Pelo vídeo, é bem óbvio que Bolsonaro não ouviu a pergunta da Preta Gil. Claramente, ele viu a cara dela, já entrou em raiva e denegação, e saiu respondendo que não queria nada com nada que viesse dela, sem nem ouvir a pergunta.
Sim, vale tudo pra foder o Bolsonaro, chute na saco, dedo no olho e até mentira. Ele deu mole, vamos fuder com ele. Lindo. Mas não precisamos também NOS enganar, né? Ele fez comentários homofóbicos horrendos, mas o pretenso racismo não existiu, foi claramente um mal-entendido.
O episódio diz muito sobre nossas prioridades enquanto sociedade: um pretenso comentário racista (que não houve!) foi muito, muito mais incendiário do que todos os absurdos que esse homem falou na vida - contra a democracia, contra a esquerda, contra os homossexuais, contra todo mundo.
* * *
Imunidade parlamentar, como conceito, existe justamente para que parlamentares tenham a liberdade e a autonomia pra defender pontos de vista e ter opiniões impopulares, inaceitáveis, incômodas, etc, sem medo de retribuição. A retribuição, aliás, virá nas urnas, se seus constituintes aprovarem ou não sua postura.
Imunidade parlamentar (assim como liberdade de expressão) é justamente pra proteger discursos odiosos e minoritários - quem diz que coelhinhos são fofinhos não precisa de proteção.
A democracia tem que defender o Bolsonaro, mesmo ele sendo contra a democracia, do mesmo jeito que defendemos os tubarões brancos da extinção - e eles nos comeriam, se pudessem. Defendemos o Bolsonaro porque somos melhores que ele. Defendemos Bolsonaro porque os democratas somos nós. Ele... Bem, ele pode ser o que ele quiser. Garantimos o direito de que ele exista e lutaremos contra ele até a morte.
Assim como tem horas que até um relógio parado está certo, às vezes a frase do Hoffman vale até pro Bolsonaro:
"You measure democracy by the freedom it gives its dissidents, not the freedom it gives its assimilated conformists"
Hoje, graças a deus, o dissidente é o Bolsonaro.
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Sim, as Organizações Globo (via Noblat, via jornal O Globo) sinalizaram claramente o que a Veja já sinaliza há tempos:
"extrema direita racista, seja bem-vinda".
Como falou-se na época da eleição, o Brasil vive uma situação singular, na qual a grande imprensa está cada vez mais a direita, mas se sente completamente não representada, pois nenhum partido político ousa admitir estar na direita e, de fato, mesmo os que estão, se encontram muito mais perto do centro do que a Veja.
O histerismo da cobertura das últimas eleições é justamente a frustração de um grupo (a imprensa) que não se vê representada nas urnas, que não tem um candidato ou um partido pra chamar de seu. É sempre perigoso quando um grupo forte não se sente representado.
* * *
Sim, o Tas é uma figura humana lamentável e o CQC é patético, mas tem gente reclamando que ele "deu uma plataforma pro Bolsonaro", etc.
Oras, se for assim, então o tumblr Classe Média Sofre também pode sofrer a mesma crítica, e seria ridículo. Toda a narrativa desse segmento específico do CQC, antes, durante e depois da entrevista, estava contra o Bolsonaro e (quase) tudo o que ele representa - afinal, vamos lembrar que é um programa direitinha sim.
Enfim, com tanta coisa a criticar no Tas e no CQC, criticá-los por EXPOR e RIDICULARIZAR o Bolsonaro não cabe. Vou dar um exemplo: dizer "tenho filha gay" é quantas vezes pior do que dizer que "tenho amigos negros"?
Dica: Tas, filia ela ao PT! Assim, quando te acusarem de direitista-conservador, você pode dizer:
"nada disso, minha filha é filiada ao PT! Aliás, eu já contei pra vocês que ela é gay?"
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O Bolsonaro existe e está no Congresso porque representa sim uma parcela significativa da população, aquela que assina a Veja e balança a cabeça quando o Tio Rei fala, que tem o direito sim de eleger um deputado que represente seus valores, seus preconceitos, sua visão de mundo.
A solução democrática é deixar o Bolsonaro falar. Não é bonito, não é cômodo, não é agradável, mas ninguém tem o direito de não ser incomodado.
Se deixarmos Bolsonaro falar, ele vai, sim, atrair uma pequena parcela da população que encontra ressonância em suas palavras, mas também vai repelir e enojar uma parcela absurdamente maior da população, que vai ficar (como ficou) horrorizada com cada som que sai de sua boca.
Quanto mais ele fala, mais ele associa racismo e homofobia com extrema-direita e ditadura militar, que é uma associação que queremos cada vez mais entranhada no imaginário nacional. Vamos lembrar que a própria Veja, essa semana, ao lamentar chorosamente que o Brasil não tem direita, atribui o fato à essa herança maldita. Vamos exacerbar isso. Vamos fazer do Bolsonaro "a cara da direita": quanto mais ele falar, mais minoritária será a direita. Podemos nos dar ao luxo de deixar meia-dúzia de malucos babando ódio no seu canto.
É importante que Bolsonaro exista. É importante que a extrema-direita racista moralista saudadosa-da-ditadura leitora-da-Veja se sinta representada, sinta que faz parte da conversa política. É uma válvula de escape. É um paliativo político pra um grupo frustrado e apeado do poder há décadas.
Via de regra, na história do mundo, os grupos que derrubam o tabuleiro são os que acham que estão fora do jogo e não tem chance nem de entrar e nem de ganhar.
É do nosso interesse que, agora, nesse momento, existam muitas pessoas pelo Brasil afora batendo no peito com orgulho e dizendo:
"Ainda bem que esse moço Bolsonaro está lá no Congresso dizendo umas verdades pra essa gente!"
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Dito isso, Bolsonaro é a escória da humanidade e tenho vergonha dele representar o Rio. (Pelo menos, também temos o Jean, que faz o contrapeso.) Se pudermos usar esse episódio para acabar com o Bolsonaro, atormentar sua vida, ridicularizá-lo na mídia, expô-lo ao ridículo, estigmatizá-lo pra sempre, tá valendo. Política é isso.
Afinal, estamos falando do homem que disse que o grande erro da ditadura foi "torturar e não matar". (3:15)
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Adendo Noblat
Já tem gente comparando esse meu texto aqui ao do Noblat.
Perdão, mas não tem nada a ver. Noblat entitula seu artigo "Fascismo do Bem" (BEM??!!), vem falar de censura (?) e tece aquela cansativa ladainha contra a "patrulha do politicamente correto". Além disso, em uma má-fé criminosa, ele utiliza o artigo, em larga medida, para comparar Lula ao Bolsonaro, como se o faux-pas de Pelotas ou o comentário (muito apropriado) sobre as pessoas de olhos azuis terem quebrado o mundo fossem minimamente semelhantes a qualquer coisa que diz o Bolsonaro. Nada é mais patético do que esse argumento "olha, mas o SEU amiguinho também fala besteira!" (A Marjorie comenta mais aqui.)
Então, desculpa, mas não. Meu artigo, minha opinião, minhas posições, minha boa-fé, minha honestidade intelectual, minha argumentação, não tem nada a ver com a do Noblat.
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lista comentada dos meus melhores textos sobre racismo.
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