agruras de um pobre escritor revisando as provas do seu próximo livro

a revisora botou todos meus deus, natal e páscoa em maiúscula, mas até aí tudo bem. já troquei de volta. nenhum livro assinado por mim vai com deus em maiúscula.

pior foi o seguinte. na introdução do livro, assinada por mim, ela mudou a frase

"Me dão muita alegria."

para

"Dão-me muita alegria."

já fiquei com medo. que tipo de revisora acha que "dão-me" é uma construção aceitável na introdução (escrita em tom totalmente informal) de um livro de ficção a ser publicado em 2011? como ela não tem a sensibilidade de saber que, embora "dão-me" seja correto gramaticalmente, é daquelas construções tão incomuns que acaba sendo até um elemento de caracterização do personagem? tipo, você bota um personagem falando "dão-me" em 2011 e isso já te diz muito sobre quem ele é (um chato), quais são suas prioridades (parecer que é culto), que tipo de educação ele teve (excessiva), etc.

o problema naturalmente não é de gramática, mas de uma falta de ouvido e de sensibilidade para as sutilezas da comunicação entre pessoas e da literatura contemporânea. é uma mudança que transcende a mera gramática e reescreve e reinterpreta o próprio conteúdo da mensagem.

enfim, estou agora revisando o livro com pente fino. depois dessa, se aparecer um pedreiro usando mesóclise na página 45 não vou me surpreender.

 

29.08.11


Categorias: Livros, Artes


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Comentários:


Comentário de: Iracema · http://www.puxandocabelo.blogspot.com

Esses dias li sobre a dificuldade que tiveram Clarice Lispector e Guimarães Rosa com alguns editores e com traduções para outros idiomas.

Na próxima, manda o livro com um "manual para revisões de Alex Castro", com orientações do tipo: o meu deus é com minúscula; pronomes no início de frases foram intencionais, etc etc etc... :)

PermalinkPermalink 29.08.11 @ 10:02



Comentário de: Marcus · http://twitter.com/marcuspessoa

Ah, como eu odeio essa proibição idiota de próclise no início da frase! Faz pelo menos uns quinze anos que eu escrevo do jeito que parece mais natural, independente de estar certo ou errado (e essa frase contém um exemplo disso).

PermalinkPermalink 29.08.11 @ 10:08



Comentário de: aiaiai

Solidária na raiva!

PermalinkPermalink 29.08.11 @ 10:27



Comentário de: Diogo Batalha · http://www.twiter.com/diogobatalha

Apoiar-te-ei, camarada.

PermalinkPermalink 29.08.11 @ 10:36



Comentário de: Amora.

Circule as frases ou palavras que você não quer
que eles mudem de jeito nenhum. Aí coloca um
post-it na capa dizendo "pelo amor de deus não
alterem o que estiver circulado".

As pessoas costumam acatar as coisas que pedimos
na base do peloamordedeus.

PermalinkPermalink 29.08.11 @ 10:39



Comentário de: FYI · http://fyiblog.wordpress.com/

"nenhum livro assinado por mim vai com deus em maiúscula." eh tao silly quanto a editora querer usar "Dão-me". Eu diria ate mais.

PermalinkPermalink 29.08.11 @ 10:40



Comentário de: Alex Castro Email

Oi Paulo.

Me explica qual é o silliness?

Veja. Eu tambem trabalho com revisao, traducao e copidesque. A gente nao pode "colocar palavras" na boca do autor que assina o texto - pq o texto vai assinado por ele e não por nós.

Imagina o seguinte exemplo. Estou revisando o texto de um babaca que insiste em chamar a Dilma de "presidente" apesar de ela já ter manifestado a vontade de ser chamada de "presidenta" e essa palavra ser correta e aceitável.

eu nao posso jamais, só porque eu acho que deveríamos chamá-la de "presidenta", pegar o texto do babaca e mudar todos os "presidente" para "presidenta", pq isso seria colocar palavras na boca dele e poderia até dar confusao. amanhã, alguém comenta que o fulaninho virou esquerdopata, está até chamando a Dilma de presidenta, etc. E ele, com razao, vai ficar puto comigo por ter interferido em seu texto.

Então, é por isso que os autores fazem provas cuidadosas dos livros, justamente pra confirmar que o revisor, o editor, ou o copidesque não colocaram palavras em sua boca.

no meu caso, nao é questao de achar que deus se escreve com minúscula ou maiúscula. eu sou ateu e escrevo contra religião há anos, sempre com deus em minúsculas. se o meu livro sai com a palavra deus em maiusculas, algum leitor desavisado pode achar que me converti, ou que mudei de ideia, ou que suavizei minha posição, etc, e nada disso nao é verdade.

entao, o problema de colocar deus em maiuscula no meu livro é justamente esse: é impreciso e passaria uma idéia errada ao leitor.

agora, me explica, pq vc acha silly se preocupar desse modo com a precisao e com o accuracy?

PermalinkPermalink 29.08.11 @ 10:57



Comentário de: marcos nunes · http://rachelsnunes.blogspot.com

O problema do revisor de texto é que ele gosta de comprovar sua excelência em Gramática para humilhar os autores, sem perceber que a Gramática, em literatura, tem que ser suspensa quando se verifica a adequação da linguagem ao coloquial e ao estilo.

