vive batendo nos coleguinhas, um criador de caso, seu Antenor.
Sim, mas, mas...
Passei os últimos dois dias revisando a ficha, para ter certeza de não estar cometendo nenhuma injustiça. Reparei também que o senhor e sua esposa já tem um outro filho homem, Chiquinho, de 7 anos, então não vai haver questão de não ter varão para passar adiante o nome da família.
Não estou entendendo. De onde partiu isso?
Da escola, seu Antenor. Recebemos uma carta dos professores do Leonardo, endossada pela diretora, recomendando o-
Pela dona Mariluce? Mas ela adora o Leo, estava tentando ajudá-lo...
Eu sei que é difícil de o senhor enxergar isso agora, seu Antenor, mas ela ainda está. Dona Mariluce gosta muito do Leonardo. Eu a conheço faz tempo, ela só recomenda o aborto compulsório nos casos realmente incorrigíveis. Ela está inclusive ajudando o senhor e a sua esposa, para que possam concentrar melhor seus esforços no outro filho, o que ainda tem jeito.
Como pôde a Dona Mariluce recomendar uma coisa dessas?!
Dona Mariluce está apenas cumprindo seu dever. O senhor esquece que as escolas são obrigadas por lei a reportar os jovens incorrigíveis. Senão, amanhã seu filho comete um crime e a escola também pode ser responsabilizada.
Mas recomendar que ele seja morto, assassinado!
Não usemos palavras tão duras, seu Antenor. O Leonardo só tem dez anos, ainda não é uma pessoa completamente formada. Por enquanto, ele ainda é apenas uma coleção de células. Não é um assassinato, somente um aborto. Um procedimento cirúrgico simples, relativamente indolor, como tirar uma verruga, besteirinha, o senhor vai ver.
Isso é um absurdo! Eu amo o meu filho mesmo ele sendo um pouco violento e meio burrinho! Ele tem defeitos mas é cuspe do meu cuspe!
Seu Antenor, quanto egoísmo, o senhor me decepciona. Será que não pensa no bem da coletividade? Estudos já indicaram conclusivamente que a queda da criminalidade dos últimos anos está ligada diretamente à flexibilização nas leis do aborto. As crianças que foram abortadas são justamente as que iriam crescer pra se tornar assassinas, ladras, traficantes, garotas do Tchan, redatoras do Pânico, blogueiros de direita e assessoras parlamentares. Podendo cortar esse mal-
Não vou deixar vocês matarem meu filho!
Lá vem o senhor de novo com esse linguajar politicamente incorreto, seu Antenor. Assim eu fico magoado. Aqui somos todos funcionários públicos conscienciosos fazendo nosso melhor em prol da nação e da coletividade, pátria amada, salve salve. Ninguém aqui vai matar ninguém.
Só o meu filho, porra! Meu filho! E se fosse o seu filho?
Os olhos do juiz se enchem d'água, ele embarga um pouco a voz, abre a carteira e puxa uma foto:
Esse aqui é o Gabriel. Meu primeiro filho. Ele foi pego (o juiz mal consegue falar) beijando um outro menino atrás do campo de futebol... Já tinha sido suspenso duas vezes por colar, estava com nota baixa de comportamento, e a escola recomendou seu aborto. Ele estaria fazendo 25 anos esse mês.
Seu Antenor não sabe onde se enfiar:
Perdão, eu não sabia...
Não tem problema, seu Antenor, foi melhor assim. Eu e minha esposa pudemos nos dedicar melhor a nosso outro filho, ele teve chance de ir a uma universidade mais cara (que não poderíamos pagar se tivéssemos dois filhos) e, hoje, ele está crescido, já me deu um neto e é deputado da bancada evangélica. Os anos se passaram e reconheci que a escola do Gabriel estava mesmo com razão quando o recomendou para o aborto compulsório.
O senhor juiz me desculpe, mas o MEU filho ninguém vai abortar não.
Esse seu individualismo egoísta não vai ajudar em nada a sua situação. É muito fácil para o senhor ver apenas sua situação, falar do "seu filho", blá blá, mas nós, funcionários públicos conscienciosos fazendo o nosso melhor em prol da nação e da coletividade, pátria amada, salve salve, temos que pensar nos interesses de todos os brasileiros. Hoje, o senhor está aí, abraçando um menino inofensivo de 10 anos, mas amanhã, quando ele arrombar um carro e roubar um rádio, o que o proprietário pensaria disso tudo? Será que não viria aqui nos acusar de termos sido relapsos na defesa da sua propriedade? Eu acho que sim. O que é um aborto, um procedimento cirúrgico simples, como retirar uma verruga, comparado com o sacrossanto direito de propriedade? Não acredito que o senhor não entenda uma coisa tão simples!
