Dez Anos

Dez anos atrás, vivi um dos melhores fins-de-semana da minha vida, nas areias brancas e águas quentes de Alter-do-Chão (escolhida recentemente a praia mais bonita do Brasil), apaixonado, feliz, transando feito um louco com a mulher com quem passaria o resto da minha vida. E enquanto arrumava minha mala pra voltar pro Rio, feliz, com todo meu futuro pela frente, Herbert Vianna sofreu um acidente de ultraleve que matou sua mulher e o deixou sequelado para sempre. E foi um momento agridoce tapa-na-cara pé-no-chão, porque Herbert é da minha terra, usa óculos e adora ska como eu, acompanhei sua carreira, fui testemunha do seu enorme amor pela Lucy e, agora, assim, de repente, enquanto eu transava apaixonado nas águas do Tapajós, puff. Acabou-se Herbert&Lucy. E fiquei tristíssimo mas ainda mais decidido a viver a minha vida, correr atrás da minha felicidade, vencer a distância, ser feliz com a mulher que eu acabara de escolher e que acabara de me escolher de volta. Porque o tempo passa. E, enfim, inevitavelmente, como ele sempre faz, o tempo passou. Nunca mais vou ser tão feliz como naquele fim-de-semana, porque o primeiro amor, de quando a gente ainda não foi ferido pela vida, de quando ainda não temos dúvidas nem traumas, não tem igual, não se repete. A vida guarda outras infinitas felicidades, e também é uma delícia o amor maduro entre dois veteranos sem-ilusões calejados nas guerras do coração, mas o primeiro amor, esse só acontece uma vez. Eu fui feliz. Aproveitei até o talo. Casei, amei, me separei. Herbert Vianna, antes desenganado, hoje já voltou até a cantar. E eu, continuei sempre amigo da ex-mulher. Ano passado, viajei até o Timor-Leste para passar o mês com ela. E hoje, como se fechando um ciclo de dez anos, Herbert Vianna ganhou na justiça uma indenização do fabricante do ultraleve, contrariando os boatos de que tinha matado sua mulher por imperícia e incompetência, por estar fazendo malabarismos imaturos em seu brinquedinho de roqueiro rico. Mas não, era o ultraleve que derretia no calor forte, e Herbert agora vai mostrar aos filhos a prova de que não foi ele o culpado pela morte de mãe. E assim dez anos se passaram. E, por incrível que pareça, estamos quase todos aqui, um pouco mais velhos e barrigudos. Até que, um dia desses, quando se passarem outros dez anos, teremos ficado em algum ponto do caminho, mas pessoas continuarão amando e se encontrando, e no dia em que eu morrer, de susto, bala ou vício, quem sabe na casa ao lado ou no quarto em frente, algum casal de tolinhos também vai estar se amando e também vão achar que é pra sempre, e, sabe qual é?, vai ser mesmo, até acabar. E então, vai ser pra sempre de novo. E de novo. E são pensamentos assim que me enchem de felicidade e possibilitam minha vida. Porque hoje eu já chorei muito, por doze crianças que eu nem conheço num bairro onde nunca nem fui. E a única coisa que cura a dor é a felicidade, a única coisa que vence a morte é a vida. Se não estou feliz, é importante que alguém, em algum lugar, esteja.

* * *

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08.04.11



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Comentários:


Comentário de: dra

lindo. valeu!

PermalinkPermalink 08.04.11 @ 23:48



Comentário de: _Maga · http://metamorfosepensante.wordpress.com

Obrigada por este texto lindo. Obrigada por me lembrar de tanta coisa (Alter, amor, tempo, Hebert cantando "hoje eu tive um sonho ruim e acordei chorando"). Obrigada, simplesmete por lembrar que a vida segue. Um abraço

PermalinkPermalink 09.04.11 @ 00:03



Comentário de: Thiago

Adoro o blog, sempre leio, nunca comentei (embora sempre comente e debata com a outra pessoinha que vive aqui na minha cabeça).
Mas esse texto me pegou. Muito bonito! Mas o mais bonito é o "gosto de vida" que ele transparece. Quanto mais eu vivo, mais eu tenho certeza do quanto a vida é a coincidência mais maravilhosa que jamais existiu e jamais existirá.
Valeu mesmo!

PermalinkPermalink 09.04.11 @ 02:11



Comentário de: Arthur

E daqui a dez anos eu vou estar mais velho e mais barrigudo.

E talvez nunca vou ser feliz como já fui, mas a vida vai trazer outros amores e outros prazeres, e se ela não trouxer eu vou atrás.

E meu respeito sincero aos que foram, e principalmente, a todos os próximos a eles.

Mas a vida é tão grande, tão cheia de possibilidades, tão cheia de tudo, apesar de todas suas limitações. Há tantos jeitos de ser feliz, há tantos jeitos de fazer os outros felizes. Há tanto amor, amor sincero, amor que eu preciso oferecer a meus companheiros de viagem.

Apesar da morte, apesar da tristeza que eu sinto pelos que não são mais, por tudo que foi tomado deles, as vezes a vida parece tão maior que tudo isso.

PermalinkPermalink 09.04.11 @ 07:59



Comentário de: Luiz

Era só o que faltava para o dia começar mais feliz do que já está. Dia de sol, festa no mar e nós aqui a navegar uma vida bem vivida, que só vale quando está sendo.

