Eu, que adorava Jornada nas Estrelas não consigo mais ver um filme ou episódio sem me dar conta do processo ideológico em ação.
O universo ficcional de Jornada das Estrelas é como a realização dos sonhos de Francis Fukuyama: a História acabou porque o American Way of Life ganhou, todos os seus possíveis adversários cederam, aderiram ou sumiram, não sobrou mais ninguém para ser do contra, não há conflito, diversidade, choque. A História, se existe, é feita lá fora, entre os alienígenas, entre aqueles que ainda não aderiram ao pensamento único dos humanos e da Federação. Entre o século 22, palco da série Enterprise, e o século 24, das séries Nova Geração, Deep Space Nine e Voyager, a impressão que temos é que a nossa doméstica História terrestre realmente parou.
Acompanhamos as aventuras dos bravos homens da Frota Estelar no espaço porque, convenhamos, se ficássemos na Terra, não haveria nada pra acompanhar. Sintomaticamente, os viajantes espaciais passam pela Terra dezenas de vezes ao longo de três séculos e nada nunca muda. Nunca ouvimos falar de guerras, rebeliões ou dissidências. Nunca há uma nova moda, um novo movimento literário, um novo sistema econômico. Realmente, com a vitória de um way of life sobre todos os outros, com a total uniformização da cultura humana, não haveria como surgirem novos movimentos literários, políticos ou econômicos. Ao consenso, segue-se à estagnação. Não é à toa que a Frota Estelar parece atrair os melhores talentos do planeta: para qualquer um com iniciativa, criatividade e liderança, morar nesse planeta estagnado deve ser um inferno.
Os valores da humanidade e, por extensão, os valores da Federação Unida de Planetas, capitaneada pela Terra e com capital em Paris (!), são os valores ocidentais anglo-saxões. E eu fico me perguntando: o que será que foi feito da cultura asiática, com valores completamente opostos? Terão os bilhões de chineses, japoneses e afins sido eliminados em massa ou simplesmente sofrido lavagem cerebral? O que terá acontecido com a cultura latino-americana, também completamente alheia aos valores de Picard & Janeway? Meu deus, eu me pergunto, com uma última fagulha de esperança, será que os parienses, pelo menos eles!, torcem o nariz pra Federação e fazem passeatas e piquetes na porta da sua sede? Seria, no mínimo, um consolo.
Mas nem isso.
De certo modo, ainda consigo assistir à série clássica. Os valores, as regras, a ideologia da Federação já são os mesmos que na época de Picard, cem anos depois, mas Kirk é tão abertamente egocêntrico e rebelde que ainda podemos sentir uma esperança. Sim, existem regras sufocantes e universalizantes, mas também é possível chegar ao topo cagando pra elas e fazendo o que bem se entende. Além disso, se pode existir um russo na ponte de comando falando com fortíssimo sotaque (a pior coisa de ver Jornada das Estrelas dublado em português é perder o sotaque de Chekov) e sustentando que tudo foi inventado na Rússia, bem, significa que pelo menos um pouco de "História" deve ter restado. Ainda existem conflitos, rivalidades nacionais, orgulho, patriotismo.
Na época de Picard, entretanto, parece que já não sobrou nada do iconoclasta espírito de fronteira que animava Kirk. As regras são antigas, todos cresceram rodeados por elas e não são mais questionadas. Picard é politicamente correto do começo ao fim, o perfeito manager. Não é a toa que existem livros de business sobre o "jeito de liderar de Picard". Se eu fosse acionista, também gostaria que meu CEO fosse como Picard e minha empresa, como a Enterprise.
Gene Roddenbery conseguiu a façanha de transformar um programa de ficção científica, normalmente um excelente veículo pra críticas sociais alegóricas, em uma série profundamente conservadora. Para entender a diferença basta assistir Babylon 5, de J. Michael Straczynski ou Firefly, seriado precocemente cancelado de Joss Whedon.
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