Meu artigo sobre Borges e o Martín Fierro, publicado em 2008, está finalmente disponível on-line.
Jorge Luis Borges eu acho que não preciso apresentar aos leitores desse blog. O Martín Fierro, obra mais canônica da literatura argentina, é, em minha opinião, talvez o melhor poema escrito nas Américas no século XIX - ao lado do Song of Myself, do Whitman. Foi também uma obssessão de Jorge Luis Borges durante toda sua vida. Dois de seus contos são continuações do Martín Fierro e muitos outros se passam no mesmo universo gauchesco.
Em meu artigo, eu analiso o Martín Fierro, o muito negligenciado conteúdo racial do poema e o modo como Borges recria o Martín Fierro em sua própria obra.
Abaixo, a introdução ao artigo:
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A história das leituras de Martín Fierro, de José Hernández, é a própria história da literatura argentina Suas duas partes (El Gaucho Martín Fierro, também conhecido como La Ida, 1872, e La Vuelta de Martín Fierro, 1879) foram primeiro publicadas como livretos, baratos, acessíveis e despretensiosos, circulando assim separadamente por mais de 30 anos, com imenso sucesso comercial. Em 1910, são finalmente reunidas e editadas em forma de livro, o que marca o primeiro passo concreto no caminho para sua canonização literária. Na mesma década, dois influentes literatos, Ricardo Rojas e Leopoldo Lugones, decretam o Martín Fierro como a epopéia do povo argentino, a obra-prima nacional por excelência, repositório das melhores qualidades e virtudes da cultura dos pampas. Pouco depois, entretanto, já surgem as primeiras vozes dissidentes, como Calixto Oyuela, seguidas pelo monumental estudo de Ezequiel Martínez Estrada: esses críticos não negam o valor literário da obra, mas sim a estatura do protagonista tanto quanto modelo de conduta quanto gaúcho paradigmático. Nesse momento, nas décadas de 40 e 50, acossado por um peronismo que via como um retorno da barbárie do século XIX, Jorge Luis Borges relê, reinterpreta e retoma o Martín Fierro, mudando para sempre o modo como o poema será lido.
A abordagem borgiana do já polêmico Martín Fierro não poderia deixar de ser também polêmica. Seus contos hernandianos ("Biografía de Tadeo Isidoro Cruz (1829-1874)" e "El Fin") e gauchescos ("La Otra Muerte", "El Sur", etc) são vistos tanto como traições ao gauchesco e ataques ao Martín Fierro quanto como homenagens a essa tradição literária nacionalista . Alguns estudiosos, que ainda enxergam em Martín Fierro um ideal virtuoso a ser seguido, consideram a abordagem borgiana, ao matar o personagem em "El Fin", um golpe de misericórdia no gênero gauchesco. Outros, mais críticos quanto às atitudes éticas do personagem, consideram que Borges salvou Martín Fierro de si mesmo, ao lhe dar a morte honrosa que Hernández lhe negara. De qualquer modo, todos concordam que Borges corrige e reescreve o Martín Fierro. Mas como? Qual é o eixo dessa reescritura?
O ponto central do debate, naturalmente, é um julgamento moral sobre as escolhas, atitudes e ações do personagem Martín Fierro. Será ele um herói forte e virtuoso ou um desertor brigão e hipócrita? Devem os argentinos tomar o Martín Fierro como ideal heróico? Merece Martín Fierro ser um modelo a ser seguido? Nesse julgamento moral do gaúcho, o principal argumento da acusação são as atitudes de Martín Fierro com dois negros. Em La Ida, enquanto está bêbado, ele puxa uma briga com um negro, o mata na frente de sua mulher e ainda o humilha. Em La Vuelta, o irmão do Negro desafia Martín Fierro para uma payada [algo como um duelo de cantores]: o gaúcho aceita mas acaba fugindo do duelo que se seguiria. Por que Hernández utiliza dois negros para ilustrar as duas ações mais baixas do seu personagem? Como esses dois negros, em especial o segundo, são mostrados pelo autor em comparação com o protagonista? Qual é a atitude de Martín Fierro em relação ao dois negros? Dentro do plano da obra, qual o significado dessas baixezas por parte do protagonista? Ou seja, por que Hernández faz seu protagonista cometer tamanhas atrocidades? Na esteira dessas perguntas, analisaremos também o conto "El Fin", de Jorge Luis Borges. Por que Borges escolhe justamente essa relação entre Fierro e o Moreno para glossar? De que modo a interação entre ambos personagens é diferente em Borges e em Hernández? Afinal, Martín Fierro é ou não um herói do povo argentino?
Nesse ensaio, vamos estudar a figura do negro em Martín Fierro, avaliar como essas personagens são tratadas na obra ensaística borgiana sobre o poema e, por fim, considerar a recriação que Borges executa do Moreno em seu conto "El Fin" [do livro Ficciones].
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O Martín Fierro
- Martín Fierro para Kindle.
- Martín Fierro, texto completo, gratuito, para ler na internet: La Ida & La Vuelta.
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Os contos de Borges sobre o Martín Fierro
(para ler de graça na internet)
- El Fín
- Biografía de Tadeo Isidoro Cruz (1829-1874)
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Um outro artigo sobre Borges e o Martín Fierro
Para dar fin a una discusión sobre “El fin” de Borges
y posible comienzo a otra, de Marta Spagnuolo
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Texto completo do meu artigo
O herói negro do Martín Fierro: civilização x barbárie em Borges e Hernández
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