Nossos experts em linguística (que passaram a vida toda estudando a língua) são justamente os anti-carteirada, afirmando repetidas vezes que a língua pertence a TODOS os falantes e que não faz sentido falar em certo e errado.
Enquanto isso, nossa imprensa (sempre tão fetichista por declarações do mítico expert cuja opinião deve ser respeitada por suas ilibadas credenciais acadêmicas), dando uma carteirada-sem-carteira nos experts-que-poderiam-estar-dando-carteirada-mas-não-estão, quer que a língua pertença a ela e que seja ela a decidir o certo e o errado.
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Piada de Sociólogo
Uma historinha, tirada do blog da Karina Brandão:
Cena 1 -
Dois homens estão passando por uma rua e encontram um prédio cheio de rachaduras. Um deles diz:
- Ih, já era, esse prédio vai cair...
O outro responde:
- Não, tem salvação, depende da intervenção, hj em dia tem técnicas modernas de reparo, com tecnologia de último tipo etc.
O outro retruca:
- Que nada! Olha o tamanho das rachaduras. Vai pro chão!
- Tô te dizendo, rapaz. Tem jeito, sim. Eu sou engenheiro civil, estudei cinco anos disso, sou especialista nessa área, te garanto q tem solução.
Ao que o outro responde:
- Ah, bem! Se vc é engenheiro, nem vou discutir. O especialista é você...
Cena 2 -
Dois homens estão passando por uma rua e assistem a um acidente de automóveis, com feridos. Um deles diz:
- Ih, já era, a mulher já vai morrer...
O outro responde:
- Não, tem salvação, depende do socorro rápido, hj em dia tem técnicas modernas de sutura, com laser etc.
O outro retruca:
- Que nada! Olha os miolos dela no chão. Tá morta!
- Tô te dizendo, rapaz. Tem jeito, sim. Eu sou médico, estudei seis anos disso, sou especialista nessa área, te garanto q tem solução.
Ao que o outro responde:
- Ah, bem! Se vc é médico, nem vou discutir. O especialista é você...
Cena 3 -
Dois homens estão passando por uma rua e assistem a uma intervenção da polícia numa favela, com tiroteio. Um deles diz:
- Ih, num tem jeito não, aí só tem marginal, tem que explodir tudo...
O outro responde:
- Não, tem jeito sim, depende de intervenção correta, que leve em consideração a desigualdade econômica e política historicamente construída, buscando uma política de respeito e tolerância, que promova a cidadania, a inclusão social etc.
O outro retruca:
- Que nada! Isso é resultado da miscigenação, povo preguiçoso, essa gente tem que morrer!
- Tô te dizendo, rapaz. Tem jeito, sim. Eu sou cientista social, estudei a minha vida inteira isso, sou especialista nessa área, te garanto q tem solução.
Ao que o outro responde:
- Essa é a sua opinião... num concordo. A minha é a seguinte etc.
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Prescrever vs Descrever
Conversando com um amigo, ele disse:
Que besteira essa polêmica! Esse povo não entende que a linguística é descritiva e a gramática, prescritiva!
E eu tentei explicar a ele que a gramática também é descritiva! O gramático não é o rei da língua, o tirano que decide como todos devemos falar! Ele observa a língua como um físico observa a natureza. O gramático prescreve a conjugação correta do verbo "caber" tanto quanto um físico "prescreve" que massa atrai massa.
Sobre isso, trechinho de um texto maravilhoso do linguista Sírio Possenti sobre essa polêmica -- vale a pena ler tudo:
De vez em quando, alguém diz que lingüistas "aceitam" tudo (isto é, que acham certa qualquer construção). ... "aceitar" é um termo completamente sem sentido quando se trata de pesquisa. Imaginem o ridículo que seria perguntar a um químico se ele aceita que o oxigênio queime, a um físico se aceita a gravitação ou a fissão, a um ornitólogo se ele aceita que um tucano tenha bico tão desproporcional, a um botânico se ele aceita o cheiro da jaca, ou mesmo a um linguista se ele aceita que o inglês não tenha gênero nem subjuntivo e que o latim não tivesse artigo definido.
