O Racismo de Monteiro Lobato

Racismo LLLSim, Monteiro Lobato era racista, mas e daí? Quem não foi? Nosso racismo não é um problema individual. Importante é o racismo da obra, não do autor. A partir de qual idade as crianças tem condições de entender a contextualização de uma obra abertamente racista?

* * *

Tenho tanta coisa a falar sobre esse assunto que tenho evitado me manifestar. Além disso, não gosto de ser caixa de ressonância e repetir, sem acrescentar nada, o que outros já disseram melhor. Por exemplo, esse texto da Ana Maria Gonçalves, que eu assino embaixo: Não é sobre você que devemos falar.   Defeito de Cor, Um

Hoje, enfim, acho que tenho algo a acrescentar, uma coisa que ainda não ouvi ninguém dizendo, um pequeno reparo ou complemento a outro recente texto da Ana: Carta Aberta ao Ziraldo.

O texto é ótimo, lindo e necessário. Em resposta às tentativas de canonização do Lobato, a Ana desencava mil comentários racistas do autor, provando assim que as injúrias raciais presentes em seus livros não eram uma aberração, mas parte integrante de um projeto eugenista que ele perseguiu a vida inteira. No contexto do debate político sendo travado, era fundamental mostrar que o rei estava nu.

Mas, apesar de necessária resposta aos canonizadores, o texto da Ana peca por justamente deixar que eles pautem o debate. Agora, a coisa ficou pessoal: temos por um lado gente dizendo que Lobato era santo (ontem ouvi o absurdo de que Lobato não podia ser racista, pois foi o primeiro editor a publicar autores negros!) e, do outro, gente citando a Ana pra dizer que Lobato era um monstro do racismo e apoiava a Ku Klux Klan.

Entretanto, o racismo não é um problema individual, mas sistêmico e estrutural da nossa sociedade. Entrar na discussão caça-às-bruxas de apontar quem é ou não racista é fazer o jogo de quem quer esvaziar esse debate. Afinal, se o racismo for culpa de um ou outro racista que pode ser encontrado, apontado, morto, censurado, reeducado, então o problema não é estrutural da nossa sociedade, mas individual dessas pessoas. Afinal, se racista é só quem fala que negro é imundo e apoia a Ku Klux Klan, então quase ninguém de fato é racista e o problema já está praticamente resolvido e mal vale a pena esse debate! Cada vez que alguém como a Ana se vê arrastada a esse debate fútil ad hominem, todos perdemos.

Ao tentar chamar atenção para atitudes ou discursos racistas, é importante evitar a construção "você-é". Não devemos deixar a conversa ir para esse lado e nem devemos deixar que o outro arraste a conversa para esse lado. Pouco importa quem essa pessoa é. Não temos a acesso a quem ela "realmente é". Isso é sair do foco. A conversa importante tem que ser sobre o que a "pessoa fez", sobre o impacto de suas ações no mundo, sobre o impacto de suas palavras em outras pessoas. Ou seja, não é que fulano é um racista (quem somos nós para apontar esse dedo?), mas ele fez sim um comentário racista, e é importante apontar isso, e tentar educá-lo, sem com isso fazer-lhe tão enorme acusação.

Então, em última análise, pouco importa se Monteiro Lobato era realmente racista - ou destro ou diabético ou se batia na mulher. Ele já morreu e não está aqui pra se defender. Sua vida acabou. Kaputt.

O que importa são os livros.

Negrinha Presidente Negro

* * *

Os livros do Sítio tem um fortíssimo conteúdo racista que não deve ser exposto a crianças pequenas. Um racismo tão forte, tão odioso e tão insultante que não tem como ser contextualizado pelo professor. Nenhum brasileiro de oito anos de idade deve ser obrigado a ler um livro que insulta a ele, a seus pais e parentes, e a pessoas como ele. Um livro que é imposto pela escola como leitura obrigatória em sala de aula tem uma aura de respeitabilidade e aprovação institucional que não teria se fosse presenteado por um parente, encontrado na estante de casa, comprado na livraria. Ninguém até agora (que eu saiba) defendeu que Monteiro Lobato seja censurado, recolhido, queimado, mas é odioso a escola impor esse tipo de constrangimento a uma criança. Não tem contextualização que resolva:

Poxa, Joãozinho, eu sei que esse livro que você está sendo obrigado a ler compara você e toda sua família a animais preguiçosos, mas engole o choro, vai? Naquela época, todo mundo falava assim, todo mundo achava isso. É a história do Brasil! Você não vê como estou contextualizando, oras? Por que ainda está chorando? *E entre os dentes* Porra, negro é foda, sempre se faz de vítima!

* * *

Joaquim Nabuco também era racista. Racistas eram todos os grandes, médios e pequenos homens do nosso passado, com raras exceções. Racista era toda nossa sociedade e toda nossa cultura - aliás, até hoje. Dá pra pinçar da obra de qualquer escritor diversos trechos racistas e odiosos - embora talvez não ao ponto de elogiar a Ku Klux Klan, como a Ana desencavou do Lobato!

Mas pouco importa o racismo de Nabuco, homem branco e rico do Nordeste açucareiro. Nabuco morreu. Quem ainda temos aqui ao nosso lado é O Abolicionismo, talvez o panfleto político mais radical escrito no Brasil no XIX. Um livro que fez muito pelo movimento abolicionista, um livro que deu esperança a milhões de pessoas, um livro que mudou a história. Um livro com trechos racistas, um livro que não considera jamais (até teme) a ação política dos próprios negros, um livro que constrói o abolicionismo como um movimento político exclusivamente branco.

Toda nossa produção literária do século XIX é intrinsecamente racista. Era racista quando falava do negro, sempre em tom condescendente e imbecilizante, e era racista quando não falava do negro, sempre ignorado e desprezado, como se não tivesse inteligência, sensibilidade, vontade própria.

  Abolicionismo Escrava Isaura, A

A Escrava Isaura, por exemplo, é uma obra profundamente racista. Todos os negros são descritos de forma feia e animalizada. Só uma negra tem nome - e é a vilã perversa irredimível. A escravidão nunca é criticada: o drama do livro não é que exista escravidão (teoricamente esses negros sujos sem nome merecem o cativeiro), mas que uma moça tão linda e tão branca quanto Isaura seja escrava. Por tudo isso, o romance A Escrava Isaura é uma obra EXCELENTE para ensinar o racismo para os alunos - mas só depois de as crianças já terem estudado História e Geografia do Brasil e estarem maduras para pensar o mundo mais criticamente e entender as questões que o romance levanta.

