tem uma coisa que passei a vida inteira tentando explicar pras pessoas. me perguntam como posso ser tão (seguro/bem-resolvido/feliz/etc) e eu respondo. elas entendem mas não absorbem. permanecem tristes, amarguradas, infelizes.
essa semana, na época, a eliane brum explicou tudo bem melhor que eu. um trecho:
Para viver não há roteiro nem manual de instruções, estamos cansados de saber. Mesmo que nos bombardeiem de todos os lados e por todos os meios, 24 horas por dia, na tentativa de nos impor um jeito “certo” de estar no mundo, viver é viver. Ou seja, uma parte de escolha, outra de incontrolável. É com as nossas escolhas, mesmo que elas nos pareçam aquém das nossas expectativas, que precisamos ficar em paz. Vejo gente sofrendo porque caiu no conto da família doriana e agora se vê às voltas com a prestação ad eternum do apartamento, com a ex-mulher ou o ex-marido e com filhos que não parecem tão felizes assim. Do lado avesso, vejo gente se lamentando porque não comprou o apartamento com financiamento de 25 anos nem teve o casal de filhos nem deu aquele upgrade na tal da carreira porque ocupou seu tempo com outras aventuras.
Nossas escolhas sempre podem nos parecer insuficientes, porque nossa grande dificuldade é com o luto. E para cada escolha há uma perda. Se fui por aqui e não por ali, perdi tudo o que iria acontecer por ali, mas ganhei o que aconteceu por aqui. E vice-versa. Mas, numa sociedade que vende a falácia do gozo imperativo e absoluto, lidar com as perdas é um tormento. Aos 40, porém, é inadiável a compreensão de que não dá para ter tudo. Escolher é ganhar e perder, ao mesmo tempo. Ou, sendo mais precisa, talvez ganhar, com certeza perder. Dá medo, mas é assim que a gente anda.
texto completo: a amnésia dos 40
o que eu digo pros amigos é:
não existe isso de escolha certa. não faz sentido se torturar para decidir qual é o caminho certo. isso só leva a infelicidade. pois no primeiro contratempo você vai concluir que caminho certo era o outro, que você escolheu errado, que é um idiota. (e sempre vai haver um contratempo.) a busca pela escolha certa sempre leva à infelicidade, não interessa o resultado.
e eu convido as pessoas a jogarem fora essa noção de certo. se estão considerando seriamente duas escolhas, então é porque com certeza ambas são "certas", ou seja, ambas tem méritos o suficiente para merecerem consideração e reflexão.
mas a escolha é inevitável. (achar que podemos ter tudo é o maior sintoma de uma personalidade infantil, imatura, narcissista.) então, nos resta medir nossas prioridades e escolher - sempre sabendo que nenhuma escolha é perfeita, sempre sabendo que toda escolha implica uma perda.
uma vez, eu disse no blog que não tinha arrependimentos e caíram vários leitores de pau em mim, dizendo que era impossível, que estava gastando onda, etc. mas eu repito: se você sinceramente encara a vida como expus acima, a própria noção de arrependimento perde o sentido. você não tem COMO se arrepender.
hoje, sabendo tudo o que eu sei, eu não teria ido para os estados unidos em 2005. mas eu hoje só sei tudo o que eu sei porque eu de fato fui para Nova Orleans em 2005 e morei lá por seis anos. e eu sempre vou ter morado seis anos em Nova Orleans. e essa experiência sempre vai ter me modificado e definido. então, não faz nenhum sentido falar em arrependimento. claro que não me arrependo de nada. como poderia?
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