O Testamento do Terrorista (com PS sobre Transliteração)

Em seu testamento, assinado em uma caverna do Afeganistão em 14 de dezembro de 2001, Osama Bin Laden pede aos filhos que não se unam à Alcaida***:

"If it is good, then we have had our share; if it is bad, then it is enough." (fonte)

Onde Está Osama Bin Laden? Sob a Sombra do Terror: A Vida Oculta de Osama Bin Laden

* * *

Leia também: Bin Laden's Mother Worried Sick

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PS sobre Transliteração

***Sem querer ser chato mas obviamente já sendo, o nome da organização deveria se escrever simplesmente "Alcaida". É ridículo usarmos em português uma transliteração claramente criada para a língua inglesa. Apesar de serem duas palavras, o "al" é artigo e já existe aliás tradição milenar no português e no espanhol de utilizar o "al" como sufixo em transliterações do árabe, como "alfama", "alferes", "Alcorão", etc - ou seja, transformando em uma palavra só.

A transliteração é onde melhor se vê o espírito colonizado de um povo. Quando se vai transliterar uma palavra de uma língua com outro alfabeto, a regra é simples: criar uma sequência de letras que faça o falante da segunda língua pronunciar aquela palavra da maneira mais fiel possível ao seu som original. Naturalmente, a mesma sequência de letras que faria um falante de inglês pronunciar uma palavra de determinada maneira vai fazer um falante de português pronunciar essa palavra de maneira totalmente diferente. Ou seja, quando o nome do último premiê soviético se escreve do mesmo jeito em inglês e em português, pode apostar que um deles está errado: como podem ouvir aqui, a transliteração em português, para fazer com que um falante de nossa língua pronuncie a palavra o mais corretamente possível, deveria ser Gorbatchov - ou talvez até mesmo Guerbatchov.

Naturalmente, uma das regras mais básicas de transliteração é não usar nem palavras nem construções que não existem na língua-destino. A Wikipédia-pt, por exemplo, escreve "Turgenyev", mas não existe nenhuma lógica nem faz nenhum sentido usar "y" e não "i" - afinal, o português não tem "y" e o russo também não! De onde veio esse "y" fantasma?! Falando nisso, já que ele é meu autor favorito, falta um "u" depois do "g", para que a segunda sílaba seja pronunciada mais próxima de "GUErra" do que de "GEra". E um acento circunflexo também ajuda a marcar a sílaba tônica: eu, por exemplo, passei boa parte da infância chamando-o de "Turguenév". Ou seja, a transliteração correta deveria ser "Turguêniev".

Igualmente, não faz sentido escrever "Al-QAEda", pois essa construção "qae" não existe em português e pode-se conseguir que o falante lusófono pronuncie o mesmo som simplesmente escrevendo "alCAIda".

Por esse mesmo motivo, o nome do ditador da Líbia pode ser transliterado "Cadafi" ou "Gadafi" (o som inicial permite essa ambiguidade) mas não faz nenhum sentido transliterar usando "k", "dh", "kh", "dd", "qa", etc, pois essas sequências de letras não existem em português e não afetam a pronúncia: "Kadafi", "Gadhafi", "Khaddafi", "Qadhafi", "Khadafi", etc.

Ah, e não vamos nem entrar nas confusões que acontecem quando se muda o sistema de transliteração. Não, não foi Pequim que passou a se chamar Beijing. O nome da cidade, e sua pronúncia, continuam iguais. O que mudou foi o sistema de transliteração: do Wade-Giles, inglês, imposto de fora, para o Pinyin, elaborado pelos próprios chineses. Pior, acreditem, tem cavalgaduras que ainda reclamam que isso é patrulha politicamente correta!

Enfim, o PS ficou maior que o texto, mas isso tudo foi somente porque fiquei indignado de ter que ir procurar como se "escreve" "Al-Qaeda" ao invés de escrever como deve ser escrito, "Alcaida". Aliás, chega disso, né? A língua é minha e quem decide também sou eu: voltei lá em cima e troquei "Al-Qaeda" por "Alcaida" e pronto.

E não, eu não acho que essa seja uma questão importante para o leitor comum. Não acho que ninguém é melhor que ninguém por pronunciar um nome corretamente. Não acho que os leitores tenham que ficar se preocupando com essas coisas. Quem me acompanha sabe que sou o cara menos pedante do mundo com besteiras como "erros de português" e "norma culta". A gramática não foi feita pra humilhar ninguém. Mas essa é uma questão importante para quem é profissional da área.