Mas seu Antenor não entende. Ele chega em casa, manda Leonardo preparar uma trouxa de roupas e fogem. Acabam encontrando outros meninos fugitivos do aborto compulsório e formam uma uma sociedade secreta nos esgotos da cidade. Com o tempo, começam a travar contato com quilombos de fugitivos nas matas próximas. Em breve, Leonardo assume o nome de Zumbi, consegue unir todos os quilombos sob seu comando e ameaça derrubar o governo. As autoridades reagem etc etc.
Esqueci alguma coisa? Não coloquei algum argumento que eles poderiam ter usado? Você acha que a história poderia acabar de outro jeito? Dê sua sugestão.
Se puder, compre algum desses livros clicando nos links acima - ou qualquer outra coisa no Submarino, entrando de um dos links desse blog. Eu ganho uma comissão de 8% e você ganha a satisfação de ajudar um escritor infeliz que está aqui nessa trincheira lutando o bom combate.
Algumas anotações para um futuro romance que nunca escreverei, ambientado em um futuro próximo, onde as leis são um pouco diferentes ma non troppo. A trama se desenvolverá através de três episódios independentes.
* * *
A família entra no Posto de Saúde Municipal. Seu João, dona Maria e os três filhos, Paulinho, de 13, Juquinha, de 10 e Claudinha, de 8. O atendente pergunta o que desejam.
Viemos realizar um aborto retroativo.
O rapaz olha para as crianças: em qual deles?
No do meio, o Juquinha.
Juquinha se vira para a mãe, sabe que o pai está mais decidido, vai ser impossível de convencê-lo, e implora mais uma vez: mãe, mãe, por favor, eu juro que vou ser bonzinho, eu juro, eu juro.
Calaboca Juquinha!, grita o pai, você já falou isso ontem mas não comeu nem metade da salada e foi malcriado com sua irmã!
Mas João, tenta dizer a mãe.
Mas nada Maria, a gente já conversou sobre isso em casa.
Paulinho dá um chute na canela do irmão e fala, hehe, vou ficar com o quarto só pra mim. E leva um pescotapa do pai.
Lá dentro, enquanto confere os documentos que provam a paternidade de Juquinha, o médico tenta convencê-los:
Os senhores estão convictos? Aborto não tem volta. Sim, o Juquinha não passa de um amontoado de células com o potencial de se tornar humano, mas agora esse potencial nunca vai se realizar. Vocês têm o direito constitucional ao aborto, ninguém questiona isso, o que não quer dizer que devam fazê-lo.
Já conversamos muito, doutor, estamos decididos.
Bem, pra poder encerrar retroativamente a ficha dele no SUS, eu preciso incluir as razões do aborto.
E precisa? Ó a cara dele. É um menino abusado, perguntador, irrequieto, insuportável. Não obedece, mata aula, não faz dever, bate na irmã, não se dá bem com o irmão, não come as verduras, só quer saber de se empanturrar de porcaria, conta piadas infames o tempo todo. E tem mais, eu ainda acho que ele é meio efeminado.
Meu senhor, todos sabemos que a homossexualidade é uma deficiência debilitante, reprovável e imoral, mas já existem casos - poucos, é verdade - de homossexuais vivendo vidas longas e quase gratificantes, não é justificativa pra aborto retroativo.
Não quero arriscar essas coisas na minha família, não, doutor. Se fosse filho único, eu até mantinha, sabe?, mas já temos outros dois que se comportam, tiram boas notas e lavam até a louça. Amanhã esse daí cresce, sei lá que besteiras ele vai fazer, é melhor abortar logo, doutor, é melhor assim.
O médico encara dona Maria: a senhora tem certeza?
Maria abaixa a cabeça: tenho sim senhor.
Olha lá, diz o médico, vocês ainda têm mais dois anos para fazer o aborto retroativo. Não querem esperar mais um pouco pra ver se ele não toma jeito?
Pela primeira vez dentro do consultório, Juquinha fala: isso, pai, por favor, por favor, eu juro que me comporto, faz isso não, amanhã é o último episódio da 108º temporada de 24 Horas, por favor!
Doutor, me disseram que é só um procedimento cirúrgico simples. Como tirar uma verruga, não é?
Sim, mas...
Então, aborta esse menino.
Paaaiiii!
A gente pode marcar a operação pra semana que vem...
Pode fazer hoje, não, doutor?
Poder pode, mas...
Então, aborta esse menino agora!
O médico começa a preparar sua seringa...
Poucos anos depois, um Juquinha musculoso e queimado de sol reaparece em casa. Na verdade, não foi abortado. O médico apenas lhe colocou para dormir e ele acordou em uma fazenda, no interior do estado, junto com outros meninos pretensamente abortados, onde passavam seus dias cortando cana, plantando café e fazendo tênis da Nike. Eram os sortudos. Muitos outros tornaram-se escravos sexuais de políticos e bispos, alguns até mesmo doaram seus órgãos compulsoriamente para figurões da república.
