Um dia, enquanto passeava com o Oliver aqui pelo meu bairrinho universitário classe média em Nova Orleans, uma soccer mom enfiava cuidadosamente seus quatro filhinhos, todos brancos e roliços, em seu jipão utilitário de luxo, também branco e roliço. Era uma senhora baixinha e gorducha, bochechas rosadas e orelhas de abano, carregando mochilas e merendeiras, parecendo dotada daquela infinita paciência que só uma mãe de quatro meninos pode ter. E, em seu para-choque traseiro, discretamente, estava o adesivo:
The South Will Rise Again ("O Sul se Erguerá de Novo")
Como não se sentir ameaçado? Não conheço o contexto dessas palavras. Por tudo que sei, é um inocente desejo de revitalizar a economia local. Mas, ainda assim, nenhuma racionalização poderia apagar o meu calafrio ao ler aquela frase; nenhuma explicação lógica faria aquele adesivo soar menos sinistro. De certo modo, era como se o ressurgimento do Sul fosse indistinguível e indissociável do reescravizamento de toda uma raça.
E pensei: o Brasil foi tão ou mais escravista do que o Sul dos Estados Unidos, e resistiu por muito mais tempo até libertar seus escravos. Ainda mais doloroso pra mim, dos nove únicos deputados que tiveram a cara-de-pau e a temeridade de votar contra a Lei Áurea em pleno maio de 1888, já na véspera do século XX e na contra-mão de todos os ventos filosóficos do XIX, oito eram do Rio de Janeiro. Legítimos representantes eleitos do meu estado.
Entretanto, não ficamos nem o Rio e nem o Brasil maculados por essa nódoa. Um adesivo "O Brasil Crescerá" despertaria calafrios? Claro que não. Nem o Paraguai tem medo do Brasil. E concluí, aliviado: ainda bem que pelo menos o bom nome do meu país e do meu estado não estão ligados à escravidão.
Um segundo depois, bateu o estranhamento: mas... por que não? A falta de calafrios não corresponde à falta de crimes. O Sul teve, no Norte, um vizinho incômodo que manteve viva a memória de seus crimes. Já em nosso caso, simplesmente varremos nossos crimes para debaixo do tapete.
Não somos mais virtuosos: somos melhores em esconder o corpo.
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Atualização
O leitor Thiago comentou:
Acho que o principal problema, na questão dos EUA foi que a divisão foi muito forte e geograficamente precisa. Dava para desenhar praticamente uma linha no chã.
A coisa não foi tão simples nem aqui quanto lá.
Nos EUA, havia vários estados intermediários (os chamados Border States), onde a questão era polêmica, e que passaram grande parte da guerra internamente convulsionados, brigando entre si para decidir se eram ou não escravistas. Tirando alguns estados totalmente escravistas e outros totalmente não-escravistas, havia uma área cinzenta significativa.
No Brasil, a medida que o século XIX progredia e o café se tornava muito mais lucrativo que outras culturas, os escravos brasileiros iam naturalmente se concentrando nas regiões cafeicultoras. Então, nas últimas décadas da escravidão, a esmagadora maioria dos escravos brasileiros se concentrava no Rio, São Paulo, Minas, permitindo que províncias como Ceará e Amazonas já decretassem suas abolições muitos anos antes da Lei Áurea. Em pouco tempo, começou a existir sim no Brasil, claramente, quase como uma linha no chão, as províncias que defendiam a escravidão e precisavam dela pra viver e as que praticamente não tinham escravos, ou onde os escravos não eram economicamente importantes. E havia MUITO MUITO medo que essa divisão levasse a uma guerra civil como a norte-americana. Durante as últimas décadas da escravidão, a elite escravocrata do sudeste se sentia cada vez mais acuada pelas províncias não- ou pouco-escravocratas do Norte. Quando finalmente passa a Lei Áurea, ela é, na prática, uma imposição do Norte sobre o Sul.
Então, as coisas não são tão simples assim.
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Atualização II
A leitora Surya perguntou:
Alex, vc disse "Quando finalmente passa a Lei Áurea, ela é, na prática, uma imposição do Norte sobre o Sul", mas na frase ficou confuso se você está falando do norte/sul dos Eua ou do Brasil. Porque parece que está falando do Brasil, mas eu não conheço pesquisas que demonstrem isso (mesmo porque o desequilíbrio entre norte e sul não possibilitariam que o norte impusesse quase nada, né?), existe?
Estou falando do Brasil. A menção está no parágrafo sobre o Brasil. Nos EUA, a abolição não foi decidida por voto no Parlamento - a nossa, foi.
Ao longo das décadas de 1870 e 1880 é que, a medida que o sistema escravista ficava menos e menos importante pra um número cada vez maior de províncias, os deputados e senadores dessas províncias passavam a votar progressivamente em prol de leis emancipacionistas e abolicionista - não apenas a Lei Áurea, claro, que foi a última, mas várias antes dela, como a Lei dos Sexagenários, etc. Os deputados e senadores das regiões escravistas (que eram basicamente as regiões cafeicultoras, ou seja, as províncias do Rio, São Paulo e Minas) iam ficando progressivamente mais isolados e, apesar de sua enorme influência política e poder econômico, acabavam sendo voto vencido por simples aritmética.
E esperneavam dizendo que essas outras províncias estavam votando contra o Brasil ("O Brasil é o café, o café é o negro!"), que estavam egoisticamente pensando somente em suas provinciazinhas e não no Brasil como um todo, que se passassem essas leis, eles iriam quebrar as regiões cafeicultoras, e, se quebrassem as regiões cafeicultoras, quebravam o Brasil, etc etc. Enfim, o discurso apocalíptico de qualquer elite que se vê a beira de perder seus privilégios.
A história da Abolição no Brasil, entre outras coisas, é a história de como esse discurso foi se esvaziando e perdendo força, até que, na votação da Lei Áurea, só nove deputados votaram contra, oito do Rio de Janeiro.
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lista comentada dos meus melhores textos sobre racismo.
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