o tempo apaga tudo

procurei e procurei na internet até conseguir descobrir o que diabos quer dizer "ô cride fala pra mãe" na música dos titãs. aliás, até a internet, fiquei décadas em dúvida: era cride? cribe? pibe, como chamam moleque na argentina? que raios de palavra era essa??!! e, no fim das contas, era um bordão televisivo que quase todo mundo conhecia na época.

raul seixas fala do peg pag em "é fim do mês" e "gita" e das casas da banha em "tu és o mdc da minha vida", duas redes de supermercados cariocas que sumiram faz décadas. novos ouvintes não devem fazer ideia do que sejam. gente de fora do rio talvez não entendesse as referências nem naquela época!

(aliás, curiosidade: "peg pag" era o nome genérico que se davam aos mercados onde o próprio cliente pegava a mercadoria na gôndola e levava ao caixa, em oposição ao mercadinho mais tradicional [no rio, ainda tem um em santa teresa] onde você vai até o balcão e pede pelo produto. com o tempo, quase todos os mercados ficaram assim e o termo caiu em desuso. na música do raul, se referia a uma rede carioca de supermercados, depois comprada e incorporada pelo pão de açucar. a loja mais famosa ficava ali na mario ribeiro com bartolomeu mitre, do lado do miguel couto.)

revisei agora meu livro de contos onde perdemos tudo, escrito há vinte anos, e em alguns pontos ele parece mesmo um romance histórico, relíquia de um mundo sem internet, celular, dvd, tv a cabo, etc, repleto de referências que devem soar misteriosas aos leitores mais jovens.

trechinho de onde perdemos tudo:

— A gente estava na sua casa de Capivara, lembra?, eu, você, o Bianor e a namorada. Sei que foi no final de novembro de 88 porque a Odete tinha acabado de morrer. Apostamos no assassino e a namorada do Bianor — como é que era mesmo o nome dela?

— Fanny.

— A Fanny me deu essa foto, sua e do Bianor, que ela tirou no colégio. Eu não tinha onde guardar e enfiei no Tempo e o Vento, que eu estava tentando ler na época. Depois, desisti do livro e esqueci da foto. Ela ficou lá cinco anos.

Por pura falta do que dizer, Ramiro observou:

— Todos erraram. Eu achava que era o Eugênio. Você, a Maria de Fátima. A Fanny... não lembro.

— Nem eu. Mas o Bianor...

Começaram os dois a rir.

— O Bianor apostou dinheiro que tinha sido o Bruno!

— Quanto?!

— Sei lá! Nem lembro que moeda era!

Estavam gargalhando. A cabeça de Jacqueline caiu para frente e encostou no peito dele. Ramiro deu um pulo pra trás, e ela também, e o riso parou.

e em mulher de um homem só:

... e as duas conversavam, a bisavó ouvia a Voz do Brasil todo dia e sempre perguntava pra Libeca suas opiniões, o que pensava desse novo Plano Cruzado, se era fiscal do Sarney, se a seleção tinha chances de levar o tetra no México ou até se a Viúva Porcina devia mesmo era ficar com o Roque, e era bom porque isso forçava Libeca a se informar e, além de ler Dostoievski e não entender, também enfrentava a Veja todo domingo. Enfim, quinze anos.

alguém sabe do que estou falando ou sou o único velho aqui desse blog?

 

03.02.12


Categorias: Cotidiano


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Comentários:


Comentário de: Mário Marinato · http://www.osarcofago.blogspot.com

Fique tranquilo, Alex, eu também entendo as referências. Você não é o único velho.

PermalinkPermalink 03.02.12 @ 10:37



Comentário de: Pedro

Tenho 25 anos e não vivi os acontecidos do texto como presente, apenas como passado saudoso no TV Show. Minto, ainda torci pela viúva Porcina no Vale a Pena Ver de Novo.

Mas tudo isso vai ser esquecido (se já não é por quem tem seus 10 anos), com certeza.

PermalinkPermalink 03.02.12 @ 10:41



Comentário de: Thiago

Você tem toda razão

Mas não era Guimarães Rosa que citava os nomes dos pássaros e outros bichos para que pelo menos aquele registro existisse?

Você podia não ter citado Odete, e poderia ter uma história mais 'flexível no tempo' ou manter esse pequeno registro cultural, que é um pontinho de uma história que já passou.

O tempo apaga tudo, mais cedo ou tarde. Até o planeta terra vai virar pó um dia, mas uma pequena janela do passado se torna um quebra-cabeça para o futuro. E se ela não 'hold back' a história pra quem não conhece os detalhes melhor que seja assim

PermalinkPermalink 03.02.12 @ 10:42



Comentário de: Leonardo Xavier · http://discordando-do-mundo.blogspot.com

Eu acho que de certo ponto as datações históricas são interessantes. Eu achei super interessante ao ler Moby Dick, o jeito que o Melville descreve o armazenamento de alimentos para as expedições ou modo como eles enxergavam as pessoas enxergavam as classificações filogenéticas de um modo diferente.

PermalinkPermalink 03.02.12 @ 11:02



Comentário de: Carolina Vigna-Marú · http://vignamaru.com.br/

Alex,
Sou do time de velhinhos também. :)

Uma vez um professor meu me disse que era uma referência a Euclides da Cunha (Cride = Euclides), mas nunca achei bibliografia a respeito.

"A televisão me deixou burro, muito burro demais"... Essa música é absolutamente genial.

Bjs!

PermalinkPermalink 03.02.12 @ 11:16



Comentário de: Monica

O tempo apaga tudo, menos o envelhecimento...

PermalinkPermalink 03.02.12 @ 11:50



Comentário de: Bruno Stern · http://cornetasevuvuzelas.blogspot.com/

Talvez as próximas edições de seus livros precisem de notas de pé de página para explicar as referências.

De todas as citações, acho que a mais datada é colocar "informar" e "veja" na mesma frase.

PermalinkPermalink 03.02.12 @ 13:55



Comentário de: Fabio Storino · http://storino.blogspot.com

Aproveitei a deixa para descobrir o que (e por que) o Herbert Vianna canta antes de "Favela da Maré" na música "Alagados". 26 anos depois, tudo esclarecido (goo.gl/tt1p5)!

PermalinkPermalink 03.02.12 @ 14:21



Comentário de: Alex Castro Email

fabio, e isso nao é nada. eu tenho uma amiga que trocava de biquini sem parar!

PermalinkPermalink 03.02.12 @ 14:23



Comentário de: Alex Castro Email

bruno, vc me fez rir aqui.

PermalinkPermalink 03.02.12 @ 14:24



Comentário de: Alex Castro Email

carol, essa frase aparentemente era um bordão do comediante ronald golias.

PermalinkPermalink 03.02.12 @ 14:24



Comentário de: Carolina Vigna-Marú · http://vignamaru.com.br/

Ahá! Faz MUITO mais sentido do que Euclides da Cunha. :D

PermalinkPermalink 03.02.12 @ 16:29



Comentário de: Menina Eva · HTTP://www.interney.net/blogs/cintaliga

Alex, eu tenho 26 anos e entendo as referências, mesmo não tendo assistido as novelas quando passaram pela primeira vez.

PermalinkPermalink 03.02.12 @ 17:15



Comentário de: Roger Moreira

poxa, o cara passou os anos 80 inteiros, toda semana na bandeirantes, falando esse bordão e vcs não sabiam.

PermalinkPermalink 03.02.12 @ 19:33



Comentário de: Roger Moreira

ah, e peg pag ainda é nome genérico pra mercadinho em tudo quanto é cidade pequena.

PermalinkPermalink 03.02.12 @ 19:35



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