Mas Juquinha era um líder nato, uniu todas as facções, impôs a paz, liderou uma revolta, venceu os capatazes e conseguiu fugir. Agora estava em casa. Finalmente.
Seus pais não perderam tempo. Imediatamente, processaram o estado pelo aborto retroativo mal-feito. Além de ganharem uma indenização polpuda, o governo ainda foi condenado a pagar todas as despesas de Juquinha pelo resto da vida. Final feliz.
Ou então, ou então.
Depois do aborto retroativo, Dona Maria e Seu João começam a limpar as coisas de Juquinha. Encontram muitos cadernos cheios de números e fórmulas. Não entendem nada. Aquele capeta nunca foi de estudar. Pedem para Paulinho mostrar aqueles rabiscos para o professor de matemática da escola.
O professor liga nessa mesma noite. Está maravilhado. Nem mesmo ele conseguiu entender completamente os rabiscos - Juquinha tinha péssima caligrafia - mas entendeu o bastante para saber estar diante de algo extraordinário. Marcou de mostrar as anotações para um colega na universidade. Eles não gostariam de ir?
Entre os acadêmicos, a comoção é geral. O catedrático de Matemática Pura abre o champanhe. O lente de Matemática Abstrata mal consegue falar. O livre-docente de Matemática Aplicada chega a ficar de pau duro. Mas, mas, quem é esse gênio?, o quê?, só um menino?!, não pode ser!, ele solucionou sozinho o Paradoxo de Rosencranz e Guilderstern, que todos os matemáticos do mundo tentam resolver há centenas de anos, eu mesmo considerava insolúvel, e está aqui, provado até a décima-quinta casa decimal!
Enquanto os matemáticos celebram, vai passando um professor de medicina que se aproxima pra ver o motivo de tanta confusão, olha para as folhas com mais cuidado e, de repente, grita: meu deus, o que é isso?, está aqui!, explicadinho, nas margens dessa folha de caderno, a cura do câncer!, a cura da aids!, a cura da homossexualidade!, um novo xarope contra a gripe!, nos últimos detalhes, quem escreveu isso?, essa pessoa merece o Nobel de Medicina!
Ele tenta arrancar as folhas das mãos dos matemáticos ("esse menino pertence às biológicas!") quando vai passando um professor de filosofia, pega uma folha que caiu no chão, passa os olhos por cima e já sai gritando: meu deus, é isso!, é isso!, como nunca tinha pensado nisso antes!, é o sentido da vida!, a resposta da existência!, bem aqui, nessa folha de caderno!, quem foi o gênio que escreveu isso?!, etc etc.
Ou então, ou então, ou então!
No meio da festa, o professor de medicina pega aquelas folhas, lê com um pouco mais de calma e grita: esperem, olhem! Ele não apenas curou o câncer! Ele controlou o câncer!
Dona Maria, com as lágrimas cheias d'água de pensar no filho abortado retroativamente, pergunta: como assim, qual é a diferença?
Ele controlou TODO o processo cancerígeno!, grita o professor. Com esse conhecimento, ele poderia não só curar o câncer mas também causá-lo! Nas mãos erradas, essa invenção poderia ser a arma mais mortífera de todos os tempos. Ou então livrar para sempre a humanidade de sua doença mais terrível! Nunca saberemos.
Nessa hora, seu João pigarreia, recolhe os papéis espalhados pela mesa e diz:
Melhor assim então. O menino arrancava asa de passarinho e tudo. Era meu filho, eu sei. E vambora, Maria, que você ainda tem que fazer o almoço.
Esqueci alguma coisa? Não coloquei algum argumento que eles poderiam ter usado? Você acha que a história poderia acabar de outro jeito? Dê sua sugestão.
Amanhã, o aborto compulsório.Se puder, compre algum desses livros clicando nos links acima - ou qualquer outra coisa no Submarino, entrando de um dos links desse blog. Eu ganho uma comissão de 8% e você ganha a satisfação de ajudar um escritor infeliz que está aqui nessa trincheira lutando o bom combate.
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* * *
Lucas e Natália são namorados há alguns anos, relação estável, cada um na sua casa, ambos bem-sucedidos em suas carreiras.
Por acaso, Lucas descobre que Natália está grávida e já de aborto marcado. Pergunta se o filho é dele, ela confirma. Natália não quer ter filho agora, é ginasta, iria acabar com sua carreira.
Como é que você não me conta uma porra dessas?! Meu filho!
Não contei justamente porque sabia que você iria querer ter a criança.
Claro! Você não pode tomar essa decisão sozinha. É meu filho também.
Você não tem nada a ver com isso, Lucas.