Existe um mundo de diferença entre ensinar A Escrava Isaura, um livro racista, no Ensino Médio, e ensinar Caçadas de Pedrinho, um livro racista, no Ensino Fundamental. Na faixa etária a qual os livros de Lobato se destinam, as crianças ainda não têm o aparato crítico nem os conhecimentos de História necessários para contextualizar as falas racistas da Emília. Não existe contextualização possível que consiga superar aquelas palavras tão feias, tão odiosas, tão ofensivas - ainda mais quando ditas pela personagem mais simpática do livro e implicitamente aceitas por todos os outros, que não a punem por falar esses absurdos.

* * *

A discussão não é sobre o racismo ou não de Lobato - quase todo mundo era racista no passado.

A discussão não é sobre censura - não vi ninguém propondo censurar Lobato.

A discussão não é sobre ensinar livros racistas na sala de aula - senão, teríamos que jogar fora toda a literatura brasileira do XIX.

A discussão não é se professores são uns vagabundos que não querem nem fazer o trabalho de contextualizar os livros que ensinam - todos fazemos isso o tempo todo.

A discussão não é sobre os livros lindos que você leu na sua infância e que as novas gerações vão ser impedidas de ler pela patrulha do politicamente correto - como disse a Ana, não é sobre você devemos falar.

A discussão deve ser a seguinte:

A partir de que idade as crianças passam a ter maturidade e pensamento crítico suficientes para entender e contextualizar o racismo presente em obras como Caçadas de Pedrinho e A Escrava Isaura?

* * *

Coloque-se no lugar do professor, mão suja de giz e ganhando pouco, e se pergunte: a partir de qual idade você acha certo olhar no olho de uma criança negra que está sob sua responsabilidade e contar pra ela que até mesma a Emília (logo a Emília, tão legal!) achava que ele, e as pessoas como ele, eram pouco mais que animais?

É muito fácil discutir esse assunto em teoria, como se fosse um debate filosófico abstrato, mas para quem tem que sujar os dedos de giz todo dia, é uma realidade bem concreta. Por isso, essa decisão cabe, antes de mais nada, aos próprios professores e educadores que vão ensinar esses livros. Por isso, a maioria dos professores com quem falo, apesar de quase todos adorarem os livros e terem belas lembranças deles, afirmam que não os ensinariam aos seus alunos pequenos.

Infelizmente, em um contrapé canônico, quando as crianças já tiverem maturidade para contextualizar o racismo de Lobato provavelmente estarão maduras demais para se interessar por livros infantis. Pobre Lobato!

Reinações de Narizinho - vol. 1 Reinações de Narizinho - vol. 2

* * *

Pra deixar claro: apesar de achar que a Ana fez bem em responder às tentativas de canonização do Lobato, este texto é minha tentativa de trazer o debate de volta à arena onde ele deve ser travado, a sala de aula.

No dia em que o governo tentar censurar ou queimar ou proibir algum autor brasileiro, eu vou ser o primeiro, na rua, de fuzil na mão. Entretanto, a única coisa que está havendo aqui é professores decidindo o que vão ensinar em suas salas de aula. Se essa decisão não cabe a eles, então a quem?

* * *

Links Relacionados:
- Não é sobre você que devemos falar, por Ana Maria Gonçalves
- Carta Aberta ao Ziraldo, por Ana Maria Gonçalves
- O Racismo Não É um Problema Individual
- Como Dizer para Alguém que Ela Soa Racista
- Negrinha, de Monteiro Lobato
- Lá Se Foram os Negrinhos - Politicamente Correto e Liberdade

Racismo LLL

* * *

Espero que gostem e me ajudem a divulgar a série Raça. Não deixem de ver a lista comentada dos melhores textos da série.

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 Joaquim Nabuco

 

20.02.11


Categorias: Livros, Raça


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Comentários:


Comentário de: Marcus · http://vidaoffline.wordpress.com

Grande texto. Situa perfeitamente a questão, e assino embaixo de tudo o que você escreveu.

Aguardando os "eu não sou racista, mas..." que comentarão aqui.

PermalinkPermalink 20.02.11 @ 19:35



Comentário de: Leandro Ramalho · http://twitter.com/leandrodemr

eu não entendo por que os livros indicados aos alunos sejam crianças ou adolescentes tem sempre que ser na maioria das vezes nacionais e antigos, e quase nunca atuais ou estrangeiros, o melhor não seria dar para o aluno a opção de qual livro ele deve ler numa lista predefinida até porque pra mim a principal função da leitura é a de aprimorar o seu português e não um especialista em literatura Brasileira

PermalinkPermalink 20.02.11 @ 19:43



Comentário de: Rafael

Muito bom o texto, Alex.

É incrível como entre tantos argumentos e defesas e acusações, ferozes até, poucas vezes as crianças são colocadas no centro da questão.
Ler seu texto e reconhecer sua preocupação genuína com as crianças, com o desenvolvimento delas em sala da aula, da relação entre elas, os livros e os professores é algo que me comove muito.

Parabéns.

PermalinkPermalink 20.02.11 @ 19:44



Comentário de: Bruno Cava · http://quadradodosloucos.blogspot.com

Assino embaixo.

Já estava ficando desconfortável com essa atitude de esquerda jacobina: apontar o dedo, montar um inquérito, dar o veredito, guilhotinar.

Texto que não corta na carne, mas na gordura.

Abraço.

PermalinkPermalink 20.02.11 @ 21:03



Comentário de: ana maria santeiro

excelente, menino! A Ana tem razão, mas o Ziraldo também tem. O que importa agora é o futuro. Acho importantíssima a observação sobre o papel dos professores que na maioria das vezes são negros e mestiços.

Gosto de pensar na africanidade como um patrimonio de todos no brasil independentemente de nossas origens mais próximas ou longíquas. Neste sentido sou mestiça e acho ilusória uma certa tentativa de retirar a força que a mestiçagem imprimiu em nossa cultura, tentando recuperar uma "pureza" africana que todos nós sabemos nunca existiu.


PermalinkPermalink 20.02.11 @ 21:16



Comentário de: Diogo

Este é um texto de ficção?

PermalinkPermalink 20.02.11 @ 21:22



Comentário de: Silvana

Só uma correção: nem Lobato nem nenhum autor são leitura obrigatória nas escolas brasileiras. Ainda é possível a um aluno daqui passar a vida escolar inteira sem que um único professor indique, recomende ou o obrigue a ler Lobato ou qualquer outro autor. E de fato acontece, especialmente nas escolas públicas.

