Kafka no Restaurante


Soy Patiente, de Ana Maria Shua, romance argentino de 1980, conta a história de um homem que se interna em um hospício (qual é o nome politicamente correto que usam hoje em dia?) para fazer uns exames e acaba ficando toda a vida.

O livrinho é bom, divertido, gostei de tudo, mas só teria uma crítica: em um universo onde já existe Kafka, ele é redundante. Tudo é kafkiano até o último detalhe. O título bem poderia ser: Kafka no Hospício.

Aí pensei: não seria legal se a próxima daquelas séries de romances da Objetiva fosse de romances kafkianos? Kafka na praia, Kafka na eleição, Kafka no trânsito, Kafka na escola, as possibilidades são ilimitadas.

O meu seria Kafka no restaurante.

Processo Castelo

Impossível escolher a melhor entre essas duas obras-primas de Kafka, ambas incompletas, ambas condenadas à fogueira, ambas salvas por Max Brod, esse canalha.

* * *

Alguém deve ter distorcido seu pedido, pois assim que Joseph K chegou no restaurante o garçom já lhe trouxe um bife. Joseph K mandou voltar o bife e o garçom disse que não tinha autoridade pra devolver o bife, que Joseph K deveria falar com o Gerente-Geral. Joseph K pede que ele pelo menos afaste o bife, pois é vegetariano e tem nojo. O garçom diz que não pode fazer nada, que é apenas uma engrenagem na grande máquina do restaurante, que não sabe como as coisas funcionam, que tem acesso apenas ao 3o cozinheiro, que teria que passar o bife ao 2o cozinheiro, que teria que passar o bife ao 1o cozinheiro, que teria que passar o bife ao cozinheiro-chefe, que nenhum deles nunca tinha visto, não sabiam nem se existia um cozinheiro-chefe. Joseph K pede que o garçom então chame o Gerente-Geral. O garçom avisa que é inútil, que o Gerente-Geral nunca vem ao restaurante, nunca gerencia nada e nunca, nunca fala com os clientes, mas que iria tentar assim mesmo.

Enquanto espera, Joseph K começa a trocar olhares com sua vizinha de mesa, uma certa Fräulein Bürstner, que ele conhecia de vista. Ela se aproxima dele, senta ao seu lado, passa o pé por sua perna e tenta avisá-lo para não devolver o bife, melhor comê-lo e pronto, mas ele se recusa a ceder, e ela se afasta, desiludida, dizendo que então não poderá protegê-lo.

Aparece um novo garçom, dizendo que desde o começo dos tempos, nunca ninguém conseguiu devolver um bife, e aponta um senhor sentado no fundo do restaurante, que estava esperando seu bife há anos e anos, mas que ele, garçom, conhecia o cozinheiro-chefe e poderia interceder em nome de Joseph K.

Os anos se passam. Joseph K está magro pela falta de comida. Não ganha nem sobremesa até acabar seu bife. Um dia, um cozinheiro de outro restaurante senta em sua mesa e lhe conta uma história. Um freguês chega diante da porta da cozinha, protegida por um guarda enorme, e lhe diz que gostaria de entrar. O guarda não deixa e o homem senta pra esperar. Ambos esperam a vida toda. O freguês tenta subornar o guarda, que aceita os presentes mas não o deixa entrar. Muitos anos depois, quando o homem já está morrendo de fome e de velhice, o guarda lhe diz que aquela cozinha tinha sido construída somente para ele e, agora que iria morrer, ela seria fechada pra sempre. Joseph K não entende nada.

Finalmente, dois garçons fortes como dois armários saem da cozinha dispostos a resolver tudo, levantam Joseph K pela gola e arremessam ele e seu bife no chão. Uma bota militar aperta a cabeça de Joseph K contra o bife e o garçom manda: come tudo, agora, assim!

Joseph K obedece. Como um cão.

Metamorfose Artista da Fome

Acima, A Metamorfose (à esquerda) e Um Artista da Fome (à direita). Não sou grande fã da Metamorfose, mas bastariam os contos de Um Artista da Fome para garantir a Kafka um lugar entre os grandes.

* * *

Leia também Kafka, Um Autor Traído

* * *

Se gostou desse texto, por favor, compre qualquer desses livros clicando nos links ou imagens, e você estará ajudando a manter esse blog.

 Desaparecido ou Amerika, O   Na Colônia Penal

 

22.03.11


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Comentários:


Comentário de: Bruno

Existe esse livro aqui:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/livrariadafolha/664297-franz-kafka-inspira-receita-de-sopa-de-misso.shtml

PermalinkPermalink 22.03.11 @ 09:08



Comentário de: rayssa gon · http://presencadapeste.blogspot.com

acho que sanatório.



PermalinkPermalink 22.03.11 @ 13:22



Comentário de: Harry

Melhor que Barbie...

PermalinkPermalink 22.03.11 @ 16:24



Comentário de: Daniela

Alex, que livro do Sartre você recomenda para uma menina de 17 anos?

PermalinkPermalink 22.03.11 @ 18:35



Comentário de: Alex Castro Email

Daniela,

Recomendo, e MUITO, "O Existencialismo é um Humanismo", que é bem acessível:

http://www.submarino.com.br/produto/1/21860632/existencialismo+e+um+humanismo,+o/?franq=136855

http://www.4shared.com/document/T3yLPKOg/SARTRE_O_Existencialismo__um_H.html

PermalinkPermalink 22.03.11 @ 21:52



Comentário de: Daniela

Ah, muito obrigada. Vou começar JÁ.

PermalinkPermalink 23.03.11 @ 18:04



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