Eu sou escritor, tradutor, revisor, editor, jornalista. São pessoas como eu que, em algum momento, deveriam ter parado, pensado e convencionado. Infelizmente, o típico repórter brasileiro lê sobre "Alcaida" pela primeira vez no New York Times, fica com a idéia de que o nome "certo" é "Al-Qaeda" (como se fosse uma organização de língua inglesa!) e escreve "Al-Qaeda" na Folha, aí o Globo vai e escreve "Al-Qaeda" também, e assim por diante.

Afinal, para o olhar colonizado, a versão inglesa sempre parece mais elegante e mais bonita e mais estrangeira e mais exótica ("Khaddafi", "Turgenev", "Al-Qaeda") do que a versão claramente aportuguesada e tão doméstica, coitadinha ("Gadafi", "Turguêniev", "Alcaida").

(E não. Não sou contra estrangeirismos. Não acho que a língua portuguesa tem que ser defendida. Não acho a língua portuguesa melhor nem pior, nem mais rica nem menos pobre do que qualquer outra.)

Tudo isso começou porque, um dia, eu escasquetei: "porque alguns jornais escrevem Gorbatchev e outros Gorbatchov?", e não sosseguei até descobrir a resposta.

Sim, sou velho, por quê?

* * *

Eu gosto dos textos que começam de um jeito e terminam de outro totalmente diferente. Dá vontade de voltar e começar de novo (tipo tirar o trechinho do testamento e deixar o post como sendo sobre transliteração) mas é mais interessante ainda deixar marcado o meandro do pensamento. Enfim, vou ao teatro, ver Titus Andronicus, de Shakespeare, numa siderúrgica abandonada, e o post pára aqui.

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14.05.11


Categorias: Política


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Comentários:


Comentário de: Ju Valentim · http://sextanorio.blogspot.com

Que chato! Deixa a língua seguir o seu curso, qual é a diferença entre "dibre" ou "drible"? Você não entendeu do mesmo jeito? hahahah

PermalinkPermalink 14.05.11 @ 21:17



Comentário de: Felipe

Bom isso também é culpa da má qualidade do jornalismo brasileiro, porque afinal de contas essas grafias são disseminadas pela imprensa. Claro que os jornalistas também são parte do povo e também tem olhar colonizado, mas não custa lembrar que muito do que se lê e vê na imprensa não é produto original do jornalismo brasileiro, mas fonte de agências internacionais. Enfim, tem gente que acha os portugueses jecas por sempre inventarem uma palavra pra tudo, mas eu acho legal...

PermalinkPermalink 14.05.11 @ 21:29



Comentário de: Diogo

Alex,

Excelente post, talvez o melhor do LLL em anos, até o parágrafo 8 do PS. Aí, dois dogmas do esquerdismo (o anti-colonialismo e o relativismo cultural) entraram em choque e seu cérebro entrou em curto. O fim do PS é a tentativa deseperada de encontrar a quadratura do círculo. Claro que não funcionou...

Pessoalmente, acho que neste caso o rant anti-colonial está certíssimo e que a sua proposta de transliteração é perfeita.

Pré FAQ de uma possível resposta do Alex: eu sei que você não é anti-colonialista nem relativista, muito pelo contrário. Sei que eu não entendi nada, que você acha todo o colonialismo relativo e todo relativismo colonialista e inclusive já publicou vários posts a respeito, e, claro, que a transliteração não tem nada a ver com isso. Finalmente, sei que este é um blog de ficção.

Anyway, Alex, parabéns pelos 7 primeiros parágrafos do PS, uma verdadeira maravilha, e melhor sorte no final da próxima vez.

Abs.
Diogo


PermalinkPermalink 14.05.11 @ 21:59



Comentário de: Marcus · http://vidaoffline.wordpress.com

A propósito: talvez você não saiba, mas o Jornal Nacional colocou ontem como assunto PRINCIPAL da edição de ontem as novas gramáticas que estão abolindo a idéia de que a norma culta é a única "correta".

http://g1.globo.com/videos/jornal-nacional/v/ministerio-da-educacao-sinaliza-nova-classificacao-quanto-ao-uso-da-lingua-portuguesa/1508912

Neste Brasil, país de videotas, parece que, de repente, o assunto entrou em discussão -- na verdade já vem sendo debatido há anos em vários órgãos de imprensa.

Não sei se você já escreveu sobre isso. Acredito que sim, mas talvez seja o caso de retomar o assunto agora.

PermalinkPermalink 14.05.11 @ 22:13



Comentário de: João Paulo Cursino · http://sratoz.wordpress.com

Alex, Alex, Alex! Ei! Aqui, olha! Olha eu!

