Hoje, quarta-feira, 20 de abril de 2011, vou dar minha última aula na Universidade de Tulane, depois de seis anos ensinando aqui. Em julho, volto definitivamente ao Rio de Janeiro. Ainda não sei do que vou viver. Não sei quando irei dar aulas novamente. Não abandonei minha tese, nem o doutorado.
Para todos os amigos, parentes e leitores fazendo perguntas, eis aqui esse FAQ.
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Mas Alex, por que você vai voltar?!
Eu vou voltar porque, um dia, um homem que pra mim é como se fosse um deus inalcançável, uma figura mítica e sobre-humana, escreveu assim:
"Eu me celebro e eu me canto // E o que presumo você também vai presumir // Porque cada átomo que pertence a mim também pertence a você. // Vagabundeio e convido minha alma, // À vontade, vagabundeio e me inclino para observar uma haste de grama do verão. ... // Eu, agora com trinta e sete anos e em perfeita saúde, começo, // Esperando não parar até morrer."
"I celebrate myself, and sing myself, / And what I assume you shall assume, / For every atom belonging to me as good belongs to you. // I loafe and invite my soul, / I lean and loafe at my ease observing a spear of summer grass. ... / I, now thirty-seven years old in perfect health begin, / Hoping to cease not till death."
E por mais que eu saiba, com uma certeza religiosa, que esse homem não morreu nunca, nem vai morrer jamais, porque ele está aqui, comigo, hoje, eu também sei que ele sofreu um derrame paralisante dezoito anos depois de escrever essas palavras, e viveu o resto dos seus dias inválido.
E eu, hoje, também com trinta e sete anos, também com a saúde perfeita, também planejando não parar até morrer, sei que vai chegar o dia do meu derrame, infarto, câncer, glaucoma. Pois se até esse homem morreu, que esperança eu posso ter? Ele escreveu essas linhas e teve mais dezoito anos. Eu, quantos anos terei?
A vida é curta. Se, no dia do infarto, eu tiver sido escritor (mesmo que fracassado, medíocre, deslido) mas não doutor, minha vida vai ter valido a pena. Se não tiver sido escritor mas sido doutor renomado, crítico celebrado, professor festejado, autor de diversos e sensacionais estudos sobre a obra dos outros, estudos esses escritos em detrimentos da minha, vou morrer triste, desgraçado, fracassado.
Eu sou escritor. Minha língua é o português. Meus leitores estão no Brasil. Minha casa é o Rio. Cada segundo que passo longe é um segundo desperdiçado.
Tenho trinta e sete anos, em perfeita saúde, e não tenho tempo a perder.
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Você vai abandonar a tese?
Vou não. Já cumpri todas as minhas obrigações com o programa, agora falta só escrever mesmo, e isso eu posso fazer de qualquer lugar.
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Mas não pega mal sair antes de terminar?
Sim e não. Muita gente fica na universidade até terminar, mas também é bastante comum, depois da qualificação, que as pessoas arrumem empregos em outros lugares ou vão escrever suas teses mais perto de sua família, cônjuge ou entes queridos. Além disso, minha tese é sobre o Brasil e ir escrevê-la no Brasil faz sentido. Estarei mais perto das fontes.
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Será que você vai conseguir escrever a tese no Brasil?
É um fato: quando o doutorando se afasta da universidade, as chances de completar a tese caem bastante. Você tem mais distrações, precisa ganhar a vida com outra coisa, life gets in the way. Então, os professores sabem que, quando você vai morar em outro lugar antes de defender, existem boas chances que não volte nunca mais.
Mas, por outro lado, a tese depende só de mim, e isso me dá uma segurança enorme.
Porque, por um lado, eu gosto muito da minha tese, acho que vai dar um livro muito legal e vou ter orgulho de publicá-la um dia. E, por outro lado, como só depende de mim, se eu não escrever a tese (tirando morte e demência) é porque eu não quis, porque surgiu uma coisa mais legal e mais gratificante, porque minha vida estava linda sem ela.
Então, vai ser um final feliz também.
Eu sou muito Pollyana: sempre acho que, de um jeito ou de outro, tudo acaba bem.
Em tempo. Etiqueta de doutorando. Só quem pode perguntar da minha tese é o meu orientador, tá? Qualquer outra pessoa, por favor, não mencione jamais o assunto. Não é de bom-tom. É sério.