Claro que tenho. Se essa criança nascer, eu sou legalmente obrigado a sustentá-la por mais de vinte anos. Não faz sentido eu ser responsável por ela SE nascer, mas não ter direito a dar pitaco sobre se vai nascer ou não.
Pois não tem, é uma questão 100% feminina e pronto.
Ele chora, se desespera. Eles se amam, tiveram tantos momentos, têm tantos planos e sonhos, ela sabe que seu maior sonho é ser pai, não pode fazer uma coisa dessas sem ao menos conversar com ele.
Lucas implora: eu faço o que você quiser, crio o filho sozinho, assino um contrato, me comprometo a nunca lhe cobrar nada, se quiser nem revelo pra criança o seu nome, tudo o que você vai ter que fazer é parir.
Parir é justamente o que não posso fazer. É fácil pra você falar, mas está chegando minha última olímpiada, minha carreira acontece ou acaba de vez. Ter filho não vai fuder a SUA vida! O seu trabalho fica todo igual, mas eu tenho que destruir o MEU por causa do SEU filho. É o cúmulo do egoísmo. Se você quer tanto um filho que emprenhe outra. Ou adote. Ou carregue no seu ventre, sei lá.
Não é MEU filho, é NOSSO. Você quer matar nosso filho, que seria seu dever proteger e amar, e ainda diz que o egoísta sou eu!
Não vou matar ninguém. Você está fazendo drama à toa. Quem vai ter que se operar sou eu. É um procedimento cirúrgico banal, como retirar uma verruga. Aliás, o embrião, agora, está menor do que uma verruga. É uma coleção de células, nada mais.
Células que daqui a 30 anos podem estar nos dando um neto, se você deixar.
Você acha que é simples pra mim? Acha que quero fazer isso? Acha que não é um decisão difícil?
Não sei, responde ele, se é só uma coleção de células, se é fácil como tirar uma verruga, então a decisão não deveria ter nada de difícil. O que dificulta é que você sabe que o buraco é mais embaixo, sabe que está matando seu filho pra salvar sua carreira.
Sai daqui, sai DAQUIIIII!
Natália expulsa Lucas de casa. Ele vai a polícia. Eles não podem ajudar. O aborto é legal. Ele que emprenhe outra, diz o prestimoso PM.
Procurando na web, Lucas descobre uma ONG sobre direitos humanos masculinos ("protegendo a minoria mais discriminada: o homem branco jovem") e vai procurá-los. Eles são meio machistas, reaças e religiosos demais, mas são sua única chance. Recomendam que ele procure o Juiz Fulano, simpático à causa, e peça uma ordem-jurídica-legal-cautelar-de-emergência-blá-blá-blá.
No dia seguinte, Natália é acordada pela polícia. A ação impetrada por Lucas a impede de realizar o aborto enquanto não for a julgamento. Enquanto tramita, será vigiada dia e noite por policiais da Delegacia do Homem.
Natália entra em desespero. Sabe que a ação nunca será julgada. Só o que precisam é impedi-la de realizar o aborto por mais um mês. Depois disso, o aborto seria ilegal.
Usando suas habilidades de ginasta, Natália escala um prédio, pula por uma janela, etc, e foge da proteção policial.
(Um policial vê o salto e comenta: caramba, impressionante. E o outro: que nada, viu como ela pousou com o pé direito antes do esquerdo? Eu dava no máximo nota oito.)
Lucas entra em desespero, pensando que seu filho pode estar sendo morto naquele exato momento. Como última cartada, vai a um dos lugares preferidos de Natália, onde ela sempre ia para pensar, e a encontra lá.
Natália está pronta a defender sua carreira e seu direito de escolha com unhas e dentes. Lucas está pronto a defender seu filho e seu direito a vida com unhas e dentes.
Chorando muito, no limite de suas forças, ele puxa uma arma do bolso. Mas o que fazer com ela? Será essa uma questão que pode ser resolvida à bala? Se fosse novela, aqui seriam as cenas do próximo capítulo.
Eles brigam, quase se matam, discutem mais ainda e Natália consegue escapar. O meio do livro será recheado de escapadas e perseguições, pelo menos um caminhão de leite tem que explodir ao impacto com um patinete desgovernado, até que Natália é finalmente capturada, o assunto ganha todos os jornais, incendeia o debate público, até o Amaury Jr comenta.
Finalmente, em um dos exames pré-natais, descobre-se que o bebê vai nascer acéfalo. Lucas e Natália ainda tentam conseguir permissão para o aborto, mas é tarde. O Juiz Fulano, religioso até a medula, não permite que a ação cautelar seja desfeita. Faz parte do plano de deus que aquela criança nasça sem cérebro e viva apenas por um segundo. Essa é a sua missão e ninguém tem nada a ver com isso, amém, glória ao senhor.
