Post originalmente publicado em 1º de março de 2005.
Eu ia escrever um post de aniversário para minha amada. E um post de despedida.
Ela, que foi quem eu mais amei. Ela, que talvez nunca mais, ou não tão cedo, passe seu aniversário em minha companhia. Ela, por quem eu já abdiquei de tanta coisa. Ela, cujo amor é uma de minhas maiores prisões. Deus saberia, se ele existisse, que quando não segui o caminho que me estava preparado, quando não saí do país depois da escola como todos os meus colegas, foi mais por amor a você do que por qualquer outra coisa.
Em 1990, quando começaram a cair os primeiros scuds em Israel, uma sabra amiga minha fez suas malas, largou sua vida aqui em suspenso e foi pra Jerusalém. Ninguém entendeu, mas eu entendi. Se a sua amada está sendo bombardeada, o seu lugar é lá.
Tem coisas que até hoje não aceito. A rendição de 1711 ainda está entalada na minha garganta. É quase como se fosse algo pessoal. Os franceses já tinham tentando te raptar em 1710 e nós corremos com eles daqui. Agora, voltavam pra revanche. Que viessem! Tudo o que fizemos em 1710 poderíamos ter feito de novo em 1711. Mas não. Contra todos os que queriam ficar e lutar, o governador ordenou sua evacuação. Milhares de homens estavam a caminho, vindos de Minas, para ajudar em sua defesa e, mesmo assim, o pusilânime ordenou que lhe deixássemos indefesa. Em meio a um temporal de setembro, fomos obrigados a te abandonar: subimos ensopados as montanhas da Tijuca e você foi pilhada pelos comedores de baguete. Quando os mineiros chegaram (até parece que precisávamos deles pra te defender!), os franceses pularam de volta nos navios com todas as suas riquezas e foram embora. O pior é que talvez o governador não fosse nem corrupto, como todos acharam, mas somente poltrão e incompetente: morreu pobre e sozinho, em merecido degredo na África. Se os franceses lhe prometeram suborno, não pagaram. Bem feito.
Eu confesso que Saldanha da Gama e Custódio de Mello eram personalidades fascinantes, oficiais de marinha das antigas, cultos, belos, heróicos, de fazer bonito em qualquer nação européia. E que Floriano Peixoto era só um caboclo taciturno dado a rasgos ditatoriais. Mas, sinceramente, como posso simpatizar com quem subleva a esquadra e abre fogo contra você? Logo a esquadra, que era praticamente sua, que era baseada em seu porto, que habitava sua baía, a esquadra criada e mantida, entre outras coisas, para te defender de ameaças externas! Não quero saber quem está certo ou quem está errado. Qualquer um que lhe faça fogo é meu inimigo.
Se eu tivesse estado aqui (não sei explicar, mas sinto como se eu quase tivesse estado), nada disso teria acontecido. Eu teria te protegido. Eu teria dado um jeito.
Agora, não há outra palavra, você está decadente, minha amada. Eu queria ter lhe conhecido em 1808, quando chegou D. João, na virada do XIX pro XX, quando Pereira Passos lhe derrubou metade para reerguê-la ainda melhor, na década de 1940, quando nunca esteve mais linda.
Infelizmente, nasci no ano da malfada fusão, que a maioria das pessoas de minha idade já nem sabem que existiu. Parece até que nunca foi a cidade-estado que sempre foi. Há melhoras, há espasmos de atividade, mas Salvador, no final do século XVIII, ainda conservava ares de capital. E daí?
Historicamente falando, seus melhores anos provavelmente já passaram. As empresas vão embora, as balas perdidas alojam-se. Hoje, seus únicos negócios realmente prósperos são telecomunicações, petróleo e novelas da Globo. Todo o resto já migrou lá pro colégio dos jesuítas. Daqui a pouco, pode acabar se tornando umas aquelas pequenas cidades provincianas, dependentes de uma só indústria. Não sei o que será de você, minha Rita Hayworth pegando o táxi sozinha, beleza estonteante esnobada.
Estou lhe abandonando, essa é a dura verdade. Talvez eu volte. Talvez não. Talvez quando eu voltar eu nem te reconheça. Talvez a violência já esteja tão endêmica que qualquer vida econômica seja impossível. Talvez tenha se tornado uma enorme e belíssima cidade-fantasma espremida entre o mar e a montanha.
É doloroso lhe abandonar em plena decadência. De certo modo, sinto que era minha obrigação afundar com você nas lamas da Guanabara. De certo modo, sinto que você precisa mais de mim hoje do que em 1711 ou em 1893. Mas o que pode um apaixonado e desconhecido escritor solitário contra um processo histórico tão antigo?
Vou pra longe em distância, mas não em espírito. Lá pra onde vou também tem mangue com jacarés - deliciosamente familiares para quem cresceu remando por entre os jacarés dos manguezais do Marapendi. Lá também é quente e úmido, tem carnaval, mulatas estonteantes e comida apimentada.
Eu sempre lhe cantarei, meu amor. Cada linha que eu escrever será sobre você, mesmo que eu não diga o seu nome.
Era isso que eu ia escrever, mas não tenho tempo e estou muito cansado.