Procurei no site do MEC e não achei lista de recomendações nem de leitura obrigatória, só achei os catálogos do Programa Nacional Biblioteca na Escola http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=13698&Itemid=986 São livros que o MEC distribui para as escolas, e só no de 2009 aparecem títulos do Lobato: Memórias da Emília, Viagem ao Céu e O Picapau Amarelo. Percebam que os livros que entraram no acervo do PNBE não são classificados como leitura obrigatória ou mesmo como recomendação curricular, são simplesmente fornecidos às escolas.

Digo isso porque falar em "literatura obrigatória" do MEC é um erro muito parecido com interpretar o parecer 15/2010 do CNE, que iniciou toda essa discussão, como censura. Mas, convenhamos, o parecer pode ser um belo obstáculo se a Editora Globo quiser incluir mais obras do Lobato no PNBE e até mesmo manter as do catálogo de 2009, fazendo com que ela deixe de vender milhares de exemplares ao Governo Federal - e, por tabela, a governos estaduais e municipais mais atentos aos pareceres do MEC.

Mas voltando ao assunto principal: os professores que trabalham com a faixa etária de potenciais leitores do Lobato deveriam ser os primeiros a dizer se é possível trabalhar com os livros dele em aula, contextualizá-los ou o que quer que seja. Infelizmente, parece-me que a discussão ainda não saiu daqui da internet para as salas de professores e horários coletivos das escolas. Alguém tem notícia da discussão do parecer do CNE sobre "Caçadas de Pedrinho" em alguma HTPC, JEIF, reunião pedagógica ou coisa que o valha? O assunto vai muito além da decisão pessoal de cada professor.

PermalinkPermalink 20.02.11 @ 21:23



Comentário de: Alex Castro Email

diogo,

assim é, se lhe parece...

PermalinkPermalink 20.02.11 @ 21:27



Comentário de: Helena Costa · http://duasfridas.wordpress.com

Concordo com você, Alex, absolutamente correto o enfoque que vc dá. Deixa eu tentar fazer um paralelo: ontem eu vi pela primeira vez uns episódio´s de "Everybody hates Chris". Morri de rir, mas tive que concordar com a amiga que me indicou o seriado e se perguntava, preocupada, se o enteado dela, de 8 anos, era capaz de sacar o quanto de ironia havia ali. Sobretudo porque é uma realidade que, embora tenha muitos pontos de contato, não é a nossa. Aqui seria o oposto do Lobato, acho que a série ataca o racismo violentamente, como só o humor faz. Mas coloca-se a questão da maturidade pra compreender não apenas o contesto, mas sutilezas e semitons.
Beijo grande, Alex.

PermalinkPermalink 20.02.11 @ 22:14



Comentário de: Diogo

Alex,

EU não sou importante. Meu ego insignificante não tem lugar aqui.

Pratiquemos, ao contrário, um pouco de alteridade: para VOCÊ, o texto é de ficção?

abs
Diogo

PermalinkPermalink 20.02.11 @ 22:38



Comentário de: Alex Castro Email

diogo,

a intenção ou opinião do autor é irrelevante. o que importa é como os leitores recebem o texto.

quanto a mim, tudo o q eu tinha a dizer está no próprio texto.

PermalinkPermalink 20.02.11 @ 22:40



Comentário de: Diogo

Faz sentido.

Só não entendi, então, a razão do disclaimer de que este é um "blog de ficção". Desejos incontroláveis de controle autoral sobre o texto?


PermalinkPermalink 20.02.11 @ 22:45



Comentário de: Alex Castro Email

Diogo,

o disclaimer também é parte do texto.

PermalinkPermalink 20.02.11 @ 22:46



Comentário de: Spirito Santo · http://spiritosanto.wordpress.com

Alex,

Gostei muito deste seu post. Talvez o melhor que li a respeito. Você não deve nem saber, mas eu sou, provavelmente, o cara que ressaltou que o Monteiro Lobato editou Lima brreto (e não para inocentálo de seu racismo, claro era só para sugerir que relativizássemos a questão)

De certo modo fui mal compreendido por muita gente, mas felizmente pude dialogar, diretamente com a própria Ana Maria que, me deu razão (embora apenas em off)

A me redimir consideremos que, só conhecendo a correspondencia pessoal dele - a qual só poderíamos ter tido acesso após a sua morte - é que podemos conhecer o seu eugenismo doentio, nos termos conhecemos agora, uma novidade para mim. O fato é que você, realmente esclareceu brilhantemente o pensamento que eu tinha sobre o assunto.
Com as ressalvas que fiz para a Ana que tomo a liberdade de incluir aqui:

“Ana,
Nem sei se você vai chegar a ler este comentário de tantos que este excelente post seu gerou. O fato é que vim aqui após um dos seus leitores ler um post meu sobre este mesmo assunto e me linkar com o seu.

Brilhante. Confesso que fiquei bastante tocado com as cartas de Lobato e o seu racismo orgulhoso. Receio até que o seu leitor me tenha linkado aqui por conta da defesa que fiz do direito de Monteiro Lobato de ter aquelas odiosas opiniões racistas que tinha, defesa a qual, mesmo profundamente tocado pelas suas informações eu reafirmo.

É que não considero seguro promover nenhum tipo de censura ofcial, formal, institucional de qualquer opinião, seja ela qual for. São muitos os fatores envolvidos neste tipo de decisão e as informações odiosas contidas nos livros de Lobato (e não estou falando das crianças que o leram ou lerão) precisam existir também, a elas precisamos ter amplo acesso também para formarmos juízo de valor, inclusive, contra o veneno contido nelas.

Não concordaria, por exemplo que o desenho não menos odioso da camiseta do Ziraldo fosse pribido pela censura (como a palavra ‘merda’ contida nela foi). Do mesmo modo acho justamente condenável o que ele e o pessoal do Pasquim fizeram censurando e cometendo o assassinato cultural do Simonal.

O que eu gostaria mesmo é as crianças do Brasil se vissem livres das eventualmente perniciosas idéias racistas contidas na obra de Monteiro Lobato por conta da consciencia de todos nós, edicadores e não educadores de que ele precisa ser lido contextualizado e criticado, inserido num processo educacional no qual todos aprendem a ser livres para discernir, até poderem decidir se serão racistas ou não, progressistas ou não segundo a sua própria consciencia.

Acho que a luta certa esta um pouco além de apenas suprimir o outro por algum tipo de força coercitiva.

