Somos mesmo filhos dos portugueses (Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto)

Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto. Norte da China, 1544.

Mendes Pinto e outros oito portugueses estão prisioneiros dos chineses. Na verdade, não exatamente prisioneiros: estavam cumprindo oito meses de exílio em uma cidade perto da Muralha da China, antes de serem libertados.

De repente, aparece um vasto exército mongol, conquistando, pilhando, matando. Ao verem nove prisioneiros claramente não-chineses, lhes oferecem a liberdade caso se juntem a eles.

A decisão é difícil: os portugueses em breve poderão voltar pra casa; se escolherem o lado errado, podem acabar mortos. Um deles, Jorge Mendes, quer se unir aos mongóis, mas os outros não tem tanta certeza. Começam a discutir entre si, para espanto dos asiáticos:

Versão adaptada:

Vendo no que o Jorge Mendes se queria meter e da maneira que se penhorava no que prometia, o repreendemos todos dizendo que se não metesse em coisa que nos desse trabalho e nos pusesse em risco de perdermos as vidas. Os tártaros ficaram meio espantados de nos verem altercar uns com os outros e falarmos alto, que é coisa que eles entre si não costumam, e repreenderam-nos com boas palavras, dizendo que era mais próprio das mulheres falarem alto, pois não têm freio na boca.

Versão original:

Nos então vendo o em que o Iorge Mendez se queria meter, & da maneyra que se penhoraua no que prometia, & que os Tartaros lançauão mão disso, o reprendemos todos dizendo, que se não metesse em cousa que nos desse trabalho, & nos pusesse em risco de perdermos as vidas, a que elle respondeo algum tanto agastado, bofé senhores, que quanto a minha, eu a estimo agora tão pouco, que se algum destes barbaros ma quisesse jugar à primeyra, vos certifico que cõ quaisquer duas sotas a metesse logo no primeyro inuite, porque bem entendido està que não he esta a gente que nos ha de dar a vida pelo resgate que pretenda de nos, como fazẽ os Mouros de Africa, & ja que assi he tanto monta oje como a menham. E lembreuos o que lhe vistes fazer em Quansy, & por ahy julgareis o que vos podem fazer a vòs. Os Tartaros ficaraõ algum tanto espantados de nos verem altercar hũs cos outros, & falarmos alto, que he cousa que elles entre sy não custumão, & nos reprenderão com boas palauras, dizendo, que mais proprio era das molheres fallarem alto & desentoado, pois não tem freyo na lingoa, nem chaue na boca, que de homens que cingem espadas, & tiraõ com frechas na furiosa tormenta da guerra, ... (Capítulo 118)

Somos mesmos filhos dos portugueses. Me lembro de pegar o Path, trem urbano entre Manhattan e New Jersey, e a língua que mais se escuta é o português. E não só porque existem muitos brasileiros e portugueses em New Jersey, claro, mas porque falamos mais alto que todo mundo.

* * *

Jorge Mendes ganha a discussão, aproveita para dar várias sugestões bélicas aos mongóis e acaba naturalmente se sobressaindo dentro do grupo, o que gera ainda mais conflitos e invejinhas:

Versão original:

... & sempre o Iorge Mẽdez andou a cauallo junto co Mitaquer, & muyto fauorecido delle, com que todos enxergamos logo nelle, hum nouo esprito & oufania, tão differente dos dias atras, que espantados nós desta nouidade que viamos nelle, não faltaraõ algũs que mouidos desta nossa mâ natureza que sofre muyto mal estas differenças, viessem a murmurar delle dizendo a modo de donayre & torcendo os fucinhos, que vos parece deste perro? ou nôs por seu respeito auemos todos a menham de ser feitos em quartos, ou elle, se lhe este negocio socede como imagina, ha de ter tamanha valia cõ estes barbaros, que nos auemos de auer por honrados de o seruirmos toda nossa vida. (Capítulo 119)

* * *

Mais tarde, os portugueses são levados para se encontrar com o rei dos mongóis, que lhes pergunta quem são e de onde vem.

É interessante pois é a primeira vez em todo o livro que Fernão Mendes Pinto responde a essa pergunta... com a verdade. Até então, os portugueses sempre se apresentavam como sendo do Sião (nome antigo da Tailândia); Portugal não se encaixaria na visão sinocêntrica de mundo dos chineses.