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A Eterna Busca pela Autoridade
A maioria das pessoas parece sempre estar em uma eterna busca pela autoridade. De modo quase religioso, elas fantasiam que alguém, em algum lugar, sabe das coisas.
Para muita gente, pode ser difícil aceitar que seu próprio idioma (algo tão importante para eles!) exista assim ao deus dará, na língua de tanta gentinha, sem ter alguém que cuide dela, uma autoridade que prescreva regras, alguém que decida!
(Curiosamente, muitas vezes as pessoas que acham que a economia deve correr solta sem intervenção de ninguém... são as mesmas que acham que a língua deve ser controlada e planificada seja pelo governo seja por um exército de gramáticos prescritivos! Já eu sempre achei que a língua se auto-regula muito melhor do que a economia!)
Essa busca vã pela autoridade redentora está muito presente no culto que algumas pessoas prestam ao deus-dicionário. Elas consultam e se referem ao dicionário como se fosse um oráculo definitivo. O dicionário falou tá falado. O dicionário manda. O dicionário sabe.
Nada poderia ser mais tolo. O dicionário é tão dono da língua quanto a gramática: ele não prescreve nada. O dicionarista não é o dono da língua: ele é o servo. Ele é quem segue os falantes, de caderninho na mão, anotando o que falamos, o que passamos a falar, o que não falamos mais.
Quem manda na língua somos todos nós: o dicionarista só obedece.
Se você tem qualquer interesse no funcionamento dos dicionários, recomendo o vídeo abaixo nos mais enfáticos termos: "Dez coisas que eu gostaria que as pessoas soubessem sobre dicionários", uma palestra dada por Erin McKean, editora e lexicógrafa do New Oxford American Dictionary:
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Existe Variante Melhor que Outra?
José Miguel Wisnik escreveu ontem um artigo sobre essa polêmica. Tudo ia muito bem até quase o finalzinho:
O horizonte do pragmatismo é o que me parece estreito, no entanto, no livro do MEC. O domínio da norma culta é justificado, nele, para que o falante tenha “mais uma variedade” linguística à sua disposição, para que não sofra preconceito, para que se desincumba em situações formais que assim o exigem. É muito pouco. A norma culta não é nem um mero adereço de classe nem apenas uma variedade à disposição do aluno para ele usar diante de autoridades ou para preencher requerimentos. A educação pela língua não pode ser pensada apenas como um instrumento de adaptação às contingências. A escrita é um equipamento universal de apuro lógico, que está embutido na estrutura de uma língua dada. Mergulhar nela e nas exigências que lhe são inerentes é um processo de autoconsciência e um salto mental de grandes consequências.
Wisnik parece estar dizendo, a sério, que a chamada convenção da "norma culta" é intrinsecamente melhor do que as demais variantes linguísticas que não tiveram a sorte de serem canonizadas como "norma culta" - e aí fica difícil de concordar.
Sim, as pessoas devem aprender a norma culta porque é através dela que tem acesso, entre outras coisas, ao poder público, mas com base em quê podemos dizer que ela é intrinsecamente melhor que as outras variantes? Existem estudos sobre isso? Que eu saiba, existem, e muitos - e todos falam literalmente o oposto!
Porque, se começarmos a dizer que uma variante linguística é superior a outra, não demora muito vão começar a dizer que existem línguas melhores que as outras, línguas avançadas e línguas menos avançadas -- e esses absurdos que todos os experimentos práticos e teóricos da linguística já desprovaram há décadas.
Só de brincadeira, reescrevi errado um textinho filósofico que gosto particularmente. É impressionante como, apesar do português todo errado (errado de acordo com a norma culta, claro!), o pensamento continua intacto e sua transmissão ao leitor não sofre nem um pouco:
Falaê mermão! Tipo assim, depois me dei conta du siguinte, q msm eu axando q td era mintira ainda assim eu tava axando isso e tava axano isso pq eu existia, sacumé? E issaí deu existir pra poder pensar essas porras td q eu pensu, era impoçiveu d negar, tá sabendo? Ae porisso axei bão usá issaí como o 1º tijolinho da casa dideia q tava levantano, tá ligado?