O bebê nasce e morre, a luta frustrada contra o Juiz Fulano reaproxima Lucas e Natália, a repercussão do caso na mídia faz com que Natália seja contratada menina-propaganda de uma conhecida marca de anticoncepcionais e a tranquilidade financeira do novo contrato permite que ela dê a volta por cima, vença o atraso, recupere sua forma física e, ao som de Carruagens de Fogo, ganha medalha de ouro em sua categoria. Dois meses depois da olímpiada, ela anuncia simultaneamente sua aposentadoria e sua nova gravidez. Natália, Lucas e seus 12 filhos, todos céfalos, vivem felizes pra sempre, ela em casa cuidando na prole e ele, bom provedor, trabalhando fora pra sustentar essa boiada.
Ou isso ou então, mais provável, eles se separam inimigos pra sempre, Lucas nunca deixa de pensar que foram as acrobacias de Natália na fuga que fizeram o bebê nascer sem cérebro, Natália perde sua carreira e tem que trabalhar no quiosque de informações de um shopping de subúrbio ("eu te conheço de algum lugar, não é você aquela moça que não queria ter o filho?, acho que te vi na Márcia") e os dois passam o resto de suas vidas se odiando, rasgando as vestes e trincando os dentes.
Esqueci alguma coisa? Não coloquei algum argumento que eles poderiam ter usado? Você acha que a história poderia acabar de outro jeito? Dê sua sugestão.
Amanhã, o aborto retroativo.Se puder, compre algum desses livros clicando nos links acima - ou qualquer outra coisa no Submarino, entrando de um dos links desse blog. Eu ganho uma comissão de 8% e você ganha a satisfação de ajudar um escritor infeliz que está aqui nessa trincheira lutando o bom combate.
Estou escrevendo uma tese sobre a ausência da escravidão na literatura brasileira do século XIX. Apesar de estar por todos os lados, apesar de fazer parte da vida cotidiana de todos, apesar de gerar dramas humanos terríveis e debates filosóficos intensos, a escravidão mal aparece em nossa literatura. Retratada somente pelas bordas, jamais foco da atenção.
A literatura naturalmente reflete os grandes temas do seu tempo. A razão é simples. Descobrir pi até o 43º algarismo pode ser apaixonante para matemáticos, mas tem muito pouco impacto na vida prática das pessoas nas ruas. Os grandes temas de uma época são justamente aqueles que impactam a vida de todas as pessoas, que mexem com seus preconceitos, que modificam suas experiências, que causam dor, morte, alegria - todos ingredientes essenciais do drama humano que é o estofo da boa literatura.
E, apesar disso, nenhum de nossos grandes autores enfrentou a questão da escravidão.
Dito isso, comecei a pensar nas teses de daqui a duzentos anos. Que temas os acadêmicos de 2206 vão nos acusar de ignorar? Que temas cruciais são esses que a nossa literatura deveria refletir?
Um deles, sem dúvida, é o aborto. Poucos assuntos poderiam ser mais complexos e emocionais, mais cheios de poréns e todavias, mais assombrados por imperativos morais e relativismos concretos.
Qualquer um que diga que tenha uma resposta simples, uma posição inequívoca, uma postura sem compromisso, ou é um idiota ou não considerou todos os lados da questão.
Dois grupos quase sempre histéricos e exagerados dominam o debate. Ambos tentam nos convencer que sua posição é obvia e auto-evidentemente a única correta e que a posição do outro grupo é, pra todos os fins e efeitos, perversa e demoníaca.
Um deles se diz a favor da vida (como se o outro fosse contra a vida!), mas ambos definem vida de forma bem diferente.
Um deles se diz a favor da escolha (como se o outro fosse contra escolha!), mas o outro alega que não podemos "escolher" cometer homícidio - entretanto, só será homicídio dependendo de como se define vida, o que nos leva de volta à primeira questão.
É preciso ser muito fanático, radical e maniqueísta pra não reconhecer que ambos têm argumentos convincentes. Cabe a nós, cidadãos de uma democracia, resolver esse dilema, tomar nossa decisão, pressionar nossos parlamentares. Enquanto isso, o tempo urge. A questão tem impacto direto na vida de milhares e milhares de pessoas. Drama humano, meus amigos.
Esse blog deturpou meu pensamento. Nunca fui ensaísta nem polemista. Ficar dando minha opinião assim, na primeira pessoa, como eu mesmo, fodeu com minha capacidade de empatia e me fez muito egocêntrico. Sou, sempre fui e sempre serei um ficcionista. E minha contribuição eu dou através da ficção. O bom escritor é o que sabe se colocar na pele de todo mundo. Quando manda bem, você nem sabe sua verdadeira opinião.
A partir de amanhã, um esboço de um romance sobre aborto em três episódios.