EXCELENTE o texto sobre transliteração! Estou há anos dizendo isso às pessoas e ninguém escuta, continuam preferindo grafias que vêm por via dos americanos!

Sabe o Marechal Jukov? Pois é, ainda usei o K. Os americanos e ingleses escrevem Zhukov. Um dia descobri que ZH é o jeito de eles transliterarem um som que não tem letra (mas que existe para eles também), que é o SI de ASIA. No Brasil, temos letra para esse som: é nosso J. Então, um dia, assessorei umas pessoas que tinham que pôr o nome da nave espacial USS ZHUKOV em um episódio de Star Trek que ia ser DUBLADO (não legendado). Não tive dúvidas: JUKOV. E assim foi pronunciado certinho pelo dublador! Ninguém falou "Zukov" como teria saído se eu me curvasse aos imitadores sem cérebro.

Idem o esquadrão russo de acrobacia aérea, Russki Vityazi. Sai assim na revista: "... o esquadrão Russki Vityazi (Russian Knights) apresentou-se na feira...".

Ora pombas, o texto deveria dizer "... o esquadrão Russki Vityazi (Cavaleiros Russos) apresentou-se na feira..." Afinal, estamos apresentando a tradução do russo para nossa língua, não para o inglês! Mas a nota liberada à imprensa estava em inglês, de modo que, já viu, né...

PermalinkPermalink 15.05.11 @ 00:53



Comentário de: Clara · http://twitter.com/kakau

Hey, Alex, me corrija se eu estiver errada, mas o AOLP 2009 incluiu k, w e y na língua portuguesa, não?

Certamente seus exemplos - a maioria, pelo menos - remonta período anterior, o que não muda em nada suas conclusões, com exceção do Kadafi, que poderia se chamar assim. Não?

PermalinkPermalink 15.05.11 @ 02:32



Comentário de: Moderação é Ilusão

"Ah, e não vamos nem entrar nas confusões que acontecem quando se muda o sistema de transliteração. Não, não foi Pequim que passou a se chamar Beijing. O nome da cidade, e sua pronúncia, continuam iguais. O que mudou foi o sistema de transliteração: do Wade-Giles, inglês, imposto de fora, para o Pinyin, elaborado pelos próprios chineses."

Alex, a wikipédia discorda da sua interpretação. Não que seja a suma verdade, mas pelo menos traz referência.

"The term Peking originated with French missionaries four hundred years ago and corresponds to an older pronunciation predating a subsequent sound change in Mandarin from [kʲ] to [tɕ]...".[12]

Realmente chega a ser inusitada a sua ligação entre a escrita em Português e Inglês, dada a grande proximidade entre o Império Português e a China, não seria improvável supor que o Português usou da forma tradicional Pequim séculos antes dos ingleses inventarem Wades-Giles.

Busque Michele Ruggieri e Matteo Ricci e verá que os portugueses possuem influência na China muito antes do Império Britânico sair do berçário.


PermalinkPermalink 15.05.11 @ 14:52



Comentário de: Alex Castro Email

A única coisa que eu disse é que se Peking pelo sistema wade-giles e que se escreve Beijing pelo Pinyin. Não entrei em momento algum na origem da palavra.

PermalinkPermalink 15.05.11 @ 14:55



Comentário de: Moderação é Ilusão

Então o que significa: "O nome da cidade, e sua pronúncia, continuam iguais."?

O que você não percebe é que houve uma mudança fonética, o Inglês preferiu a addaptação; o Português, a tradição do primeiros contatos com os chineses.

Assim como Japão não tem nada a ver com a pronúncia Nippon, mas o mundo copiou a maneira portuguesa de escrever, que por sua vez foi trazida de contatos comerciais na Ásia.

O Wade-Giles não nos a escrita "Pequim" droga nenhuma e não se faça de sonso. Sempre que você é pego falando do que não sabe vem com essa de sem-querer-querendo, não é bem assim...

PermalinkPermalink 15.05.11 @ 15:12



Comentário de: Moderação é Ilusão

O Wade-Giles não nos impôs...

PermalinkPermalink 15.05.11 @ 15:15



Comentário de: Alex Castro Email

Caro "Moderação é ilusão",

Você levanta questões interessantes sobre um tema sério, e poderíamos até conversar sobre isso como dois adultos, caso você:

1) Abaixe o tom e fale com educação;

(http://www.interney.net/blogs/lll/2011/03/31/ainda_sobre_falta_de_educacao)

2) Assine nome e email verdadeiros.