Reparem como, mesmo os mongóis, os maiores conquistadores de todos os tempos (nenhum homem dominou tanto território quanto Gengis Khan), em meio a uma conquista sangrenta pela China, mesmo ESSAS PESSOAS vêem os portugueses de modo negativo e não conseguem imaginar nenhum bom motivo que justificasse eles virem de tão longe. Só a cobiça e a pobreza justificam:

Versão adaptada:

- Pergunta a essa gente do cabo do mundo se tem rei e como se chama a sua terra, e que distância haverá dela a esta do chim em que agora estou. A que um da nossa companhia em nome de todos respondeu que a nossa terra se chamava Portugal, cujo rei era muito grande e poderoso, e rico, e que dela àquela cidade de Pequim haveria distância de quase três anos de caminho. El-rei fez muito espanto como homem que não tinha esta máquina do mundo por tamanha. Batendo três vezes na coxa com uma varinha que tinha na mão, e os olhos postos no céu como quem dava graças a Deus, disse alto, que todos ouviram: "Ó Criador, ó Criador de todas as coisas, qual de nós outros, pobres formigas da terra, poderá compreender as maravilhas da tua grandeza?". Acenando com a mão fez-nos chegar até aos primeiros degraus da tribuna onde os catorze reis estavam sentados, e perguntou-nos porque não vínhamos antes por terra. A que se respondeu que por a terra ser muito grande e haver nela reis de diversas nações que o não consentiriam. E ele insistiu: "Que é o que vindes a buscar a essa outra, por que vos aventurais a tamanhos trabalhos?". E declarando-lhe então a razão disto, pelas melhores e mais bem enfeitadas palavras que então ocorreram, esteve um pouco suspenso, e bulindo três ou quatro vezes com a cabeça, disse para um homem velho que estava junto dele: - Conquistar esta gente terra tão alongada da sua pátria, dá claramente a entender que deve haver entre eles muita cobiça e pouca justiça. A que o velho respondeu: - Assim parece que deve ser, porque homens que por indústria e engenho voam por cima das águas todas, para adquirirem o que Deus lhes não deu; ou a pobreza neles é tanta que de todo lhes faz esquecer a sua pátria, ou a vaidade e a cegueira que lhes causa a sua cobiça é tamanha que por ela negam a Deus e a seus pais. (Capítulo 122)

Versão original:

El Rey mandou então que cessasse a musica dos estromentos, & disse ao Mitaquer, pregunta a essa gente do cabo do mundo se tem Rey, & como se chama a sua terra, & que distancia auerá della a esta do Chim em que agora estou, a que hum da nossa companhia em nome de todos respondeo, que a nossa terra se chamaua Portugal, cujo Rey era muyto grande, poderoso, & rico, & que della a aquella cidade do Pequim aueria distancia de quasi tres annos de caminho, de que elle fez hum grande espanto como homem que não tinha esta maquina do mundo por tamanha, & batendo tres vezes na coxa com hũa varinha que tinha na mão, & os olhos postos no Ceo como que daua graças a Deos, disse alto que todos o ouuirão, Iulicauão julicauão minaydotoreu pisinão himacor dauulquitaroo xinapoco nifando hoperau vuxido vultanitirau companoo foragrem hupuchiday purpuponi hincau, que quer dizer, ò criador, ò criador de todas as cousas qual de nós outros pobres formigas da terra poderâ comprender as marauilhas da tua grandeza? fuxiquidane, fuxiquidane, venhão cà, venhão câ, & acenando com a mão nos fez chegar até os primeyros degraos da tribuna onde os quatorze Reys estauão assentados, & nos tornou a preguntar como homẽ espantado do que tinha ouuido, pucau, pucau? que quer dizer quanto? quanto? a que respondemos o mesmo de antes, que quasi tres annos de caminho, a que elle tornou a dizer, que porque não vinhamos antes por terra que auenturarmonos aos trabalhos do mar? a que se respondeo que por a terra ser muyto grande, & auer nella Reys de diuersas naçoẽs que o não consintirião, a que elle tornou, que he o que vindes buscar a essoutra, porque vos auenturais a tamanhos trabalhos? & declarandolhe então a razão disto pelas melhores & melhor enfeitadas palauras que então o correrão, esteue hum pouco suspenso, & bulindo tres ou quatro vezes com a cabeça disse, para hũ homem velho que estaua junto delle, conquistar esta gẽte terra tão alongada da sua patria, dâ claramente a entender que deue de auer entre elles muyta cubiça & pouca justiça, a que o velho, que se chamaua Raja Benão, respondeo, assi parece que deue ser, porque homẽs que por industria & engenho voão por cima das agoas todas, por aquirirem o que Deos lhes não deu, ou a pobreza nelles he tanta que de todo lhes faz esquecer a sua patria, ou a vaydade, & a cegueyra que lhes causa a sua cobiça he tamanha que por ella negão a Deos, & a seus pays. (Capítulo 122)

Como todo grande livro, a Peregrinação contem em si o seu próprio contra-discurso.

Em tempo: Mendes Pinto de fato visitou a China e foi dos poucos ocidentais a entrar em Pequim, mas suas descrições dos mongóis (que ele chama tártaros) não tem nada a ver com os mongóis de verdade. Provavelmente, todo esse trecho é pura ficção.

* * *

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05.02.12


Categorias: Turismo, Livros


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