Abs

PermalinkPermalink 20.02.11 @ 23:31



Comentário de: Spirito Santo · http://spiritosanto.wordpress.com

(O texto da mensagem para a Ana foi numa versão não corrigida, perdão. Se der substitua-o por favor)

"Ana,

Nem sei se você vai chegar a ler este comentário de tantos que este excelente post seu gerou. O fato é que vim aqui após um dos seus leitores ler um post meu sobre este mesmo assunto e me linkar com o seu.

Brilhante. Confesso que foquei bastante tocado com as cartas de Lobato e o seu racismo orgulhoso. Receio até que o seu leitor me tenha linkado aqui por conta da defesa que fiz do direito de Monteiro Lobato de ter aquelas odiosas opiniões racistas que tinha, defesa a qual, mesmo profundamente tocado pelas suas informações eu reafirmo.

É que não considero seguro promover nenhum tipo de censura ofcial, formal, institucional de qualquer opinião, seja ela qual for. São muitos os fatores envolvidos neste tipo de decisão e as informações odiosas contidas nos livros de Lobato (e não estou falando das crianças que o leram ou lerão) precisam existir também, a elas precisamos ter amplo acesso também para formarmos juízo de valor, inclusive, contra o veneno contido nelas.

Não concordaria, por exemplo que o desenho não menos odioso da camiseta do Ziraldo fosse pribido pela censura (como a palavra 'merda' contida nela foi). Do mesmo modo acho justamente condenável o que ele eo pessaol do Pasquim fizeram censurando e cometendo o assassinato cultural do Simonal.

O que eu gostaria mesmo é que as crianças do Brasil se vissem livres das eventualmente perniciosas idéias racistas contidas na obra de Monteiro Lobato, por conta da consciencia de todos nós, educadores e não educadores, na crença de que ele precisa ser lido contextualizado e criticado, inserido num processo educacional no qual todos possam aprender a ser livres para discernir, até poderem decidir se serão racistas ou não, progressistas ou não segundo a sua própria consciencia.

Acho que a luta certa esta um pouco além de apenas suprimir o outro por algum tipo de força coercitiva.

Abs"

PermalinkPermalink 20.02.11 @ 23:42



Comentário de: Marcio E. Goncalves

Uou...estou chocado com o texto da minha xara de sobrenome.

Tenho que admitir que para um cara que passou 4 anos estudando Brasil Imperio na UFPR eu conheco bem pouco de literatura brasileira e passei batido por Monteiro Lobato quando crianca (resultado de ter aprendido ingles cedo e sempre ter lido mais literatura americano e/ou inglesa do que brasileira).

Supunha que ele fosse alguem do tipo Gilberto Freyre (ou seja, como quase todo mundo culto da epoca, paga pau por cima de teorias eugenistas cretinas. Mas como o Freyre, alguem tentando conciliar isso com uma visao positiva de nossa mesticagem) mas pelo visto ele era um racista "classico" (pro KKK, odio aos negros, etc...) - aquele que o Alex acha que eh caricato e nao eh problema serio, mas com o qual eu convivi por anos em Curitiba e conheco aos montes aqui nos EUA.

Fiquei realmente chocado com isso. Mas achei estranho a Ana Goncalves nao colocar referencias de suas fontes. Nao estou duvidando da seriedade do texto dela, mas essas passagens que ela postou sao tao fortemente opostas ao que se fala do Lobato que ela deveria colocar a referencia a fonte.

Quando comecou a polemica eu realmente achei que era barulho polticamente chato (afinal, ate o Senhor dos Aneis eh bem racistinha: nao so com negros, mas mesmo brancos com pele mais morena).

Mas depois de ler esses trechos da correspondencia do Lobato da p/ ver que a coisa eh mais seria, ele era um autor com agenda racista mesmo. Diferente de um Tolkien que, pelo menos a meu ver, mais refletia os preconceitos da epoca do que qualquer coisa (e tambem nao ha nada em seus livros no nivel das falas da Emilia que criaram essa polemica).

Para se ter uma ideia, nem o Robert E. Howard (criador do Conan, o Barbaro e autor de trocentas historias pulps classicas), um autor famoso pelo seu vies racista chega ao nivel dessas passagens do Lobato que a Ana pescou.

Minha pergunta para o Alex ou quem manja mais de literatura brasileira: a Ana tirou isso de fontes que ela descobriu recentemente e ninguem sabia, ou isso tudo era conhecimento geral de quem conhecia o autor?





PermalinkPermalink 21.02.11 @ 04:48



Comentário de: Alex Castro Email

Oi Marcio

Boas perguntas. A Ana deu as referências de quase tudo, quase sempre com link. Ela menciona a carta onde Lobato fala da KKK, mas não dá o livro de onde tirou, mas vc pode perguntar a ela. Essa referência tb foi novidade pra mim, não saberia dizer se é um trabalho documental da Ana ou se era pública e notória, mas pra quem leu o Sítio com cuidado, não é surpreendente. Fiz uma busca rápida e todas as menções q encontrei a Lobato + KKK remetem ao texto da Ana, então não sei. Pergunta pra ela lá nos comentários que com certeza ela responde.

Abraços,

PermalinkPermalink 21.02.11 @ 08:48



Comentário de: Jorge Nobre · http://jorgenobre.unblog.fr

O Alex, falando de racismo e de como o Brasil e como deveria ser, sempre me lembra o poema do Fernando Pessoa:

Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as cousas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!


Aí o Alex me diz: Claro que não quero inventar a máquina de fazer felicidade, porque sei que é impossível. E nem percebe que o problema com ele é justamente esse: se fosse possível, inventaria, o que seria muito, muito ruim.

Por que acho isso? Ah, eu já expliquei porque aqui: http://www.interney.net/blogs/lll/2009/09/09/o_povo_quer_saber_1

PermalinkPermalink 21.02.11 @ 09:14



Comentário de: Carol

Alex, esse é um tema que me interessa muitíssimo, minha pequena é uma leitora de 5 anos que já tem a coleção completa do Monteiro Lobato esperando para ser lida.

Eu li, sonhei, aprendi e me diverti com estes livros. Ninguém sentou comigo para dizer "olha, ele fala assim mas nós não pensamos desse jeito", a tal da contextualização não veio dessa maneira. Veio, sim, no exemplo diário da minha família, nos gestos e nas lições de "todos somos iguais perante Deus", "todos merecem respeito", etc.

Tive sorte. A questão é mesmo esta que vocẽ levanta, a nossa sociedade é racista. Não basta selecionar os livros das crianças, fechar seus olhos e tapar seus ouvidos diante das muitas barbaridades gritadas por aí.

