Ruralistas de Hoje, Escravistas de Ontem

Como sempre digo, não entendo nada do mundo contemporâneo. Sou menino do século XIX: ultimamente, prefiro ler A Marmota Fluminense de 1855 do que o Globo de ontem pela internet.

Slave Ship Alabanoz

Mas, enfim, quando vejo debates ambientalistas como o de Belo Monte; quando vejo ruralistas brasileiros denunciando o movimento verde Racismo LLLinternacional; quando escuto argumentos como "ah, eles souberam desmatar suas florestas quando era hora de se desenvolverem economicamente, mas quando é a nossa vez nas nossas florestas, aí não pode mais!"; etc, eu me lembro dos debates abolicionistas do século XIX.

Pois a Grã-Bretanha também decretou sua abolição antes de todo o ocidente e, logo em seguida, saiu em uma verdadeira cruzada marítima para convencer o resto do mundo - por bem ou por mal, abordando e capturando inúmeros navios brasileiros e abertamente desrespeitando a soberania do Império. Apenas entre 1849 e 1851, os britânicos capturaram noventa navios-negreiros brasileiros.

  Caetana Diz Não: Histórias de Mulheres da Sociedade Escravista Visões da Liberdade

Nessa época, uma guerra naval contra a Grã-Bretanha parecia inevitável e houve até mesmo uma subscrição pública para financiar a compra de navios de guerra - que acabariam sendo usados contra o Paraguai. Ironicamente, uma das consequências contraditórias da campanha naval antiescravista britânica foi criar entre nós uma atmosfera de tamanho nacionalismo exacerbado que qualquer manifestação contra o tráfico de escravos era vista como anglófila e antibrasileira. Nesse contexto, qualquer movimento abolicionista brasileiro seria impossível. Escreveu Joaquim Nabuco, em O Abolicionismo:

"A escravidão procurou, por todos os meios, confundir-se com o país, e, na imaginação de muita gente, o conseguiu. Atacar a bandeira negra, é ultrajar a nacional. Denunciar o regime da senzalas, é infamar o Brasil todo."

Mas, enfim, as queixas e argumentos da nossa elite imperial escravista, na contramão dos ventos filosóficos do século, é bastante similar às queixas e argumentos de nossa elite ruralista atual, também na contramão de sua época.

Da Senzala à Colônia  Abolicionismo

Um opúsculo de 1840, "Justificação das reclamações apresentadas pelo governo brasileiro ao de S. M. britânica", é representativo das queixas da elite imperial:

"Prudente em decretar a abolição do comércio da escravatura quando se tratava de seus súditos, nenhum princípio de pública utilidade foi mais respeitado desde que tratou a Inglaterra de o fazer acabar nas outras nações. Dezoito anos discutiu no seu Parlamento a total proibição deste comércio indigno da Cristandade: então todo o tempo era pouco para que os capitais nacionais não fossem subtamente removidos dali: todo o tempo era pouco para advertir às colônias inglesas que era de mister e forçoso procurar para sua agricultura braços que não fossem escravos. A humanidade então não merecia o mágico culto que se lhe deu depois quando não eram já as colônias inglesas que deveriam ser providas de trabalhadores: quando já não eram os capitais ingleses que iam ser sacrificados, mas sim os capitais, a agricultura, e toda a indústria nascente de países que apenas começavam a aparecer no grande quadro das nações independentes. A respeito desses, toda a concessão era demasiada, toda a prudência era um crime atroz aos olhos da filantropia." (Citado em Viotti da Costa, Da Senzala à Colônia, 413)

Ou seja, diziam nossos escravistas, quando estava pesando no bolso deles, os gringos demoraram o tempo que precisou demorar, pensaram em todas as eventualidades, usaram de toda a cautela. Ninguém estava botando pressão para salvar a humanidade - ou o planeta. Mas agora que é a nossa vez, agora quer está doendo no NOSSO bolso, então nossa prudência é porque não temos coração e queremos destruir o planeta? Não fode, né?

Morrem as pessoas, caem os governos, passam os séculos, trocam-se as grandes questões: os argumentos permanecem os mesmos.

* * *

- texto relacionado: os americanos e o tráfico negreiro (histórias de um país escravocrata)

- lista comentada dos meus melhores textos sobre racismo.