Parte I: O Anti-Aborto Preventivo
Update
Tenho um posicionamento que concilia as duas opiniões: Sou a favor da vida, logo sou contra "O" aborto. Porém... Sou a favor da escolha, logo sou a favor d"A LEGALIZAÇÃO" do aborto. Não há nenhum paradoxo aqui. Apenas considero que essa não é uma questão que deva ser regulada pelo Estado.
O mais triste desse comentário é que talvez seu autor realmente não enxergue sua contradição e se ache sinceramente um conciliador, talvez candidato ao Nobel da Paz.
Infelizmente, ele não concilia nada e chega a ser desrespeitoso em seu completo desprezo pelos argumentos do outro lado: somente demonstra o diálogo de surdos que domina a questão.
Dado que uma parte significativa da população considera que o aborto é assassinato pura e simples, não dá se argumentar que "é uma questão de escolha", "relativa ao corpo da mulher" e "que não deve ser regulada pelo Estado". Esse tipo de argumento ignora completamente os enormes desdobramentos éticos, filosóficos e religiosos da questão, como se não fossem nem ao mesnos dignos de serem considerados.
Diante do argumento "aborto=assassinato", não faz sentido você rebater que é "uma simples questão de escolha que não deve ser regulada pelo Estado" e achar que isso vai resolver a conversa, porque seu interlocutor, logicamente, vai responder que assassinato não é questão de escolha e que o Estado surgiu, entre outras coisas, pra regular o assassinato. Também não adianta dar argumentos práticos e de saúde pública, falando sobre as mortes em abortos ilegais, impacto no SUS e diminuição da criminalidade, porque "assassinato", esse grande tabu da nossa sociedade, super-trunfa todos esses argumentos. Aos ouvidos de um religioso, seria como dizer que deveríamos legalizar o crime porque muitos criminosos estão se machucando fugindo da polícia: se legalizarmos o roubo, eles não vão mais precisar sair correndo pela rua pra não ser presos, coitadinhos.
Reparem que não estou dizendo que aborto é assassinato, mas também não estou dizendo que não é: digo somente que esse é o centro nevrálgico da questão, que não pode ser ignorado ou evitado.
Se aborto não é assassinato, então todos os argumentos dos anti-aborto caem por terra, se tornam um grande escarcéu por nada, por um procedimento cirúrgico como tantos outros.
Se aborto é assassinato, então todos os argumentos dos pró-aborto empalidecem na comparação e também caem por terra, pois o assassinato não é uma questão femininina, de saúde pública e, muito menos, de escolha individual.
Talvez seja uma das questões mais importantes e complexas do nosso tempo. Se você acha que a resposta é simples, ou que é passível de ser resolvida com um sofisma de três linhas, eu diria que há grandes possibilidades de você ser um idiota.
Update II
Eu sou um homem feliz. Sempre acho que o mundo é lindo, que as pessoas são boas, que tudo vai acabar bem. Os comentários de posts como esse e da série sobre racismo são importantes para o meu crescimento espiritual porque me esfregam na cara algumas verdades duras que eu vivo esquecendo: que o mundo é uma lugar muito muito feio e que as pessoas são raivosamente ruins.
* * *
Para quem quiser saber minhas posições religiosas:
Prisão Religião
Pessoas-Que-Acreditam-em-Coisas
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Fiz um check-up de rotina e meu nível de açúcar no sangue estava um pouco alto. Não muito, ainda na zona segura, mas alto. Dado que tenho uma história familiar de diabetes (avó cega, bisavô com duas pernas amputadas, etc), a médica acionou o alerta laranja.
Uma das recomendações da nutricionista foi colocar canela em tudo o que eu pudesse. Canela aparentemente ajuda a baixar o nível de açúcar no sangue. Fui pesquisar na internet e parece que os cientistas descobriram isso quando estavam dando uma série de comidas-porcaria pra diabéticos pra medir o quão mal elas lhes faziam - menos para o grupo que comeu torta de maçã, cujo açúcar no sangue caiu absurdamente. Os caras foram fuçar e descobriram que era a canela.
Uma nova pesquisa (perdi o link e não consegui encontrar na web) descobriu que quanto mais fome um homem tem, mais atraído ele é por mulheres gordinhas. Por outro lado, depois de comer, quando está saciado (ou seja, com mais açúcar no sangue) ele tende a preferir as magrelas.
E fiquei pensando então que diabéticos ou pessoas com tendência a diabetes devem sempre preferir as magrelas. Como eu, aliás. O fato da magreza excessiva ter virado o padrão de beleza ocidental talvez queira apenas dizer que somos mesmo uma cultura de gordos, excessivamente bem alimentados e com tendência a diabetes.
Vocês já repararam que o corpo nunca dá boas notícias?
Oi, doutor, acordei anteontem com uma sensação de calor aqui abaixo da costelas, o que pode ser?
Meu caro Alex, que maravilha, isso quer dizer que seu fígado está se regenerando, daqui a pouco estará como novo!