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Onde você vai morar no Brasil?
Eu acho que se é pra fazer a fatídica escolha pelo Rio, então tenho que ir morar onde o Rio é mais Rio. Não na Zona Sul, como pensa o povo besta de lá, mas no Centro.
Aluguei um apartamentinho na Lapa, esquina da rua do Resende com Lavradio, em frente aos Arcos, perto de tudo, coração do Rio, onde sempre quis morar. Já faz anos que perambulo pela Lapa, sempre pensando: quando voltar, vai ser pra cá que eu venho. E vou mesmo.
Odeio sair de casa e, por isso mesmo, é importante estar bem localizado: minha casa, tradicionalmente, sempre foi o lugar onde todos meus amigos sempre puderam aparecer, em especial nas horas mais bizarras da madrugada. (No meu mundo ideal, eu nunca preciso sair de casa porque todas as pessoas interessantes que eu amo vêm até mim.)
Então, todos os amigos, leitores, conhecidos, que estiverem de passagem pela Cidade Maravilhosa, mandem um sinal de fumaça e eu deixo vocês me pagarem um almoço - sou pobre, sorry.
Mas, se vierem pra minha casa, faço pão.
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Você vai viver de quê?
Excelente pergunta. Minhas parcas economias devem durar um tempinho - mas só porque sou um monge.
Além disso, tenho alguns trabalhos de tradução, revisão e adaptação alinhavados.
Também penso em procurar emprego dando aulas em universidades particulares. Ou mantendo blogs ou twitters corporativos.
Minha prioridade são atividades que me permitam ficar em casa, e trabalhar também na tese e no meu romance.
Se souberem de alguma coisa, qualquer coisa, avisem. Por favor.
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Quando você vai?
Passagem comprada pra 1º de julho de 2011, New Orleans-Rio de Janeiro, só ida. Existe algo de mágico e libertador em comprar uma passagem só de ida.
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Não vem não, você não faz ideia como está isso aqui! O Rio/o Brasil acabou!
Porra, gente chata que diz isso.
Sei sim, seu mala. Nos últimos seis anos, passei em média sete meses por ano nos EUA e cinco, no Brasil. E, não, nos cinco meses brasileiros eu não estava de férias, na praia, gastando meus muitos (rárá) dólares, mas fazendo tudo o que normalmente faria se morasse no Brasil: pesquisa, enfrentando burocracia de arquivos e bibliotecas, trabalhando, caçando cliente, passando nota fiscal, esperando pagamento, namorando, transando, saindo com os amigos. Então, desculpa, mas eu tomei bastante cuidado pra nunca perder o contato e nem me desligar.
Se você não gosta do Brasil ou do Rio, eu respeito.
Mas, sim, eu sei como é, sei muito bem, sofro na pele todo dia, e, mesmo assim, estou voltando.
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O que mais você pretende fazer aqui no Brasil?
Alguns planos e possibilidades:
- Fazer tradução literária.
- Pedir reingresso na UFRJ, fazer a licenciatura e me habilitar pra dar aulas em escolas.
- Tentar entrar no mundo da legendagem.
- Ressuscitar a Usability Ltda e voltar a fazer testes de usabilidade, card sorting, análise heurística.
- Dar aulas na Escola Americana do Rio de Janeiro, minha velha escola.
- Procurar professores de português e chefes de departamentos de escolas, oferecer meus livros Mulher de Um Homem Só, Liberal Libertário Libertino ou Onde Perdemos Tudo, e me dispor para falar aos alunos.
- Oferecer para editoras, ou auto-editar, meus livros semi-prontos: Confissões Sexuais, Racismo, Prisões.
- Aceitar os convites de palestras que tenho recusado por morar fora.
- Dar cursos livres de temas que eu domino razoavelmente, como: Cuba - Literatura e História; Nova Orleans e Furação Katrina; Escravidão e Raça na Literatura Brasileira; A Bíblia como Literatura; Guerra do Paraguai. Alguém teria interesse? No Rio ou em São Paulo.
- Pôr minha lábia a serviço de um trabalho com mídias sociais e vendas.
