Amiga me diz que está sofrendo, que não entende o que está sentindo, não entende de onde vêm esses sentimentos, não entende porque as coisas acontecem do jeito que acontecem.
A busca fútil por entender tudo é tão exaustiva que acaba-se por não viver e não agir.
Ao invés de gastar tanta energia tentando entender nossas emoções, por que não investir essa mesma energia lutando contra nossa tendência obssessiva de querer entender tudo o tempo?
* * *
Por que lutar pra entender nossos sentimentos e não para aceitá-los?
A energia despendida é a mesma, mas os resultados são vastamente superiores.
Para os infelizes colhidos do ciclo vicioso do "fetiche de entendimento", a tortura não tem fim. O mundo é repleto de mistérios: sempre vão haver questões torturantes com as quais se torturar.
Entretanto, a partir do momento em que você aceita seus sentimentos, aceita a si mesmo, aceita o mundo, a tortura acaba.
* * *
Essa nossa ânsia por entender tem o mesmo ímpeto autoritário de outras ânsias, como definir, nomear, buscar a verdade.
Entender X nada mais é do que uma tentativa de simplificar X ao seu mais básico denominador comum, de modo a poder defini-lo e nomeá-lo e, assim, chegar à verdade sobre X. Mas esse processo de simplificação é, por definição, redutor e autoritário: você lança o seu olhar sobre X, ignora inúmeros aspectos relevantes (praticamente qualquer objeto é mais complexo do que sua explicação), constrói uma narrativa explicativa baseada somente nos aspectos específicos sobre os quais você decidiu se concentrar, e, por fim, crava-lhe um rótulo autoritativo, dizendo "A verdade sobre X é isso!"
Entender, definir, nomear e buscar ou articular uma verdade são todas operações autoritárias demais pra minha cabeça. Entender é reduzir, definir é matar, nomear é controlar.
Eu não tento entender ninguém. Eu observo, eu escuto, eu aceito. Tento me colocar na posição da outra pessoa e ver o mundo como ela vê.
Entender é um gesto de dominação e redução. Aceitar é um gesto de amor e generosidade.
* * *
De vez em quando, em conversa com namoradas, elas dizem, exasperadas:
"Ai, Alex, você não me entende!"
E minha resposta é sempre mais exasperante ainda:
"É, não entendo mesmo. Não entendo a mim. Não entendo o mundo. Não entendo as prioridades dos meus amigos, que fazem sacrifícios que eu jamais faria pra poder comprar coisas que eu jamais compraria. Não entendo nada. Vou entender logo você? Você teve outra vida. Tem outro temperamento. Outro corpo. Outros desejos. Você é um outro universo. Mas eu te aceito, eu te amo e estou aqui do seu lado."
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Quatro livros pra abrir sua cabeça:
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