peregrinação, de fernão mendes pinto. capítulo 98, por volta de 1543. aprisionado pelos chineses, mendes pinto está sendo levado prisioneiro de nanquim para pequim. a viagem é feita de barco, por rios que atravessam o coração econômico da china. pelo caminho, mendes pinto vai observando a impressionante riqueza do país e os costumes que mais lhes parecem dignos de nota:
(aproveitem para reparar como a língua mudou muito pouco em quinhentos anos. o português de mendes pinto é muito mais próximo de nós que o inglês de shakespeare, ou mesmo o espanhol de cervantes, dos falantes contemporâneos dessas línguas. nesse trecho, só uma palavra me fez ir ao dicionário [veniaga]; as poucas outras mais estranhas são ou facilmente compreensíveis pelo contexto [sementeyra, vrca, etc] ou claramente não-importantes [almotaçaria]. em caso de dúvida, leia alto.)
"E já que a occasião do que vou tratando me dâ licença para falar de tudo, direy o que mais vimos, & de que nos não espantamos pouco, por vermos de quão baixas & quão immundas cousas lança mão a cubiça dos homens para seu proueito, & isto he que vimos outra muyta gente que trata em comprar & vender o esterco dos homens, o qual entre elles, não he tão mà veniaga[1], que não aja muytos mercadores della muyto honrados & ricos, & este esterco serue para estercar as sementeyras em terras alquéuadas de novo[2], porque achão que he milhor que o de que comummente se vsa. E os que comprão isto andão pelas ruas tangendo em humas taboinhas como quem pede para São Lázaro, & assi declarão o que querem comprar, porque não deixão de entender quão çujo he o seu nome proprio, & quão mao para se apregoar pelas ruas. E he tão boa esta veniaga entre elles, que às vezes se vé num porto de mar entrarem numa maré duzentas & trezentas vellas a carregar della, como nesta nossa terra entrão vrcas[3], a carregar de sal, & ainda se lhe dà muytas vezes por repartição de almotaçaria[4], conforme a falta que ha della na terra, & por ser este esterco tão excellente para as sementeyras, dà esta terra da China tres nouidades[5] cada anno."
* * *
1. Negócio, mercadoria. Essa foi a única que fez ir ao dicionário.
2. Em português de hoje, sementeira e alqueivar. Ou seja, o esterco seria usado na semeadura das terras onde se fazia rodízio de colheitas, para não esgotá-las. Os chineses estão entre os primeiros povos tanto a usar esterco quanto a fazer rodízio de terras. Essas técnicas faziam que essa região do baixo Yangtzé tivesse três colheitas anuais, algo bastante impressionante pra época.
3. Dá pra deduzir que se trata de um tipo de barco para transporte de carga.
4. Em Portugal, "almotacé", termo de óbvia origem árabe, era o burocrata que fazia inspeção dos pesos e medidas das mercadorias. Logo, deduzi que "almotaçaria" era o trabalho que ele realizava. Como claramente não parece importante na narrativa, não valeu uma viagem ao dicionário para confirmar.
5. Nunca tinha visto a palavra usada assim, mas é claro que ele quer dizer "colheitas".
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gostou? estou finalmente aproveitando meu auto-exílio para ler mendes pinto de cabo a rabo, e estou tendo orgasminhos. se for comprar, compre clicando por aqui. a edição brasileira, da nova fronteira, em dois volumes, não tem notas, mas o português está 100% modernizado e bem mais fácil de ler que o trecho acima.
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