Qualquer sugestoes, estou aberto. A prioridade é ganhar a vida, mas ter tempo pra escrever minha tese e o meu romance.
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Mais alguma pergunta?
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Atualização
"O que vc gosta tanto no Brasil e, especialmente, no Rio?
(pergunta do leitor Túlio)
Nesses seis anos, nunca perdemos o contato: passei sempre cinco meses por ano com você, trabalhando, namorando, alugando apartamento, vivendo a vida cotidiana ao seu lado, justamente pra não perder o seu cheiro e o seu ritmo, as gírias e as modas, pra não virar haole - deus me livre! Ninguém pode me acusar de te idealizar: conheço cada estria, cada arrastão; amo cada celulite, cada chacina.
Muita coisa mudou. Você passou no teste do Pan - confesso que eu estava cético! Foi retratada em dois Tropas de Elite - belíssimas obras que elevaram ao nível da arte todos os nossos maiores dilemas e apreensões. Depois, descobriram uma quantidade enorme de petróleo na sua costa - que querem lhe tomar no tapetão! Agora, esse ano, vai sediar os jogos militares (quarto maior evento esportivo do mundo) e, daqui a pouco, uma copa (incluindo a final!) e uma olimpíada.
Hoje, aqui de longe, você me parece revitalizada, linda, cheia de esperanças - potencializando seu duplo caráter turístico e petroquímico. Será que, em 2005, fui pessimista demais e não lhe dei o devido valor? Será que você está ressurgindo? Desculpa se não confiei em você, meu amor! Você me perdoa?
Pra mim, nesse momento, a pergunta é a seguinte: onde quero estar nos próximos vinte anos? De onde quero observar o futuro acontecer? De qual processo histórico quero ser testemunha? Nada me prende. Posso ir pra qualquer lugar. Acabei de viver os seis anos imediatamente pós-Katrina em Nova Orleans - um período único que nunca mais vai se repetir.
Confesso que Havana é uma forte finalista: assim que morrerem os irmãos Castro, a batalha dupla pela democracia em Cuba e pela manutenção do legado revolucionário vai ser feroz, linda, necessária. Gostaria de fazer parte dessa aventura, de me meter nessa briga, mas quem estou enganando, não é? Havana é uma amante querida, uma jineteira sem-vergonha, mas você é minha esposa. É o seu futuro que quero ver, é da sua História que quero participar, é nos seus braços que quero morrer.
Crescendo ao seu lado, havia sempre algum gringo maluco com a mesma história: estava de passagem, esbarrou em você, ficou para sempre. E eu os invejava, sabe? Por um lado, eu nasci dentro de você - o que, pra mim, não é fonte de orgulho mas mero acidente histórico. Já eles, caramba!, eles te escolheram! Nasceram em Tucson, Estocolmo, Florença mas bastou te conhecerem para saberem na hora: é aqui que vou ficar!
E você, hospitaleira e sem-vergonha, é dessas que só dizem sim: mesmo sem renda e sem prenda, você nos faz as vontades, nos diz meias-verdades e nos faz acreditar (vaidosos!) que somos o povo mais privilegiado do mundo. (Gueixa indiscriminada, você aceita igualmente todos os que te amam - carioca é quem se sente carioca.) Na manhã seguinte, naturalmente, antes de contarmos até vinte, podemos ter sido atingidos por uma bala perdida ou soterrados pela lama que desce o morro, mas é o risco que corremos. Existem muitas outras mais seguras, mais pacatas, mais civilizadas, mais respeitadoras: quem quiser, que fique com elas. (Curitiba é linda nessa época do ano!)
Nós, os que te escolhemos, aceitamos o positivo junto com o negativo, o risco com o dividendo, o ônus com o bônus. Na verdade, não é nem que aceitamos o ônus em si: aceitamos o ônus de positivar o negativo, de minizar o risco para para podermos melhor usufruir dos dividendos. Quem te escolhe também escolhe o ônus histórico de te amar, te preservar, te salvar de si mesma. Ninguém que assistiu Tropa de Elite pode alegar que não sabia onde estava se metendo.
E essa é a questão, não é? Passar seis anos longe me permitiu fazer algo que sempre desejei: te escolher. Estar ao seu lado não por um feliz acaso do destino, mas por decisão consciente, pensada, fatídica.
Te escolho.
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