* * *

Os livros mostrados nesse texto são alguns dos meus preferidos e mais recomendados sobre raça e escravidão no Brasil. Compre clicando aqui pelo blog e ajude um estudante falido:Racismo LLL

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16.05.11


Categorias: Política, Raça


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Comentários:


Comentário de: Tiago Lorenzo

Pois é.

Dá pra fazer associações como essa em diversos temas.

Merece uma série: "Mais do mesmo".

:P

PermalinkPermalink 16.05.11 @ 10:16



Comentário de: Cyrano

Falando em mais do mesmo, um tempo atrás o antropólogo Marshall Sahlins usou Tucídides e a Guerra do Peloponeso para falar sobre "Um certo tipo de império". Achei o artigo tão impressionante que o transcrevi. É do livro "Esperando Foucault, ainda":

http://cyranodisse.wordpress.com/2008/12/19/um-certo-tipo-de-imperio/

PermalinkPermalink 16.05.11 @ 10:33



Comentário de: Jorge Nobre · http://jorgenobre.unblog.fr

Mas, enfim, quando vejo debates ambientalistas como o de Belo Monte; quando vejo ruralistas brasileiros denunciando o movimento verde internacional; quando escuto argumentos como "ah, eles souberam desmatar suas florestas quando era hora de se desenvolverem economicamente, mas quando é a nossa vez nas nossas florestas, aí não pode mais!"; etc, eu me lembro dos debates abolicionistas do século XIX.

Pois eu acho um grande insulto ao nobre povo negro compará-los a plantas e animais selvagens, e eu acho um grande insulto aos brancos abolicionistas compará-los a defensores de plantas e animais selvagens.

Por que acho isso? Ah, eu já expliquei porque aqui: http://www.interney.net/blogs/lll/2009/09/09/o_povo_quer_saber_1

PermalinkPermalink 16.05.11 @ 14:36



Comentário de: leo · http://lmonasterio.blogspot.com

O assunto de é complicado pacas e eu nao tenho opiniao sobre a maior parte das questoes praticas sobre meio-ambiente.

Mas existe uma diferenca relevante entre abolicionistas e verdes. Existe uma diferenca moral brutal entre defender a fauna/flora e lutar pelos direitos seres humanos. (Como vc sabe, tem até os malucos ambientalistas que dizem que o ser humano eh o cancer da terra).


PermalinkPermalink 16.05.11 @ 17:56



Comentário de: Alex Castro Email

Oi Leo

Mas o que me chama atencao é justamente isso: as questões são totalmente diferentes, mas os argumentos são os mesmos: "os grigos já fizeram e agora que é a nossa vez de fazer igual, eles nao deixam!" :)

PermalinkPermalink 16.05.11 @ 18:00



Comentário de: Jorge Nobre · http://jorgenobre.unblog.fr

Ah, então o Alex não disse que acha que ser contra ecologista é a mesma coisa que ser contra a escravidão?

Então tá!

Só que eu também não disse que o Alex acha que ser contra os ecologistas é a mesma coisa que ser contra a escravidão.

Mas mesmo que eu não tenha dito isso com todas as letras, ,b>eu dei a entender que disse?

É, talvez.

Só que o Alex também deu a entender que disse que os ruralistas inimigos dos ecologistas são iguais aos escravagistas inimigos dos abolicionistas. Até no título do post: “Ruralistas de Hoje, Escravistas de Ontem”.

Então, eu acho que o Alex e eu estamos iguais.

Por que acho isso? Ah, eu já expliquei porque aqui: http://www.interney.net/blogs/lll/2009/09/09/o_povo_quer_saber_1

PermalinkPermalink 17.05.11 @ 09:58



Comentário de: Nathan

Não sei se tô falando uma obviedade pra leitores antigos do blog, mas esse Jorge Nobre é um completo doente. Procurei o nome dele na net e achei umas coisas antigas desse nível: http://jorgenobre.blogspot.com/2003_11_01_archive.html#106911746848031469

Sério, acho que não vale a pena discutir...

PermalinkPermalink 19.05.11 @ 11:00



Comentário de: Gabriel Cavalcante · http://www.vozdotrovao.wordpress.com

Não tenho acompanhado a disputa ruralistas x ambientalistas com muito interesse por falta de subsídios pra entender os acertos e erros de cada lado... mas o simples fato de ir contra leis ambientalistas, no mundo em que vivemos hoje, já me dá uma impressão forte de anacronismo... neste ponto, os ruralistas com certeza são os novos escravistas.

PermalinkPermalink 20.05.11 @ 10:15



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