Caso não queira, respeito sua decisão e sinta-se a vontade para falar o que quiser nos comentários, mas não vou mais responder.

Sobre o nome da cidade que hoje em português se chama Beijing mas que já se chamou Pequim: a cidade, lá na China, continua com o mesmo nome. Ele não mudou. O que mudou não foi seu nome em chinês, mas o modo como é transliterado em outras línguas. Mas isso já está dito claramente no meu texto original...

Abraços,

PermalinkPermalink 15.05.11 @ 15:34



Comentário de: Thiago

O problema da transliteração é simples

E se você resolveu pesquisar sobre Gorbachev na literatura internacional, e você só viu citado como Gorbatchov, pesquisa como?

Supondo que estivéssemos nos tempos pré-internet, e a primeira notícia nacional sobre os autores de 9/11 citassem uma tal de Alcaida? Como você faria a correlação? Não deve ser difícil, mas perderia um certo tempo.

Problemas acontecem até com coisas mais simples, traduções de termos técnicos. Livros mais antigos, consultas, etc, é complicado saber qual o termo exato que o autor está falando. Com nomes de pessoas então, sou totalmente contra. (Apesar de que, por exemplo, com alfabeto Russo ou Árabe sempre haverá uma certa variação possível já que não é uma correspondência 1 para 1)

Alquimia, Alcorão, são nomes mais comuns, do que uma instituição efêmera (em termos históricos) como a Aw Kajda

E afinal, ninguem transliterou Eyjafjallajökull

Mais fácil usar a transilteração "original" e pronto. A pronúncia nunca vai ser perfeita mesmo, e não importa em 99% dos casos. Falar Gorbachev ou Gorbatchôv importa, em minha opinião, só se você está estudando Russo ou se está falando com o próprio. Afinal, todo mundo acerta a pronúncia de Dvorak não?

PermalinkPermalink 15.05.11 @ 16:29



Comentário de: Moderação é Ilusão

Desculpa, mas não me darei ao trabalho.

Acredito faltar honestidade e humildade de sua parte.

Aliás, o assunto não é sério, o importante não é o nome da rosa.

Incrível você dizer que não se importa com formalidades quando não tem humildade para reconhecer que desconhece a razão para uma palavra ser transliterada de um certo modo. Qual é o problema?

Mais incrível ainda é pedir educação enquanto chama outros de cavalgadura, tomando como base um argumento, no fundo, errado.

Pequim é a forma consolidada no Português de se escrever o nome da cidade, talvez os chatos que queiram colocar Beijing não passem mesmo de uns chatos, ou who cares? As pessoas chamem da maneira que quiserem. Não elabore teorias colonialistas precipitadas, por favor.

PermalinkPermalink 15.05.11 @ 16:34



Comentário de: Alex Castro Email

Oi Thiago

Só uma correção: Eyjafjallajökull não é transliterado pq é um nome de uma língua que usa o mesmo alfabeto que o nosso. Não faria sentido transliterar. Transliteração é só para línguas que usam outros alfabetos. :)

Abraços,

PermalinkPermalink 15.05.11 @ 16:47



Comentário de: Thiago

Verdade Alex, tem razão. Embora seja um daqueles casos que a escrita é fácil e a pronúncia é difícil.

Curiosamente o alfabeto islandês tem umas letras a mais, o ð/Ð e o þ/Þ (ai transliterava para 'th') e o æ/Æ



PermalinkPermalink 15.05.11 @ 18:59



Comentário de: Thiago ZuK

Oi, Alex! Nunca havia pensado sobre isso.

É por isso que aqui se fala Buda, Nova Iorque, Carma e etc...

Vou prestar mais atenção à isso.

Valeu!

PermalinkPermalink 16.05.11 @ 18:03



Comentário de: Paula

Ai, Alex, adorei. Sou revisora e tradutora, traduzo do russo, e sempre que leio as transliterações que fazem por aí quero morrer, porque é muito isso mesmo que você falou: o olhar do colonizado. E mais ainda quando um livro qualquer sobre assuntos russos foi traduzido do inglês e ninguém tomou o mínimo cuidado de checar como seria em português porque partiu do pressuposto que o inglês é correto. E nessa Turguêniev vira Turgenev (Turjenév). Agora, só uma coisa sobre o "y". De fato, não há em russo nem em português, mas em russo tem o "ы", que é o "i duro", então, para diferenciar do "i" e do "i curto", convencionou-se usar o "y". Na nota à tradução do livro "Os arquétipos literários" tem um guia de transliteração. :)

PermalinkPermalink 09.12.11 @ 14:44



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