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Se alguém tem algum dúvida de que lado estão os profissionais do ramo, aqui vai:
Nota oficial da Abralin - Associação Brasileira de Linguística
A linguística surgiu como ciência há mais de um século. Como qualquer outra ciência, não trabalha com a dicotomia certo/errado. Esse é o posicionamento científico, que permitiu aos linguistas elaborar outras constatações que constituem hoje material essencial para a descrição e explicação de qualquer língua humana. ...
Não há caos linguístico, nenhuma língua já foi ou pode ser corrompida ou assassinada, ou fica ameaçada quando faz empréstimos. Independentemente da variedade que usa, o falante fala segundo regras gramaticais estritas. Os falantes do português brasileiro fazem o plural de "o livro" de duas maneiras: uma formal: os livros; outra informal: os livro. Mas certamente não se ouve "o livros". Assim também, não se pronuncia mais o "r" final de verbos no infinitivo, mas não se deixa de pronunciar (não de forma generalizada, pelo menos) o "r" final de substantivos. Qualquer falante, culto ou não, pode dizer (e diz) "comprá" para "comprar", mas apenas algumas variedades diriam "dô" para "dor". Estas últimas são estigmatizadas socialmente, porque remetem a falantes de baixa extração social. Falamos obedecendo a regras. E a escola precisa ensinar que, apesar de falarmos "comprá" precisamos escrever "comprar". Assim, o trabalho da linguística tem repercussão no ensino.
Nota da ALAB - Associação de Linguística Aplicada do Brasil
O grande incômodo, relacionado ao fato do livro relativizar o uso da norma culta, substituindo a concepção de “certo e errado” por “adequado e inadequado”, retrata a incompreensão da imprensa e população em relação ao escopo de atuação de pesquisadores que se ocupam em compreender e analisar os usos situados da linguagem. ...
[O]s “erros” em questão, se interpretados contextualizadamente e explorados de forma interessante em sala de aula, contribuem para o desenvolvimento da consciência linguística, mostrando que apesar de todas as variantes serem aceitáveis, o domínio da norma culta é fundamental para efetiva participação nas diversas atividades sociais de mais prestígio. Se, portanto, situarmos a linguagem, não há razão para polêmica ou desconforto e a crítica daqueles preocupados em garantir o ensino da norma culta torna-se absolutamente nula, sem sentido.
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Leia também:
Um artigo meu sobre o atual estado da língua portuguesa:
A língua portuguesa não está na defensiva, não está decadente, não está morrendo, não precisa ser salva, não precisa ser defendida.
O português, presente em todos os continentes, é a sexta língua mais falada do mundo e a terceira do ocidente. Ele não tem o monopólio de palavras - sim, vários idiomas têm palavra para "saudade". Ele não é mais rico do que nenhum outro idioma. Chega a ser ingenuamente engraçado o patriotismo ignorante de quem bate no peito pra dizer, por exemplo, que o português é mais rico que o inglês. Para começar, ninguém que diz isso consegue me explicar qual é seu critério objetivo de riqueza de uma língua e, quando conseguem (número de vocábulos, etc), é fácil de provar que o inglês é mais rico do que o português.
A questão é outra: e daí? O português não precisa ser mais rico do que ninguém. O português é. E isso basta.
Minha declaração de amor à língua portuguesa:
Jorge Luis Borges falava inglês melhor que a maioria dos ingleses. E lhe perguntaram: por que não escrever sua ficção em inglês? Ele respondeu, borgianamente, que seu destino era a língua castelhana - algo que ninguém jamais vai me ouvir dizer. Gilberto Freyre teve uma biografia parecida com a minha: estudou em escola americana no Brasil e depois foi estudar nos Estados Unidos. Um de seus professores lhe aconselhou que, se escrevesse sua ficção em inglês, poderia se tornar um "novo Conrad". Freyre, hedonisticamente, deu uma resposta que eu também dou: em inglês, ele podia dizer, comunicar o que quisesse, mas só em português ele sabia dançar.
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Outros artigos meus sobre a língua portuguesa:
- A Riqueza da Língua Portuguesa
- A Língua Portuguesa Precisa Ser Defendida?