Ou então, ou então:
Caramba, Alex, parabéns, isso quer dizer que seu corpo está prestes a perder dez quilos, espichar dez centímetros, crescer mais cabelo, regenerar seu prepúcio, uau!
Mas não. Quem me dera. A única coisa que meu corpo diz é que estou ficando velho.
Perspectiva Feminina
Estava chorando minhas mágoas com a Alessandra e ela respondeu:
Fale por você. Meu corpo me dá uma excelente notícia todo mês: que eu não estou grávida!
É, mas precisava manchar os lençois pra dizer isso? Custava mandar sms, telegrama, mensagem na secretária eletrônica?
Um escritor argentino, autor do livro de memórias "Feio", está querendo criar um imposto sobre a beleza. Segundo ele, os belos obtém tantas vantagens adicionais que é justo que paguem impostos adicionais.
Obviamente, a proposta é imbecil mas, segundo o feioso autor, a idéia é provocar um debate. Então, vamos a ele: eu discordo. Mesmo sendo do Rio, a cidade mais obcecada com beleza física do mundo, eu ainda assim acho que a beleza anda menosprezada.
Se eu subo na vida pela minha inteligência, ou pela minha força física, ou pelo meu talento musical, ou até mesmo pela minha capacidade de fazer gols, tudo bem. Mas, de algum modo, subir na vida pela beleza é visto como algo baixo, leviano, fútil, sem valor, anti-meritocrático.
Quantas mulheres feias já não apontaram pra superiores gostosonas e acusaram: "Você só foi promovida por ser linda!"? Mas, por outro lado, quantas vezes homens burros apontaram para superiores e acusaram: "Você só foi promovido por ser mais inteligente que eu!"? Ninguém se sente injustiçado ao ser preterido pelo inteligente ou pelo talentoso, mas se perderem pro lindo, deus me livre, é um absurdo, um horror, uma injustiça!
Esse mito de que vencer pela beleza é menos meritocrático do que vencer pelo talento ou pela inteligência é uma das maiores mentiras que o lobby dos inteligentes já inventou.
É como o maneta tentando convencer o perneta a disputar uma corrida: ganhar pela queda de braço não conta. Ou a onça tentando convencer o ouriço de que seus espinhos são anti-esportivos: ele tem que encarar a onça de igual pra igual. E todos sabemos como acaba essa história.
O porco-espinho, como qualquer animal, tenta vencer usando as armas que possui, assim como os inteligentes tentam vencer pela inteligência e os talentosos, pelo talento. Errado são os lindos que caem no conto de que suas armas não tem valor, que vencer pela beleza não conta.
Se eu tivesse pernas pra cruzar ou decote pra mostrar, eu usava com a mesma naturalidade que uso minha lábia e minha cara-de-pau para conseguir tudo o que eu quero.
* * *
Comentário extremamente preciso de um amigo:
"Bem, nada mais justo então do que os inteligentes usarem sua arma, a inteligência, para convencer os belos a não usarem as deles."
Concordo. Feios e barrigudos, só resta mesmo aos inteligentes tentarem mudar as regras do jogo. Burro é quem acredita. Entretanto, eu sou vira-casaca: acho gente inteligente um porre e idolatro a beleza. Além disso, ser agente duplo para os belos tem muitas vantagens: ninguém sabe quem foi Michel Foucault ou André Brissac, por exemplo, mas os favores sexuais mais do que compensam.
Assim como o mito do valor inerente da leitura só existe porque as pessoas que gostam de ler têm um lobby mais influente do que as pessoas que gostam de jogar bola em terreno baldio, esse mito da beleza como método não-meritocrático de subir na vida só existe porque são os feios que escrevem pros jornais e fazem as leis.
* * *
Antes de publicá-los, sempre mostro meus textos para meus contatos no MSN. A conversa abaixo foi com uma das primeiras leitoras do Elogio à Beleza:
Mas, Alex, o cara pode se revoltar pela beleza alheia pelo simples fato de que a pessoa já nasceu bonita... Ou seja, nasceu em vantagem. É diferente de quando alguém vence pela inteligência, isso é adquirido ao longo da vida...
Mentira, lenda. Inteligência, beleza, talento, a gente nasce com eles todos, são difíceis de manter, e vamos refinando-os ao longo da vida. Nenhum é de graça, nem cai do céu. Pergunte pra alguém lindo de verdade o tempo e dinheiro que eles gastam nisso.
Sim, claro. Mas por exemplo, mulher quando vai procurar emprego, além da mínima formação exigida pro cargo, ela precisa ser bonita na maioria dos casos. Homem não.
Isso é escroto.
