Muito obrigado a todos que estão dando conselhos e sugestões sobre minha futura casa. Algumas considerações que norteiam minha vida doméstica:
Cama, sofá, cadeira não devem ser confortáveis - senão, a gente (leia-se, eu) passa o dia sentado, deitado, apático. Nossa vida já é confortável demais: busco sempre diminuir o conforto.
Idealmente, gostaria que fosse tudo em madeira: duro, funcional. Se eu encontrasse pra vender um banco de praça, ou um banco de igreja, colocava na minha sala.
Sofá-cama tem várias vantagens: ele poupa espaço, por ser dois móveis em um só, e ele nunca é muito confortável, o que evita dormir muito ou passar o dia na cama.
Cama não deve passar o dia feita - senão, ela é uma tentação muito grande, sempre chamando para o ócio ou para a putaria. (Lembrem-se que trabalho em casa, o chamado da cama é forte.)
Nada mais saudável do que levantar de manhã cedo... e desmontar a cama. Desfazer os lençois. Fechar o sofá. Encostar o colchão na parede. Tirar a cama do caminho.
O ritual de desmontar a cama simboliza que o dia de trabalho está começando. Do mesmo jeito, o ritual de montar a cama é o sinal de que o dia acabou e que é hora de desacelerar.
Quando me separei, minha ex-esposa levou nossa cama de casal e fiquei dormindo no sofá-cama na sala. Era tão apertado que eu só podia usar a minha mesa quando desmontava o sofá-cama onde dormia. Era o set-up perfeito. (Por outro lado, nosso quarto ficou totalmente vazio, perfeito para tomar sol e fazer ioga.)
Aqui em Nova Orleans, eu tenho dormido pelos últimos seis anos em um colchão. Quando acordo, coloco ele contra parede e é um momento mágico: meu quarto fica enorme, ganha espaço, amplidão. Subitamente, no meio daquele quarto antes tão ocupado, eu agora posso meditar, alongar, fazer ioga. Ou somente deitar no chão, abrir as pernas e os braços, olhar pro teto e.... respirar!
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Em tempo: entendo bem que nem todo mundo tem a mesma vida que eutenho. Entendo que tem gente que perde horas no ônibus, passa o dia num escritório chato fazendo um trabalho repetitivo e, quando chega em casa, quer mais é relaxar.
Minha vida, felizmente, não é assim. Eu passo o dia inteiro em casa. Não tenho chefe. Preciso me auto-motivar a cada minuto. Meu trabalho não tem partes maçantes, burocráticas, repetitivas. Ele sempre exige toda minha capacidade, toda minha atenção, toda minha concentração.
Há muitos anos atrás, Liloló e eu passávamos duas, três horas falando no telefone por dia. Ela ligava sempre do escritório. Aproveitava para fazer durante essas horas as partes mais burocráticas e repetitivas do trabalho.
Mas pra mim (e não estou reclamando!) essas horas eram deliciosamente perdidas. É simplesmente impossível falar no telefone e corrigir prova, preparar aula, escrever romance, pesquisar pra dissertação, até mesmo fazer post pro blog. Simplesmente TUDO o que eu faço exige um nível de concentração e dedicação incompatível com conversas simultâneas.
Então, entendo quem chega em casa e quer uma cama macia, uma TV tela plana, um sofá confortável.
Mas, se a MINHA casa for assim, nunca mais escrevo uma linha. Se minha casa não for um templo ascético dedicado à arte, então minha vida não funciona.
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Dois textos antigos, que eu não lia há anos, sobre a minha separação, minha primeira noite sozinho e a nova arrumação da minha casa:
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Pra meu site não ficar tão, tão vazio, coloquei uma imagem lá, que pra mim tem um grande significado. Vocês sabem o que é?
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