Os pais não podem abrir mão do seu papel; bons exemplos, boas conversas e um olho-no-olho corretivo quando necessário.

Senão é a lama mesmo.

PermalinkPermalink 21.02.11 @ 09:19



Comentário de: PedroLobato · http://quilombo.blogsome.com

Concordo.

Só queria ressaltar: grande o poema do Fernando Pessoa!

PermalinkPermalink 21.02.11 @ 11:29



Comentário de: Aperitiva

Lí Monteiro Lobato em casa, as escolas nunca
indicaram. Também tenho em casa os 3 dvds da série
"Sítio do Pica-pau amarelo". Os dvds são da década
de 70 e por isso vêm cheio de preconceitos raciais
e machismo. Vendo os dvds isso me incomodou um
pouco, ainda mais que são crianças falando para
crianças. Mas isso não tira a grandeza da obra.

PermalinkPermalink 21.02.11 @ 12:00



Comentário de: Fabio R.

Ok, na prática, é preciso dizer:
1. professores devem pensar sobre isso e fazer escolhas. Ao contrário de grande parte deles, como os da série Everybody Hates Chris e, claro, das novelas do Manuel Carlos.
2. O ponto não é deixar de ler Lobato, mas não canonizá-lo. É preciso justamente discutir em vez de varrer pra baixo do tapete.
Mais itens?

PermalinkPermalink 21.02.11 @ 12:02



Comentário de: Alex Castro Email

Mas isso não tira a grandeza da obra.

Nao, nao tira, mas a torna imprópria pra sala de aula.

PermalinkPermalink 21.02.11 @ 12:03



Comentário de: Shlomo

Realmente acho que o racismo em Lobato é um tema superestimado. Assim como é superestimada a bondade da Emília.

Falando apenas do Sítio de Pica-Pau Amarelo:

Emília, "se" fosse uma criança de verdade, seria uma criança terrível! Muito maleducada, desobediente, tem ótimas ideias, mas aprende muito devagar. Não dá atenção ao que dizem os adultos, não se interessa por aprender. Acha que mentir é "escrever a própria bibliografia".

O fato de ela ser racista é só uma das coisas erradas que ela faz.

Errado é dizer às crianças que elas devem imitar Emília. Não tem nada a ver com "contexto". Tem, sim, a ver com como entregamos textos para as crianças lerem.

Racista era Machado de Assis, que nasceu negro, viveu mulato e morreu branco.

PermalinkPermalink 21.02.11 @ 14:27



Comentário de: aiaiai

o problema carol não é como você, a sua família e a sua filha contextualizaram Lobato. O problema é como a criança negra vai receber a informação racista. Vc não acha que é direito dela não ter que ler a personagem mais "querida" da literatura infantil brasileira - a emília - chamá-la de carvão, macaca, etc?
se sua filha fosse negra você leria isso para ela?

Você gostaria que sua filha negra tivesse que ler isso na sala de aula?

Você gostaria que o amiguinho branco da sua filha negra depois de ler isso a chamasse de macaca?


PermalinkPermalink 21.02.11 @ 14:28



Comentário de: Aline Rodrigues Imercio · http://tudoaquiloquetefazpensar.blogspot.com/

Realmente não acho correto sair julgando
os contos de Lobato e incriminando ele por ser
racista. Na época em que ele escreveu e tantos
outros também escreveram, a questão do racismo
era pouquissimo discutida. Ótimo Blog!

PermalinkPermalink 21.02.11 @ 16:28




temos de pegar leve com o grande José Bento;
afinal, alem de um grande escritor - dos
maiores do país - era também:
1- paulista
2- advogado
3- fazendeiro
quer dizer; podia ser bem pior.

PermalinkPermalink 21.02.11 @ 18:15




Acho que tanto quem esta a favor como quem esta contra o JBML nao o leu: senão saberia que
ele nao poupa ninguem em seus escritos;
médicos, padres,professores, intelectuais, politicos, funcionariso publicos, policia, burgueses
fazendeiros, jornalistas... quer dizer; todos
os parasitas e picaretas que nunca deixaram
o país virar um lugar decente.
Mas ele bate especialmente nos médicos; é so ler seus contos.

PermalinkPermalink 21.02.11 @ 18:26



Comentário de: Ana

Alex, concordo com o seu texto -os professores é que devem pensar quais livros trabalhar em sala de aula- mas se bem me lembro essa discussão toda começou com a idéia de adequarem os livros de Monteiro Lobato às ideias de hoje, tal qual as trocas feitas nos livros de Mark Twain nos EUA. E ai eu discordo.

O problema que vejo com dar os livros com uma linguagem atualizada é que perdemos a historicidade da coisa, e como contou a Mari W, já temos muito problema com a falta de noção histórica dos alunos. Se adequamos tudo ao pensamento moderno, as pessoas crescem com a sensação que tudo sempre foi da mesma forma, e se sempre foi assim, nada pode ser mudado, tudo deve permanecer igual.

Se um dia eu desse aulas para crianças ente 10 e 12 anos provavelmente usaria os livros de Monteiro Lobato, contextualizando discutindo, pensando. Primeiro por que crianças nessa idade, ja tem ou deveriam ter capacidade para compreender uma discussão do tipo. e segundo por que sei que se tratarmos as crianças como incapazes, as crianças se tornam incapazes de compreender as coisas. Se tratamos crianças como seres imbecis, elas se desenvolvem como imbecis, sem senso critico, sem noção de processo histórico.

Há uma tentencia atual em superproteger as crianças, em acharmos que são muito mais incapazes, delicadas do que realmente são, e isso faz com que realmente se tornem crianças e adultos incapazes de compreender um mundo fora de seu próprio umbigo.

É possivel inclusive que crianças negras experimentem preconceito fora da sala de aula, que vejam pessoas olhando para elas de forma estranha, usando termos racistas, etc. E é provavel que não tenham instrumentos para expressar o que vivem, e mais provável que experimentem uma grande sensação de alivio ao ver um professor disser que isso está errado, que um livro está errado por ser racista. Que elas possam entender, contextualizar e nomear os preconceitos que passam no dia a dia.

Particularmente, eu vejo a Emilia como um anti-exemplo, uma menina mimada, mal educada, etc. Ou seja, o que ela fala seria o exemplo do que não fazer, mesmo que a intenção de Lobato não tenha sido essa. O que me preocupa é que nos dias de hj ser mimada, mal educada, etc. virou o padrão de comportamento e talvez ai seja realmente complicado contrapor esse exemplo numa discussão em sala de aula.

