Estar Confuso

Sala de aula. Eu tinha acabado de expor um tempo verbal bem complexo para o qual não existe equivalente em inglês. Um dos alunos, o que tem mais dificuldade, levanta o braço e diz que ainda está muito confuso. Eu perguntei se tinha mais alguém confuso na sala. Muitos (mas não todos) levantaram o braço.

E expliquei:

  Professora, É pra Ler ou Entender? DINORA MACHADO MELO  Memórias de Professoras: História e Histórias MARIA TERESA DE ASSUNCAO FREITAS

Vocês acabaram de ser expostos a uma quantidade grande de informação sobre um tempo verbal totalmente novo, que funciona de um modo bem diferente da lógica da língua nativa de vocês. Diante disso, a reação mais correta, mais apropriada e mais humana é mesmo ficar confuso. Se, agora, nesse momento, vocês estivessem seguros de ter entendido tudo, provavelmente seria uma falsa confiança, fruto de um entendimento ainda incompleto. Vocês ainda vão passar vários dias confusos, mas não tem problema. O teste é só daqui a um mês. Enquanto isso, vamos treinar isso juntos, em sala, em grupos, sem valer nota, até vocês de fato saberem como usar esse tempo verbal. Até lá, ficar confuso só faz bem.

O aluno que fez a primeira pergunta me olhou com um alívio tão grande, mas tão grande que fiquei até emocionado, e desabafou:

Nunca ninguém tinha me dito que era OK estar confuso!

* * *

Pós-Escrito

Fiquei cá pensando se o problema também não é nosso crescente imediatismo, essa impressão que tudo pode ser entendido, embrulhado, entregue em 50 minutos. E, pois é, tem coisas que são complexas, que leva bem mais de uma hora pra entender e, sabe qual é?, isso é normal, demora mesmo. Senta aí, estuda, e tenha paciência.

* * *

Abaixo, recomendação máxima, um dos livros mais lindos, humanos, abertos, libertários, grandes!, que eu já tive o privilégio de ler:

  Pedagogia do Oprimido

* * *

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28.03.11


Categorias: Comportamento


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Comentários:


Comentário de: Alexandra · http://www.peregrinatrix.com

Muito legal!!

PermalinkPermalink 28.03.11 @ 11:24



Comentário de: aiaiai

Putz, Alex! Te amo!

PermalinkPermalink 28.03.11 @ 11:51



Comentário de: Alex Castro Email

vcs sao duas lindas. :)

PermalinkPermalink 28.03.11 @ 12:40



Comentário de: Glauber

Boa essa de avisar aos alunos que é normal estar confuso, vou dizer isso pros meus quando ensinar Logaritmos.

Qual era o tempo verbal? Sei que isso é só detalhe, mas fiquei curioso

Valeu!

PermalinkPermalink 28.03.11 @ 13:40



Comentário de: Fabiane · http://fabianelima.com

Sério que pode? Passei a vida toda passando raspando em disciplinas como Matemática e Física, sem entender nada, achando que a burra era eu.

PermalinkPermalink 28.03.11 @ 15:39



Comentário de: Amora.

Estou nesse estado de confusão absoluta depois que me metí a fazer Enfermagem.Mas a diferença é que,
como já passei por isso antes, eu me permito ter
esse sentimento e tenho auto-compaixão nos
momentos em que não entendo ou não dou conta da
matéria. Muitos de meus colegas se descabelam
na ansiedade e acabam criando um bloqueio, o
que não permite absorver o conhecimento, nem
lembrar dele na hora da prova.

PermalinkPermalink 28.03.11 @ 16:40



Comentário de: Camila

Ja me acostumei com isso. Já me peguei muitas vezes estudando algum assunto que de algum modo eu já devia saber (coisas que "aprendi" no colégio, mas que na verdade nem cheguei a entender) e finalmente cai a ficha e eu fico pensando "nossa até que é simples, como é que eu não saquei antes?". É uma sensação boa. E eu finalmente parei de ficar sofrendo com isso, pra não acabar ficando com trauma de um assunto que depois você percebe não ser tão complicado.

