Diário de uma Volta: Um Último Dia

Hoje, quinta, foi meu último dia completo em Nova Orleans. Amanhã, sexta-feira, embarco.

* * *

Acordei e fui pra Oak Street.

No meu restaurante preferido de café da manhã, Oak Street Café, comi um poboy de peito de frango e queijo feta ao som de piano ao vivo. Meu "Mulher de Um Homem Só" está na parede, ao lado dos CDs de outros músicos que andaram por lá. Me despedi do Brad, o dono, do Charles, o pianista, do Sam, do Hank, de todo mundo na cozinha. Não me deixaram pagar pelas bebidas e me deram a sobremesa de graça. Depositei a quantia economizada no chapéu do Charles.

Passei no sebo Blue Cypress Books, pra onde já tinha vendido meus livros, e deixei os últimos pôsteres que eu não queria mais. Me despedi calorosamente da dona, Elizabeth, e da vendedora Morgan, que estuda Creative Writing, trabalha lá e quase foi minha roommante. Nos abraçamos.

Na gibiteria More Fun Comics, deixei meus últimos gibis em consignação. Estavam lá não apenas o dono, o DC, mas também o dono do café gótico ao lado, Zotz, onde escrevi algumas das minhas melhores páginas. Ambos estavam ouvindo heavy metal no volume máximo. Me despedi rapidamente.

(Da Kay, dona do brechó On the Other Hand, eu já tinha me despedido quando deixei lá todas minhas roupas.)

E assim, um estabelecimento de cada vez, uma pessoa de cada vez, me despedi de Oak Street, meu canto preferido de Nova Orleans. Uma ruazinha comercial onde todo mundo sabe o meu nome e eu sei o nome de todo mundo.

* * *

Fui pela última vez à universidade.

Passei umas boas quatro horas na biblioteca digitalizando vários livros (na maioria, cubanos) que não vou ter acesso no Brasil.

No meu escritório, apaguei todos meus arquivos do computador. Limpei as senhas. Deixei as chaves em cima da mesa e fechei a porta.

No escaninho da Annie, deixei minha canga do Biscoito Globo (que costumava ficar pendurada na minha parede) e minha bandeirinha de Cuba. Annie passou um mês comigo em Havana em 2007, e outro mês comigo no Rio em 2008. Semestre que vem, ela estará ensinando em Havana.

Nos escaninhos de alguns professores e colegas, deixei cartões escritos a mão, agradecendo por seis anos de amizades, gentilezas, carinhos, companhias.

Não me despedi de ninguém. A universidade está deserta nessa época do ano.

* * *

Meu cabelo estava uma juba e decidi chegar no Rio parecendo um ser humano e não o João Bafo-de-Onça. Fui até o SuperCuts mais próximo, uma cadeia de barbearias bem vagabunda.

Fui atendido por um sessentão rockabilly de cabeleira abundante e fartas suiças. Quando contei da minha volta iminente, Johnny se acendeu. Disse que tinha se mudado pro Rio ainda durante a ditadura. Foi muito amigo do Léo Jaime. Conheceu Caetano e Tim Maia. Abriu shows pros Stray Cats. Apareceu como ele mesmo em vários capítulos da novela Corpo a Corpo. Viveu no Baixo Leblon os anos 80 e 90, o começo da Aids e a hiperinflação.

Foi para Nova Iorque atrás de maiores oportunidades musicais, mas a fonte secou com o Onze de Setembro. Veio para Nova Orleans e logo levou o Katrina na cabeça. Não teve muita sorte. Hoje, corta o cabelo durante o dia e à noite se apresenta com sua banda Johnny Angel and the Swinging Demons. Sonha em voltar ao Rio e ver como está a cidade às vésperas da Copa e da Olimpíada.

Dei meu cartão para ele. Mandei aparecer. "Se for ao Rio, me procura." Não sei se ele ainda fala carioquês com fluência para entender o que isso significa. Tomara que apareça mesmo. Dei uma boa gorjeta, ele disse "obrigado" em português e eu respondi "de nada".

Apertamos as mãos e saí. Quando chegar no Rio, estarei desfilando com um autêntico corte Johnny Angel. Ficou legal.