Acho essa discussão muito importante, pensar a respeito desses temas é importante, gostaria inclusive de ve-la expandida pra discutir o papel da mulher na literatura usada nas escolas. A literatura classica é essencialmente machista e há muito tempo que temos mais da metade das salas de aula compostas por mulheres, que papel essa literatura não discutida pode ter na manutenção do machismo de nossa sociedade e na formação das meninas?

Só temo, e acho necessário o cuidado que vc mostra nesse texto, que a discussão descambe para um banimento, recolhimento de livros, como aconteceu nos EUA. Afinal, é o que costuma ser a forma mais simples de lidar com temas complexos (modo avestruz), e adoramos copiar os EUA.

PermalinkPermalink 21.02.11 @ 20:25



Comentário de: Alex Castro Email

Ana,

se bem me lembro essa discussão toda começou com a idéia de adequarem os livros de Monteiro Lobato às ideias de hoje, tal qual as trocas feitas nos livros de Mark Twain nos EUA. E ai eu discordo.

Essa discussão sobre a adequação de ensinar Monteiro Lobato para crianças já estava rolando muito antes. E o que estão fazendo com o Twain é prática comum do mercado editorial aqui e lá, se fazer edições modificadas e adaptadas para crianças, com vocabulário menor e sem os temas mais polêmicos. Se vc for ao Submarino e buscar por Moby Dick ou Dom Quixote, a maioria dos resultados vai ser por versões infanto-juvenis, adaptadas e resumidas.

Se tratamos crianças como seres imbecis, elas se desenvolvem como imbecis, sem senso critico, sem noção de processo histórico.

Ninguém acha, nem trata, criança como imbecil. Mas quem trabalha com isso sabe que elas tem fases de desenvolvimento intelectual. Assuntos que elas não entenderiam na 5a serie, elas entendem na 8a. O nome disso é virar gente, crescer, amadurecer. Se já pudéssemos jogar tudo na cabeça delas na 2a série, bem, elas não seriam crianças, não estariam em desenvolvimento, não seria nem preciso escola.

A literatura classica é essencialmente machista e há muito tempo que temos mais da metade das salas de aula compostas por mulheres, que papel essa literatura não discutida pode ter na manutenção do machismo de nossa sociedade e na formação das meninas?

Sim. Por isso tambem, cada vez mais, professores tendem a dar livros que tenham personagens femininas que não fiquem somente em casa cerzindo - e, consequentemente, alguns dos livros que lemos crianças já não são mais ensinados, pois eram excessivamente machistas e centrados somente nos personagens masculinos...

Só temo, e acho necessário o cuidado que vc mostra nesse texto, que a discussão descambe para um banimento, recolhimento de livros, como aconteceu nos EUA.

CRUZES!!! Livros banidos e recolhidos??? Nos EUA? Onde? Onde? Eu nunca ouvi falar disso. Por favor, não jogue uma bomba dessas sem dar o link, por favor. Se aconteceu mesmo, isso é importante e eu quero saber - mas, sinceramente, eu duvido.

PermalinkPermalink 21.02.11 @ 21:16



Comentário de: M. · http://marialetras.blogspot.com/

Concordo que a questão seja

"A partir de que idade as crianças passam a ter maturidade e pensamento crítico suficientes para entender e contextualizar o racismo presente em obras como Caçadas de Pedrinho e A Escrava Isaura?"

Mas como sempre a questão é mudada pra alguma outra que tenha mais "fácil" resposta.

Na quarta série tive que fazer um trabalho sobre Monteiro Lobato, haviamos lido "Fábulas", que são vários contos narrados por Tia Nastácia, e recheados de comentários bastante preconceituosos de Emilia. Pois bem, durante o trabalho cada um de nós se vestiu de um personagem, e tinhamos uma colega de grupo negra, e pensamos nela primeiro pra Tia Nastácia. Entretanto ela ficou ofendidíssima e disse que não ia de jeito nenhum fazer o papel. Eu fiz. Me pintei e etc.

Mas me pergunto o quanto a leitura daquele livro teria influenciado a recusa dela. Tínhamos 10 anos, e mesmo assim, era difícil compreender.


PermalinkPermalink 21.02.11 @ 21:52



Comentário de: Ana

Alex,
Sim, conheço versões adaptadas de diversos romances, muitas delas ótimas inclusive para o ensino de lingua estrangeira e outras terriveis. Algumas com ótimos motivos para serem feitas, outras feitas por motivos que discordo. No caso de Mark Twain e Monteiro Lobato discordo dos motivos e da forma das adaptações.

Não acho que seja algo no melhor interesse das crianças pelos motivos já expostos no comentário anterior.

Sim, é necessário adequar os livros às diferentes faixas etárias, bem como atividades fisicas, brincadeiras, programas de tv, etc. No entanto, o que tenho visto no contato que tenho com a área de educação, com pais, alunos, com crianças é que coisas perfeitamente adequadas a uma faixa etária tem sido frequentemente consideradas inadequadas para essa faixa etária. Escolas, pais, professores frequentemente subestimam as capacidades das crianças. Vivemos numa época em que as pessoas tem medo de tudo. Por isso coloquei a faixa etária específica para a qual trabalharia Monteiro Lobato. Idade na qual as crianças comumente já se encontram no estágio operatório-formal e conseguem lidar com conceitos abstrados.

Não disse que vc tratava as crianças como imbecis, mas a sociedade como um todo vem caminhando nessa direção. Sofro terrivelmente ao tentar comprar livros não-imbecis para minhas sobrinhas, pacientes, etc. que não tratem crianças de 5 anos como bebes de 1 ano. Livros que não tenham como objetivo treinar as crianças a fazerem alguma coisa da forma mais idiota possivel.

Nas escolas é tudo "cuidado, não traumatize a criança, ela não entende isso..." Sendo que aquelas crianças poderiam entender essas coisas caso tivessem a chance. Falta conhecimento sobre esse desenvolvimento e temos pecado pelo excesso.

É sintomático que seja necessário um livro que ensine aos pais pequenas coisas perigosas que eles devem deixar os filhos fazerem: http://www.wired.com/geekdad/2010/02/gever-tulley-talks-about-fifty-dangerous-things-you-should-let-your-children-do/

Não é jogar tudo na cabeça delas, mas tbm não é proteger de tudo, certo?

