Escrevi um post sobre o fato de as pessoas estarem perdendo a noção da fronteira entre a polidez e a grosseria. Sobre as pessoas que vem falar comigo de forma rude e, depois, querem entabular um diálogo como se nada tivesse acontecido.
Então, como se para ilustrar tudo o que falei, um moço que não conheço e assina Zeca fez o seguinte comentário:
Mas educação é um absoluto desde quando?
Vamos defender os modos da corte?
De que educação você está falando?
Por que eu não vejo esse monolito não.
Pra levar o exemplo mais além,o Zeca depois ainda tentou vir conversar comigo - mas, obviamente, ele já tinha se colocado fora do diálogo dos adultos.
Por fim, para comprovar mais ainda os argumentos do texto, muita gente simplesmente não entendeu o que o comentário tem assim de tão rude ou grosseiro. (Vocês podem ler os outros comentários aqui.)
Enfim. Eu realmente não sei o que dizer. Acho que a internet está nos tornando rudes. Se você olha pra esse comentário e não vê a rudeza, a agressividade, a grosseria, então eu não tenho como te explicar. Isso não é maneira de abordar uma pessoa que você não conhece. Não é assim que se inicia um diálogo.
Uma das maneiras de esvaziarmos o conceito de boa educação é defini-lo de maneira cada vez mais restrita. Como disse o Fernando:
[Os autores dos comentários] começaram a operar num modo onde existem umas regras práticas pra educação: se eu não encostar em você, não falar palavrão ou não agredir pessoalmente, então eu estou sendo educado. E fica parecendo que as pessoas estão perdendo essa sensibilidade (que acho que nem tem nome) de entender a diferença entre falar palavrão e agredir. E aí confundem isso com discordar, que é a outra metade perigosa dessa história.
Existe uma regra (quase) infalível: se imagine falando com um professor que vai te dar nota. Ou com um policial que pode te multar. Ou abordando um estranho na rua. Ou fazendo um aparte numa palestra.
Então, releia o comentário "educado" que você está prestes a fazer na internet e se pergunte: você usaria essas mesmas palavras pra interpelar seu professor, ao vivo, ambos no mesmo recinto, se olhando no olho, você sabendo que em breve ele vai te avaliar, ele conhecendo seu nome completo? Falaria assim? Desse jeito? Nesse tom?
Se a resposta é "não", então você está sendo grosseiro. Pense duas vezes.
Se a resposta for "sim," bem, pode não querer dizer nada. Como professor, sou testemunha que os alunos também às vezes falam conosco como se tivessem o rei na barriga.

Reparem: não tem nada a ver com o conteúdo sendo transmitido. A polidez, a boa educação e a etiqueta se referem, antes de tudo, ao TOM e à FORMA. É uma espécie de linguagem, um idioma que podemos usar para transmitir qualquer tipo de informação, mesmo as piores. É possível comunicar educadamente que vamos matar nosso interlocutor, estuprar sua irmã, degolar seu cachorro e queimar sua vila. Mais vinho? (Se duvidam, assistam qualquer filme de James Bond.)
Então, não é que seus argumentos são tão arrebatadores e incisivos que nossa última defesa é acusá-lo de "grosseria" e fugir do "debate". Não, não. Você poderia ter feito os mesmos argumentos incisivos e arrebatadores de forma educada e polida. Mas, pelo contrário, se você já começa o "debate" mostrando que você não sabe falar, que não sabe escolher suas palavras, que não tem noção de tato, então a possibilidade de eu continuar a conversa com você é zero. (Aliás, convenhamos, eu odeio debate, não debato nem com gente educada.)
E, não, não é que sua grosseria me ofende ou me irrita. A grosseria dos meus amigos, das pessoas que amo, conheço e respeito, pode ocasionalmente me chatear ou enraivecer, mas a grosseria de estranhos, nunca. Tenho blog "polêmico" há oito anos, desde a época pré-twitter onde cada post tinha 100 comentários: já ouvi de tudo. Nada que um estranho diga na internet pode me irritar ou me ofender, porque simplesmente não tenho nenhuma expectativa dele, não espero nada da sua parte.
Mas a grosseria afasta.
Se o seu primeiro contato comigo é rude ou grosseiro, não vou me ofender ou me irritar, mas vou simplesmente te riscar da minha lista: pronto, essa é uma pessoa imatura e mal-educada com quem já sei que não vou falar, com quem não tenho interesse no diálogo. O espaço é livre, ela pode comentar e opinar a vontade, mas não comigo.
Eu, felizmente, interajo com quem quero.
* * *
Se algum leitor quiser explicar ao Zeca exatamente porque o seu comentário é tão rude e agressivo, por favor, me ajudem. Eu não saberia explicar.
Se você acha que o comentário é perfeitamente normal e aceitável, saiba que é seu direito, e não acho que você está errado, ou que a minha definição de polidez seja universal, ou que todos devem agir conforme minhas regras, mas com certeza vou escolher não interagir com você, seja em diálogo ou pessoalmente.
Para referência, recomendo esse texto do Alexandre Soares Silva, "Como Discordar de um Post". Eu pratico todas essas regras (exceto talvez não usar muito sarcasmo) e recomendo que vocês pratiquem também.
* * *
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