Porque o Humor É Engraçado

Na redação da Mad, na década de 90, pensávamos muito nisso. Pra mim, como profissional do humor, era simples: você criava uma expectativa e subvertia.

Por isso, é tão difícil fazer humor "a favor" ou politicamente correto, pois o humor, para existir, depende de uma série de pressupostos culturais compartilhados que são, quase sempre, convenhamos, detestáveis, nocivos, falsos, preconceituoso, estereotipados. Entretanto, se você retira isso do humor, o que sobra?

A piada "Sabe como afogar uma loira? Coloca um espelho no fundo na piscina!" só funciona porque você "sabe" que loiras são fúteis, vaidosas e burras. Se você não "soubesse" disso, não é nem que a piada não seria engraçada: ela faria tão pouco sentido que não seria nem mesmo coerente enquanto narrativa.

Naturalmente, por esse mesmo motivo, o humor é sempre local: para pessoas de outras culturas, com outros pressupostos culturais compartilhados, a historinha também não faria sentido - pois não teriam a chave pra decodificar a piada, ou seja, que loiras são burras, fúteis e vaidosas.

Aliás, voltando ao começo, é também por isso que a Revista Mad tinha uma edição brasileira, com 60% de conteúdo nacional, para onde eu escrevi tanto matérias sobre assuntos estrangeiros mas com foco brasileiro - Spice Girls, Madonna, Arquivo X, Harry Potter - quanto sobre temas realmente locais - Mamonas, Tiririca, Feiticeira. (Duas reminiscências sobre a Mad: 25 anos de Mad in Brazil & Leilão da Mad; minha última matéria: Se Harry Potter fosse brasileiro.)

Enfim, a Wired desse mês é uma edição especial sobre humor. A matéria de capa é sobre um acadêmico americano que elaborou a fórmula perfeito, segundo ele, pra determinar o que é e o que não é engraçado:

The theory they lay out: "Laughter and amusement result from violations that are simultaneously seen as benign." That is, they perceive a violation— "of personal dignity (e.g., slapstick, physical deformities), linguistic norms (e.g., unusual accents, malapropisms), social norms (e.g., eating from a sterile bedpan, strange behaviors), and even moral norms (e.g., bestiality, disrespectful behaviors)" —while simultaneously recognizing that the violation doesn’t pose a threat to them or their worldview.

Gostei da teoriazinha. Fiquei pensando no que eu ainda acho engraçado. Bem pouca coisa. A nova Mad perdeu a graça pra mim - embora continue rindo das antigas. Rio com Jon Stewart, Stephen Colbert, Louis C.K., Chris Rock. Ocasionalmente, tento assistir outros comediantes, mas não consigo achar graça. Especialmente não nos brasileiros. Em termos de sitcoms, o melhor atual é How I Met Your Mother, mas não chega aos pés de Seinfeld.

Fiquei pensando também nos sites colaborativos que mais me fazem gargalhar (White Whine, Classe Média Sofre, Not Always Right, Tumblerare, etc) e todos mais ou menos se adequam à fórmula, não? Mais ainda, sites como o White Whine e o Classe Média Sofre provam que, assim como o Stewart, Colbert & Louis C.K., é possível fazer humor do bem, humor político e engajado, que faz rir mas que também ensina e faz pensar.

Fazer rir é fácil. Difícil é fazer rir sem ser um babaca.

* * *

Aliás, o Classe Média Sofre fez um "about", explicando a proposta. Clarificou? Estragou? Tico-tico no fubá?

* * *

Vingança do Bastardo, A The Importance of Being Earnest

Esses são, longe, os dois livros mais engraçados que já li na vida.

* * *

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25.04.11


Categorias: Humor


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Comentários:


Comentário de: Daniel Araujo · http://www.danielaraujo.net

Essa teoria sobre o humor que você citou me lembrou daquele sketch do monty python sobre a piada mais mortífera do mundo, que, traduzida para o alemão, era usada como arma de destruição em massa na 2a. Guerra Mundial.

PermalinkPermalink 25.04.11 @ 11:27



Comentário de: Renata · http://renatacorrea.com.br

Nas aulas de roteiro da faculdade, a regra meaxima da comédia é: ninguém se machuca de verdade. Acho que existe uma coisa de fundo no humor que casa com essa visão do ninguém se machuca ou da "violação, ou quebra de regras que não apresenta ameaça real": é que a comédia é coletiva, o riso é. Você ri com sua comunidade, com sua família. Você deve estar em um ambiente (real, ideológico) seguro para rir, e essa regra jamais deve ser quebrada. Por isso nós da classe média gargalhamos com piadas de pobre tipo caco antibes, sabe? Estamos a salvo com os nossos. Talvez a grande aventura do humorista moderno seja fazer a auto piada, a piada de si mesmo (como seinfield), mas acho que isso está muito distante da cultura brasileira. De verdade. Nesse sentido às vezes acho o Zorra Total mais interessante que o CQC (você espectador burro e alienado, deixa eu te contar como as coisas funcionam...), pois naquele humor velho, de bordão e estereótipo, eles falam com um público que se vê na tela, como naquela relação lady kate e edmilson, ou no personagem gay que se transmuta em valente.

PermalinkPermalink 25.04.11 @ 11:57



Comentário de: Jorge Nobre · http://jorgenobre.unblog.fr

Mas eu acho o blog do Alex muito engraçado. Por que acho isso? Ah, eu já expliquei porque aqui: http://www.interney.net/blogs/lll/2009/09/09/o_povo_quer_saber_1

PermalinkPermalink 25.04.11 @ 16:20



Comentário de: Simone

Alex, já experimentou ver 30 Rock? Eu sei, a última coisa que você precisa é de uma fangirl vindo encher o saco. Mas como eu praticamente idolatro o Stewart, Colbert, Louis CK, entre outros, e acho 30 rock a melhor série da atualidade (por ser do estilo deles, medida certa de humor político, referências à cultura pop e crítica à própria midia), achei que não custava indicar aqui. A série é tipo uma metralhadora de piadas, algumas que você nem digere direito na hora.

Em uma nota de rodapé, uma vez vi uma entrevista em que o Marcelo Tas (nada engraçado, ok) falou que a risada é o barulhinho da ficha caindo na sua cabeça. Achei que faz bastante sentido.

PermalinkPermalink 25.04.11 @ 19:32



Comentário de: Boanoitedar

Olá, Alex,

ótimo post. Já havia visto algumas frases do artigo sobre o Harry no Orkut, salvo engano...

Diogo,
thx for your comment, it's gold!

PermalinkPermalink 25.04.11 @ 23:12



Comentário de: Diogo

Boanoitedar,

De nada. É sempre um prazer.

Um abraço
Diogo

PermalinkPermalink 25.04.11 @ 23:30



Comentário de: Fabiane · http://fabianelima.com

Eu tenho uma fórmula pra fazer piada sem ser babaca: humor auto-depreciativo. Você atinge a pessoa só se ELA quiser.

PermalinkPermalink 15.06.11 @ 14:08



Comentário de: andre alves · http://marketmultinivel.com

Muito boa essa piada!!!! Morrir de rir aki!!!


Aproveitando a oportunidade visite meu blog: http://marketmultinivel.com

amway

PermalinkPermalink 25.10.11 @ 20:13



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