Quanto aos livros banidos e recolhidos todo ano a associação americana de bibliotecas promove uma semana sobre liberdade de expressão e luta contra o banimento de livros que continua ocorrendo nos EUA http://www.ala.org/ala/issuesadvocacy/banned /bannedbooksweek/index.cfm


PermalinkPermalink 21.02.11 @ 23:24



Comentário de: Alex Cat

Tanto quando sei, a proposta de edição Mark Twain se ficava pela alteração da palavra "nigger" (e "negro") por "slave". O que me parece ser pior...
Não me admiro ter soado estranho haver livros banidos no EUA, porque os livros não são banidos a nível nacional. A nível local, não é nada surpreendente.

PermalinkPermalink 22.02.11 @ 00:11



Comentário de: Bruno Cava · http://quadradodosloucos.blogspot.com

"Reinações de Narizinho" e "Caçadas de Pedrinho" li na terceira série por obrigação escolar.

Não me recordo de nenhuma contextualização. Não me recordo, aliás, de nenhum professor que tive contextualizar uma obra em termos raciais. E mais: o tema "racismo" não me lembro de ter sido abordado durante todo o ensino fundamental e médio. Talvez incidentalmente em algum livro, como passado histórico, mas não na sala de aula.

Anos mais tarde, me disseram que em "Caçadas..." tinha racismo. Chocado, voltei nos textos e achei várias ocorrências cabais. Li e reli as passagens. Cabais. Não me parecia plausível que não tinha percebido quando lera a primeira vez, aos 9 anos! Levei um tempo pra aceitar, porque isso significava menos que Lobato era racista, mas que eu mesmo, e o meu meio social éramos racistas até o osso, a ponto de o racismo ter se tornado invisível, de tão naturalizado.

Um bom professor não pode deixar de contextualizar. Expor o racismo não para condenar Lobato (foda-se a memória do defunto), mas para expor o racismo DA SOCIEDADE, isto é, NOSSO. Se, por acaso, uma criança de 9 anos achar óbvio, desnecessário, paternalismo, ela mesma já tinha percebido tudo, ótimo. Talvez essa criança autodidata nem precisasse assistir a essas aulas.

Mas se tiver uma única criança que aprender algo a partir dessa contextualização (e do debate, e das polêmicas subseqüentes), isso valerá mais como educação à democracia do que todas as questões e valores da obra inteira de Monteiro Lobato.

PermalinkPermalink 22.02.11 @ 01:10



Comentário de: Carol

aiaiai,

Acho que a escola tem a obrigação de eleger apenas o melhor de cada área para apresentar a seus alunos e que o Lobato, com seus inúmeros preconceitos, não é indicado fora de uma aula específica sobre preconceito e história.

O mesmo se dá com certas músicas de "Sertanejo" e "Axé", filmes dos Trapalhões e tantas outras obras da cultura nacional que fazem parte do repertório básico de hoje.

Se sua filha fosse negra e retirasse o livro do Monteiro Lobato na biblioteca, o que você faria? E se o amiguinho dela lesse e comentasse em sala? Uma leitura crítica não é melhor que fechar os olhos ou esconder?

Quando eu lia com a minha avó, ela ia comentando os textos, "nossa, que horror!", "essa Emília não tem a menor educação", "olha, que bonitinho".

Volto a dizer que é impossível proteger as crianças de todos os péssimos exemplos que abundam na mídia e, infelizmente, nas escolas, mas é possível educá-las em casa.

As crianças são constantemente humilhadas pela exposição inclemente a padrões excludentes de estética e comportamento. O trabalho da mídia é vergonhoso e a omissão do governo eu não sei o que é.

As escolas apenas inciam um caminho para a aceitação e plena da diferença.

Pressionar nossos políticos por medidas éticas de redução desses danos - como restrição de anúncios em programas infantis - e investir pesadamente na formação familiar me parecem as saídas viáveis.

Quais saídas você sugeriria?

PermalinkPermalink 22.02.11 @ 09:44



Comentário de: Ricardo

Sugiro que se coloquem rótulos na capa dos livros "PERIGO, LEIA COM CUIDADO - não recomendado para afro-descendentes por conter racismo e ofensas à dignidade da raça - apenas para branquinhos que tenham passado por um criterioso processo reeducacional"


PermalinkPermalink 22.02.11 @ 16:37



Comentário de: yedda campos

Gente, respeito todas as opiniões. Mas quero deixar meu relato: tive uma infância ótima, feliz! Li e tenho até hj todos os livros do Sítio do Pica-Pau Amarelo e é uma das obras mais marcantes da minha infância. Nem por isso me tornei racista ou preconceituosa. Aliás, tenho horror a essas coisas. Me considero exatamente igual e com os mesmos direitos e deveres que qualquer pessoa, que qualquer animal e qualquer planta! Acho isso muito relativo pq o racismo está na cabeça dos adultos e não das crianças. Quando eu era pequena, tinha uma amiguinha que uma vez brigou comigo e me chamou de "vaca". Eu cheguei em casa assustada e perguntei à minha mãe: "vaca não é um bichinho que dá leite?" Certamente a minha amiguinha ouviu o pai chamando a mãe de vaca em tom pejorativo, durante uma discussão. Eu, na minha ingenuidade de criança, não entendi nada... Como eu disse, o racismo vem dos adultos. E qualquer coisa, qualquer termo, se usado num momento de ódio, com fins depreciativos, pode se transformar em racismo. E pergunto: como deveríamos chamar a "dancinha da garrafa", ou "um tapinha não dói", tão disseminado no meio infantil, inclusive nas festinhas de escola? Como devemos rotular o nosso carnaval, vendido para o mundo como uma festa de mulatas popozudas adornadas de plumas e purpurina? E essa festa não é consagrada e incentivada todos os dias no meio das crianças, dentro das escolas? Proponho o debate sobre isso também...

PermalinkPermalink 22.02.11 @ 21:30



Comentário de: yedda campos

Aliás, achei oportuno o comentário do Ricardo: devemos fazer como o Ministério da Saúde faz com os cigarros. Produz um efeito danado!

PermalinkPermalink 22.02.11 @ 21:32



Comentário de: Contravento

Não sei se a discussão é em que idade mas qual o caminho a ser percorrido.

Só vejo uma alternativa: primeiro fortalecer a criança e depois contextualizar o racismo apenas na adolescência.

Comigo, muitos anos atrás, aconteceu caminho inverso. A professora insistiu em falar sobre racismo na escola, diaba! Ao invés de ajudar, só piorou tudo!

E levou anos para superar...

Beijo.

