Relações com a Imprensa

Em 2004 e 2005, eu dei muitas entrevistas e aspas. Por fim, numa tentativa de controlar minha imagem e evitar roubadas, eu passei a considerar mais cuidadosamente cada convite.

Entrevista sobre blog, por exemplo, não dou mais. Sou um escritor que usa blogs como ferramenta de divulgação. Sou tão blogueiro quanto os poetas da década de 70 eram mimeografeiros. Quando me perguntam "blog é literatura", eu rebato na hora: "livro é economia?" Pois é, um blog pode ser de literatura (mas também pode ser diário) e um livro pode ser de economia (mas também pode ser de fotografia): o meio não é a mensagem.

Muita gente também me procura pra conversar sobre relacionamentos abertos e outros assuntos que eles *acham* que são relacionados, como swing, poligamia ou suruba. Por enquanto, só concedi um depoimento pra Sexy VIP, porque gostei do jeito da matéria. (Não por acaso, foi pra talentosa e fodona @cynaramenezes.) Os outros, recusei.

A ética do jornalismo exige que se informe à fonte que a matéria é contra ela. Por exemplo, se está fazendo uma matéria sobre como o criacionismo é ridículo, não se pode (ou, pelo menos, não se deve) ligar para um criacionista, fazer perguntas sobre seu trabalho e suas idéias como se a matéria fosse sobre isso, e depois usar isso tudo para ridicularizá-lo. Idealmente, deve-se avisá-lo: "olha, estou escrevendo uma matéria contra o criacionismo, dizendo que isso e aquilo, o senhor gostaria de oferecer o seu ponto de vista?" Naturalmente, a maioria dos repórteres não faz isso porque 1) não sabem o que é ética e, 2) dá muito mais trabalho, pois boa parte das fontes (com razão!) bate o telefone na sua cara quando descobre que a matéria é um ataque a eles.

Pois então, quando liga alguém querendo me entrevistar sobre relacionamentos abertos, o papinho é sempre o mesmo: "li o seu blog, que máximo, queremos saber mais detalhes", etc. Mas basta perguntar mais um pouco, sobre a pauta, sobre o formato, sobre o veículo, para descobrir que as coisas não são bem assim. Quase sempre são convites ou para debates ("vamos entrevistar você e um pastor que faz terapia para casais...") ou, pior ainda, para declarações ou participações em pautas claramente do contra ("hã... err... na verdade, é um programa especial sobre a decadência dos valores morais na sociedade contemporânea... mas somos bem liberais, hein!")

Se quiserem saber minhas opiniões, ótimo. Mas dá licença de eu não querer ser nem escada nem freak show?

 Arte de se Relacionar com a Imprensa  Sobre Ética e Imprensa

* * *

É importante pré-entrevistar o jornalista.

Ele está ali trabalhando, mas nós, a fonte, estamos lhe fazendo um favor. Não vamos ganhar nada com isso. Então, temos direito de querer saber quem ele é e pra onde já escreveu; qual é o perfil da publicação e qual é a pauta da matéria; com quem mais ele já falou e com quem pretende falar.

Afinal, nós estamos lhe dando nosso tempo, estamos lhe confiando nossas palavras e nossas reputações. Quantas vezes já não aconteceu da imprensa distorcer palavras e destruir reputações?

Se o jornalista não tem a delicadeza e a consideração de conversar comigo por cinco minutos, ou se acha que não me deve nenhum tipo de satisfação ou esclarecimento, ou se age como se fosse um grande favor da parte dele vir me perguntar o que acho da crise no Líbano, então como posso confiar que terá a delicadeza e a consideração de não colocar palavras na minha boca e de não distorcer meu sentido?

Nesses casos, quando o jornalista não me convence nem me cativa, prefiro não arriscar: agradeço educamente e recuso.

* * *

Todo esse post porque acabei de recusar mais uma entrevista - dessa vez, sobre beleza feminina, para um veículo que eu gosto, por uma jornalista simpática e leitora antiga do blog.

Para um artista independente, forçado pelos ossos do ofício a ser media whore, recusar entrevista é sempre doloroso. Mas, por uma série de motivos, aquela pauta não era pra mim.

* * *

Essa semana, por exemplo, participei de uma das melhores matérias que já li sobre o affair Monteiro Lobato, escrita por Ronaldo Pelli para a Revista de História da Biblioteca Nacional: Monteiro Lobato sem fantasia

Aproveite e leia (*suspiro envergonhado*) o meu clipping completo: alexcastro.com.br/clipping

 Imprensa e Poder  Imprensa na Berlinda: a Fonte Pergunta

* * *

Meus livros à venda. Se for comprar, pra fins de comissão, prefiro fortemente que compre pelo meu site. Também à venda na Amazon. Vá no Skoob e dê sua opinião.

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08.03.11


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Comentários:


Comentário de: aiaiai

Parabéns, Alex, por essa atitude consciente diante da mídia. Eu morro de vergonha alheia por pessoas que dão entrevista pra qq um que pede. Se todos tivessem a sua coragem de dizer não, a imprensa brasileira poderia ser bem menos arrogante e mais informativa.

PermalinkPermalink 08.03.11 @ 11:30



Comentário de: Helvecio

"A ética do jornalismo ..."

Hein ?!?!

Abraços
helvécio

PermalinkPermalink 09.03.11 @ 11:51



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