Eu acho horrível, mas eu vejo isso na minha área. Eu trabalho com TI e sempre sou chamada pras etapas seguintes das entrevistas pelo simples fato de, 1) ser mulher e 2) não ser gorda, espinhenta, ou com cara de nerd. Agora, se tu colocas um homem pra fazer entrevistas na area de TI, os caras não vão se importar com aparência...
Você devia achar isso bom, é uma vantagem comparativa pra você. Eu sou completamente incapaz de ser contra algo que me favoreça.
Mas daí isso contraria tudo o que me ensinaram a vida toda! Eu deveria vencer por méritos acerca da minha capacidade, não da minha cara ou da minha bunda!
O problema é que isso que te ensinaram foi o lobby dos feios querendo te convencer que a SUA vantagem competitiva não conta, ué. O texto é justamente sobre isso. Sua bunda é tão sua quanto seu cérebro e você obter vantagens por qualquer um dos dois é igualmente válido. Sua bunda não é menos sua do que o seu cérebro.
Isso é certo, reconheço. Mas daí me vem a dúvida: eles querem que eu trabalhe pra eles de verdade ou que eu sirva de deleite no escritório? Eu vou ser contratada pra o quê? Claro que daí alguém pode me dizer que eu posso surpreeendê-los e me mostrar realmente capaz... Mas até la eu não posso deixar de me sentir uma boneca de pano ou uma peça de leilão, sei lá.
Se te pagarem salário, do que isso importa? O importa é entrar, lá dentro você pode mostrar que é mais do que uma bela bunda... E, se passarem a mão nela, você ainda chama a polícia e ganha uma indenização polpuda. Mas minha grande dúvida é outra: por que você acha que seu cérebro vale mais do que sua bunda? De onde veio esse ranking de partes do corpo? Isso faz algum sentido?
Bem, eu gostaria de usar minha bunda pra outras finalidades... Só que é impossível esconder essas coisas, né?
Bem, a bunda é sua. Eu só quero dizer que ela é tão sua e tão válida quanto seu cérebro.
Ok, entendi. Mas ainda assim não me conformo, parece tão imbecil...
Mas isso é só porque te ensinaram um dualismo cartesiano e ultrapassado, essa história de que somos feitos de corpo e alma, um alto e sublime, outro baixo e sórdido, e portanto o que você consegue com o corpo também é baixo e sórdido, e as únicas coisas que teriam valor verdadeiro seriam as que você consegue com a alma, com o intelecto, etc. Mas essa dicotomia é falsa, você é uma só. Você é tudo isso o tempo todo.
Bem. o ruim disso é que eu não sei o que falar pros meus colegas quando eles dizem que eu consigo as coisas só porque eu sou mulher. Isso é claramente injusto já que eles podem fazer o mesmo que eu... Eles preenchem os requisitos tanto quanto...
Você pode responder que para cada coisa que você consegue por ser mulher tem outras tantas que você não consegue por ser mulher.
Daí eu penso "ok, a decisão do empregador é só dele, quem se importa se ele quer mais é uma visão feminina na empresa do que alguém capacitado?" Só que é MUITO injusto com os outros... Eles nasceram daquele jeito, não é culpa deles...
O mundo é injusto. Um emprego que escolha o mais capacitado vai ser injusto com os poucos capacitados. Se escolher os inteligentes, vai ser injusto com os burros. Se escolher os talentosos, vai ser injusto com os que nasceram sem talento. Se escolher os melhores, vai ser injusto com os piores. Qual é a solução?
Ai, Deus! Tu me deixa sem respostas!
Aviso aos Comentadores
De mim, vocês podem falar o que quiserem. Já os comentários que insultarem minha amiga, que existe, eu amo e lê o blog, serão sumariamente apagados.
Belíssima mulher, divertidíssima amiga, fumante inveterada, advogada fodona.
Pré-FAQ Tabagista
Escreverá algum leitor retardado:
"Argh, a mina fuma, estragou tudo."
Deveria haver um estudo sobre esse novo tipo de viadagem pós-moderna que faz bichas reprimidas de modo geral não apreciarem uma bela mulher só porque ela fuma. Sinceramente, é o cúmulo do nazismo anti-tabagista.
Fumo é uma questão de bom-senso. Eu odeio fumante soprando fumaça na minha cara e não posso nem imaginar como era a época em que se fumava em aviões, mas basta o cara ir fumar lá pra longe que resolveu. Pior são os proto-ditadores que querem mandar na vida dos outros e exterminar um dos hábitos milenares da humanidade.
Perigo por perigo, açúcar refinado e carne vermelha também fazem mal. Automóveis matam mais do que o cigarro e ninguém pensa em proibi-los, porque seu benefício percebido é maior que o seu perigo evidente. Pois bem, fumante é alguém que considera o benefício percebido do fumo como maior que o seu evidente risco. Se forem me perguntar, é mais razoável do que escalar montanhas ou disputar pegas.
Ponto Contraponto
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