
Estava na casa de uma amiga quarentona, profissional, indepentente, decidida, fodona. Mulher que não deve nada a homem nenhum.
Passamos pelo quarto do seu filhão adolescente, de barba e bigode, e ela vê sua toalha de banho embolada no chão. Vai lá, pega, estica na corda, e ainda comenta: tsc tsc, igual ao pai! Que coincidência!, eu pensei. E, como não consigo ficar calado, disse: você já considerou a possibilidade de ele estar ficando igual ao pai, entre outras coisas, por sua causa?
Ela ficou defensiva (pessoas que estão sempre esperando ser atacadas vêem ataques por todos os lados; em pouco tempo, afastam todos seus amigos e só andam com seus cupinchas) e respondeu:
A culpa é sempre da mulher, né? Se eu fosse estuprada, você também iria dizer que foi culpa minha que usei uma saia curta demais! Era pra eu fazer o quê?
Hmmm, que tal simplesmente não pegar a toalha?
E quando meu filho chegar da universidade e quiser tomar banho, ele vai se enxugar com o quê?
Bem, eu respondi, é esse o problema, não é? Ele não vai aprender nunca porque ele larga a toalha embolada no chão e, quando chega da escola, ela está pendurada, esticadinha e seca no box. É como se fosse mágica. Por que ele iria se preocupar? Pra ele, a situação está perfeita.
Mas, se eu não catar a toalha, ele vai chegar em casa, vai direto pro banho, e ainda vai gritar de lá: manhêêêêê, cadê a minha toalha??? E aí?
Eu sugiro que você responda: a sua toalha deve estar onde você deixou. Como é que eu vou saber? Deixa ele se enxugar um dia com o tapete do banheiro. Molda o caráter e só faz bem.
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Tenho outra amiga que obriga sua filha adolescente a manter seu quarto pronto para receber visita do Rajá da Índia, enquanto o quarto do filho parece um depósito de lixo. Eu já sabia a resposta, mas perguntei mesmo assim. E ela respondeu: ué, Alexandre, ele é menino! Ele não precisa ser arrumadinho.
Em outra família, o filho de 17 pode trazer quantas namoradas quiser e eles ficam trancados no quarto, estudando filosofia estruturalista, apreciando sua coleção de selos búlgaros ou transando como coelhos, os pais preferem nem saber. Já a filha, de 16, não pode nem falar em ter namorados. Ela ainda é muito jovem, diz o pai, não está na idade.
Estou falando do eixo Morumbi-Leblon, século XXI. Esses rapazes vão ter que se esforçar muito pra não se tornarem machistas. Provavelmente, não vão conseguir. E, depois, ainda vão ter que ouvir que homem não presta. Coitados, nunca tiveram uma chance.
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A maioria das mães que eu conheço faz coisas assim várias e várias vezes por dia.
Falam sem parar no ouvido dos filhos pra eles pegarem suas toalhas e coisas assim (o que não adianta nada, adolescente não escuta mesmo, só os condiciona a não prestar atenção no que mulher diz) e, no fim das contas, catam elas mesmas as toalhas (ensinando a eles que mulher fala muito mas acaba fazendo tudo o que o homem deixou de fazer).
Se houvesse um livro sobre como criar um machinho em 18 anos, ele não daria receitas tão infalíveis.
E, depois, ainda reclamam dos homens.
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Essa crônica faz parte do meu livro Liberal Libertário Libertino, com minhas melhores crônicas de 2003 a 2007, incluindo clássicos como Fantasmas de Felicidades Passadas, Pessoas-que-Acreditam-em-Coisas e Manifesto Libertário. A primeira edição, de 2007, esgotou; a segunda edição, de 2010, aumentada e revisada, conta com dois novos textos - inclusive um novo epílogo à narrativa do Katrina.
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