PermalinkPermalink 29.08.11 @ 11:31



Comentário de: marcos nunes · http://rachelsnunes.blogspot.com

Ah, li o comentário ao comentário acima, e só depois reparei que no texto original deus está em minúscula, procedimento que também utilizo pelas mesmas razões, e mais de uma vez vieram reparar isso e me chamar de presunçoso e sei lá mais o quê, além dos mandados ao inferno de sempre. Mas eu reconheço: também fico incomodado cada vez que leio a palavrinha com a primeira letra maiúscula. Penso que a razão deve ser no sentido de ressaltar o caráter falocrático desse deus aí...

PermalinkPermalink 29.08.11 @ 11:37



Comentário de: dra

odeio revisores.
são raríssimos os q sabem fazer o seu trabalho sem querer ser mais autor do q o próprio.


PermalinkPermalink 29.08.11 @ 14:03



Comentário de: Biajoni · http://www.biajoni.com.br

né?

PermalinkPermalink 29.08.11 @ 16:51



Comentário de: Paulo · http://fyiblog.wordpress.com/

Alex
Eh silly porque ninguem leva o fato de Deus ou deus signifcar algo tao diferente. As duas formas sao aceitaveis e o editor pode muito bem mudar de um para o outro simplesmente porque a forma mais comum eh Deus. Vc vai la e corrige oras. Da mesma forma que vc pode ir la e corrigir o "Dao-me" ou o que quer que seja.

So escritor acha que os leitores ficam obsecados com cada detalhe de cada palavra escrita. Eh uma forma de hubris na minha opiniao.

PermalinkPermalink 29.08.11 @ 18:31



Comentário de: Arthur

É foda os escritores se importarem tanto com as palavras neh?

Não tem nada mais importante pra dar atenção não?

PermalinkPermalink 29.08.11 @ 18:47



Comentário de: Alex Castro Email

caramba, paulo, vc fala sério mesmo? será que só consegue ver o seu próprio umbigo? vc faz alguma ideia como funciona uma editora ou uma redacao de qualquer coisa?

cada texto eh escrito por um autor que considera sim os pros e os contras de qq palavra... se seculo deve ser escrito em numerais ou algarismos romanos... se deus eh em minusculas ou maiusculas... depois esse texto passa por um revisor, que considera todas essas questoes de novo... depois, em alguns lugares, por um fact-checker, que vai repensar cada afirmacao... depois por um copidesque, que tambem vai considerar o texto palavra por palavra.... depois pelo editor, que vai ter a palavra final, e tb vai ver o que todo mundo fez e, as vezes, passar a tarde inteira discutindo com a equipe de autores/jornalistas, revisores, tradutores, copidesques e outros editores qual eh a melhor palavra pra se usar ou se, por exemplo, internet deve ser grafado com maiusculas ou minusculas.... depois disso, muitas vezes o texto passa por um segundo editor ou um segundo copidesque, que basicamente tenta pegar qualquer coisa que os outros nao pegaram... e, por fim, em departamentos de literatura como o meu, pelo mundo inteiro, professores e estudantes sentam sim e estudam e dissecam textos nos seus menores detalhes, considerando inclusive o que decisoes de maiusculas e minusculas revelam sobre os autores, sobre o mercado, sobre a epoca... eh todo um mercado de bilhoes de dolares, em todo o mundo, de pessoas que passam o dia inteiro, investem horas, consultam mil obras, pra decidir como uma palavra deve ser escrita, qual eh a melhor palavra, etc...

e pra vc tudo isso eh silliness? tudo isso se resume a hubris de autor?

caramba. macaco soh enxerga o proprio rabo.

PermalinkPermalink 29.08.11 @ 18:51



Comentário de: Alex Castro Email

arthur, o paulo eh o tipo do cara que iria numa convencao de matematicos e acusaria os caras de se importarem demais com numeros.... po, que besteira, gente! sao soh numeros, poxa vida!

PermalinkPermalink 29.08.11 @ 18:52



Comentário de: aiaiai

ai kraio! kkkkkkkkkk
um escritor q se preocupa com as palavras deve ser doido...kkkkkkkkkk
Po, alex, pq vc não se preocupa mais com, por exemplo, q tipo de comida o revisor come? É uma coisa muito mais importante para o seu livro do que as palavras!

(não aguentei, to rindoalto)

PermalinkPermalink 29.08.11 @ 20:20



Comentário de: rachel

Alex, em defesa do Paulo: tenho quase certeza que ele estava sendo irônico.

PermalinkPermalink 30.08.11 @ 08:52



Comentário de: João Paulo Cursino · http://sratoz.wordpress.com

Mas Frodo não é com maiúscula? Zeus não é com maiúscula? (Sim, eu sei que você escreve deus com minúscula há anos.)

Quanto à colocação pronominal -- pois é. No Brasil, a gente prefere mesmo a próclise, né. Normalmente, tento ser conciliador: evito próclise proibida, mas também não uso ênclise desconfortável. O único caso que não tolero é o "lhe" começando frase, coisa que J. Amado tanto fazia, porque é esquisito mesmo.