PermalinkPermalink 09.04.11 @ 08:59



Comentário de: Ana Paula Medeiros · http://www.urbanamente.net

Alex, que coisa mais linda, poética, profunda, tocante, você escreveu. Comovi.
Eu também tenho a maior admiração pelo Herbert e fiquei felicíssima com a indenização merecida.
Bjs.

PermalinkPermalink 09.04.11 @ 10:00



Comentário de: Henrique

Nossa.... esse post é fodastico!

Salva o dia de qualquer um...

PermalinkPermalink 09.04.11 @ 13:57



Comentário de: Fernando

Nada a acrescentar, só posso dizer que esse foi o post mais tocante que já li por aqui e talvez pela internet. Juro que quase chorei. Obrigado por me lembrar do óbvio, a vida é breve e efêmera. Não pq sempre esquecemos disso.

PermalinkPermalink 09.04.11 @ 14:37



Comentário de: Rafael

Quanto o Alex esquece, por momentos, que agora é de esquerda, escreve bem pra caralho... ;)

PermalinkPermalink 09.04.11 @ 20:56



Comentário de: claudia · http://www.qualedemesmo.blogspot.com

Curti o blog e convido pra visitar o meu :
I enjoyed the blog and invite you to visit my:
Me gustó el blog y le invitamos a visitar a mi:
http://qualedemesmo.blogspot.com/

PermalinkPermalink 09.04.11 @ 23:47



Comentário de: Paula · http://www.paulaberbert.com

um sorriso bem grande pra você!

PermalinkPermalink 10.04.11 @ 01:03



Comentário de: Rafael

Alex, parabéns pelo texto.
Lindo e poético.

PermalinkPermalink 10.04.11 @ 08:17



Comentário de: Bruno Cava · http://quadradodosloucos.blogspot.com

Falo no bom sentido: o autor deste blogue ficaria rico rapidinho com livros de autoajuda. Talvez um único bastasse para o seu lugar ao sol. E aí escrever o que der na telha _e_ despreocupado com contas.

PermalinkPermalink 10.04.11 @ 13:16



Comentário de: Alex Castro Email

Bruno, meu pai SEMPRE diz isso enquanto arranca os cabelos. O Livro das Prisões daqui a pouco sai, aí veremos. :)

PermalinkPermalink 10.04.11 @ 13:20



Comentário de: Daniel Taranto · http://twitter.com/danieltaranto

Ler esse texto, bem agora, no momento em que estou me faz lembrar que a felicidade existe fora de mim. o Que é um alivio, me faz querer ir de encontro com ela.
A parte do pra sempre foi perfeita. É muito verdade né... outros 'pra sempre' me esperam!

PermalinkPermalink 10.04.11 @ 15:52



Comentário de: Ana C.

Arrasou Alex, que texto lindo! Obrigada

PermalinkPermalink 10.04.11 @ 17:48



Comentário de: Artur

Eu também só posso agradecer, sei lá a quem ou a o que, sua existência, Alex.

Não sou fã de autoajuda, mas não tenho mais, hoje em dia, uma visão tão preconceituosa a respeito. Acho que não.

De qq forma, de coração aberto, seu texto é contagiante.


Abração!

PermalinkPermalink 11.04.11 @ 09:32



Comentário de: Viviane Teobaldo · http://operdigueiro.blogspot.com

Que texto lindoooooooooo! Vou publica-lo no meu blog, posso?! Acho ate que já publiquei textos seus lá, algum dia, com os devidos créditos, claaaaro! =D Texto de uma sensibilidade incrível e que abordou temas que, aparentemente, nao teriam muito a ver uns com os outros de forma tao leve! PARABENS!!!

PermalinkPermalink 11.04.11 @ 10:04



Comentário de: Cynara · http://www.mantech-am.com.br

Alex!!!
Lindo lindo lindo.Atua cara.
Sou amazonense e não conheço Alter do chão :(
Masssss..meu tio diz que ninguém pode casar antes de dar uma passadinha por lá..rsrs
Bejium.

PermalinkPermalink 11.04.11 @ 13:25



Comentário de: Iara · http://foifeitopraisso.blogspot.com

Lindo demais.

PermalinkPermalink 11.04.11 @ 18:23



Comentário de: Joyce

Obrigada.

PermalinkPermalink 12.04.11 @ 12:10



Comentário de: Helê · http://duasfridas.wordpress.com

Alex, fiquei tão comovida com o que você escreveu que eu não sabia o que dizer. Amei muito você, acho que foi isso que senti quando li. Tanto que recomendei - não que você precise, claro, mas pra propagar suas palavras. Beijo grande pra você, querido.

PermalinkPermalink 12.04.11 @ 23:18



Comentário de: André

Cheguei até aqui pela Helena do Duas Fridas e é a 1ª vez de muitas que ainda virão, pois me emocionei demais com esse texto.
Todas as pessoas de bem ainda estão dilaceradas, com certeza, devido a esse caso macabro e que pra mim foi a maior tragédia que já vi aqui no Rio, quiça no Brasil.
Hoje, ganhei meu dia.
Obrigado.
Aquele abraço,
André.

PermalinkPermalink 13.04.11 @ 11:32



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