(Pra vocês não acharem que inventei, alguns links sobre o Johnny Angel and the Swinging Demons.)

* * *

Jantei no meu restaurante favorito da vizinhança, o Lebanon's, um árabe que faz o melhor húmus do mundo. Já pedi húmus em restaurantes árabes do mundo inteiro e nunca comi nada igual. Eles colocam jalapeño.

Enquanto o sol se punha e começava minha última noite em Nova Orleans, os mosquitos do pântano devoravam meus tornozelos.

Minha companhia no jantar foi meu colega Kurt. Ele é tímido e inteligente, e possui um talento único e inestimável: ao ouvir uma aula e uma palestra, mesmo sobre um tema que ignora completamente, ele sempre faz as melhores perguntas, as mais ricas, as mais frutíferas. Sempre que viaja, Kurt deixa seu carro comigo. Ou deixava. Devo muito a ele.

Depois do jantar, fomos pra minha casa e ele levou a outra estante de plástico. Me ajudou a carregar caixas vazias para o meio-fio.

* * *

Vendi a minha torre de exercícios por quarenta dólares - e já fiquei feliz de alguém levar aquele trambolho daqui.

A Rebecca, que vai ficar com a casa, não quer quase nada que está aqui. Chamou o zelador da igreja do meu quarteirão pra vir pegar o que ele quisesse.

O homem olhou para o meu querido sofá azul (onde sentei e deitei, li e escrevi por seis anos) e disse que não queria nem de graça, mas que nos ajudava a carregá-lo até o meio-fio. As outras duas poltronas, que o Roberto trouxe pra casa em um dia em 2006, ele também não quis nem de graça.

Ficaram na rua.

Meu sofá e uma das poltronas, em frente a minha casa

O zelador da igreja, entretanto, acabou levando muita coisa minha. Um arquivo, vários gaveteiros, um microondas, a outra estante de plástico, minha gaming chair e todos os gibis que tinham sobrado.

A estante de plástico e a gaming chair são duas coisas que eu teria levado comigo para o Brasil.

Enquanto colocávamos tudo em seu caminhão, começou a garoar. E eu vi a chuva caindo sobre meu sofá azul e pensei: agora é que ninguém mesmo vai querer meu sofá velho e úmido.

Mas estava errado. Poucas horas depois, o sofá e as duas poltronas já tinham sumido.

E, daqui a pouco, eu também.

 

01.07.11


Categorias: Comportamento, New Orleans


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Comentários:


Comentário de: Bobinha

Esta série "volta para casa" ficou muito emocionante, maior climão de despedida.

E o Rio, por sua vez, também está promissor em matéria de cenário para seus escritos. Tá um fog danado, cidade entre brumas. Bem pronta para o desembarque de um herói das letras, Alex begins!

PermalinkPermalink 01.07.11 @ 08:36



Comentário de: Alexandre · http://www.nadasou.wordpress.com

Bem vindo de volta! Porque acabou deixando a poltroninha e as estantes?

PermalinkPermalink 01.07.11 @ 10:16



Comentário de: Samuel Santos

Provavelmente já é tarde pra dizer isso, mas boa viagem, Alex.

E um ótimo recomeço no Brasil!

Abraço

PermalinkPermalink 01.07.11 @ 10:40



Comentário de: Iracema · http://www.puxandocabelo.blogspot.com

É verdade...

Eu me emocionei, seja pela TPM ou porque despedidas de cidades são uma coisa muito sofrida, mesmo.

Bom, mas vc, pra que precisaria de objetos fetiche se tem este blog? rsrs

Grandes memórias...

PermalinkPermalink 01.07.11 @ 10:45



Comentário de: dra

boa travessia, chapa!

PermalinkPermalink 01.07.11 @ 11:47



Comentário de: João Ricardo · http://berimbeat.org

"Partiu"

PermalinkPermalink 01.07.11 @ 17:38



Comentário de: Boanoitedarr

Muito estranho tudo isso...

...parece que eu estou me despedindo de algo também...

creepy

PermalinkPermalink 02.07.11 @ 04:50



Comentário de: Boanoitedar

No mais, ("estou indo embora, babe, babe")

boa sorte, Alex.

PermalinkPermalink 02.07.11 @ 04:51



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