Agora, sa'duma coisa? Advogados e juízes A-DO-RAM mostrar erudição COMETENDO ERROS! Enfiam na cabeça que ênclise = cultura mas não sabem português suficiente para exercerem essa "cultura". Aí, só usam ênclise -- mas só onde ela é PROIBIDA, como neste trecho: "os réus não vestiram-se apropriadamente..." Já onde a ênclise é obrigatória, não a usam.

Então. Aqui no Brasil, existe esta dissociação: a escola nos manda usar ênclise como regra, mas as exceções de próclise são tão, tão numerosas que superam a regra em número... Atribuo isso a uma disseminação histórica da próclise no falar da gente, que a gramática só oficializou; em Portugal a ênclise teria permanecido... Mas nunca estudei isso a sério, com dados para embasar minha hipótese.

Mas diga-me cá, Alex: que é "educação excessiva"? Existe educação demais? Não seria talvez que "educação excessiva" seria, na verdade, "educação de menos" de pessoas que acham que já têm "educação demais"? Porque, quanto mais você estuda, mais conclui que não sabe... Então toda educação acaba sendo "de menos"... E, se o sujeito acha que já é um sujeito instruído, na verdade a conclusão automática é que ele ainda não se instruiu o bastante...

Ou não. :-)

PermalinkPermalink 30.08.11 @ 10:03



Comentário de: Alex Castro Email

conheco mt gente com educacao excessiva. é gente que gosta de corrigir o portugues do outro e odeia filme dublado, mas não tem empatia, não tem bondade, não olha pras pessoas a sua volta.

PermalinkPermalink 30.08.11 @ 10:08




ha. um brodi veio dar pitaco no meu bloguinho, dizendo que como estudante de jornalismo, seria mais apropriado eu usar a gramatica corretinha. a unica coisa que consegui dizer foi "meucu". no profissional, na faculdade, ok, me encham o saco, mas no meu pessoal eu vou ser quem eu sou...
agora, imagino que quando é o seu livro e nao o blog deve ser ainda mais chato! grrrr.

nao entendi o bafafa em cima do Deus x deus. unxi....é tao claro que uma simples letrinha pode marcar um posicionamento. nao é só escritor que acha que os leitores ficam obcecados com detalhes das palavras nao. eu, como leitora, reparo muito nisso, uai.

PermalinkPermalink 30.08.11 @ 13:51



Comentário de: Saints Jersey · http://www.saints-jersey-shop.com

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PermalinkPermalink 30.08.11 @ 21:36



Comentário de: Ulisses Adirt · http://incautosdoontem.opsblog.org/

"inclusive, é bom dizer q eu não tenho usado minúsculas em quase todos os meus textos à toa."

PermalinkPermalink 31.08.11 @ 15:20



Comentário de: Roger Moreira

JP Cursino,

Gramática eu não discuto muito não, eu mesmo sempre achei chato. Mas coisa que me incomoda é o uso errado de palavras, por vezes até invertendo o seu significado.
Quantas vezes já lí petições em que o sujeito usa palavras como epígrafe, sem saber o que significa.
Tipo "endereço em epígrafe", só que não tinha nada em epígrafe, mas sim no radapé. O cara usa a palavra como se significasse algo já constante em qualquer lugar (e não em epígrafe) ou como algo em negrito ou sublinhado. Por aí vai... O cara quer fazer bonito, mas acaba é fazendo papel de bobo.

PermalinkPermalink 01.09.11 @ 19:14



Comentário de: Permafrost · http://drplausivel.blogspot.com

Alex,
Achei ótimo vc qualificar "excessivo" como um "tipo" de educação. E ¿não é q existe mesmo esse tipo?

Qto ä revisora, é normal. Ela sabe q um monte de gente vai olhar o texto tbm, então ela põe 'Deus' por ser estatìsticamente mais provável. Tbm há q lembrar a quantidade de textos horrendamente escritos q passam pelos olhos dela. ¿Como é q ela vai saber onde o teu se enquadra?

Mas 'dão-me' é realmente coisa de ouvido de lata.

Só uma curiosidade minha: ¿Vc escreve 'Jeová' e 'Satanás' com minúscula tbm? :•;D

PermalinkPermalink 02.09.11 @ 19:14



Comentário de: Ale

É revisora de editora ou freela?

Se for de editora, ela tem manual pra seguir, sendo 'construção aceitável' (do seu ponto de vista) ou não.

PermalinkPermalink 03.09.11 @ 00:58



Comentário de: Ó de Espanto

Como é que um "autor" que não sabe sequer que uma frase se inicia com maiúscula, e que nomes próprios se escrevem com maiúscula inicial, pode criticar um revisor?

PermalinkPermalink 25.09.11 @ 15:07



Comentário de: Breno Aguiar · http://www.tutoresnarede.com.br

O pior é que conheço uma pessoa que gosta de falar como se tivesse escrevendo um artigo para uma revista de advogados!
É insuportável!

PermalinkPermalink 09.11.11 @ 12:36



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