trecho:
I
Ao narrar este conto, não tenho intenção alguma de fazer suspense ou surpreender o leitor, mas apenas de iluminá-lo quanto às circunstâncias que me fizeram sair das trevas do ateísmo e abraçar a fé em Deus. Coerente a esse princípio, faço questão de adiantar que Anália morre.
IIEu tinha dezenove anos quando tomei conhecimento da previsão. Na época, eu gostava de pedalar no lago, e como os pedalinhos do Iate Clube de Capivara só podiam ser alugados até as seis horas, eu comprara o meu próprio. Foi nele, pedalando em uma noite de verão, que Anália me contou que ia morrer.
Ela estava deprimida o fim-de-semana inteiro e eu, ansioso para arrancar-lhe os problemas, resolvi sair em um passeio noturno até o nosso ponto favorito do lago.
Era um braço d'água estreito, de pouco mais de um metro de largura, que separava a margem de uma ilhazinha. Gostávamos de lá por ser a única parte do lago onde não nos sentíamos devassados pelas luzes a nossa volta; a ilha nos escondia.
Uma árvore caída servia de ponte natural entre a margem e a ilha, impedindo a passagem do pedalinho; quando fôssemos sair, teria que ser de ré. Náli pulou em terra, foi até a árvore e sentou-se no centro dela. Sabíamos que aguentaria o peso pois era onde sempre tínhamos nossas conversas particulares.
Ela descalçou os sapatos, jogou-os para dentro do pedalinho e deixou os pés caírem n’água. Então, disse:
— Eu vou morrer.
* * *
o conto "uma questão de fé" é um de dois contos bônus, exclusivos e inéditos, que você só pode ler na versão kindle de onde perdemos tudo.
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