PermalinkPermalink 28.03.11 @ 19:12



Comentário de: Camila

Ja me acostumei com isso. Já me peguei muitas vezes estudando algum assunto que de algum modo eu já devia saber (coisas que "aprendi" no colégio, mas que na verdade nem cheguei a entender) e finalmente cai a ficha e eu fico pensando "nossa até que é simples, como é que eu não saquei antes?". É uma sensação boa. E eu finalmente parei de ficar sofrendo com isso, pra não acabar ficando com trauma de um assunto que depois você percebe não ser tão complicado.

PermalinkPermalink 28.03.11 @ 19:36



Comentário de: Alessandra

Vejo reações parecidas nos meus alunos (de todas as idades) quando digo que eles estão lá para errar, e errar muito, e se não estiverem errando regularmente pode parar que alguma coisa não está certa. Ou eles não estão tentando, e por isso não erram, ou estão acertando tudo, e aí estão no nível errado e devem ir para outra turma. E lembro eles disso regularmente.

PermalinkPermalink 28.03.11 @ 19:59



Comentário de: Fradique

Qual é o tempo verbal que não tem equivalente na Língua Inglesa? Impossível! Tenho que, se não existe, é porque o idioma é inferior mesmo. Meu convencimento se fundamenta num estudo sólido, metódico e panciente.

PermalinkPermalink 28.03.11 @ 22:35



Comentário de: Flávio Amaral

Estamos imersos em tanta informação vinda de todos os lados e por todos os meios que algumas pessoas confundem essa avalanche de pedras com ser capaz de esculpir.

Muita gente se submete a um curso, a qualquer treinamento, achando que o que haverá ali é somente um endosso legal, um certificado no final atestando que eles já sabem tudo o que precisam saber e que o papel do professor consistirá tão somente torná-los seguros daquilo que já dominam. Aliás, confundir acúmulo de informação - arquivada de maneira acrítica - com conhecimento é um hábito ainda pior.

Não digo aqui que o mestre é a fonte de luz diante dos discípulos, pois muito se aprende quando se tenta ensinar. Mas parece que muitos acham que tudo o que demanda esforço assim o é porque não estão usando o atalho do teclado, a senha correta ou porque o que se tenta ensinar é inútil e sem valor.

Por fim, me dá nos nervos a insistência permanente em se ter "um uso prático" de tudo o que se aprende, com a reflexão teórica recebendo a pecha de veleidade ou de masturbação intelectual, como se em cada ato - e mesmo em qualquer pensamento - não estivesse atrelada uma ideologia, uma emoção, uma visão de mundo que nunca é natural ou instantânea, que nos pega e nos constrói por dentro como cera que pinga em nossa mente e de cuja rigidez só com esforço, boa vontade e humildade podemos pensar em, nem digo escapar, mas ao menos entrever sua presença.

PermalinkPermalink 29.03.11 @ 00:38



Comentário de: Fradique

Ensinar é atividade de analfabetos.
O verdadeiro sábio só ensina a si mesmo, não se entretém na indigna atitude de conduzir a miserável carneirada humana. Quando menos se espera, estará também encafuado no meio do rebanho.

PermalinkPermalink 29.03.11 @ 02:10



Comentário de: João Paulo Cursino aka Sr Atoz · http://sratoz.wordpress.com

Alex,

Entendi que seu foco fosse na perfeita possibilidade de ficarmos confusos sobre um tema estudado, algo natural.

Só que, quando leio um texto, leio-o inteiro e questiono-o inteiro, e vou também pelos meandros que estão fora do holofote, fazendo as perguntas que podem levar a outros lugares. Você, tendo estudado História, poderá talvez imaginar o que será isso.

Por isso, eu TENHO que perguntar: que tempo verbal era esse?

PermalinkPermalink 29.03.11 @ 20:11



Comentário de: Raf

Eu sempre falei isso pros meus alunos, mas nunca de maneira tão desenvolvida. Gostei da sua forma de falar.

E (quase) todo mundo é imediatista hoje em dia. Eu, aprendendo a dirigir, percebo a impaciência do meu professor cada vez que cometo um erro. Como se uma vez explicada a teoria eu tivesse o dever de nunca mais errar.

PermalinkPermalink 30.03.11 @ 07:03



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