PermalinkPermalink 23.02.11 @ 17:08



Comentário de: Alexandre Rosas

Discordo. A Emília não era "legal". A Emília era uma peste, era a voz do "politicamente incorreto" numa época em que essa expressão ainda não existia mas se reconhecia esse tipo de atitude mesmo assim.

Outra coisa: você escreveu, sobre a Emília: "palavras ditas pela personagem mais simpática do livro e implicitamente aceitas por todos os outros, que não a punem por falar esses absurdos".

Cara, como assim, você não leu os livros, ou se esqueceu do que leu?

A personagem realmente simpática do livro é a Narizinho, e esta sempre repreendia a Emília pelos absurdos que a boneca de pano dizia.

Se fosse algo dito pela D. Benta ou pelo Visconde de Sabugosa, vozes da sabedoria e da bondade dentro dos livros, aí faria sentido. Mas a Emília, com sua célebre "torneirinha de asneiras"?

Percebeu?

PermalinkPermalink 24.02.11 @ 18:25



Comentário de: Ryamano

Concordo com o Alexandre Rosas. Ao que me parece as palavras racistas vêm da boca da Emília, personagem que é uma espécie de anti-heroína fazendo várias coisas que são vistas com desaprovação (como mentir, falar mal de outras pessoas, tratar mal as pessoas, etc).

Monteiro Lobato, que era bem racista até para a época, estranhamente fez uma obra que não é tão racista quanto poderia ter sido, ao colocar o discurso racista na boca da sua anti-heroína, ao invés dos seus outros heróis ou do narrador. Muito curioso.

PermalinkPermalink 10.03.11 @ 11:50



Comentário de: Renata Silver

Iai! Mandou bem!
Eu não sou professora, mas tenho filho pequeno. E sei o quanto é difícil explicar o mundo pra uma criança, principalmente as coisas que você sabe que são erradas. Crianças bem pequenas precisam de coisas quase maniqueístas, preto, branco e dois ou três tons de cinza, no máximo. Contextualizar o racismo é uma meleca, ainda mais ter que explicar que aquela história tão legal tem um monte de coisas nada legais. Pra eles, ou é bonzinho ou é malvado, o personagem que eles vão amar tem que ser o bonzinho. Por isso, não deixo meu filho assistir aos desenhos do Pica-Pau. Tem gente que me acha exagerada, mas eu prefiro que meu filho conheça primeiro o que é certo e bom, para depois do caráter formado conhecer o que não é tão certo nem tão bom e o que é errado e ruim.
Parabéns pelo texto!

PermalinkPermalink 11.05.11 @ 00:32



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Pessoal,

Eu tenho uma opinião um tanto particular quanto ao racismo. Ninguém reclama de racismo quando alguém é chamado de "branquelo", então pq reclamar quando alguém é chamado de "negão"?

O racismo existe de forma cultural, mas ele é incentivado, na minha opnião, pela continuidade da repressão a certas expressões.

PermalinkPermalink 21.12.11 @ 00:40



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Comentário de: Tama Mcgaw · http://seoszablony.pl


PermalinkPermalink 22.02.12 @ 08:47



Comentário de: Neuronius

Estou sentindo que está havendo uma espécie de "caça às bruxas" muito preocupante no Brasil. Qualquer oisa que se diga ou escreva é um risco. Tudo é racismo. Tudo é preconceito. Vendo agora este artigo, vejo que a coisa é pior do que parecia, pois até os mortos estão sendo caçados. Tudo bem que não se deve ficar tratando mal as pessoas por causa de sua condição étnica, religiosa, etc. Mas perseguir intelectuais mortos há mais de cem anos chega a ser, ao mesmo tempo ridículo e assustador. Estava agora lendo no site do Jus Brasil, que a Editora Objetiva está sendo processada pelo MP de Uberlandia por se recusar a retirar de um dicionário palavras que seriam de "cunho racista" contra ciganos. Não sei o que a editora está fazendo a respeito disso. Mas com certeza, uma acusação dessas é absurda, pois ao que todos sabem, mesmo nos meios acadêmicos da antropologia, não existe uma "raça cigana".
Sei que o egrégio MP é uma instituição ilibada e que só age se for "provocado". Mas este parece ser um erro crasso. A menos que consigam provar que existe uma "raça cigana", a ação de racismo contra aquela editora será indeferida.
Muitas acusações de assédio moral de racismo podem ser verdadeiras. Mas não podemos negar que há muitos litigantes de má fé que esão tentando encontrar cabelo em sovaco de cobra só para faturar indenizações milionárias fazendo uso destas leis, diga-se de passagem, cheias de falhas grosseiras. Fica a pergunta: Será que o cidadão comum e honesto, que por uma razão ou outra, tenha cometido um vacilo, deva ser caçado como um bruxo, porque alguém "se diz ofendido"? E se o dito cujo não estiver realmente ofendido, e sim se fazendo passar por um? O que faz a lei?

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Comentário de: Tula Guthrie · http://enbase.net/index.php?title=User:agencja68

Ergo jeżeli obawiamy się owego, że koło wystawianiu faktur popełnimy jakiekolwiek błędy, nie wcześniej winienem podjąć decyzję się na odpowiednie program komputerowe, które będą dla osób korzystne lecz i poniżej wystawianiu faktur, jakkolwiek także przeprowadzaniu wielu pozostałych czynności. Każdemu, jaki wydziela faktury, kiedy niekiedy udaje się popełnić pomyłka w ich wypisaniu. Prawdopodobnie się sprawić, iż na przykład będzie trzeba przeistoczyć nazwę odbiorcy faktury bądź pomyliliśmy się co się tyczy stawki podatku na sprzedawany przedmiot. Co jest dozwolone dokonać w takiej sprawy? Samo wypisanie nowej faktury nie jest dopuszczalne, ale wręcz należy przygotować innowacyjny dokument, którego zadaniem stanie się skorygowanie tego starego, kto jest fałszywie wypisany.

PermalinkPermalink 02.05.12 @ 21:03



Comentário de: Slask agencja reklamy · http://www.opengovproject.org/index.php?title=User:agencja68

Dziś coraz systematyczniej aż do wystawiania faktur używamy komputerów. Dzięki temu możemy zgromadzić od groma swojego czasu, bowiem nie będziemy musieli poprzednio parać się ich wypisywaniem samodzielnie na niewygodnych druczkach, jakie także nie istnieją za poręczne ani nieraz lubiły się zaprzepaszczać. Co więcej powinno się stało też opłacać zbytnio nie, dlatego widnieje to ich następna wada. Teraz jednak, gdy zostało już wskazane, fakturowanie odbywa się głównie przy wsparcia komputerów.

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