- A Gramática Não Foi Feita para Humilhar Ninguém
- A Relação das Pessoas com a Língua
- Norma Culta (NoCu)
- Ufanismo Linguístico
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Duas recomendações:
Preconceito Linguístico, de Marcos Bagno, à esquerda, é um livro que me marcou muito: lindo, forte, aberto, tolerante, recomendo sem restrições. É um livro polêmico, para amar ou odiar. Para os que odeiam, sugiro o livro de Arthur Virmond de Lacerda Neto, à direita, onde Bagno é "denunciado nas suas incoerências, na sua intolerância e no seu populismo barato." Virmond é um curitibano maluco (desses de babar pelo canto da boca) que auto-publicou seu "opúsculo anti-Bagno" e, que eu saiba, não possui especialização alguma no assunto, a não ser um claro gosto por escrever "difícil". O último post de seu blog se chama O porque do êxito do “Preconceito Lingüístico” e é impagável. Não resisto a citar uns trechos:
É um livro fácil. ... [S]eu discurso é cativante ao leitor, não esteticamente (porquanto o seu estilo acha-se longe de representar um exemplo de beleza), e sim enquanto formaliza idéias que por alguma forma justificam o distanciamento hoje tão pronunciado entre a fala coloquial e a gramática. Milhares de pessoas pelo Brasil afora, falando mal, sabendo mal o idioma e não se esforçando em sentido inverso, encontraram neste opúsculo uma teorização que lhes consagra o desempenho lingüístico, que o autoriza, que o enaltece, que o eleva a padrão e que avilta aquilo e aqueles que se lhe opõe (a gramática e os seus campeões). É uma disquisição que, do começo ao fim, afaga a vaidade e o ego do leitor, das milhares de pessoas cujo “saber” idiomático ela reputa positivo e que os livra do peso na consciência de dominarem fracamente o seu próprio idioma e do sentimento de que carecem esforçarem-se por o dominarem de fato. ... [S]emelhante apatia é necessária ao êxito do livro, que se serve da escassa qualificação intelectual dos brasileiros e mesmo dela depende: em primeiro lugar, pois quanto menos culto, esclarecido e capaz de pensamento autônomo, que o apetreche para discernir entre a verdade e a mentira, entre o conhecimento e a sua instrumentalização política, tanto menos os leitores de “Preconceito lingüístico” serão capazes de lhe desmascararem os sofismas e a miséria intelectual. ... Convém ao “Preconceito lingüístico” um povo tão fracamente instruído quão possível, para assegurar-se um público leitor proporcionalmente abundante na quantidade e crédulo na qualidade do seu convencimento. Por isto, muito mais do que demagógica e populista, esta é uma obra odiosa, que engana aos incapazes de perceberem que são enganados e que os mantém no engano para mais e melhor os enganar.
Eu sei, eu sei. O menino nem parece sério. O blog inteiro poderia ter sido escrito pelo professor Hariovaldo. Aliás, se compararmos o Virmond e o Hariovaldo falando do mesmo assunto, fica difícil de saber quem é a sátira e quem está falando sério:
O comunismo atroz não vê limites para sua ânsia de dominação irrestrita dos corações e mentes da plebe ignara no intuito da consolidação satânica das ideias diabólicas dos profetas marxistas entre nós. No que tange à comunicação oral retira-se do vernáculo culto o fulgor necessário à literatura do líder (liter), figura obrigatória para o esteio social edificante, representado pelos homens de bem, naturalmente nascidos para a liderança republicana nacional. Permeando-se o ambiente linguístico com a ofensa à norma culta, rebaixa-se a nata social com a desqualificação literária em pról do falar da gentalha, incutindo subliminarmente os padrões gramaticais dessa classe infame, de maneira sutil, imperceptível e inevitável aos melhores preparados, apesar de todo os nossos esforços em fugir desse estratagema maldito.
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Passei o livro Preconceito Linguístico, de Marcos Bagno, a vários colegas aqui do Departamento de Espanhol e Português da minha universidade. Todos ficaram maravilhados e prontamente passaram o livro a outros colegas. O comentário mais frequente foi:
"caramba, que livro lindo! Como é que pode não existir nada assim pra língua inglesa?!"
(E eu respondi: "olha, deve ter mas, ó, se não tiver, você escreve!")
Meu conselho: aproveite essa polêmica boba pra comprar e ler Preconceito Linguístico. Depois, você me conta. É bom demais. Um livro pra abrir a cabeça por só doze reais.
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