Por fim, só uma promessa: farei 91 duas semanas antes de você fazer 500. Com certeza, estará tão bela como sempre, mas sabe-se lá onde ou como estarei - se é que estarei! Mas, se estiver, se me sobrar alguma lucidez, tentarei obrigar os bisnetos a me trazer pra cá, pra passarmos nossos aniversários juntos.
Nem que tenha que forçá-los a bengaladas.
Mas, agora, aos 31, estou indo embora. Chegou o momento. Nada mais me prende aqui. Não tenho carreira, casamento, empresa, nada. Sou eu e meu cachorro. Estou preparado pra finalmente experimentar a vida sem você. Eu preciso disso. Não tente me segurar.
Se me ama, me deseje sorte.
* * *
Posfácio de 1º de março de 2011, escrito em Nova Orleans.
Nesses seis anos, nunca perdemos o contato: passei sempre cinco meses por ano com você, trabalhando, namorando, alugando apartamento, vivendo a vida cotidiana ao seu lado, justamente pra não perder o seu cheiro e o seu ritmo, as gírias e as modas, pra não virar haole - deus me livre! Ninguém pode me acusar de te idealizar: conheço cada estria, cada arrastão; amo cada celulite, cada chacina.
Muita coisa mudou. Você passou no teste do Pan - confesso que eu estava cético! Foi retratada em dois Tropas de Elite - belíssimas obras que elevaram ao nível da arte todos os nossos maiores dilemas e apreensões. Depois, descobriram uma quantidade enorme de petróleo na sua costa - que querem lhe tomar no tapetão! Agora, esse ano, vai sediar os jogos militares (quarto maior evento esportivo do mundo) e, daqui a pouco, uma copa (incluindo a final!) e uma olimpíada.
Hoje, aqui de longe, você me parece revitalizada, linda, cheia de esperanças - potencializando seu duplo caráter turístico e petroquímico. Será que, em 2005, fui pessimista demais e não lhe dei o devido valor? Será que você está ressurgindo? Desculpa se não confiei em você, meu amor! Você me perdoa?
Pra mim, nesse momento, a pergunta é a seguinte: onde quero estar nos próximos vinte anos? De onde quero observar o futuro acontecer? De qual processo histórico quero ser testemunha? Nada me prende. Posso ir pra qualquer lugar. Acabei de viver os seis anos imediatamente pós-Katrina em Nova Orleans - um período único que nunca mais vai se repetir.
Confesso que Havana é uma forte finalista: assim que morrerem os irmãos Castro, a batalha dupla pela democracia em Cuba e pela manutenção do legado revolucionário vai ser feroz, linda, necessária. Gostaria de fazer parte dessa aventura, de me meter nessa briga, mas quem estou enganando, não é? Havana é uma amante querida, uma jineteira sem-vergonha, mas você é minha esposa. É o seu futuro que quero ver, é da sua História que quero participar, é nos seus braços que quero morrer.
Crescendo ao seu lado, havia sempre algum gringo maluco com a mesma história: estava de passagem, esbarrou em você, ficou para sempre. E eu os invejava, sabe? Por um lado, eu nasci dentro de você - o que, pra mim, não é fonte de orgulho mas mero acidente histórico. Já eles, caramba!, eles te escolheram! Nasceram em Tucson, Estocolmo, Florença mas bastou te conhecerem para saberem na hora: é aqui que vou ficar!
E você, hospitaleira e sem-vergonha, é dessas que só dizem sim: mesmo sem renda e sem prenda, você nos faz as vontades, nos diz meias-verdades e nos faz acreditar (vaidosos!) que somos o povo mais privilegiado do mundo. (Gueixa indiscriminada, você aceita igualmente todos os que te amam - carioca é quem se sente carioca.) Na manhã seguinte, naturalmente, antes de contarmos até vinte, podemos ter sido atingidos por uma bala perdida ou soterrados pela lama que desce o morro, mas é o risco que corremos. Existem muitas outras mais seguras, mais pacatas, mais civilizadas, mais respeitadoras: quem quiser, que fique com elas. (Curitiba é linda nessa época do ano!)
Nós, os que te escolhemos, aceitamos o positivo junto com o negativo, o risco com o dividendo, o ônus com o bônus. Na verdade, não é nem que aceitamos o ônus em si: aceitamos o ônus de positivar o negativo, de minizar o risco para para podermos melhor usufruir dos dividendos. Quem te escolhe também escolhe o ônus histórico de te amar, te preservar, te salvar de si mesma. Ninguém que assistiu Tropa de Elite pode alegar que não sabia onde estava se metendo.
E essa é a questão, não é? Passar seis anos longe me permitiu fazer algo que sempre desejei: te escolher. Estar ao seu lado não por um feliz acaso do destino, mas por decisão consciente, pensada, fatídica.
Te escolho.
* * *
* * *
Siga no Twitter: http://twitter.com/AlexCastroLLL // Pergunte no Formspring: http://www.formspring.me/alexcastrolll // Assine o RSS: http://feeds.feedburner.com/LiberalLibertarioLibertino // Acompanhe o Google Reader: http://www.google.com/reader/shared/lll.alexcastro
Posts similares:
Sabem Por Que Me Emociono com o Presidente Lula?
Painful Memories (Relembrando o Furacão Katrina)
Por Que Você Lê o LLL?
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário
Post anterior: 'Deleted Scenes from the Cutting Room Floor', por Caro Emerald